A Desgraça Mais Difundida do Mundo Moderno: O Tédio

Vishakha Devi Dasi

Se você acha que tédio se resolve com mais entretenimento, você não poderia estar mais enganado.

No dia seguinte ao Natal de 2016, uma matéria com a seguinte manchete foi notícia de costa a costa nos Estados Unidos: “Após 15 brigas em grandes shoppings, a polícia vê um culpado: o tédio na adolescência.” Segundo um policial citado na matéria, a causa das brigas foi que “os adolescentes possuem muito tempo disponível”.

Da mesma forma, Jean M. Twenge, professor de Psicologia da Universidade Estadual de San Diego, escreve em um artigo recente na revista The Atlantic: “Não é exagero descrever o iGen (geração Z) como estando à beira da pior crise de saúde mental em décadas… Há evidências convincentes de que os dispositivos que colocamos nas mãos dos jovens estão tendo efeitos profundos em suas vidas – e os tornando seriamente infelizes.”

O tédio e a infelicidade, obviamente, não se limitam aos adolescentes, mas também são comuns nos adultos. Em um artigo no The Guardian, Sandi Mann escreve que “apesar da infinidade de entretenimento de alta intensidade constantemente à nossa disposição, ainda estamos entediados. Quase metade das pessoas estão ‘frequentemente entediados’ em casa ou na escola, enquanto mais de dois terços estão cronicamente entediados no trabalho.” E ela explica o porquê: “Nossa atenção é agora menor do que a de um peixe dourado (oito segundos). Estamos empenhados em buscar novidades, que produzem dopamina, uma substância química em nossos cérebros que nos dá uma sensação de bem-estar. Entretanto, quando um novo estímulo é percebido, o outro perde o interesse e, depois de um tempo, fica tedioso. Para obter o prazer agradável da dopamina, buscamos sempre novas fontes de distração.”

Apesar de todo entretenimento, ainda estamos entediados.

Por que isso importa? Porque, nas palavras de Mann, “a pesquisa sugere que o tédio crônico é responsável por uma profusão de resultados negativos, como comer demais, jogos de azar, ociosidade, comportamento antissocial, uso de drogas, acidentes, expor-se a riscos e muito mais”.

Esta pesquisa valida o que o filósofo dinamarquês Søren Kierkegaard escreveu há mais de 170 anos: “O tédio é a raiz de todo mal.” Para Kierkegaard, o tédio não é apenas sentir-se enfadado por estar desocupado ou não ter interesse na atual atividade; o tédio não é apenas uma sensação de vazio devido à ausência de estímulo. O tédio, ele escreveu, é o resultado de uma ausência de sentido de vida nas pessoas. Essa compreensão explica por que as pessoas hoje são superestimuladas, mas existencialmente aborrecidas. Em 2017, os gastos globais com entretenimento atingiram US$2,2 trilhões, mas também houve um aumento no tédio e na infelicidade.

Sabedoria Antiga na Prática: A Solução

Nos seus escritos, Srila Prabhupada oferece alívio para essa dificuldade: “Estudantes sérios que buscam a Verdade Absoluta sempre ficam confusos com o trabalho de pesquisar a Verdade. Em todas as esferas da vida, portanto, o fim último deve ser buscar a Verdade Absoluta, e esse tipo de envolvimento fará alguém feliz, porque ele estará menos envolvido em diversas gratificações dos sentidos.” (Bhagavatam 1.2.10, Significado) De maneira semelhante, comentando um verso próximo à conclusão da Bhagavad-gita (18.76), Prabhupada escreve: “O resultado da consciência de Krishna é que cada vez mais a pessoa se torna iluminada e desfruta a vida com emoção, não apenas por algum tempo, mas a todo instante.”

O estado de absorção que Prabhupada descreve é o ideal; no entanto, é raro. Aqueles de nós que estão tentando ser conscientes de Krishna, mas não atingiram um estado tão elevado, podem se sentir entediados de vez em quando. O que podemos fazer?

Kierkegaard esperava por três coisas para livrá-lo do tédio.

Kierkegaard foi claro sobre o que acabaria com seu tédio: “O que poderia me distrair? Bem, se eu conseguisse ver uma fidelidade que resiste a todas as provações, um entusiasmo que tolera toda dificuldade, uma fé que move montanhas; se eu tivesse consciência de uma ideia que une o finito e o infinito.”

Ao estudar a vida e as qualidades de Srila Prabhupada, podemos observar que ele tinha uma lealdade que resistia a todas as provações, um entusiasmo que suportava tudo, uma fé que movia montanhas. E parte da missão de vida de Prabhupada foi explicar como o finito (a alma, ou jivatma) se une ao infinito (Deus, o Paramatma), o que ele fez com uma analogia simples: Assim como a mão serve o corpo, o jivatma se une ao Paramatma através do seu desejo de dar prazer e serviço ao Paramatma. Srila Prabhupada escreve: “Quando entendemos nossa verdadeira identidade como seres espirituais, partes integrantes do Espírito Supremo, Deus, entendemos que O devemos servir, assim como a mão ou o pé servem a todo o corpo.” (Karma, a Justiça Infalível).

Talvez a vida e as qualidades de Srila Prabhupada possam nos mostrar como ter não apenas uma existência livre de tédio, mas, além disso, como ter uma vida feliz reunindo-nos a Deus, Krishna, o reservatório de prazer.

