As Quatro Nobres Verdades do Budismo

As Quatro Nobres Verdades do Budismo 1

Satyaraja Dasa

Prezados participantes: Estou diante de vocês como representante da tradição vaishnava, embora, admita, me faltem as qualidades e realizações de um vaishnava ideal. Ainda assim, tentarei apresentar os ensinamentos desta prestigiada e há tanto honrada tradição como me tem sido passada por um dos mais destacados mestres: Sua Divina Graça A.C. Bhaktivedanta Swami Prabhupada, o fundador e preceptor espiritual da Sociedade Internacional para a Consciência de Krishna. Acontece de Sua Divina Graça também ser meu mestre espiritual.

O venerável Bodhi Santhosh Roshi, líder e diretor espiritual da sua sociedade, me pediu que falasse sobre As Quatro Nobres Verdades do budismo. Isso será uma honra especial, já que essas mesmas verdades são as bases do pensamento vaishnava. Em breves palavras, vou explicar como é isso.

Antes de começar, entretanto, gostaria de mencionar brevemente apenas o que são estas verdades. Por favor, me corrijam se eu não for exato ao expressá-las: (1) a verdade do sofrimento, da universalidade do sofrimento; (2) a verdade da origem do sofrimento, que é relacionada ao sofrimento como uma realidade ontológica; (3) a verdade da cessação do sofrimento; e (4) a verdade do Caminho que é integralmente relacionada à cessação do sofrimento.

Se não houver objeções, então, eu gostaria de começar a explorar as duas primeiras das Quatro Nobres Verdades: a verdade do sofrimento e a verdade da origem do sofrimento. 

Primeira e Segunda Nobres Verdades

Tanto no budismo como no vaishnavismo, pensamos profundamente sobre a vida e a natureza material não apenas na beleza da natureza, mas também na dura realidade da existência. Ao contrário do que muitos possam pensar, para atentarmos séria e friamente aos diferentes aspectos do ser não necessariamente temos que ser negativos. Antes, quando guiados por um mestre autorrealizado, pode ser um primeiro passo rumo à iluminação espiritual. A menos que estejamos amedrontadamente alertas para o lado desgostoso da vida, poderemos nos tornar suas vítimas. Uma vez vitimados pela existência material, alcançarmos assuntos mais elevados é difícil.

O fato real é este: Toda felicidade ou prazer neste mundo é temporário; tem que ter um fim. Então, sofrer, a um ou outro nível, é inevitável. Portanto, longe de ser uma filosofia sobre amargura, reconhecer e mesmo explorar as implicações da dor e do sofrimento é simplesmente realístico. A maioria das tradições espirituais do mundo, portanto, recomenda o cultivo do reconhecimento da ignorância e transcendência lado a lado, para que se possa gradativamente ascender acima do mundano e se tornar situado em uma vida de verdadeira bondade.

Isto é uma evolução gradual que leva tempo, da ignorância e da paixão para a bondade e para a bondade pura, ou transcendência. Para este fim, o budismo e o vaishnavismo em particular não se acanham em educar seus seguidores sobre as misérias da vida material. Meditações fundamentais, em ambas as tradições – budismo e vaishnavismo – têm como objetivo alertar os praticantes sobre a inevitabilidade do nascer, morrer, envelhecer e adoecer, por exemplo, e como tais fenômenos afetam as vidas das pessoas. O conhecimento dessas coisas pode servir como um catalisador para nos mover além do materialismo e alcançarmos uma sincera divindade.

Com relação ao nascimento, morte, velhice e doença, a história do Buddha é conhecida por todos aqui presentes: Siddhartha Gautama, o Buddha, era um nobre príncipe e, em sua juventude, foi protegido de todas as misérias da vida. Quando o príncipe viajou para fora de seu reino pela primeira vez e viu uma pessoa morrendo, uma pessoa dando à luz, uma pessoa doente e uma pessoa idosa, perguntou ao seu criado se tais dificuldades ou sofrimentos eram comuns. O criado respondeu que tais calamidades, de um modo ou de outro, necessariamente afligem o ser humano em sua jornada pela vida. Naquele momento, o Buddha resolveu encontrar uma solução para o sofrimento.

Os antigos textos védicos da Índia mencionam três tipos de sofrimento: o sofrimento causado pela própria mente e corpo de alguém, o sofrimento causado pelas mentes e corpos dos outros, e o sofrimento que vem das calamidades naturais. Em sânscrito, sofrimento é conhecido como duhkha, uma palavra que carrega implicações como “dor”, “estresse”, “lamento”, “aflição” e “frustração”. Eu acredito que vocês usem este mesmo termo. Em sua tradição, vocês dizem que duhkha vem de avidya, ou “ignorância”. Nós dizemos a mesma coisa. Meu mestre espiritual, Srila Prabhupada, começou seu trabalho no ocidente com a noção de que as pessoas estão sofrendo devido à carência de conhecimento. Ele afirmou que o conhecimento espiritual era o único que poderia diminuir o sofrimento delas. Por essa razão, ele incansavelmente trabalhou na tradução de textos védicos e pessoalmente ensinou como viver uma vida de fervor espiritual, pois sentiu profundamente o sofrimento dos outros e quis ajudá-los a se elevarem acima de tal sofrimento.

