Bhakti-karya: A Sociedade Perfeita através da Cooperação Amorosa entre Brahmanas e Kshatriyas

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Maha Krishna Nama Dasa

O sistema de castas hereditário é distinto do sistema de classes do varnasrama. Como tal sistema original, atribuído ao próprio Senhor Supremo, é anunciado dentro das escrituras védicas e interpretado pela própria tradição? Por que tal sistema se degradou? É possível o restabelecer?

O sistema de castas hindu, o qual teve em seu auge a base da formação social e política da Índia antiga, na era védica, é frequentemente alvo de críticas devido a injustiças sociais, abusos e dominação exploratória. Tais críticos, muitas vezes levados por uma impressão distante e anacrônica, tentam explicar a parte por um todo e assinalam a desconjuntura de um sistema que pende para a barbárie, em “grupos de status fechados” (WEBER, 1987), totalmente apartados de um sofisticado sistema filosófico e religioso, que é ignorado.

Como é que tal sistema de castas, ou sociedade organizada através dos princípios constitutivos intrínsecos (dharma) de varna (classes sociais) são estabelecidos e anunciados dentro dos shastras védicos e interpretados pela mesma tradição? Por que tal sistema teria supostamente se degradado nos últimos séculos[1], levando a sociedade hindu – especialmente a parte menos favorecida em termos de linhagem – a uma opressora segregação e estratificação unilateral, abusando e rotulando a maior parte da população em termos do nascimento seminal, sem qualquer possibilidade de mobilidade?

Varnasrama-dharma

No Bhagavad-gita, o texto que resume toda a filosofia e toda a religiosidade nos Vedas, Krishna diz: “O sistema de quatro castas foi criado por Mim de acordo com a distribuição e a qualidade de seus atos. Embora Eu seja o criador disso [o sistema], sou conhecido como o eterno que não age”.[2] Neste verso, o próprio Sri Krishna, a divindade suprema[3], Se aponta como a fonte original e criador do sistema de varnasrama, apesar da Divindade permanecer à parte de tal criação, apontando, assim, para uma formação divina e não-humana de tal distribuição e funções no corpo social, de acordo com as disposições psíquicas, adquiridas por cada indivíduo em contato com a plataforma material por meio da influência dos gunas.

O elemento determinante na plataforma subjetiva a impulsionar as ações é a influência dos três gunas, ou os modos da natureza material que permeiam todos os elementos e corpos dentro da estrutura fenomênica.[4] Em suma, o que caracteriza o elemento substancial sutil que perfaz a totalidade dos universos seriam esses três gunas, ou modos da natureza material.

[…] natureza material ou prakriti, composta pelos três gunas, é descrita, embora o termo gunas seja às vezes traduzido como “qualidade”, um olhar mais profundo irá nos revelar que o conceito dos gunas é um pouco mais sutil, que estes são entidades, ou substância, e não meras qualidades. Os gunas não apenas caracterizam a natureza sutil e grosseira do ser vivo, mas também o confinam ativamente em vários tipos de condicionamentos. Como tal, cada guna obriga a entidade viva de uma maneira particular […]. Os gunas não apenas limitam, mas abrem uma espécie de caminho existencial para cada entidade individual. (THEODOR, 2010, p. 112)

A palavra guna pode ser traduzida como “laço”, “cordas” ou “grilhão”[5], no sentido de que eles atam a vontade da entidade vivente – ao menos para este propósito específico dentro dos varnas – e consequentemente a suas respectivas ações por influência[6].

Isso é apontado no verso Bhagavad-gita 4.13 supracitado, que, por meio de determinado guna, desenvolve-se a vocação por cada trabalho (karma) específico. Dessa forma, devido à influência singular de um guna específico em que a entidade viva entrou em contato em sua vida pretérita (Bhagavad-gita 13.21-22)[7], disponibilizam-se suas aptidões e natureza para determinadas atividades, isentando a participação direta de Deus na ação:

Os brahmanas, com o predomínio de sattva [bondade], executam atividades como o controle dos sentidos e da mente. Os kshatriyas, que têm predominância de rajas [paixão] e sattva, executam ações como caridade para o bem estar público e atos de heroísmo. Os vaishyas, predominantemente controlados por tamas [ignorância] e rajas, trabalham com agricultura e criam vacas. Os shudras, com predomínio de tamas, servem os outros. Eu crio esse sistema de quatro varnas divididos segundo os gunas e as atividades de acordo com o caminho do dharma. (THAKURA, 2003, p. 158)

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Os quatro varnas em torno de Krishna, seu criador e aquele que deve ser agradado através da execução dos deveres de varna.