Embora às vezes brincalhão e bem-humorado, Prabhupada sempre foi perseverante, interessado nos outros e confiante em sua missão. Ele era curioso e profundamente observador, e consistentemente via e apresentava Krishna e Seus ensinamentos sob diferentes pontos de vista. Ele era capaz de se concentrar e focar suas energias. Ele era regular em seus hábitos e também criativo e desapegado se algo não funcionasse após repetidas tentativas. E ele se dedicava todos os dias a refletir – frequentemente almoçava sozinho, devagar, em um lugar calmo e bonito. Sua vida foi equilibrada. (Para nós, isso pode significar não descuidarmos de nossas necessidades pessoais devido às nossas responsabilidades sociais, profissionais e familiares.)

Prabhupada nos mostra uma vida espiritual diretamente oposta ao tédio.

Prabhupada tinha o oposto de uma vida monótona, humilhante e servil; era uma vida dinâmica em que ele navegava pelo mundo e usava todas as suas capacidades para realizar o serviço sagrado e todos os importante serviços de nos libertar de nossas vidas miseráveis, desordenadas e mundanas. Ele fez isso lembrando-nos repetidamente de quem somos (seres espirituais) e com quem estamos permanentemente relacionados: a Deus e Seus devotos.

Curiosamente, Kierkegaard via o tédio como “a recusa desesperada de ser você mesmo”. E o que Prabhupada enfatizou – praticamente exigiu – era que fôssemos nós mesmos, ou seja, para agirmos como almas espirituais, pequenas partes de Deus com as qualidades divinas da eternidade, alegria e discernimento. Legitimamente, a alma é destinada a dar prazer a Deus e Seus devotos, e esse serviço de dar prazer é sempre novo porque Krishna é nava-yauvana, sempre fresco, jovem, novo. Dar esse tipo de prazer nos dá maior prazer. E essa atitude é estimulada pelo amor espiritual, amor que não é motivado pelo ganho pessoal. Certamente é por pouco vivenciarmos nossa espiritualidade e atividades espirituais que existe o tédio em todo o mundo.

Outra razão pela qual o tédio não tem lugar na vida de um devoto é que Krishna, a Pessoa Suprema, é a fonte definitiva de tudo neste mundo. Sem exceção, tudo é uma manifestação de Sua energia. Ele é o Todo Completo, e tudo o que Se manifesta dEle é completo em si. Sentir tédio e infelicidade é sentir falta, mas a única falta é nossa percepção, nossa “recusa desesperada de sermos verdadeiros”.

Fazer para Krishna Aquilo que Amamos

Alguns anos antes de Kierkegaard, William Wordsworth lamentou a mentalidade materialista que ele via desenfreada na sociedade: “Nós entregamos o coração, em sórdido favor!” Como devotos, estamos tentando retirar nosso coração dos interesses materialistas e nos aplicarmos ao serviço de Krishna, e fazemos isso com graus variados de sucesso. Se nos sentirmos entediados e infelizes, entendemos que precisamos tentar com mais força para encontrar o que gostamos de fazer e fazê-lo para o prazer de Krishna e Seus devotos. Tentar algo menor ou mergulhar no tédio e na infelicidade é indigno. Quem quer que sejamos e onde quer que estejamos, nós nos destinamos a muito mais. Em uma recente coluna de opinião do New York Times, David Brooks escreve: “Somos mais felizes quando levamos nossa vida a algum lugar, quando concentramos a atenção e a vontade em uma coisa, de todo o coração e com todas as nossas forças.” Pelos ensinamentos de Srila Prabhupada, sabemos que, para realmente nos trazer satisfação, a “única coisa” a que Brooks se refere deve ser transcendente.

Quando Srila Prabhupada percebeu que alguns de seus seguidores estavam tendo problemas, ele escreveu a um deles (8 de julho de 1972): “Nosso processo da consciência de Krishna, se for seguido com determinação e entusiasmo, automaticamente tem o efeito de fixar-nos, corpo, mente e alma, aos pés de lótus do Senhor Krishna, para que todos os tipos de instabilidade da natureza material, todos os tipos de dificuldades e desarmonias da vida, sejam facilmente suportados… Então, pare de devaneios. Procure entender as coisas à luz da sua inteligência, e, se você for sincero dessa forma, Krishna certamente lhe dará toda a facilidade de entendê-lO e você se libertará do cativeiro da ignorância.”

A carta continuou: “Hoje em dia, parece que muitos dos antigos discípulos, como você mesmo, estão tendo dificuldades. Se você não der o exemplo para os alunos mais jovens e assumir a responsabilidade de instruí-los no caminho certo, como as coisas continuarão? Tente sempre estudar nossos livros e ver nossa filosofia sob diferentes prismas, convença-se desse conhecimento e, sem dúvida, todas as suas dificuldades mentais desaparecerão para sempre e você verá Krishna frente a frente.”

O aborrecimento do tédio é uma espécie de inferno. Para escapar disso, as pessoas às vezes começam brigas ou gastam dinheiro em diversões que muitas vezes as deixam mais infelizes ainda. A solução de Prabhupada para o tédio é categoricamente diferente. Ele quer que usemos nossa inteligência para entender os ensinamentos de Krishna sob diferentes pontos de vista, usar nossos talentos para agradar a Ele e Seus devotos, e usar nosso tempo para lembrar dEle. Feito com sinceridade e em boa companhia, essas coisas simples nos salvarão para sempre deste estado não natural de tédio e infelicidade.

Tradução de Simone Queiroga. Revisão de Bhagavan Dasa.

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