O Universo de acordo com os Vedas: Entendendo a Desconcertante Cosmologia do Srimad-Bhagavatam (Parte 1 de 3)

 

Chaitanya-chandra Dasa

Uma mesma realidade sob diferentes óticas.

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O quinto canto do Srimad-Bhagavatam, um dos livros mais exaltados dentro das partes dos Vedas que lidam com conhecimento espiritual, oferece uma explicação desconcertante sobre a estrutura do universo. De acordo com essa explicação, o planeta Terra é parte de Jambudvipa, que por sua vez é parte de uma estrutura plana gigantesca que divide o universo ao meio. Na parte inferior, existem mundos subterrâneos, habitados pelos asuras, seres demoníacos, enquanto a parte superior é populada por inúmeras estrelas e planetas, organizados em discos.

Não só isso, mas nosso oceano salgado é apenas o primeiro de uma série de oceanos concêntricos, intercalados com ilhas concêntricas. Para alguém com um pouco de formação científica, essa explicação pode parecer puramente imaginativa, mas se vamos um pouco mais a fundo, ela se revela uma explicação muito complexa, profunda e intrigante.

Antes de tudo, os Vedas também dão uma visão do universo que é muito semelhante à visão científica atual. No Surya Siddhanta, a estrutura do sistema solar é descrita com notável semelhança com a astronomia moderna, com o tamanho, órbitas e distância dos planetas descritos com precisão. De acordo com o Surya Siddhanta, o diâmetro da Terra é de 8000 milhas (enquanto a estimativa moderna é de 7928 milhas), a distância até Marte é 1,54 UA (unidades astronômicas), enquanto a estimativa moderna é de 1,52 UA, e assim por diante. O Surya Siddhanta até mesmo delimita a órbita de Urano, que foi “descoberto” apenas em 1781.

A razão da semelhança é que o Surya Siddhanta explica o universo de acordo com nossa percepção sensorial humana. Como a ciência também se baseia na percepção dos sentidos, não é de admirar que os números sejam muito semelhantes. No entanto, as porções dos Vedas que tratam de temas espirituais, como o Srimad-Bhagavatam e outros Puranas, explicam o universo de acordo à percepção sensorial dos devas, seres mais evoluídos que vivem nos sistemas planetários superiores.

Em outras palavras, eles não descrevem o universo da forma como o experimentamos com nossos sentidos terrenos, mas, sim, da forma como ele é observado por esses seres superiores. Pode parecer estranho que seres diferentes possam ter concepções tão diferentes da realidade, mas isso é algo que pode ser observado mesmo em nosso próprio planeta. Animais carnívoros, como tigres, veem em preto e branco, enquanto vemos em cores. Borboletas podem ver luz ultravioleta, que é invisível para nós, enquanto certos animais não enxergam nada, sendo guiados apenas pelo olfato.

Nosso conceito de realidade é baseado em sinais elétricos que nosso cérebro recebe de nossos olhos, nariz, ouvidos etc. Se uma pessoa recebesse um conjunto diferente de sentidos, ela perceberia a realidade de uma maneira diferente. Em outras palavras, nós entendemos o mundo na medida em que nossos sentidos o permitem. Da mesma maneira que uma pessoa que é completamente cega nunca será capaz de entender o que são cores, as limitações de nossos sentidos nos impedem de ver e entender muitas coisas que são experimentados por seres superiores.

Além das diferenças físicas, há também diferenças de consciência. O conceito de realidade de uma formiga é rudimentar se comparado a um ser humano, por exemplo. Da mesma forma, nosso conceito de realidade é muito limitado se comparado à visão de seres mais evoluídos.

Outra forma de entender isso é que podemos ter, no mesmo ambiente, frequências diferentes de sinais de rádio, como AM, FM, TV, 3G, 4G etc., cada um carregando um conjunto particular de informações. Embora todos os sinais estejam simultaneamente disponíveis, o que você conseguirá sintonizar depende do dispositivo que você está usando. Alguém com um rádio antigo conseguirá captar apenas som, enquanto outros, com uma televisão, conseguirão também ver imagens. Alguém com um smartphone, por outro lado, terá acesso à Internet, que inclui muito mais conteúdo, incluindo os programas de rádio e TV.

Da mesma maneira, nosso universo é composto de diferentes dimensões e podemos sintonizar em cada uma de acordo com o conjunto particular de sentidos que nós recebemos, o que, por sua vez, é determinado pela nossa consciência anterior. De acordo com os Vedas, nosso conceito de realidade é determinado de acordo com a nossa consciência. Nosso nível de consciência nos leva a assumir um tipo de corpo em particular, em um determinado planeta, onde temos acesso a um certo nível de realidade.