O corpo universal é comparado metaforicamente a uma forma imaginária gigantesca da pessoa divina, sendo descrito como virat-rupa (Srimad-Bhagavatam 2.1.24 e Bhagavad-gita 11), ou forma universal, onde se situam todos os elementos empíricos e fases do tempo dentro do universo. Nessa forma universal conceitual, encontram-se as quatro divisões sociais da seguinte maneira:

Em Treta-yuga,[8] as quatro ordens sociais se manifestam da forma universal da Personalidade de Deus. Os brahmanas aparecem do rosto do Senhor; os kshatriyas, dos braços do Senhor; os vaishyas, das coxas do Senhor; e os shudras, das pernas daquela poderosa forma. Cada divisão social é reconhecida por seus deveres e comportamento particulares. (Srimad-Bhagavatam 11.17.13)

A seguir, exporemos as seguintes divisões do varna, a divisão social védica como encontrada no Bhagavata Purana[9], o Purana sattvico, que fundamenta a visão bhagavata de mundo, ostentando “a autêntica visão gaudiya[10]“. Em um diálogo entre o devotado Uddhava e o próprio Krishna (Srimad-Bhagavatam 11. 17. 16-19), discorre-se acerca das qualidades de trabalho gerais de cada membro do varna.

As qualidades dos brahmanas são tranquilidade, autocontrole, austeridade, limpeza, satisfação, to­lerância, retidão simples, devoção a Krishna, misericórdia e veracidade. (Srimad-Bhagavatam 11.17.16) Aquelas dos kshatriyas são poder dinâmico, força corpórea, determinação, heroísmo, tolerância, generosidade, grande esforço, estabilidade, devoção aos brahmanas e liderança. (Srimad-Bhagavatam 11.17.17) As qualidades dos vaishyas, por sua vez, são fé na civilização védica, dedicação à caridade, estar livre da hipo­crisia, serviço aos brahmanas e sempre desejar acumular mais dinhei­ro. (Srimad-Bhagavatam 11.17.18) A qualificação dos shudras é assim descrita: serviço prestado sem duplicidade aos brahmanas, às vacas, aos semideuses e a outras personalidades adoráveis, e completa satisfação com qualquer renda obtida em tal serviço. (Srimad-Bhagavatam 11.17.19)

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No Srimad-Bhagavatam, Krishna explica a Uddhava o sistema varnasrama.

Vale lembrar que a tal estratificação desprovida de mobilidade no sistema de varna seria um produto recente, pois, dentro de tal sociedade, a posição do indivíduo não é aceita em sua origem por meio de seu nascimento seminal, mas antes de acordo com suas qualificações, como explica Krishna: “Se, em seu comportamento, alguém apresenta as características supracitadas de brahmana, kshatriya, vaishya ou shudra, mesmo que ele tenha aparecido em alguma classe diferente, deve ser aceito de acordo com os sintomas qualificadores”. (Srimad-Bhagavatam 7.11.35)

De acordo com a visão dos seguidores dos Vedas, a estruturação e práxis do sistema de varnasrama é de cunho universal e objetivo, tendo se degradado na era atual, apesar do que as suas sombras e seus traços se esgueirariam mesmo em nossas atuais sociedades, como descreve Swami Prabhupada:

