A Vida do Funeral

A Vida do FuneralArchana-siddhi Devi Dasi

Thomas está arrasado com a morte da mãe, e o pastor não pode consolá-lo no funeral. Dizer que aquela prostituta viciada em drogas foi para o céu, seria dizer que atos não têm consequências. Dizer que foi para o inferno, não ajudaria certamente. Alguém pode trazer esperança?

Ao entrar na igreja, olho por cima da multidão procurando por um banco livre nas fileiras dos fundos. Assim que encontro um espaço que me deixa passar pelo aglomerado sem chamar atenção, a senhora Williams, bem na frente da igreja, me avista. Eu a cumprimento e sigo adiante, começando a abrir caminho até os fundos do lugar sagrado. Contudo, ela me convida a estar na frente.

A senhora Williams, uma forte figura matriarcal por excelência, não é uma pessoa a quem se possa falar não com facilidade. De forma obediente, me aproximo dela e lhe dou um abraço, esperando que me deixe voltar aos bancos do fundo em seguida. No entanto, ela me oferece definitivamente um espaço na primeira fila, ao lado de seu neto Thomas. Olha-me com respeito.

Sento-me em um banco e recuo um pouco. Sou a única pessoa branca no meio de uma congregação de afroamericanos. Em meio a uma celebração batista, ninguém imagina que sou vaishnava e nasci em uma família judia. Sinto-me um pouco estranha porque minha única relação com a falecida era de terapeuta/paciente. Ela costumava vir à clínica do bairro em que eu trabalho. Eu realmente deveria estar sentada no primeiro banco, ao lado de toda a sua família mais próxima?

As pessoas fazem uma fila para dar seus pêsames e me incluem como sendo parte da família. Sinto-me incomoda à medida que os participantes da celebração me dão a mão e me dizem palavras de consolo. Este estranho momento termina quando o órgão ressoa pela igreja e as pessoas voltam aos seus assentos.

A alguns metros de distância de mim, se encontra o caixão aberto com o corpo da mãe de Thomas, Regina Scott. Seu corpo sem vida jaz sobre almofadas de seda e renda brancas. Foram colocados animais de pelúcia no caixão para criar uma sensação de tranquilidade e paz eternas.

A Vida de Regina

Conheci Regina quando veio ao meu consultório para fazer terapia familiar. Acabara de sair da cadeia e morava com seu filho Thomas e sua avó. Thomas acabava de conhecer sua mãe, porque esta havia estado na prisão a maior parte da sua vida. Cada vez que saía da cadeia, voltava a consumir heroína. Para poder pagar pela heroína que consumia, se dedicava à venda de drogas e à prostituição: dessa maneira, Regina voltava para a prisão frequentemente. Seja pela prostituição, seja pelo uso de agulhas contaminadas, Regina acabou contraindo o vírus da AIDS. Durante os dois últimos anos, sofreu de doenças relacionadas com a AIDS e, finalmente, veio a óbito.

Regina deixou três filhos órfãos. León, o maior, é um menino revoltado e irritadiço de quinze anos e que já foi preso por venda de drogas e roubo de veículos. Estava sentado, à paisana, nos últimos bancos da igreja.

Thomas, seu segundo filho, é um menino pequeno e sensível de doze anos que sofre de ansiedade e depressão. Foi enviado para tratamento de saúde mental por tentativa de suicídio dois anos atrás. O encontraram com uma corda ao redor de seu pescoço dizendo que queria morrer. Foi assim que me tornei a terapeuta de Thomas, e comecei a trabalhar com sua família.

Troy, o menor dos três irmãos, nasceu soropositivo enquanto Regina ainda estava na cadeia. Ultrapassou todas as expectativas de vida que os médicos lhe deram. Hoje está vestindo um terno e se move sem parar em sua poltrona, pois não tem controle de seus músculos. É um menino adorável e bom, e parece haver transcendido seu sofrimento.

