Existe Vida após a Autorrealização

23 Existe Vida após a Autorrealização (Artigo - Teologia)

Hridayananda Dasa Goswami

Afinal, como é a vida, ou a “não vida”, fora do ciclo de nascimentos e mortes?

Autorrealização significa tornar-se uno com Deus, ou não? É comumente aceito que há vida após a morte, que reencarnamos, e que, se entendermos isso, somos, então, libertos. Porém, muitas perguntas permanecem: O que é isso que se espera que entendamos? Quando libertos, para onde vamos? Existe vida após a libertação? Tornar-se uno com Deus é o melhor possível, ou existe algo ainda mais aprazível, além da bem-aventurança impessoal (brahmananda)?

A primeira coisa que me ocorre é que, em última análise, todos são o centro da sua busca pessoal pela autorrealização. O conceito de autorrealização – onde estamos tentando chegar – dependerá da nossa atitude em relação a nós mesmos, pois, como sabemos a partir da Psicologia, as pessoas têm uma gama de diferentes atitudes em relação a si próprias.

Gostaria de trazer para a discussão um pouco de antropologia linguística analisando uma maneira bastante comum de se falar hoje em dia, que é dizer: “Eu me identifico com isso”. É muito interessante, pois o que está sendo negociado nesse tipo de fala é a nossa identidade. As pessoas estão, em geral, tão profundamente encerradas em seus próprios tempo e lugar que às vezes é difícil se distanciarem de modo a examinar objetivamente seus momentos particulares na História. Em eras anteriores, não se falava dessa maneira. Por exemplo, se analisarmos a literatura inglesa do século XIX, veremos que as pessoas não “identificavam-se com algo”, pois tinham uma identidade fixa, ao invés de, em um piscar de olhos, terem uma experiência súbita que alterasse sua identidade e sua autocompreensão.

Quando usamos esta frase bastante comum, “eu me identifico com algo”, podemos não pensar sobre isso, porém existe algo por trás desse uso da linguagem, a saber, que a nossa identidade tornou-se muito fluída na atualidade e que nosso autoentendimento está em constante fluxo. Suponha que, certo dia, durante um passeio, víssemos algo com o que pudéssemos nos identificar – isso poderia de fato alterar, de alguma forma, a nossa identidade e autocompreensão. Em última instância, quem somos, com o que deveríamos nos identificar e o que isso significa? Como e por que existimos? Tudo isso são questões filosóficas para as quais as pessoas têm muito pouco tempo hoje em dia, pois a vida acelerou-se demais.

Noto que o mundo consumista moderno está hidroplanando intelectualmente, assim como um barco que se move muito rapidamente e fica com a proa acima do espelho d’água. Se analisarmos a Inteligência Artificial, de acordo com toda ciência e filosofia, não existem máquinas conscientes. A verdade, no entanto, é que o ritmo e a qualidade de vida são poderosamente impactados, transformados e até governados pela tecnologia que criamos, como nessa temática de filme muito popular em que as máquinas assumem o controle – Matrix, Blade Runner, 2001: Uma Odisseia no Espaço. No momento atual, a vida segue tão depressa que se tornou fisiologicamente impossível pensar profundamente na maior parte do tempo.

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A vida tornou-se tão acelerada e está se movendo tão depressa que as pessoas praticamente não conseguem pensar.

Digamos, por exemplo, que uma pessoa esteja correndo com muita pressa porque está atrasada, momento no qual alguém lhe pergunta: “Posso ler para você o meu último poema?”. E ela responde: “Não posso pensar nisso agora, estou com muita pressa!”. Quando uma pessoa diz: “Não posso pensar nisso agora”, trata-se, de fato, de uma verdade fisiológica, a saber, que ela realmente não consegue centrar-se em algo profundamente. A vida tornou-se tão acelerada e está se movendo tão depressa que as pessoas praticamente não conseguem pensar; não porque não queiram, mas simplesmente porque não é possível. Hoje em dia, tenho notado que, na autorrealização, as pessoas tendem a buscar por chavões ou imediatismos: “Dê-me alguma coisinha que eu possa fazer durante dois minutos por dia para me sentir bem comigo mesmo”.

