Esperança, o Fundamento da Vida

esperançaVisakha Devi Dasi

Para garantirmos a saúde de nosso progresso espiritual, temos que transformar a esperança material em esperança espiritual.

Esperança, o reconhecimento dentro do coração humano de que algo melhor é obtenível, pode significar a diferença entre a vida e a morte. No livro Em Busca de Sentido, o sobrevivente do holocausto Victor Frankl escreve que o índice de mortes no campo de concentração cresceu após o Hanucá, muito embora não tenha acontecido nenhuma mudança nas condições já horrendas do campo de concentração. Por que mais pessoas morreram? Porque, todos os anos, eram espalhados rumores de que os prisioneiros seriam libertos na época do festival sagrado, e, quando não eram, os prisioneiros perdiam a esperança, seu sistema imunológico enfraquecia e eles sucumbiam a alguma doença fatal. O que os mantinha vivos era a esperança – e, quando a esperança partiu, eles morreram.

Frankl escreve: “Ai daquele que não via mais sentido na vida, mais nenhuma meta, nenhum propósito e, portanto, nenhum motivo para seguir em frente. Ele logo se perdia…”.

Victor FranklVictor Frankl, sobrevivente do holocausto e autor de Em Busca de Sentido.

Similarmente, em seu estudo seminal Sobre a Morte e o Morrer, Elizabeth Kubler-Ross escreve: “Se um paciente para de expressar esperança, tal atitude é, frequentemente, um sinal de morte iminente. Eles talvez digam: ‘Doutor, acho que é isso’ ou ‘acabou’ ou podem se expressar como o paciente que sempre acreditou em um milagre e, um dia, nos recebeu no quarto com as palavras: ‘Acho que morrer é o milagre para o qual estou pronto agora, e não temo mais.’ Todos esses pacientes morreram dentro de vinte e quatro horas.”

Por natureza, destinamo-nos a sermos esperançosos, mas esperançosos em relação ao quê? Esperanças são de muitos tipos, mas podem ser classificadas, de modo amplo, em dois tipos: espiritual e material.

Esperança Espiritual

Rupa Gosvami, praticante de bhakti-yoga do século XV, descreve esse tipo de esperança como asa-bandha (“vínculo de esperança”). O sujeito pensa: “Como estou dando o meu melhor em seguir os princípios rotineiros do serviço devocional, eu, de uma maneira ou outra, conseguirei me aproximar do Senhor e certamente receberei Seu favor. Sem dúvidas, irei de volta ao lar, de volta ao Supremo.”

Na disposição de asa-bandha, o devoto de Deus pensa: “Não nasci em uma boa família, não fiz boas obras, não tenho nenhum conhecimento acerca de Deus nem O amo, tampouco tenho atração pelos processos de ouvir sobre ele, falar sobre ele e me lembrar dEle, o que desenvolveria esse amor. Apesar de tudo isso, quero me aproximar dEle. E esse próprio querer me entristece, porque sou completamente desqualificado para tal. Em termos de justiça, meu caso não tem esperança alguma; tudo o que tenho são deméritos. Então, busco minha fortuna na misericórdia do Senhor.”

Em outras palavras, com esperança espiritual, o devoto diz ao Senhor: “Vim a Você. Se existe alguma possibilidade para isso, me salve.”

O Srimad-Bhagavatam (5.5.15) declara: “Se alguém é sério quanto a ir de volta ao lar, de volta ao Supremo, ele tem que considerar a misericórdia da Suprema Personalidade de Deus como o summum bonum e a principal meta da vida.”

Esperança Material

No nono capítulo da Bhagavad-gita, Krishna usa a palavra moghasa. Mogha significa “frustrado”, e moghasa se refere a pessoas frustradas em suas esperanças. Mais adiante, no capítulo dezesseis, o Senhor fala de asa-pasa, ou indivíduos presos a uma rede (pasa significa rede ou qualquer outra armadilha) de centenas de milhares de esperanças ilusórias e absortos na luxúria e na ira. Esperanças ligadas a qualquer tipo de ganho material, seja fama, fortuna, poder, sucesso ou relacionamentos, são como forcas em torno do pescoço da alma.

