Coronavírus: 3 Lições para a Nossa Vida

Dhira Chaitanya Dasa

Precisamos aprender algo e sermos partes da solução.

Pandemia, quarentena, caos e pânico espreitam a população mundial e se tornaram as “palavras do dia” ao redor de todo o planeta Terra, nos últimos meses. Analisando friamente o assunto, verificamos que não é nenhuma novidade que algumas fatalidades, em diferentes proporções, se alastraram pelas diversas civilizações ao longo da História. Basta lembrarmos de tragédias como a peste bubônica, em 1343, na Eurásia; ou da gripe espanhola, em 1918, ainda no período da Primeira Guerra Mundial. Contudo, como efeito da globalização e avanço dos meios de comunicação, as notícias de pandemias atuais nos são mais imediatas, facilitando o aumento da prevenção, mas também do medo.

Além disso, os textos religiosos também nos apresentam maus presságios, como na Bíblia, no livro do Apocalipse (6.1-8), revelação de Jesus para João sobre o surgimento de entidades macabras, conhecidas como os Quatro Cavaleiros do Apocalipse, a saber, a Peste, a Guerra, a Fome e a Morte. Na Bhagavad-gita (8.15-16), a Suprema Personalidade da Divindade, Krishna, explica para Seu amigo e discípulo, o guerreiro Arjuna, que este mundo é um lugar de misérias (duhkhaalayam) e temporário (ashasvatam), e que, “partindo do planeta mais elevado no mundo material e descendo ao mais baixo, todos são lugares de miséria, onde ocorrem repetidos nascimentos e mortes”.

A Raiz do Problema e Suas Ramificações

Apesar do terror explícito nesta introdução, sejamos otimistas, pois Krishna sempre Se manifesta como a luz perante as trevas. Uma vez que nos tornamos cientes da nossa vulnerabilidade e aceitamos Suas verdades, podemos nos preparar para enfrentar as adversidades, protegidos pela sabedoria divina. Ele dá o conhecimento, memória e dota cientistas e líderes com inteligência suficiente para conduzir a população em tomar as atitudes mais adequadas diante dessa tormenta que, além de coletiva, também está sendo amenizada pelo bom uso da tecnologia, por exemplo, a internet, via que está permitindo que vocês leiam o presente artigo. Embora a situação esteja fora de controle em algumas áreas, de maneira geral, os países nunca estiveram tão bem preparados para combater um problema dessa magnitude. Por outro lado, há ainda outros fatores que fazem parte do desafio para o ser humano e que, na melhor das hipóteses, devem ser corrigidos a partir do atual estado crítico. A raiz deles é o esquecimento de Deus, seguido da violência contra a biodiversidade, contra si mesmo e contra seus semelhantes.

Primeira Lição: O Respeito com a Biodiversidade

A exploração da biodiversidade por conta de ação humana vem trazendo desequilíbrio e prejuízos irreversíveis aos ecossistemas, vide o caso das abelhas sob risco de extinção devido à exposição aos agrotóxicos utilizados pelos manejos agrícolas atuais. Outro exemplo é o mercado clandestino de animais silvestres que, muito supostamente, é a causa dessa pandemia do novo Coronavírus (Sars-Cov-2), no caso da cidade de Wuhan, na China, desde dezembro de 2019. Na verdade, esse não é o primeiro episódio em que há o contágio viral de humanos através do contato com animais, porém pessoas obstinadas, ignorantes e egoístas, que querem controlar a natureza, continuam insistindo no mesmo erro e, consequentemente, pondo a vida de outros em risco.

A natureza possui Deus como proprietário.

Na Sri Isopanisad, há um verso que nos educa a como lidar com a propriedade divina e de outras entidades vivas: “O Senhor controla e possui todas as coisas animadas e inanimadas que estão dentro do universo. Portanto, todos devem aceitar apenas as coisas que lhes são necessárias, que foram reservadas como sua cota, e ninguém deve aceitar outras coisas, sabendo bem a quem pertencem”. (Sri Isopanisad, Mantra 1)

Inevitavelmente, continuaremos a sofrer as consequências de nossas próprias atitudes irresponsáveis, enquanto ignoramos que a natureza material, que assume a forma de Durga Devi, tem uma linguagem própria e responde, de maneira dura e avassaladora, às nossas ações inconsequentes. Então, devemos desenvolver a consciência de que existe o grande proprietário de tudo que é material e espiritual (ishavasyam idam sarvam), que Ele cuida de Suas energias e está suprindo a todos os seres, proporcionalmente. Logo, não há motivo para a humanidade se precipitar em usurpar os recursos naturais; ao invés disso, deve estabelecer a cultura de respeito entre Criador e criaturas.