Há outro ponto que eu gostaria de levantar: o efeito das leis sobre a consciência. Embora nos orgulhemos do individualismo e de sermos livres para pensar, na verdade existe uma conexão psicológica bastante poderosa entre a regra das leis e o que se pensa sobre a realidade. Embora tenhamos uma sociedade secular, na qual não existe oficialmente uma Igreja Nacional; quando somos governados por um conjunto de leis, muitas pessoas tendem a identificar a situação jurídica com a realidade. Explicarei o que quero dizer com isso.

No livro O Chamado Selvagem, de Jack London, Buck é metade cachorro e metade lobo, e está sendo treinado por um homem anônimo e sem face que porta um cajado. Ele é um domador profissional de cães, e treina Buck para puxar um trenó. Se ponderarmos sobre a consciência de um animal, quem o doma se torna seu amo. Há um sentido no qual somos governados e estamos sob o poder das leis, mesmo se, em alguma medida, ainda sustentarmos a ideia de sociedade democrática – “do povo, pelo povo”. Ainda que poderes sejam atribuídos a alguém; quando “toda a poeira abaixa”, existe um governo acima de nós, que é bem mais poderoso do que qualquer um individualmente. Se a luz vermelha da sirene do carro da polícia estiver piscando no retrovisor, alguém pode tentar fugir, mas provavelmente encostará o seu veículo.

Para a maioria de nós, todo esse poder a nos governar e controlar tem um efeito psicológico e altera dramaticamente nosso sentido de realidade. Há um exemplo forte, agressivo e memorável em relação a isso: todas as pessoas altamente cultas e civilizadas da Alemanha nazista que pensavam que era certo fazer certas coisas porque era a lei. A propósito, antes da Primeira Guerra Mundial, a Alemanha era o país mais poderoso, rico e culto da Europa, o que não impediu todas as atrocidades lá ocorridas.

Outro exemplo foi o movimento existencialista, tão grande no século XX, que começou com Jean-Paul Sartre em reação à ocupação nazista do seu país, a França. Ele estava chocado e revoltado por ver como muitos franceses colaboravam quase além da necessidade com seus invasores, não para salvarem suas vidas ou evitar uma represália violenta, mas para conquistarem posições sociais, serem bem-sucedidos ou ganharem alguns trocados a mais. Sartre observou e rastreou isso a uma crescente tendência em direção ao determinismo psicológico. A ideia é que, dada a maneira e condições nas quais a pessoa foi criada, e certas coisas que lhe aconteceram, ela não consegue evitar ser de determinado jeito. Portanto, não há nada de errado com essa pessoa, pois ela foi vitimada e não tem culpa. Figuras como Freud despertavam especial interesse em Sartre, que discordou desse determinismo psicológico e disse que as pessoas são de fato moralmente responsáveis por suas ações.

Não quero ir longe demais, porém gostaria de mencionar esses tópicos gerais de como nos tornamos psicologicamente afetados pelas nossas leis. Nos Estados Unidos e no Brasil, mesmo em comparação com a Europa ocidental e outras partes do mundo, a liberdade religiosa sempre foi preconizada, o que é algo muito bom. E isso persiste com muita consistência, sem que se tenha em momento algum que discutir em um tribunal se as pessoas realmente têm liberdade religiosa, se todos de fato têm o direito à sua própria crença. Gradualmente, a religião foi definida até mesmo como não necessariamente uma crença teísta. Em outras palavras, não apenas crer em Deus é religião, senão que qualquer tipo de crença está inclusa na categoria de religião, e todas são iguais.