No nosso caso, vivemos em uma dimensão grosseira, onde o universo parece frio e quase vazio, com as estrelas e os planetas muito distantes uns dos outros e praticamente inacessíveis para nós. Estamos essencialmente presos em nosso pequeno planeta pela lei da gravidade. Mesmo se enviamos algumas sondas ou astronautas, a um custo exorbitante, para investigar o que existe além, eles não conseguem encontrar nada muito interessante do lado de fora.

Em nossa dimensão, planetas e estrelas que são partes de diferentes sistemas planetários são distribuídos de uma maneira mais ou menos homogênea em todo o cosmos. Porém, para seres superiores, planetas de nível ou sintonia semelhante estão próximos uns dos outros, e os habitantes podem ir de um para o outro através de vias interplanetárias. É descrito, por exemplo, que certas passagens nos Himalaias conectam nosso planeta com o plano celestial, mas apenas pessoas com um certo nível de consciência podem acessar tais passagens. No Mahabharata, é descrito como os Pandavas ascenderam à morada de Kuvera, o rei dos yakshas, através de um desses caminhos.

Para alguém capaz de atravessar essas vias, as outras partes de Jambudvipa estão a apenas uma caminhada de distância e, portanto, o Srimad-Bhagavatam descreve esses diferentes fragmentos como estando interconectados, formando uma área contínua, o que é exatamente a percepção de quem está viajando entre eles, embora, no nosso plano, essas diferentes partes da estrutura estejam espalhadas em planetas diferentes. Para quem não tem a qualificação adequada, no entanto, os caminhos são inacessíveis, e ele permanece preso a este planeta. Como resultado, quando ele atravessa os Himalaias, ele vai parar na China, em vez de ir aos planetas superiores.

A existência de objetos distantes que permanecem interconectados, bem como “atalhos” que permitem o acesso a lugares distantes, pode parecer pouco crível, mas essas ideias também são discutidas na física moderna, como no caso do fenômeno do emaranhamento quântico e da teoria dos buracos de minhoca, por exemplo.

Da mesma forma, a Lua é descrita nos Vedas como um planeta celeste, onde almas piedosas podem viver em grande deleite por 10.000 anos dos semideuses. Em nossa dimensão grosseira, no entanto, a Lua aparece apenas como um pedaço de rocha sem vida. Isso nos leva ao conceito de dimensão vertical explicado nos Vedas.

Suponha que você queira visitar um escritório no 98º andar de um edifício de prestígio em Manhattan. Você pega um táxi e vai até a entrada do edifício. Você foi ao lugar certo, na dimensão horizontal, mas, para chegar ao escritório, você precisa também viajar na dimensão vertical, pegando um elevador ou subindo as escadas até alcançar o 98º andar. Se, de alguma forma, você carecer das credenciais adequadas, não conseguirá passar da entrada.

Da mesma forma, mesmo que alguém consiga ir à Lua, sem a consciência apropriada, ele não será capaz de viajar na dimensão vertical e, portanto, ficará preso à representação da Lua em nossa dimensão grosseira, que não é tão interessante. Se o sujeito quiser acessar a Lua celestial, precisará viajar através da elevação de sua consciência, transferindo-se para lá no momento da morte. Desta forma, será capaz de receber um corpo celestial, com um conjunto adequado de sentidos para interagir com os habitantes de lá.

A grande contribuição da visão do universo oferecida nos Puranas é que eles nos dão uma visão mística e teísta do universo, um universo que está cheio de vida. Meditando nessas descrições, podemos gradualmente elevar nossa consciência e atingir o mesmo nível de consciência que os seres superiores. Essa é a visão do universo que será apresentada no Templo do Planetário Védico (o ToVP) quando for inaugurado em 2022. Por outro lado, a visão materialista do universo oferecida pela ciência moderna, baseado apenas na observação usando nossos sentidos grosseiros, oferece um universo morto, que leva à estagnação da nossa consciência.

O grande desafio quando estudamos o modelo do universo dado no Srimad-Bhagavatam é conciliar o que podemos observar com nossa percepção sensorial grosseira e as ideias de multidimensões, diferentes conjuntos de sentidos e graus de consciência, bem como a ideia de uma dimensão vertical. Sem entender estes conceitos, podemos terminar com uma compreensão simplista ou limitada. Continua…

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