Ela é como o Sol, uma criação de Deus, motivo pelo qual perdurará. Quer coberto pelas nuvens, quer visível no céu claro, o Sol continuará a existir. Analogamente, quando o sistema de varnasrama se degrada, ele aparece como um sistema de castas hereditário, mas, em toda sociedade, há uma classe inteligente de homens, uma classe marcial, uma classe mercantil e uma classe trabalhadora. Quando elas são reguladas para a cooperação entre comunidades, de acordo com os princípios védicos, então há paz e avanço espiritual. Porém, quando há ódio, abuso e desconfiança mútua no sistema de castas, todo o sistema se degrada, e, como se afirma aqui, isso cria um estado deplorável. Atualmente, o mundo inteiro está nesta condição deplorável por dar direitos a tantos interesses. Isso se deve à degradação das quatro castas de varnas e asramas. (Srimad-Bhagavatam 3.21.52-54)

O objetivo último de tal divisão social não era apenas a paz e a harmonia devido à interação e a função específica de cada indivíduo num âmbito coletivo; o projeto social ariano não possui apenas um fim em si mesmo, senão que ele é muito mais ousado e, na verdade, almeja a superação de tais condicionamentos e estereótipos, conduzindo seus agentes de forma indireta a uma vida progressista ao encontro de moksha (liberação).

Meu querido rei, os brahmanas versados em conhecimento védico proferiram o veredito de que, em cada era [yuga], o fato de diferentes categorias de pessoas comportarem-se de acordo com o modo da natureza material que as caracteriza é auspicioso tanto nesta vida quanto o é após a morte. Se a pessoa atua em sua ocupação de acordo com sua posição nos modos da natureza e gradualmente deixa essas atividades, ela alcança a fase de niskama [ausência de desejos]. (Srimad-Bhagavatam 7.11.31-32)

Também corroboram esse mesmo ponto os discípulos de A.C. Bhaktivedanta Swami em seus comentários ao Srimad-Bhagavatam com relação ao propósito último do sistema de varnasrama-dharma:

A entidade viva nasce com certa quantidade de inteligência, beleza e oportunidade social, e situa-se, portanto, numa posição ocupacional e social particular dentro do sistema varnasrama. Em última análise, tais posições são designações externas, mas, como a maioria dos seres humanos está condicionada pela energia externa do Senhor, eles devem agir conforme as divisões científicas de varnasrama até alcançarem a etapa de jivan-mukta, ou vida liberta. (Srimad-Bhagavatam 11.17.15, significado)

No Bhagavata Purana (3.21.49-57), descreve-se o encontro e diálogo entre o sábio Kardama Muni, um yogi e brahmana, filho mental do deus autógeno Brahma (Srimad-Bhagavatam 3.21.4), e Svayambhuva Manu, um kshatriya, provável autor dos códigos da Manu-samhita, descrito como o primeiro monarca (adi-rajah) (idem 3.21.45-47). Ao chegar ao eremitério e “após receber a atenção do sábio, o rei sentou-se e ficou silencioso. Recordando-se das instruções do Senhor, Kardama, então, falou ao rei da seguinte maneira, deleitando-o com sua doce voz”. (Srimad-Bhagavatam 3.21.49).

Tal diálogo será reproduzido a fim de demonstrar e expor o dharma ou os deveres e atividades dos indivíduos superiores no sistema sócio-político védico. Primeiramente, o sábio Kardama, o anfitrião, caracterizará a posição de um kshatriya. Tais injunções estabelecem o monarca como aquele que está incumbido de dar proteção[11] aos membros desprotegidos da sociedade.

De acordo com a teologia do Bhagavad-gita 4.7, quando Krishna descende de tempos em tempos, Ele tem como função específica restaurar o dharma e desobstruir os elementos conflitantes a esse[12]. Tal função também é delegada à Sua figura representativa na posição de um kshatriya, o que transcreve uma monarquia divina e representativa já na Índia antiga: “Quando necessário, assumes o papel do deus do Sol; do deus da Lua; de Agni, o deus do fogo; de Indra, o senhor do paraíso; de Vayu, o deus do vento; de Yama, o deus da punição; de Dharma, o deus da piedade, e de Varuna, o deus que preside as águas. Todas as reverências a ti, que não és diferente do Senhor Vishnu!”. (Srimad-Bhagavatam 3.21.51)

Visvanatha Cakravarti explica a belíssima poesia metafórica contida na passagem acima, a qual atesta as diferentes proezas virtuosas do herói da seguinte maneira:

Você inteiramente aceita as formas do Sol e outros de uma maneira adequada (sthane). Você é o Sol por causa de sua majestade. Você é a lua por causa de sua fama. Você é fogo por causa de sua invencibilidade. Você é Indra por causa de sua senhoria. Você é Vayu porque você entra em todos os lugares. Você é Yama porque você pune o pecador. Você é Dharma porque você protege os justos. Você é Varuna porque você é profundo e tem um tesouro escondido. (THAKURA, Srimad-Bhagavatam 3.21.51, significado)

O verso seguinte descreve o poder sobrenatural do kshatriya e sua função coerciva no intuito de estabelecer a paz.

Se não montasses tua vitoriosa quadriga[13] coberta de joias, cuja mera presença ameaça os criminosos, se não produzisses furiosos sons com a vibração de teu arco e se não vagasses pelo mundo como o Sol brilhante, liderando um imenso exército cuja marcha faz o globo da Terra tremer, todas as leis morais que governam os varnas e os asramas criados pelo próprio Senhor seriam violadas por canalhas desprezíveis. (Srimad-Bhagavatam 3.21.52-54)

Assim como o braço executa as atividades de força, proteção e articulação mecânica para o corpo – quer agarrando, quer empurrando, quer erguendo etc., e especialmente protegendo com defesas o corpo –, o kshatriya é aquele que vai defender as outras partes do corpo de ameaças externas, tais como ladrões, animais selvagens e outros conquistadores. Outra de suas atividades é a de imprimir a função do poder executivo, fazendo que cada membro se ocupe em seu dever prescrito de acordo como esse é ditado pelos shastras: “Se parasses de preocupar-te com a situação mundial, a injustiça floresceria, pois os homens que anseiam somente por dinheiro não encontrariam oposição. Esses canalhas atacariam e o mundo pereceria”. (Srimad-Bhagavatam 3.21.55)

O capítulo seguinte do Purana, intitulado “O Casamento entre Kardama e Devahuti”, dá continuidade ao tema da formação dos pilares de uma sociedade harmônica e progressista por meio do relacionamento de bhakti-karya logo em seus primeiros versos.

A palavra bhakti-karya semanticamente é entendida como ação amorosa, ou uma parceria visando o bem-estar holístico de maneira isonômica no âmbito do Estado. Tal acepção é analisada por Swami Prabhupada da seguinte maneira:

Antigamente, era habitual os sábios visitarem os reis, e os reis visitarem os sábios em seus eremitérios. Cada um tinha prazer em satisfazer o desejo do outro. Essa relação recíproca chama-se bhakti-karya. Há um excelente verso que descreve a relação de benéfico interesse mútuo entre o brahmana e o kshatriya (kshatram dvijatvam). Kshatram significa “a ordem real”, e dvijatvam significa “a ordem bramânica”. As duas destinavam-se ao interesse mútuo. A ordem real protegia os brahmanas para o cultivo de avanço espiritual na sociedade, e os brahmanas davam suas valiosas instruções à ordem real, sobre como o estado e os cidadãos podem ser gradualmente elevados em perfeição espiritual. (Srimad-Bhagavatam 3.21.56, significado)

Vamos, então, à sequência de versos desse capítulo 22:

Sri Maitreya disse: Após descrever a grandeza das múltiplas qualidades e atividades do imperador, o sábio ficou silencioso, e o imperador, sentindo-se modesto, dirigiu-se a ele da seguinte maneira. Manu respondeu: Para expandir-se sob a forma do conhecimento védico, o Senhor Brahma, o Veda personificado, criou-vos de seu rosto, ó brahmanas, que sois repletos de austeridade, conhecimento e poder místico e que sois avessos ao gozo dos sentidos. (Srimad-Bhagavatam 3.22.1-2)

Neste verso 2, Svayambhuva Manu elenca as qualidades de trabalho com que atuam os brahmanas. Devido a estes serem os mais virtuosos e temperantes, eles se assemelham ao rosto da virat-rupa. No verso abaixo, é ditado à relação cooperativa entre os braços e a cabeça, os brahmanas e os ksatriyas, perfazendo o manancial do equilíbrio a ser atingido pelo corpo social em comunhão com a divindade suprema.