Eis onde quero chegar: essa situação jurídica, a qual julgo ser bastante positiva, conduziu a um relativismo metafísico irrefletido, o qual considero ser menos positivo. O que quero dizer com isso é que a estrutura jurídica onde todos têm direito à sua própria crença – o que, insisto, é muito bom – conduziu à disposição filosófica de que qualquer crença em particular não é melhor do que outra. Se algo é eficaz para um indivíduo, isso é o melhor para ele; e se outra coisa é eficaz para outrem, isso é o melhor para esse sujeito.

O relativismo jurídico conduziu ao relativismo filosófico. Acho que há alguns problemas nisso. Um deles é que, se isso for verdade, vivemos em um universo muito assustador, porque significa que habitamos um lugar no qual não existe uma verdade. Em outras palavras, o universo passa a ser quase solipsístico, onde as pessoas não podem ir além das suas próprias mentes: o que quer que percebamos, que vejamos como realidade, está apenas em nossa mente; estamos todos presos em nossos próprios processos mentais e não podemos acessar um mundo objetivo, que existe além de nós mesmos. Não acho que esse seja um ótimo cenário. E isso não é o que acreditamos. Realmente cremos que algumas coisas são certas e erradas. Por exemplo, se víssemos alguém oprimindo uma pessoa inocente ou abusando dela, isso nos ultrajaria e consideraríamos ser errado.

Isso significa que acreditamos que, além de coisas físicas, há certas coisas não-físicas, ou metafísicas, que realmente existem no universo – como certo e errado. Não acho que queiramos nos comprometer com a alternativa de dizer que se pode fazer tudo o que se queira com qualquer um – estuprar, matar –, pois não é errado. Acho que todos nós entendemos que alguns atos realmente são errados e que não devemos perpetrá-los contra as outras pessoas nem contra nós mesmos. Se compreendemos isso, estamos comprometidos com um universo no qual existem coisas objetivas e reais que não são materiais.

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Autorrealização não é apenas algo como ir a uma reunião para escutar alguma coisa que talvez faça nos sentirmos bem em relação a nós mesmos.

Quero fornecer alguns antecedentes históricos, pois vejo questões como essas. Autorrealização não é apenas algo como ir a uma reunião para escutar alguma coisa que talvez faça nos sentirmos bem em relação a nós mesmos. Entendo que, além disso, temos que nos localizar na História, porque todos nós temos uma obrigação histórica. Talvez não a reconheçamos nem a cumpramos, porém, quando olhamos para épocas anteriores na História, às vezes dizemos: “Por que as pessoas não entenderam? Por que fizeram isso? Por que não perceberam?”. Devemos, portanto, localizar-nos na História.

Mesmo a nossa autorrealização não é uma atividade privada, mas algo que fazemos na Terra e que afeta outras pessoas. Não me aprofundarei, mas é suficiente dizer, como já sabemos, que a civilização ocidental, há algum tempo, passou por muitos séculos de fanatismo religioso quase inimaginavelmente brutal e violento. Não me debruçarei sobre isso, mas aconteceu. E esse tipo de comportamento em nome de Deus – na Europa e em muitas outras partes do mundo – traumatizou não apenas os indivíduos diretamente envolvidos, senão que causou um trauma histórico coletivo. Quando um grande número de pessoas é torturado, queimado vivo, e quando há guerras insistentes devido a pontos sutis de teologia, nas quais imenso número de pessoas é morto, tudo isso realmente traumatiza não somente indivíduos, mas uma civilização inteira.

Acho que é chegado o momento, enquanto civilização ocidental, no qual temos que reconhecer que estamos sofrendo de “Distúrbio do Estresse Pós-Traumático” em um amplo nível coletivo, histórico e civilizacional. Um dos sintomas desse distúrbio é que, em circunstâncias normais, uma atividade que seria encarada como saudável, produtiva e criativa é vista por muitas pessoas na civilização ocidental como perigosa, vil e inapropriada, a saber: discutir abertamente e às vezes até debater ideias espirituais.