Segunda Lição: O Recolhimento no Verdadeiro Eu

Outro fato importante é que, desde o dia 11 de março, em que a OMS (Organização Mundial de Saúde) declarou a pandemia de Covid-19, governos de diversos países tiveram que adotar o isolamento social, a fim de conter a propagação do vírus. A partir disso, no que tange à reclusão, muitos cidadãos estão tendo a tarefa e também a oportunidade de reavaliar seus próprios hábitos e passar mais tempo consigo mesmos, possibilitando mais autorreflexão. Em meio a essa eventualidade, deve-se desenvolver uma rotina preenchida por práticas adequadas de meditação, mantras, oração, literatura espiritual, alimentação regulada e atividades físicas que promovam o autoconhecimento e o controle dos sentidos, itens fundamentais para a saúde integral do corpo, mente e alma. Novamente, recorremos aos ensinamentos de Krishna, ao definir alguns critérios do que se considera conhecimento. Ele afirma: “(…) aspirar a viver num lugar solitário; afastar-se da massa geral de pessoas; aceitar a importância da autorrealização, e empreender uma busca filosófica da Verdade Absoluta…” (Bhagavad-gita 13.8-12)

 É possível e necessário tirar bom proveito dos dias de isolamento.

Eis um cenário bastante oportuno para se questionar qual a finalidade de empreender tantos esforços em avanço material se mesmo um criatura microscópica e tão frágil, que é morta com espumas de sabão, produzidas do ato tão banal de lavar as mãos, um simples “bichinho”, está influenciando tanto em nossas expectativas, resultando em cancelamento de viagens de negócios, de turismo, queda nas finanças de grandes potências internacionais, separação de famílias e até mesmo levando a óbito entes queridos? Até que ponto nós, animais racionais, civilizados, tão cheios de conceitos, que nos julgamos tão donos de nossa liberdade e nossas conquistas, estamos realmente preparados para lidar com nossas emoções e superar as limitações? Quais são as reais necessidades e futilidades, quando o objetivo é gozar de uma vida livre e feliz? Pois é, essas propensões a indagar, formular respostas objetivas, tal como a grande facilidade de readaptação ao meio, são grandes vantagens e exclusividades da espécie humana. Sendo assim, esses fatores nos remetem ao justo senso de responsabilidade sobre nossos atos e o ambiente no qual vivemos.

Como disse Sócrates para os juízes, nos episódios finais d’Apologia, ao esperar pelo resultado de sua pena no Tribunal dos Heliastas: “Se vos dissesse que esse é o maior bem para o homem, meditar todos os dias sobre a virtude e acerca dos outros assuntos que me ouvistes discutindo e analisando a meu respeito e dos demais, e que uma vida desprovida de tais análises não é digna de ser vivida, se vos dissesse isto, acreditar-me-iam menos ainda.”

Vale ressaltar que já vivíamos numa situação em que as relações estavam se tornando cada vez mais virtuais. Inclusive, de acordo com a empresa londrina GlobalWebIndex, os brasileiros ocupam o 2º lugar no ranking de países que mais passam tempo nas redes sociais, e o abuso dessa tecnologia está diretamente ligado ao aumento no índice de depressão. Ironicamente, a privação de contato pessoal adoece alguns, principalmente os idosos, e ressignifica a existência de outros. Em ambos os casos, consideremos que uma oportunidade bastante propícia se apresenta para que todos saiam da quarentena espiritual, ou o distanciamento que tomamos de Deus, quando decidimos nos aventurar à nossa própria sorte e fomos infectados pelo vírus do egoísmo, desde tempos imemoriais. Então, sendo sensatos e humildes, devemos higienizar o coração e a mente, a fim de hospedar o único que está imune a qualquer tipo de mazela, o santo nome de Krishna. Aqueles motivados pela aflição devem buscar Seu amparo; outros, contagiados pelo sentimento da gratidão, reafirmando o valor de boa vida e saúde, devem Lhe prestar as devidas homenagens. De qualquer forma, Krishna está muitíssimo ávido e de braços abertos, esperando por esse reencontro. Aproveitemos!