Para a proteção dos brahmanas, o Ser Supremo de mil pernas criou a nós, os kshatriyas, a partir de Seus mil braços. É por isso que se diz que os brahmanas são Seu coração, e os ksatriyas, Seus braços. É por isso que os brahmanas e os kshatriyas protegem-se uns aos outros, bem como a si mesmos. E o próprio Senhor, que é tanto a causa quanto o efeito, apesar do que é imutável, protege-os um através do outro. (Srimad-Bhagavatam 3.22.3-4)

Aqui se expressa o ideal de organização sócio-política védica: teocêntrica, harmônica e completamente cooperativa entre as castas. Nessa organização, as partes superiores, os brahmanas e os kshatriyas, se protegem, e esses, por sua vez, são protegidos pela intervenção da Divindade Suprema, a qual, satisfeita com tal cooperação, cuidaria de ambos.

Quando os agentes individuais de certo sistema social deixam de apenas competir por sua subsistência e se veem dentro de um sistema integral, absorvendo-se no cuidar da outra parte, alcança-se o objetivo de equilibrar uma unidade em meio a toda uma diversidade.

Com o abandono de fins egoístas, como a cobiça e o lucro exacerbado a todo custo para se trocar por uma segurança efêmera e uma felicidade sensível e temporária; almejando tornar-se um elemento participativo e altruísta, totalmente desinteressado, constrói-se uma sociedade que deposita seu telos em fins transcendentes. “Toda a estrutura social de varna e asrama é um sistema coopera­tivo destinado a elevar todos à mais elevada plataforma de com­preensão espiritual. Os brahmanas destinam-se a ser protegidos pelos kshatriyas, que, por sua vez, destinam-se a ser iluminados pelos brahmanas”. (Srimad-Bhagavatam 3.22.54, significado)

Kalau Sudra-sambhavah

Por meio dessas esclarecedoras passagens do Bhagavata Purana, consegue-se vislumbrar como seriam as diretrizes teóricas de um corpo social em perfeita saúde de acordo com a cultura dos Vedas. Através de um modelo que se adequa aos padrões das civilizações antigas – religioso, dualista e idealista –, exposto pela leitura de um de seus mais importantes cânones, podemos observar uma sociedade que trabalha e se articula com as diferentes propensões de seus indivíduos com o objetivo de satisfazer o Supremo, um ponto fixo em comum, e não o relativo e diversificado ponto pessoal do egoísmo. A tentativa de aplicar um modelo destes em nossos tempos atuais pelos supostos seguidores dos Vedas, mesmo se adaptado a um estado laico e secular e reservando suas devidas proporções, não alcançaria um êxito de porcentagem alguma.

Primeiramente, o pressuposto sucesso de tal formação estaria no indivíduo, ou seja, de acordo com o guna a influenciar cada sujeito, do qual se denotaria o predicado de seu karma ou ocupação. Dessa forma, uma sociedade dividida em varna necessitaria impreterivelmente de pessoas com suas naturezas psicofísicas muito bem definidas, exatamente como os Vedas apresentam[14] na condição de seus sujeitos em eras passadas, especialmente nas yugas Treta e Dvapara. Porém, os sujeitos, em nossa contemporaneidade, vêm assumir sua emancipação através da individualidade, (HERVIEU-LÉGER, 2008) como ocorre nas sociedades modernas, por não terem uma bandeira ideológica que aglutina (como a religião), não estando mais integrados como membros ativos e cooperativos de toda uma única e imensa unidade social.

Para que a sociedade varnasrama respire e se articule de maneira precisa e efetiva, existe a necessidade de uma distinção sistemática e bem paramentada das qualidades do ator social em seu meio, o que requer uma classe de homens bem situada, estabelecida e delimitada – que não contenha apenas vestígios –, homens em sattva-guna (modo da bondade), homens situados com maior predominância de rajo-guna (modo da paixão), pessoas em uma predominância de rajas e uma dosagem de tamas (modo da ignorância) e outra classe com uma maior propensão tamásica. Em outras palavras, são necessários atores sociais dotados de uma moral ideal com relação às classes superiores.