Proponho uma pergunta interessante: se tudo o que conhecêssemos de religião na Terra fosse sobre aquelas da Ásia – hinduísmo, budismo etc. –, seria um clichê em nossa civilização dizer que a religião tem sido praticamente a principal causa de violência no mundo? Talvez não fosse um clichê e as pessoas não dissessem isso tão frequentemente. Em outras partes do mundo, como na Índia, por exemplo, ocorreram muitos fatos históricos interessantes. Há uma tradição muito vigorosa de debate espiritual filosófico, no qual, em sua maioria, com raras exceções, as pessoas não se matavam. Com efeito, se estudarmos os antigos textos sânscritos da Índia – Mahabharata, Ramayana, Bhagavata Purana –, eles não tinham a religião como a conhecemos, no sentido de que não existiam órgãos corporativos sectários, senão que havia uma cultura geral que compartilhavam.

As pessoas defendiam pontos de vista diferentes e às vezes os debatiam, mas segundo o que eu chamo de “inclusivismo com princípios”. As pessoas eram inclusivas no sentido de que pressupunham que qualquer um que alegasse adorar a Deus provavelmente o estaria fazendo. Afinal, se estivermos chamando por Deus, Ele sabe que está sendo chamado – até onde nos consta, Deus não é burro. Se o filho estiver chamando os pais, eles não dirão: “Desculpe, filho, você não me chamou pelo nome adequado, então não responderei. Na verdade, não o reconheço e não sei por quem você está chamando”. Não é assim! Os pais sabem quando seus filhos lhes estão chamando. Não é relevante em qual língua chamemos por Deus ou em qual tradição estejamos inseridos, senão que, se O estivermos chamando, Ele sabe. No Rig-Veda, praticamente o livro mais antigo do mundo, Deus é denominado puru-huta, que significa que Ele é invocado de muitas maneiras por diferentes nomes.

Remontando às mais antigas camadas da civilização védica, havia uma generosidade de espírito liberal, reconhecendo a presença de Deus em muitos lugares. Contudo, doutrinas, alegações ou proposições sobre Deus eram aceitas com base em preceitos racionais. Por exemplo, existe o princípio da consistência interna. Se dissermos que Deus é infinitamente bondoso e misericordioso, é inconsistente com essa afirmação dizer que Ele torturará eternamente Seus próprios filhos por causa de uma atividade mental, “crimes de pensamento” – não crer em uma doutrina em particular –, como às vezes se alega. Com efeito, Anselmo, há cerca de mil anos, na Europa, e Rupa Gosvami, um grande santo da tradição indiana, por volta de 500 anos atrás, propuseram ambos o mesmo argumento: uma vez que Deus é infinitamente grandioso, a concepção mais elevada dEle é a mais verdadeira. Esse é o exemplo de um princípio inclusivo, pois não rejeita ninguém; não fala sobre “o Deus morto e o Deus vivo”, “religiões falsas e religiões verdadeiras”, senão que procura emparelhar princípios racionais na avaliação de alegações competitivas em vez de insistir dogmática e aprioristicamente em um relativismo metafísico absoluto. Ou seja, qualquer alegação sobre assuntos espirituais é relativa, não existe afirmação espiritual que seja objetivamente verdadeira, há somente opiniões, e, em última análise, todas as verdades espirituais podem ser reduzidas a estados psicológicos. Em outras palavras, o único propósito de qualquer processo espiritual é apenas fazer a pessoa se sentir bem consigo mesma. Em razão disso, a espiritualidade não tem a sua própria integridade, validade ou objetividade; ela é verdadeira ou falsa unicamente enquanto sirva às necessidades psicológicas de alguém. Não estou dizendo que isso seja verdade. De fato, não acho que seja.

No estado espiritual mais elevado, estaríamos plenamente satisfeitos, e essa seria a situação mais feliz e gratificante em que poderíamos estar. Entretanto, não podemos dizer que seja o melhor qualquer coisa imediatamente prazerosa, porque, como sabemos, em um bom exercício físico, às vezes temos que nos esforçar bastante. Se dissermos que somente atividades que de imediato produzem a maior gratificação são válidas, jamais nos exercitaríamos, treinaríamos ou faríamos qualquer coisa com diligência e paciência.