Em Seu diálogo com Arjuna.jpgEm Seu diálogo com Arjuna, Krishna critica esperanças ilusórias, como a esperança de que o corpo nunca morra.

Nós nos destinamos à esperança espiritual, mas, desorientados pela vida material, nossas esperanças agora são materiais, em decorrência do que nos sujeitamos a ondas de insatisfação. Quem cultiva esperanças no âmbito material, Krishna diz, ficará ansioso e infeliz, e será assaltado por problemas – em uma palavra, se frustrará.

Para nos libertarmos da cilada da esperança material, é preciso transformarmos nossa esperança, mudando da matéria para o espírito.

Para Transformar a Esperança: Aceite a Vontade do Senhor

No Srimad-Bhagavatam, Maharaja Dhrtarastra, o idoso e irresoluto ancião da dinastia Kuru, exemplificou o processo de abandonar a esperança material. Depois que todos os seus filhos foram mortos na Batalha de Kurukshetra, Dhrtarastra estava vivendo às custas de seus cinco sobrinhos, conhecidos como “os Pandavas”, os quais ele tratara de maneira muito desonrosa por muitos anos. Foi o sábio Vidura, meio-irmão de Dhrtarastra, quem redirecionou a esperança de Dhrtarastra dos confortos corpóreos para a aquisição espiritual.

Vidura disse: “É a Suprema Personalidade de Deus, como o tempo eterno [kala], que se aproximou de todos nós. Quem quer que esteja sob a influência do supremo kala tem que entregar sua queridíssima vida, e o que dizer de outras coisas, como riquezas, honra, filhos, terras e lar.” (Srimad-Bhagavatam 1.13.19-20)

vela pagada“Quem quer que esteja sob a influência do tempo supremo tem que entregar sua queridíssima vida, e o que dizer de outras coisas, como riquezas, honra, filhos, terras e lar.”

Assim, o primeiro passo para transformarmos a esperança é vermos que Krishna, na forma do tempo, levará de nós tudo o que é material. Dentro deste universo, nada nem ninguém pode deter o curso do tempo. Materialmente, não há chance para nossas esperanças: Pelo trânsito natural de tudo, velhice e morte chegarão para cada um de nós. Mediante o conhecimento de nossa identidade eterna como humildes servos de Deus, nós, pela graça dEle, podemos gradualmente parar de investir nossa esperança em coisas destinadas a perecer.

Desapegue-se

Com conhecimento sólido de nossa identidade eterna, os desejos materiais terão cada vez menor apelo, em virtude do que as esperanças materiais, que surgem dos desejos materiais, enfraquecem. Poderemos sentir nossa inteligência pacificar-se, e nossas prioridades, rearranjarem-se. O desapego nos liberta da escravidão a coisas que passamos a ver como banais e da preocupação com o passado e o futuro. Nós aceitamos a misericórdia de Krishna em qualquer forma que ela assuma.

Vidura se vale de palavra fortes para ajudar Dhrtarastra a se tornar desapegado: “Você é cego desde o nascimento e, recentemente, tornou-se parcialmente surdo. Sua memória está encurtada, e sua inteligência, confusa. Seus dentes estão bambos, seu fígado está doente, e você tosse com muco. Ai! Como são poderosas as esperanças de um ser vivo por continuar com sua vida… Apesar de sua relutância a morrer e seu desejo de viver até mesmo a custo de sua honra e prestígio, seu corpo miserável por certo definhará como um traje velho.” (Srimad-Bhagavatam 1.13.22-25)

A alma é eterna, e, portanto, todos têm um ímpeto natural em relação a evitar a morte. Dhrtarastra não era exceção. Ele queria continuar sua vida com conforto, mas o corpo, sendo material, não vive indefinidamente. A responsabilidade de Dhrtarastra, como é a nossa, era usar o corpo, a mente e a inteligência para avançar no âmbito espiritual. A forma de vida humana é uma chance para a autorrealização e para voltarmos ao lar, voltarmos ao Supremo, e não para nos esforçarmos, com uma fala esperança, por ficar interminavelmente no mundo material. Srila Prabhupada, o fundador do Movimento Hare Krishna, comenta: “Cinco mil anos atrás, havia um Dhrtarastra, mas, no momento presente, há Dhrtarastras em todas as casas.” A maioria das pessoas se mantém apegada a buscas bruxuleantes e vazias e negligencia a oportunidade que o nascimento humano propicia.