Eu estava segurando a mão suave e úmida de Thomas. O menino não parava de chorar, e molhava suas calças com as lágrimas que caíam de seu rosto. Dei-lhe um lenço, mas ele não o usou. Tinha o olhar perdido e o corpo paralisado.

Vários líderes religiosos subiram no altar, vestidos com longas túnicas negras. Era a primeira vez que eu assistia a uma celebração de culto batista e tinha muita vontade de ouvir sua mensagem.

 Só uma Vida?

Com uma voz profunda e autoritária, o primeiro pastor disse que todos aqueles que aceitavam Jesus se colocassem de pé. Eu não tive nenhum problema de ficar em pé também. Através dos ensinamentos vaishnavas, aceito Jesus como um devoto puro do Senhor que desceu a este planeta para ensinar o amor puro a Deus aos homens. Muitas vezes escutei ou li meu guru, Srila Prabhupada, glorificar Jesus Cristo. Às vezes, porém, meu guru considerava que os seguidores de Jesus interpretavam mal seus ensinamentos.

O pastor expôs muitas verdades que coincidem com minha filosofia vaishnava. A alma e o corpo não são o mesmo. A vida é uma viagem para amar a Deus e para ajudar os outros a fazer o mesmo. A maior parte da mensagem que ouvi poderia ter sido dita em uma aula da Bhagavad-gita ou em um templo vaishnava.

Mas nossas escrituras entraram em conflito quando o pastor afirmou que nossa vida atual determina nossa existência eterna no céu ou no inferno. Este é um dos princípios do cristianismo moderno com os quais eu não comungo. Se realmente esta é nossa única oportunidade, por que então Deus permite tantas desigualdades na hora do nascimento? Por que um menino nasce em um lugar acolhedor e amoroso enquanto outro menino vive uma situação infernal de abusos em sua casa? Por que um menino teria a oportunidade de conhecer a Deus desde sua infância e outro não ter recebido nenhuma formação religiosa? E se o menino nasce sem pecado, como disse o cristianismo, não seria melhor matar o menino logo depois de nascer para que possa ir diretamente ao céu?

Por que Deus nos daria uma só oportunidade e nos condenaria para toda a eternidade? Sendo mãe, já vi meus filhos cometerem vários erros, apesar do que continuo estando por perto para ajudá-los. Deus é infinitamente ainda mais amoroso. Certamente Ele seguirá nos ajudando para além desta vida.

De repente, começo a achar que o pastor está com problemas em relação a como apresentar o conceito de uma só vida, céu ou inferno, nesta situação em particular. Está claro que ele quer consolar a família e os amigos. E isso somente ocorrerá se ele disser que a falecida irá para o céu. Contudo, a vida de Regina, até seu último instante, foi, claramente, menos do que exemplar. Dizer que ela aceitou Jesus e isso purificou o coração dela soaria um pouco exagerado. Os presentes pensariam, então, que alguém pode pecar por toda vida, fazer tudo o que quiser, e que, ao final da vida, Jesus lhe aceitará sem problemas.

Na outra possibilidade, isto é, Regina não ter ido para o céu, isso significa, de acordo com a doutrina cristã atual que se ensina nessa igreja, que ela terminou no inferno e que sofrerá por toda a eternidade. Algo que não traz muita alegria a seu filho Thomas, que continua chorando sem parar, desconsolado.

Como eu gostaria de compartilhar com Thomas os ensinamentos da Bhagavad-gita! Embora seja bastante provável que sua mãe não tenha ido ao céu, não quer dizer que esteja condenada para o resto da eternidade. Receberá um novo corpo e fará progresso em direção a seu lar original no mundo espiritual. Como eu sei disso?

Onde Regina Passará a Eternidade?