A ignorância começa com a identificação com o corpo. Quando a força vital, ou a alma dentro do corpo, se confunde na identificação com o agregado de elementos materiais, que é apenas o corpo, mesmo que o vejamos como nosso eu, começa uma vida de ilusão e esta é a semente de todo o sofrimento que se segue.

As Quatro Nobres Verdades do Budismo 2

Foto: O ciclo de nascimentos e mortes no qual a alma sob a influência da ignorância experimenta diferentes tipos de sofrimentos.

O Bhagavad-gita, um texto central para a tradição vaishnava, declara enfaticamente que o corpo e o eu são diferentes, e que a ignorância, ilusão e, consequentemente, o sofrimento vêm da identificação errônea da alma com a matéria.

Eu percebo que isto é um assunto delicado no ensinamento budista. Bodhi Satoshi Roshi e eu temos passado muito tempo discutindo as facetas do pensamento budista sobre a alma e a reencarnação. Está além do tema desta palestra falar sobre as vária posições budistas deste tópico. Eu vou, porém, dizer – e sei que Bodhi Santoshi Roshi concorda – que a mais antiga forma de budismo indiano aceita a conclusão védica sobre a natureza da alma e a reencarnação. Isto é verdade, também, para a maior parte do budismo do norte, ou budismo mahayana, e é fundamental para o budismo tibetano também.

Mas mesmo as formas de budismo que rejeitam a ideia de uma alma concordam que a ilusão e, portanto, o sofrimento vêm do corpo. Tais formas de budismo meramente começam do passo seguinte. É, em vez de focar nas diferenças entre o corpo e o eu, perguntar: “Quais as implicações da identificação com o corpo?”.

Então, vamos usar isso como um ponto de partida. Quais são as implicações na identificação com o corpo? Bem, a identificação com o corpo gera desejo, ou apego. No budismo, isso se chama tanha ou trsna, palavras que significam “cobiça” e “apego aos sentidos”. Se você tem um corpo, é natural que se preocupe com suas necessidades. Mas, a maioria das pessoas vai muito além das necessidades. Se tornam absorvidas no excesso de gratificação sensorial. Prabhupada compara a gratificação dos sentidos ao uso do sal no preparo da comida: Se adicionar demais, estraga a comida e se for de menos, estraga também.

Portanto, ambos – o budismo e o vaishnavismo – propõem um “caminho do meio”, um caminho que não negue os sentidos mas tampouco enfatize a indulgência neles. Como nos informa o segundo capítulo do Gita, toda a miséria começa quando alguém contempla os objetos dos sentidos. Esta contemplação conduz ao apego e, por fim, ao desejo egoísta. Isto faz com que surja a raiva. Por que a raiva? Porque os prazeres deste mundo são temporários, como já vimos, em consequência do que inevitavelmente eles chegam ao fim e perdemos os objetos de nosso apego. Isso nos deixa com raiva. Quando estamos com raiva, o Gita diz, não podemos pensar corretamente. Tornamo-nos selvagens. Isso nos leva a perder a memória. Nesse ponto, a inteligência se perdeu. (O Gita define a inteligência como memória e apurada discrição.) Naturalmente, nesse estado mental não se pode alcançar uma vida espiritual. Então, estas são algumas ideias introdutórias sobre sofrimento e a causa do sofrimento.

A Terceira Nobre Verdade

A Terceira Nobre Verdade é da cessação do sofrimento. Se todo sofrimento vem do desejo, então, a cessação do sofrimento vem da extinção do desejo. Isto é de alguma forma problemático. Onde há um ego, há interesse próprio. Portanto, é natural desejar. Queremos o melhor para nós mesmos e para as pessoas que amamos. Isto é natural. A questão, então, não é o desejo, mas sim o desejo desordenado ou, novamente, aquele desejo desnecessário ou excessivo. Tanto o budismo quanto o vaishnavismo trabalham a quietação das paixões desnecessárias ou desejos e, reciprocamente, cultivam os desejos espirituais, obtendo paixão pela verdade.

Dedicar a própria vida ao caminho do budismo ou do vaishnavismo requer moderação e, sim, paixão. Deve-se desejar o objetivo do budismo ou do vaishnavismo como caminho escolhido. Deve-se pôr em prática o conceito Zen de que apenas se atinge o objetivo quando podemos parar de buscá-lo. Mas isto é apenas parcialmente verdadeiro. Se alcançamos a verdade pela verdade apenas, vazia de eu, isto é inteiramente adequado. Em outras palavras, devemos atingi-la pelas razões certas. Então está certo. Se alguém não deseja a iluminação, pelo menos a certo nível, jamais vai atingi-la.