Confiança no Senhor

Depois de aceitar a vontade do Senhor e nos desapegarmos de nossa situação material (enquanto continuamos cumprindo nosso dever), o próximo passo para transformarmos a esperança é confiarmos em Krishna.

Se não confiarmos em Krishna, mas, sim, em algo material, transformando tal coisa em um ancoradouro de esperanças, nós, cedo ou tarde, nos desapontaremos profundamente. Nada material vale a nossa esperança, pois nada material pode nos levar além da esfera material, que é para onde ansiamos ir. Confiar em algo material (incluindo nossa própria inteligência e nossas próprias capacidades) significa que a dádiva que Krishna nos deu para O alcançarmos – a esperança espiritual – não está em uso.

Se confiarmos em Krishna, teremos confiança em Seus ensinamentos. Pela graça dEle, compreenderemos que somos seres espirituais diminutos, completamente dependentes dEle, e desejaremos servi-lO, bem como servir Seus servos, mais do que queremos qualquer outra coisa.

Por meio de suas palavras incisivas, Vidura evoca essa confiança no coração de Dhrtarastra: “É certamente um sujeito de primeira classe aquele que desperta e compreende, quer por si mesmo, quer graças aos outros, a falsidade e miséria deste mundo material e, então, deixa seu lar e depende por completo da Personalidade de Deus, que reside em seu próprio coração.” (Srimad-Bhagavatam 1.13.27)

Independente de onde estejamos, não estamos sozinhos. A Suprema Personalidade de Deus está conosco e pode proteger Seus devotos sinceros independente das circunstâncias em que estejam. Em qualquer lugar, podemos ouvir e cantar os santos nomes de Deus, falar sobre Ele e buscar a companhia de Seus devotos. Em proporção à nossa sinceridade, a esperança espiritual desperta.

Fé Fortalecida

Dhrtarastra partiu para a floresta acompanhado por sua esposa, Gandhari, e por Vidura, que fortaleciam a fé de Dhrtarastra em Deus. A fé é, nas palavras do biógrafo e poeta Krishna Dasa Kaviraja, “confiança inabalável em algo sublime.”

A Svetasvatara Upanisad (6.23) declara: “Apenas àquelas grandes almas que têm fé absoluta tanto no Senhor quanto no mestre espiritual é que todos os significados do conhecimento védico se revelam automaticamente.”

Quem possui fé sabe que, por servir o Senhor, tudo se completa. Toda alma se destina a prestar algum serviço a Krishna, e a fé nos permite nos atermos a esse serviço apesar de todos os impedimentos. A fé inspira esperança espiritual no coração. Vivemos com a expectativa de que, apesar de nossas incapacidades, podemos voltar ao lar, voltar ao Supremo. Vivendo com essa esperança, aceitamos as coisas que não podemos mudar, sabendo que existe uma razão para tudo isso, e que, em última instância, a pessoa que controla tudo, Krishna, é nosso benquerente e o amigo mais querido.

Com essa esperança produto de reflexão, experimentamos a misericórdia de Krishna em nossa vida. “Assim, por sua determinação resoluta, Dhrtarastra, firmemente convencido por conhecimento introspectivo, imediatamente partiu de casa para se estabelecer no caminho da libertação, como orientado por seu irmão mais novo, Vidura.” (Srimad-Bhagavatam 1.13.29)

A esperança se transforma de material para espiritual em consequência de nos darmos à companhia dos sadhus, ou devotos puros do Senhor. Srila Prabhupada comenta: “Não nos constrange admitir que esse fato foi experimentado em nossa vida prática pessoal. Se não tivéssemos sido favorecidos por Sua Divina Graça Srimad Bhaktisiddhanta Sarasvati Gosvami…, poderíamos ter nos tornado um grande magnata dos negócios, mas jamais poderíamos ter trilhado o caminho da libertação e nos ocupado verdadeiramente a serviço do Senhor.” (Srimad-Bhagavatam 1.13.29, comentário)

Na canção Sri Guru-vandana (“Oração a Sri Guru”), Srila Narottama Dasa Thakura utiliza a palavra asa duas vezes.