“O que é isso que se espera que entendamos? Quando libertos, para onde vamos? Existe vida após a libertação?”. Em resposta a essas perguntas, proclamarei que certos fatos são objetivamente verdadeiros baseado em uma antiga tradição de yoga, logo espero que ninguém pense que sou um inquisidor por fazer isso. “Onde gostaríamos de estar para sempre” é o conceito de libertação. Digamos que nos seja possível existir perpetuamente. Dado um cardápio, em qual estado gostaríamos de existir eternamente? Se analisarmos as tradições espirituais por todo o mundo – tanto na grande tradição vedantista do yoga na Índia quanto nas manifestações mais filosóficas do cristianismo, judaísmo, islã e budismo –, quase não importa qual religião se analise, verificamos que existe uma divisão entre duas maneiras de pensar sobre como podemos existir para sempre, e encontramos duas opções.

A primeira opção é o impersonalismo. Nessa opção, são falsas as sensações, os sentimentos e as crenças de que somos indivíduos, sementes individuais de consciência, de que temos livre-arbítrio, emoções e pensamentos próprios, espaço particular dentro de nós etc. Contrariando uma sensação muito forte – aliás, a mais poderosa que temos – e tudo o que nos parece mais óbvio; segundo essa forma de pensar, não somos pessoas, pois isso é uma ilusão. Ironicamente, não podemos dizer “você está em ilusão” porque “você” não existe, nem podemos dizer “isto está em ilusão” porque não somos “isto”, um objeto. Também é muito difícil falar sobre como entramos em ilusão, pois assumindo que, quando nos iluminamos, ou melhor, quando “aquilo que pensávamos que éramos nós” se torna iluminado, a essa altura há somente uma Realidade, uma Verdade. E não podemos dizer que somos parte dEla, porque Ela não tem partes – se as tivesse, não seria a Unidade Perfeita. Como a Verdade Única de alguma forma acabou tão desconcertada que há bilhões de pessoas no mundo, todas convencidas de que são pessoas individuais, e de alguma maneira estão em ilusão, precisando ir ao centro monista mais próximo a fim de se desfazerem dessa ilusão de ser uma pessoa? Como isso aconteceu com o Uno? Porque se existe a Verdade Una em ilusão, então são duas coisas: a Verdade Una e a ilusão. Porém, eles dizem que “nós” estamos em ilusão, mas “nós” não existimos, tampouco existe a ilusão. Encontramos este sistema de pensamento em todas as religiões do mundo entre certos místicos e pensadores. É muito difícil falar sobre isso, pois é muito contraditório. Portanto, frequentemente eles dizem que não se pode expressar com palavras. Enfim, estou tentando ser imparcial, mas é desafiador.

A segunda forma de pensar, que também encontramos em todas as tradições espirituais do mundo entre os pensadores que a propagaram, é o personalismo. Somos realmente pessoas: você é você, eu sou eu e todos são si próprios. Na verdade, é maravilhoso ser uma pessoa. A melhor coisa que poderia acontecer é sermos uma pessoa, existirmos. O problema é que nos equivocamos quanto a nós mesmos. Se nos entendermos apropriadamente, poderemos ter uma vida pessoal perfeita para sempre – é apenas uma questão de conhecimento. De acordo com essa explicação, se perguntarmos como viemos a este mundo e por que estamos em ilusão, a resposta é: porque existem duas abordagens básicas na vida, e escolhemos a errada. Os dois movimentos psicológicos, ou emocionais, básicos na vida são dar e receber. É muito simples: Quando damos, estamos realmente sendo nós mesmos, e quando recebemos, no sentido de tentarmos desfrutar egoisticamente, estamos, na verdade, esquecendo-nos de quem somos.