Quando olhamos para o humano, em nossos dias atuais, o que mais contemplamos é uma fauna caótica e mesclada. Longe de encontrar indivíduos, tanto no âmbito particular quanto coletivo, com os sintomas mencionados pela teoria dos gunas, predominantemente situados nos modos superiores, organizados de forma metódica e selecionada a se disporem de maneira total e uniforme; em nossa contemporaneidade, sobressaem-se as várias formas de controle pela via de vários grupos, as diversas formas de abuso e exclusão, juntamente com as desigualdades nos países não-desenvolvidos. As distâncias culturais e informacionais foram encurtadas pelos avanços tecnológicos e pelo mercado global de consumo, mas, ao mesmo tempo, tais supostos avanços exacerbaram a distância do indivíduo e entre os indivíduos.

De acordo com os Vedas, em detrimento de tais conjeturas, o varna e o asrama se degringolariam para o famigerado sistema de castas e, ao invés de possuir virtudes, muitos de seus membros de fantoche acabam demonstrando apenas ostentação e manipulação. “Os brahmanas nascidos na era de Kali são meramente shudras. Seu assim chamado caminho védico do karma é poluído e não pode purificá-los. Eles só podem ser purificados por seguir o caminho das agamas ou pancharatrika-viddhi”. (Visnu Yamala)

Bhaktivedanta Swami, desenvolvendo tal ponto, tece a seguinte crítica à sociedade hindu, e indiana de um modo geral, por terem se tornado esse grande fantasma que copia, após as chamadas “invasões bárbaras”:

Desde que a Índia tornou-se dependente de países estrangeiros, as influências específicas de suas ordens sociais se perderam; agora, de acordo com as escrituras, todos são shudras. Os supostos brahmanas, kshatriyas e vaishyas esqueceram-se de suas atividades tradicionais e, devido à ausência dessas atividades, eles são chamados de shudras. As escrituras dizem que kalau shudra-sambhava. Na era de Kali, todos serão como shudras. Os tradicionais costumes sociais não são segui­dos nesta era, embora antigamente fossem seguidos estritamente. (Srimad-Bhagavatam 3.22.16, significado)

Mesmo na Índia do século XX, motivada por preocupações concernentes à religião, devido a certa leitura do hinduísmo e influência de Gandhi, porém estando mais atrelada aos interesses gerais sobre identidade historiográfica (mais em uma perspectiva empírica) e ideológica, poder político e participação econômica[15] (RAM-PRASAD, 2003), se veem apenas sombras opacas refletidas nas paredes de uma caverna debilmente iluminada pela fogueira de uma antiga e longínqua tradição.

A narrativa bhagavata também ruma para um decréscimo e bancarrota do sistema de varna na descrição das atividades de Pariksit Maharaja, devido a esse ser permissivo com a personalidade de Kali, o que daria início à atual era de Kali. Quando o monarca em sua viagem de reconhecimento e proteção ao reino é amaldiçoado pela fúria de um imaturo menino brahmana (Srimad-Bhagavatam 1.19.10-50), o elo de amizade e cooperação entre a classe sacerdotal (brahmanas) e a classe beligerante (kshatriyas) começaria a se dissolver paulatinamente a partir desse ponto até chegar aos nossos dias atuais.

Desde então, os braços e a cabeça desse corpo social passam a se desfigurar, sobrando apenas a cintura, o estômago e as pernas. Exatamente neste ponto podemos traçar um paralelo e crítica em relação à nossa atual sociedade, uma civilização de pernas e estômago, que tem como sua busca principal a esperteza em conseguir dinheiro (arthopachayaih) e a capacidade de apenas reproduzir e se submeter a modelos impostos, esquecendo-se de indagar sobre o que são e quais são os valores mais profundos e o grande mistério da vida. A tal modelo civilizatório, mesmo que hipoteticamente, seria pouco provável a aplicabilidade de um modelo que exige homens tão refinados e sincronizados entre si, desprovidos de cobiça e desejo.

REFERÊNCIAS

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OLIVEIRA, Arilson S. A Sacralidade das Castas Indianas sob o Olhar Dumontiano. Anthropológicas, ano 12, vol. 19(2): 7-34, 2008.