O ponto está em ir além dos apegos egoístas, desejos de interesse pessoal e, agindo assim, perceber nossas amarras a tudo o que existe. No vaishnavismo, isso é chamado de estado brahma-bhuta, no qual se vê todas as criaturas com equanimidade, sem diferenciá-las nem julgá-las por causa de suas diferenças materiais. Se tal nível de iluminação pode ser atingido, pode-se estar muito acima do sofrimento material. No budismo, diz-se que tal realização se dá por seguir o Caminho, o que significa coisas diferentes para pessoas diferentes. 

A Quarta Nobre Verdade

No budismo, o Caminho que nos diz para fazermos coisas “do modo correto” é o Caminho Óctuplo, que consiste na visão correta, pensamento correto, fala correta, ação correta, modo de vida correto, esforço correto, atenção plena correta e concentração correta. No vaishnavismo, isto se chama modo da bondade, e é difícil de ser atingido. De fato, nesta era, muito poucos são capazes de realmente agir corretamente, e, se após muita prática, perceberem que são capazes, estarão fazendo algo grandioso por si mesmos e pelo mundo em volta deles. O Caminho Óctuplo é, portanto, o mais nobre dos objetivos.

Devo dizer, entretanto, que, na minha opinião, se alguém realmente atinge este objetivo, se alguém atinge a perfeição, estará agindo na consciência de Krishna, ou vaishnavismo. Vejam que meu entendimento de vaishnavismo não é de uma religião sectária que se coloca contra todas as outras religiões. Não. Antes, eu vejo o vaishnavismo como sanatana-dharma, ou a função eterna da alma. Portanto, eu vejo todas as tradições espirituais confiáveis simplesmente como várias expressões do vaishnavismo. É por esta razão que,  quando eu contemplo o Caminho Óctuplo do budismo, só posso vê-lo como agindo por Deus, por Krishna, porque fazer algo do modo correto, como eu entendo, significa fazer algo para Ele. Em última instância, agir corretamente é agir para nossa essência. Se comportar corretamente é se comportar do jeito que nosso Criador planejou.

Este é um tema delicado, eu sei. O budismo tradicionalmente não lida com Deus ou Sua natureza. Mas a pergunta sobre Deus nos assombra mesmo quando O achamos irrelevante ou desnecessário para nossa liberação, como geralmente é o caso do pensamento budista. Quando lidamos com questões de ontologia ou teleologia, as perguntas sobre de onde veio tudo e para onde vai tudo, é inevitável considerar a existência de Deus. O que qualquer religião em geral e o vaishnavismo em particular têm a oferecer é isto: informação positiva sobre o mundo além do sofrimento. Tanto o budismo quanto o vaishnavismo concordam que este é um mundo de sofrimento, mas o que se encontra além deste mundo? Na tradição vaishnava, aprendemos sobre Vaikuntha, o reino espiritual, um lugar onde as principais características são eternidade, conhecimento e felicidade, exatamente contrapostos à temporalidade, ignorância e sofrimento. Embora o mundo material seja uma terra de exploração, o reino espiritual é descrito como uma terra de dedicação, uma terra de amor.

Há tradições budistas também que falam sobre reinos mais elevados de semideuses e seres mais altos. Mas, até onde vai o meu conhecimento, apenas na tradição vaishnava encontram-se detalhes exatos sobre o local de Krishna, a Suprema Personalidade de Deus, e como chegar até lá. É para onde eu gostaria de ir se atingisse a perfeição de meu caminho e, talvez por isso, eu tenha escolhido o caminho do vaishnavismo. Recentemente, quando o Dalai Lama esteve em Nova Iorque, eu tive sorte o suficiente para ouvir sua palestra. Após explicar que ele respeita todos os caminhos espirituais e que todos têm seus méritos, admitiu ser particularmente parcial ao budismo e que, por isso, é budista. Eu tenho que confessar que também tenho um preconceito parecido. Enquanto reconheço que todas as tradições reveladas são dignas de respeito e têm bastante a oferecer, só consigo me aproximar da verdade através da tradição vaishnava. É a abordagem minha da vida espiritual e eu espero me entregar à minha preferência. Muito obrigado.

Tradução de Adi Purusha Prema.

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3 Respostas

  1. Toda forma de nos aproximarmos de Deus é válida.

    6 de maio de 2013 às 1:43 PM

    • Adriano Malta

      O budismo tradicionalmente não lida com Deus. Não há nenhuma figura como um Deus criador ou próximo à ideia cristã de uma divindade. Muitos consideram que o budismo seja uma religião agnóstico-ateia.

      14 de maio de 2013 às 9:37 AM

  2. Carlos Roberto Medeiros

    Cada ser tem um relacionamento particular com Deus. Krishna, por Sua divina misericórdia, relaciona-Se com Suas partes integrantes de maneira única e inigualável.

    13 de maio de 2013 às 5:33 PM

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