Para servir de exemplo, Krishna diz no Bhagavad-gita (3.16) um verso que eu acho dos mais poéticos: “Uma roda foi posta a girar (evam pravartitam cakram), e quem não a mantém girando (nanuvartayatiha yah) é aghayur”. A palavra sânscrita ayur significa “duração de vida”. Assim, Krishna diz que toda a duração de vida de uma pessoa que não mantém essa roda girando é uma ofensa contra o universo. São palavras um pouco fortes. É uma ofensa porque “semelhante pessoa vive para gratificar seus próprios sentidos (indriyaramo) e, assim, sua vida é em vão (mogham partha sa jivati)”.

A pergunta aqui é: qual é o nosso relacionamento uns com os outros e com a matéria? Claramente existe diferença entre algo vivo e algo não-vivo. Se eu pegar um pedaço de papel, ninguém dirá em tom acusatório: “Você está usando esse papel!”, ou “você está usando a sua camisa, cara!”. Porém, se em vez de usar um pedaço de papel, alguém estivesse abusivamente comandando uma pessoa e a tratando como se ela fosse um objeto, talvez alguém dissesse: “Não se pode tratar uma pessoa desse jeito e simplesmente usá-la!”. Se eu me sentasse em uma cadeira agora, ninguém iria se opor. Porém, se eu me sentasse sobre uma pessoa, provavelmente alguém teria um problema quanto a isso, e pensaria: “O que está havendo aqui? Isso é uma piada?”.

O que quero dizer é que existem dois tipos de coisas no mundo: as que não são vivas, ou conscientes, e as que são. O problema é que nos identificamos com o que não é vivo: o corpo. O corpo é algo maravilhoso – não há nada de errado com ele. Somos definitivamente “pró-corpo”, porém temos apenas que entender o que ele é: uma máquina de sofisticação extrema e quase inimaginável. E, apesar de estarmos dentro do corpo, somos algo superior, pois o animamos, o movemos. O corpo está vivo devido à nossa presença dentro dele. Estamos literalmente “animando” o corpo.

Sou do sul da Califórnia, e cresci ouvindo Beach Boys e Jan and Dean, que têm muitas canções de amor para os carros – de onde venho, “você é aquilo que dirige”. Se alguém compra um automóvel e se identifica com ele, sente que, de alguma maneira, tornou-se uma pessoa melhor, porque agora dirige por aí um carro muito impressionante. O mesmo pode acontecer com alguém muito bem vestido com as roupas mais sofisticadas da última moda, que desfila pelo mundo e pensa: “Sou a dádiva de Deus para este planeta devido ao modo como estou vestido”. Obviamente, não somos nosso carro nem nossas roupas! Há claramente algo de muito excêntrico e errado com relação a alguém pensar: “sou uma grande pessoa, afinal, veja o que dirijo” ou “sou uma grande pessoa porque visto roupas incríveis”.

Existe uma analogia ancestral, ou metáfora, que é encontrada nas obras sânscritas mais antigas, a qual diz que, na verdade, o corpo é um veículo e que somos seus passageiros. Evidentemente, devemos cuidar do nosso carro, trocando o óleo e mantendo-o limpo, e não destruí-lo ou negligenciá-lo. Da mesma maneira, devemos zelar, apreciar e ser muito gratos pelo nosso corpo, pois ele é um presente inestimável que nos permite existir neste mundo e buscar conhecimento espiritual. No entanto, o corpo é isto: “um presente para nós”, mas “nós” somos outra coisa.

Quando nos compreendemos como seres espirituais que agora vivem dentro do corpo e o conduzem, temos que fazer estas importantes perguntas: “Em última instância, quem sou eu? De onde vim?”. Há distintamente uma maneira indo-europeia de compreender o eu, em contraste com o que podemos chamar de “uma maneira do Oriente Médio”. Se analisarmos a história da filosofia na Terra – não somente a ocidental –, as tradições sistemáticas e abrangentes de filosofia de fato vêm de dois lugares do mundo: Índia e Europa. Quando o budismo migrou do leste para a China, e para muitos outros lugares, ele o fez dentro de um pacote cultural que incluía uma filosofia sistemática bastante sofisticada. A China certamente possuía tradições de sabedoria, porém, em termos de filosofia sistemática, isso, na verdade, veio da Índia, com o budismo.