Em uma de nossas sessões de terapia, Regina aceitou prasada, o alimento oferecido ao Senhor com amor e devoção antes de ser disposto para comer. Eu olhei com atenção como Regina comia a bolacha de aveia e passas. Acreditamos que a comida que o Senhor aceita se torna espiritual e tem o poder de transformar o coração da pessoa que come. A literatura védica explica que uma pessoa que come prasada receberá a misericórdia de Krishna e terá todas as chances de nascer em um corpo humano na sua próxima vida. Isso é significativo, levando em consideração que existem milhões de corpos inferiores, nos quais é possível nascermos, muitos deles mais apropriados para pessoas que têm levado uma vida animal. Quem não aproveita esta forma de vida humana para a autorrealização se arrisca a receber o corpo de espécies inferiores, perdendo assim a oportunidade de fazer avanço espiritual. No entanto, pelo simples fato de comer um pouco de prasada, Regina terá a oportunidade de começar de novo com um corpo humano em sua próxima vida. Por conseguinte, poderá seguir adiante com a viagem espiritual que inconscientemente havia começado.

Eu adoraria ser capaz de consolar Thomas com esta sabedoria védica, mas, em meu papel de terapeuta, tenho que ter cuidado de não transgredir o seu sistema de crenças e convicções. Apenas posso usar os princípios de sua fé para lhe ajudar nestes momentos difíceis. Posso dizer a ele que sua mãe é diferente do corpo que deixou, que é a alma, e que a alma é eterna. Fazer mais do que isso, me arrisco a ser censurada por proselitismo em minha profissão.

Muitos anos atrás, quando vendia a Bhagavad-gita, eu pregava de uma maneira direta e me atrevia a desafiar muitos argumentos baratos. Atualmente, ainda tendo a oportunidade de compartilhar a consciência de Krishna abertamente, utilizo um enfoque mais sutil. Em meu trabalho, sempre tenho bolachas prasada. Na parede do meu escritório, tenho um grande quadro colorido com o rosto sorridente do Senhor Jagannatha. As pessoas se beneficiam ao ver a forma de Krishna, ao comer prasada e, inclusive, ao ouvir os santos nomes de Krishna, mesmo não sendo conscientes da importância de tais atividades. Em sânscrito, isso se chama ajnata-sukriti, “serviço devocional inconsciente”. É uma maneira muito poderosa de ocupar no serviço ao Senhor pessoas que, de outra maneira, ficariam resistentes ou contrárias a isso.

Regina via o quadro do Senhor Jagannatha e comentava o quanto ela gostava de degustar a prasada. Vendo seu corpo sem vida no caixão, penso na boa fortuna que teve ao fazer, de maneira inconsciente, esse serviço nos últimos meses de sua vida. Lembro-me da história de Ajamila, um sacerdote que se viu obcecado por uma prostituta e abandonou por completo sua vida espiritual. No momento da morte, Ajamila, já velho e exausto, chamou por seu filho que se chamava Narayana, um nome do Senhor Supremo. Embora Ajamila estivesse simplesmente chamando seu filho, o Senhor aceitou isso como serviço devocional. O Senhor, então, anulou os pecados de Ajamila e purificou seu coração. Graças a isso, Ajamila voltou para o mundo espiritual.

Pensando assim, apertei a mão de Thomas. Pela primeira vez durante toda a tarde, me olhou nos olhos. Com toda a minha convicção, eu disse a Thomas: “Tua mamãe estará bem. O Senhor está com ela e sempre estará com ela.” Seus olhos se iluminaram acreditando em minhas palavras, e me respondeu com um gesto positivo da cabeça.

Ao final da celebração, Thomas me abraçou e disse-me: “Obrigada por ser a vida do funeral!”

Suas palavras podiam parecer estranhas, mas transmitem uma verdade profunda: na realidade, a alma nunca morre. O Senhor em seu coração deu-lhe a oportunidade de se comunicar com essas palavras.

Thomas continua vindo à terapia e trabalha em seus sentimentos de dor e perda. Além disso, segue comendo biscoitos prasada e vendo o rosto sorridente do Senhor Jagannatha.

Tradução de Taciana Lima Magalhães.

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