PLATÃO. Leis. Tradução de Carlos Alberto Nunes. Pará: Universidade Federal, 1980.

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GOSVAMI, Satsvarupa Dasa. Introdução à Filosofia Védica. A Tradição Fala por Si Mesma. São Paulo: BBT, 1994.

HERVIEU-LÉGER. Danièle. O Peregrino e o Convertido: A Religião em Movimento. Petrópolis: Vozes, 2008.

HOSPITAL, Clifford. Vaisnavism: Contemporary Scholars Discuss the Gaudiya Tradition. In ROSEN, J. Steven (Org). Nova Iorque: Folk Books, 1992. p. 61-76.

MAHADEVAN, T.M.P. Invitación a la Filosofía de la India. México DF: Fundo de Cultura Económica, 1991

RAM-PRASAD, C. The Blackwell Companion to Hinduism. Londres: MPG Books, 2003.

ROSEN, Steven J. Krishna’s Song, A New Look at the Bhagavad Gita. Westport: Praeger Publishers, 2007. ROSEN, Steven J. “Om Shalom”. Nova Iorque: Folk Books, 1990.

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VYASADEVA, Krishna Dvaypaina.  Bhagavad-gita. Por Swami Prabhupada. “O Bhagavad-gita Como Ele É”. 3 ed. São Paulo: BBT, 2001.

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VYASADEVA, Krishna Dvaypaina. Bhagavata Purana. Por Swami Prabhupada. “Srimad-Bhagavatam”. São Paulo: BBT, 19 tomos, 1995.

WEBER, Max. Ensayos sobre Sociología de la Religion. Madri: Taurus, 1987.

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[1] “Quando consideramos as sociedades modernas da Europa, qualquer beleza existente nessas sociedades depende do varnasrama natural que existe dentro delas. Na Europa, os que têm a natureza de comerciantes gostam de negociar e, assim, avançam no comércio. Aqueles que têm a natureza de kshatriyas adotam a vida militar e aqueles que têm a natureza de shudras amam fazer o serviço braçal” (BHAKTIVINODA apud ROSEN 2007, p. 105). Mas Bhaktivinoda é crítico do sistema de castas vigente, especialmente porque este aponta para o nascimento como o critério de seleção do próprio varna. Ele escreve que o sistema de varna original é puro e baseado em princípios científicos (vaijnanika). Ele escreve ainda que a partir do tempo do Mahabharata (cerca de cinco mil anos atrás), o sistema tornou-se corrupto e se desviou de sua finalidade original, ou seja, ajudar as pessoas a desenvolver gradualmente o amor por Deus. Bhaktivinoda chama o sistema original, o qual é centrado em princípios espirituais, de daivi-varnasrama (varnasrama divino) – muito longe, diz ele, do corrente sistema de castas (ROSEN, 2007, p. 105).

[2] Bhagavad-gita 4.13. Tradução do sânscrito de Winthrop Sargeant (2009).

[3] Tal proposição, além de ser corroborada na própria obra (Bhagavad-gita 10, 8; 4, 6; 14, 27), também é aceita por eminentes autoridades no pensamento védico, tais como Ramanuja, Madhva, Sankaracarya, Sri Caitanya Mahaprabhu etc. Dessa forma, Sri Krsna é apontado como o Deus supremo e absoluto pelos seguidores dos Vedas.

[4] “A natureza material consiste em três modos — bondade, paixão e ignorância. Ao entrar em contato com a natureza, ó Arjuna de braços poderosos, a entidade viva eterna é condicionada por esses modos”. (Bhagavad-gita 14.5)

[5] Dicionário Sânscrito-Inglês Hypertext online, disponível em http://spokensanskrit.de/. Acessado em 25 jun 2014.

[6] Tal teoria encontra pontos de similitude ecoados em Platão, no qual cada indivíduo não passaria de um boneco manipulado pelos deuses, a partir de um emaranhado de fios que movimentariam as paixões mundanas, aproximando-as dos vícios ou das virtudes conforme a direção divina ou de seus movimentos aleatórios (Leis 644e-645b).