Similarmente, a civilização islâmica teve seu ponto alto numa época em que o islã no Ocidente era liberal, cosmopolita e diverso, enquanto a Europa estava na Idade das Trevas. Todavia, mesmo durante a era dourada da filosofia islâmica, eles já haviam descoberto Aristóteles e a filosofia europeia. O cristianismo teve sua teologia e tradição filosófica desenvolvidas não no Oriente Médio, senão que esse aperfeiçoamento se deu quando foi para a Europa. Nessa civilização indo-europeia, a qual realmente produziu as grandes tradições filosóficas do mundo, ocorrera às pessoas que as almas são plenamente eternas, no sentido de que elas sempre existiram. Parmênides, um filósofo que viveu há cerca de 2.500 anos e que exerceu muita influência sobre Platão, ressaltou algo que penso ser muito importante em termos de compreendermos quem realmente somos. Curiosamente, Parmênides era contemporâneo de Buddha – havia gente pensando nessa época…

O ponto que Parmênides ponderou foi que tanto “algo” quanto “nada” são igualmente palavras. Contudo, “algo” se refere a alguma coisa, ao passo que “nada”, não. Se dissermos “nada”, isso não se refere a um objeto real no mundo. Gramaticalmente, podemos dizer a frase “algo veio do nada”, porém não existe um “nada” para que algo surja a partir dele. E podemos dizer que “algo se fundiu no nada e foi aniquilado”, mas não existe um “nada” para “algo” fundir-se nele, pois é isso o que a palavra “nada” significa. Parmênides estava tentando dizer que, se algo existe, sempre existiu. Tome como exemplo uma folha de papel. Ela não existiu sempre. Porém, como diria Aristóteles, outro filósofo grego, a ideia é que existe uma substância (“sub” significa “abaixo”, e “stância” significa “estar”) que se situa sob as aparências. Uma folha de papel figura como tal – branca, fina e retangular –, mas, sob essa aparência superficial, há uma energia que não pode ser criada nem destruída, a qual sempre existiu. Isso é o que a palavra “substância” realmente significa.

Krishna explica no Bhagavad-gita que a energia material é como o gesso, que pode ser modelado em qualquer formato. Podemos molhar, amassar e fazer uma bola com a folha de papel, ou queimá-la, mas a energia ainda existirá, embora possa ser transformada em qualquer coisa e em qualquer formato. Como seres conscientes, entretanto, nós podemos apenas ser cobertos – por exemplo, quando dormimos à noite, ou se tivermos amnésia – e, literalmente, sermos descobertos. Em outras palavras, existe um eu real que jamais pode ser transformado em outra coisa e que é eternamente o mesmo.

Suponhamos, por exemplo, que um diamante caia na lama e alguém o pegue. O que a pessoa vê e toca é a lama. Dentro, no entanto, está o diamante intacto, porém coberto de barro; se for lavado, lá estará o diamante. Comparemos isso com pulverizá-lo, reduzi-lo a pó. Nesse caso, o diamante não existirá mais, somente um pó; ele literalmente se torna outra coisa. Nós somos análogos ao primeiro estado. Estamos cobertos por um corpo, e a nossa consciência se identificou com ele, daí nos enxergarmos como algo material. Na verdade, todavia, somos energia espiritual pura, ou consciência. Não podemos, em tempo algum, sermos outra coisa, nem deveríamos querê-lo, porque isso é o melhor que poderíamos ser. E sempre existimos. Tudo o que existe, sempre existiu. A diferença é que a energia material, como o gesso, pode ser modelada em qualquer formato, enquanto a energia espiritual pode ser coberta e descoberta. Porém, cada ser espiritual é eternamente a mesma pessoa.