Terceira Lição: O Reconhecimento da Família Universal

A propósito, convém lembrar que não são todos os cidadãos que têm a recomendação, tampouco o privilégio, de ficarem sob o abrigo do lar. Algumas pessoas continuam cumprindo com suas funções, com seus respectivos deveres, de acordo uma aptidão em particular que, na tradição do yoga, denomina-se dharma. Elas seguem salvando vidas nos hospitais, abastecendo supermercados, vigiando a segurança pública, cuidando de diversas áreas que são deveras essenciais para manutenção e o bem-estar da maior parcela da população. Eis aí a atitude de servir, o sentimento que todos temos em comum e que deriva da alma em si.

No entanto, sem a compreensão espiritual, tal vocação se torna vazia de sentido e interrompida por sentimentos não-virtuosos, contrários ao real objetivo do dharma, como ensinado por Suta Gosvami, um dos grandes mestres de bhakti-yoga: “A suprema ocupação [dharma] para toda a humanidade é aquela pela qual os homens possam atingir o serviço devocional amoroso ao Senhor transcendental. Esse serviço devocional tem que ser desinteressado e ininterrupto para satisfazer o eu por completo.” (Srimad-bhagavatam 1.2.6)

Krishna dá verdadeiro sentido às vocações.

Assim, conscientes tanto do seu dharma social quanto engajados numa causa maior, em paralelo com o plano divino, cada um dos trabalhadores é beneficiado com a purificação de todo esforço (karma) e preocupação que a situação demanda. Por exemplo, a médica-devota reconhece que, além do voto de zelar pela saúde da pessoa com o corpo adoentado, ela também transmite ao seu paciente um tipo de cuidado que lhe revigora o espírito, renovando a esperança de viver e aliviando a ansiedade diante das adversidades; se temos agricultores-devotos, eles não maltratam o solo, o meio-ambiente, a plantação e, principalmente, oferecem a Deus o alimento que será distribuído para a população, nutrindo o corpo e a alma. Policiais-devotos, além de protegerem os inocentes dos malfeitores, transmitem para ambos a disciplina que os liberta da prisão do egoísmo e do conceito materialista de vida, através do santo nome.

Em resumo, Krishna é o criador do dharma (Srimad-Bhagavatam 6.3.19), o mecanismo que organiza o funcionamento do universo e ocupa cada indivíduo em sua determinada posição. De acordo com uma famosa passagem do Mahabharata, “quando o dharma é protegido, ele protege, quando o dharma é ferido, ele fere” (2017), ou seja, está mais do que evidente e emergencial que todos nós devemos cooperar uns com os outros, a fim de manter o equilíbrio entre humanidade, a Mãe Natureza e Deus, o grande Pai dessa família universal. Quantas catástrofes a mais terão que acontecer e vidas terão que ser perdidas para que possamos aprender essa lição tão básica?

Consideração Final: O Convite em Participar da Solução

Para finalizar, há a grande possibilidade de sairmos dessa crise global com uma melhoria na percepção do cuidado coletivo e empatia, superando o instinto egoísta e competitivo. Algumas atitudes como apoio aos agentes de saúde, a divulgação em massa da mensagem #ficaemcasa, jovens indo às compras para os mais velhos, a distribuição de alimentação para caminhoneiros nas estradas e o número significativo de quase 16 mil voluntários no estado do Rio de Janeiro inspiram-nos a acreditar num futuro mais solidário. Ainda assim, a onda do vírus vai passar e, na busca por alternativas que preencham a lacuna deixada pela tragédia, poderemos nos deparar com soluções que auxiliem a reinventar novos padrões de comportamento. Nesse contexto, é indispensável a proposta de Sua Divina Graça A.C. Bhaktivedanta Swami Srila Prabhupada, de oferecer ao mundo o modelo de “vida simples e pensamento elevado”, baseado na sabedoria atemporal de Krishna, o eterno benquerente de todas as entidades vivas. Sem nenhuma sombra de dúvidas, promovermos o conhecimento espiritual mais elevado, o canto do santo nome de Deus, diante das perplexidades, é a decisão mais lúcida a ser tomada, pois a única maneira de, verdadeiramente, ser livre, saudável e feliz é reconectando o elo rompido entre o ser e Deus em Sua plenitude, presente em todas as espécies de vida que coexistem no planeta Terra. Om Tat Sat.

Dhira Chaitanya Dasa é discípulo de Chandramukha Swami. Graduado em Letras, é professor em cursos pré-vestibular e membro do corpo docente do Instituto Bhaktivedanta de Estudos Védicos. É casado e reside no Ashram Vrajabhumi.

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