[7] “É dito que a natureza produz todas as causas e efeitos materiais, ao passo que a entidade viva é a causa dos vários sofrimentos e prazeres deste mundo. Dessa forma, a entidade viva dentro da natureza material segue os caminhos da vida, desfrutando os três modos da natureza. Isso decorre de sua associação com essa natureza material. Assim, ela se encontra com o bem e o mal entre as várias espécies de vida”.

[8] A segunda era, de acordo com o cálculo védico. As eras se dividem da seguinte forma: “Pelo cálculo védico, esta [nossos dias atuais] seria apenas a aurora de Kali-yuga, ou a idade atual de desavenças e hipocrisia. Há três eras anteriores a esta – com a duração de 1.728.000 anos (Satya-yuga), com a duração de 1.296.000 anos (Treta-yuga) e com a duração de 864.000 anos (Dvapara-yuga). A era em que estamos agora, Kali-yuga, dura apenas 432.000 anos, dos quais já se passaram cinco mil. Cada um desses ciclos de yuga movimenta-se como os meses do calendário, partindo de Satya, o melhor, para Kali, o pior – repetindo-se por várias vezes. A soma total de uma divya-yuga, ou uma série de quatro yugas, trata de algo como 4.320.000 anos”. (ROSEN, 1990, p. ?).

[9] Todos os demais Puranas glorificam o Bhagavata Purana, dividido em 12 tomos, ou Cantos. Já o próprio Srimad-Bhagavatam (Bhagavata Purama) se proclama como o fruto maduro de toda a árvore-dos-desejos, que é o conhecimento védico (nigama-kalpa-taror galitam phalam [Srimad-Bhagavatam 1.1.3]). O filósofo e santo medieval Jiva Gosvami, em seu tratado de seis volumes, Sad Sandarbhas, demonstra através da análise feita ao verso ete camsa-kalah pumsam (Srimad-Bhagavatam 1.3.28) – o verso imperador – em seu Krsna Sandarbha como Sri Krsna é svayam bhagavam, ou a fonte de todos os outros avataras, elegendo assim o objetivo último e meta final de todo o conhecimento.

[10] HOSPITAL, 1992, p. 62.

[11] De acordo com Swami Prabhupada: “Das quatro ordens de divisão social, a segunda ordem, designada para que haja boa administração, é chamada de kshatriya. Kshat significa lesado. Quem protege contra danos é chamado de kshatriya (trayate — dar proteção)”. (Bhagavad-gita 2.31, significado)

[12] “Sempre e onde quer que haja um declínio na prática religiosa, ó descendente de Bharata, e uma ascensão predominante de irreligião — aí, então, Eu próprio faço Meu advento”.

[13] Carro de guerra semelhante a uma biga. Enquanto a biga supostamente possuía duas rodas, a quadriga possuía quatro rodas e um condutor a mais.

[14]No Bhagavad-gita, no 18º capítulo, versos 40 a 45, Krishna faz uma análise satisfatória das qualidades de cada membro do sistema de varna da seguinte maneira: “Aqui ou entre os semideuses nos sistemas planetários superiores, não existe ser algum que esteja livre destes três modos nascidos da natureza material. Os brahmanas, os kshatriyas, os vaishyas e os shudras distinguem-se pelas qualidades que nascem de suas próprias naturezas de acordo com os modos materiais, ó castigador do inimigo. Tranquilidade, autocontrole, austeridade, pureza, tolerância, honestidade, conhecimento, sabedoria e religiosidade — são estas as qualidades naturais com as quais os brahmanas agem. Heroísmo, poder, determinação, destreza, coragem na batalha, generosidade e liderança são as qualidades naturais das atividades dos kshatriyas. A agricultura, a proteção às vacas e o comércio são as atividades naturais dos vaishyas, e os shudras devem executar trabalho e serviço para os outros. Sujeitando-se às qualidades de seu trabalho, cada um pode tornar-se perfeito”.

 

[15] Com esse propósito se constata a formação do Hindutva em meados da década de 80 como tentativa política de unir a Índia em torno do hinduísmo (ALVES, 2012).

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