guru-mukha-padma-vakya,
cittete koriya aikya,
ar na koriho mane asa
sri-guru-carane rati,
ei se uttama-gati,
je prasade pure sarva asa

“Minha única esperança é ter minha consciência purificada pelas palavras que emanam de sua boca de lótus. O apego a seus pés de lótus é a perfeição que satisfaz todas as minhas esperanças por progresso espiritual”. Comentando sobre esse verso em variadas ocasiões, Srila Prabhupada disse: “Se você quer de fato progredir, então você tem que ter fé firme nos pés de lótus do guru…” (Filadélfia, 1975) “Temos simplesmente que obter instruções do guru, e se as cumprirmos com nosso coração e alma, isso será sucesso. Isso é prático.” (Los Angeles, 1975) “Se alguém obtém um guia apropriado e de boa razão, isso é felicidade. De outro modo, não existe felicidade.” (Vrindavana, 1977)

Por ouvirmos o mestre espiritual fidedigno, como Dhrtarastra ouviu Vidura e como Srila Prabhupada ouviu Srila Bhaktisiddhanta, aprendemos acerca da posição dignificada da alma, isto é, nossa própria posição, em consequência do que os encantos mundanos se tornam fantasmagorias. Nós nos damos conta de que tudo isso são algemas. Presos por elas, em falsas esperanças, levamos uma vida triste, unidimensional e cheia de privações, problemas pessoais e desarmonia. Amarrados pelos pulsos e tornozelos por compulsões, ilusões e idiossincrasias, nunca fazemos o que realmente queremos fazer, mas somos movidos unicamente pelos ditamos do medo, da inveja e da raiva.

Dhrtarastra, preso nas ciladas de política, luxúria e apegos familiares, tentou ser bem-sucedido materialmente, mas se frustrou por completo. Porém, pelas instruções poderosas de Vidura, um elevado devoto de Krishna que evocou a fé de Dhrtarastra, Dhrtarastra obteve sucesso na autorrealização. Devotos como Vidura não apenas quebram as algemas da afeição mundana, mas também nutrem os laços espirituais que nos levam para o Senhor.

O Resultado

Por aceitarmos a vontade do Senhor, tornando-nos materialmente desapegados, confiando no que Ele faz, usando nosso livre-arbítrio para nos ocuparmos a Seu serviço. Ampliando nossa fé nEle, estamos semeando e nutrindo as experiências que trazem a esperança. Pouco a pouco, simplesmente desejaremos aprimorar nosso serviço ao Senhor. E, embora possamos ser desqualificados de tantas maneiras, temos a confiança de que, de um modo ou outro, seremos espiritualmente exitosos. A esperança espiritual nos permite utilizarmos as coisas para seu propósito verdadeiro, isto é, como meios para nos levarem a Krishna. Vivermos com esperança espiritual é vivermos no presente, sempre inspirados pelo futuro. É vivermos com o sentimento de que, por nos rendermos a Krishna, teremos tudo que sempre quisemos. Quando nossa esperança está em Krishna, estamos livres das desorientações que surgem de uma esperança centrada em luxúria e cobiça, e nos vinculamos à Pessoa Suprema, aquele que pode nos levar para um reino além de tudo que poderíamos imaginar ou esperar.

Dhrtarastra ocupou-se em yoga, controlou sua mente e seus sentidos, e libertou-se dos pensamentos atinentes a afeições familiares mundanas. Ele “voltou seus sentidos em direção à Absoluta Personalidade de Deus e, assim, ficou imune às contaminações dos modos da natureza material, a saber, bondade mundana, paixão e ignorância.” (Srimad-Bhagavatam 1.13.54)

Fixando nossa mente no Senhor, nossas esperanças mundanas certamente abrandam. Conforme as palavras do mestre espiritual comecem a nos tocar de forma pessoal e íntima, trazendo convencimento, a distância entre Krishna e nós se encurta gradualmente. A esperança espiritual nos prepara para experimentarmos coisas divinas. Por seus mistérios, possuímos a promessa de amor de Krishna, independente do que possa acontecer.

Essa esperança é a diferença entre vida espiritual e morte espiritual.

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