De acordo com o Bhagavad-gita (15.7), cada um de nós é parte de Deus, a Consciência Suprema, e a realidade espiritual, que existe, nunca se reduz; ela sempre foi tão extensa quanto é agora. Nunca houve um tempo em que não existíssemos. Não é que existíamos desde o mais remoto passado material e sempre existiremos ao longo do futuro material. Na verdade, como almas, existimos acima do tempo. Se nos identificarmos com nosso corpo e nos considerarmos como sendo materiais, nós nos inserimos psicologicamente nas três divisões do tempo: passado, presente e futuro. Se alguém se identificar com algum time de futebol, ficará afetado emocionalmente. Em última análise, contudo, a pessoa nada tem a ver com isso, pois não há uma conexão eterna entre ela e seu time. Porém, a pessoa pode se identificar psicologicamente e, então, colocar sobre si muitas emoções e o potencial para desapontamento e frustração, ou empolgação material, caso seu time vença. Colocamo-nos na montanha-russa da existência material por nos identificarmos com algo deste mundo. Mas, se não o fizermos, então ficaremos acima dele. Se simplesmente deixarmos fluir e reconhecermos o que realmente somos – seres espirituais, pessoas eternas –, estaremos de fato além do tempo material.

Por que existe um sentido de passado? Porque algo – como a juventude, por exemplo – se perdeu. Quando alguém era jovem, seu corpo tinha determinadas características, que jamais poderão ser recuperadas. O corpo que a pessoa tinha quando era jovem se foi para sempre. O sentido que possuímos de um tempo passado baseia-se em algo ter sido perdido, e o sentido de futuro repousa psicologicamente no fato de que há uma nova configuração material, um novo estado do universo que ainda não chegou (a não-existência). O passado não existe, porque se foi; o futuro não existe, porque não chegou. São as coisas que ou cessaram de existir ou ainda não existiram que nos dão o sentido de um tempo em três fases. Porém, se nos conhecermos na plataforma espiritual, nada se perde em momento algum e não existe algo a ser conquistado, haja vista que, na verdade, temos tudo. Assim, todo o sentido do tempo em três fases entre em colapso. Devemos nos compreender não como existentes a bastante tempo materialmente, mas, sim, como existentes acima de todo o sistema de passado, presente e futuro. Existimos em um espaço eterno, que é livre de perda e incompletude. Portanto, se pudermos ter uma atitude positiva em relação a nós mesmos, compreenderemos de fato o quão perfeito e infinitamente maravilhoso é ser uma pessoa consciente.

E não há limite para a beleza. De onde eu venho, uma grande parte das páginas amarelas destina-se à cirurgia estética. Porém, na realidade, não precisamos disso. Talvez alguém ache que eu precise, mas não farei, pois estou centrado no espiritual. Podemos ser qualquer coisa que queiramos, espiritualmente. Conforme avancemos em nossa autocompreensão, manifestaremos beleza, sabedoria e felicidade ilimitadas. Não há limite para a alma! Impusemos limites sobre nós por nos identificarmos com uma energia que não está viva, consciente. Se realmente nos enxergamos como somos, todas as limitações são removidas, e o crescer e florescer eternos ocorrem no relacionamento com um ser infinitamente consciente e belo.

Existe um mundo espiritual com beleza e harmonia infinitas, no qual todas as coisas boas deste mundo, que é o reflexo de um mundo maior, existem com perfeição. Não devemos desistir de nós mesmos, apesar de qualquer decepção ou incompletude que acaso experimentemos agora em nossa vida. Nosso potencial é infinito. Temos que simplesmente “colocar a mão na massa” para, literalmente, nos descobrir, remover da nossa identidade tudo o que não seja eterno e puro, e nos enxergar como realmente somos. O que restará é uma pessoa perfeita: nós.

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