Param Dristva: Buscando Refúgio no Puro Prazer da Alma

Nrisimhananda Dasa

Matrix, o clássico de ficção científica do fim do século passado, além de ter sido um marco na história do cinema por seus efeitos especiais inovadores, conseguiu através de seu roteiro inspirado em elementos oriundos da obra de célebres pensadores, como Platão e Descartes, se tornar uma fonte quase ilimitada de inspiração para qualquer um que queira usar alguma de suas cenas como uma analogia para explicar algum ponto filosófico. Mas, hoje, queremos nos deter em apenas uma curta passagem…

Em uma confortável praça construída dentro do universo simulado de Matrix, o guardião de todo esse complexo virtual, Agente Smith, trava uma conversa com o rebelde Cypher, que, até então, compunha o grupo que havia escapado do cativeiro criado pelas máquinas e lutava pela liberação da espécie humana.

Acontece que esse é um dos pontos de virada do enredo, porque nele, Cypher confessa ao Agente Smith que queria voltar a viver uma vida fictícia em Matrix, uma vez que não aguentava mais a tensão da guerra diária contra os impetuosos robôs que ameaçavam a existência dos homens. E ele chega até mesmo a negociar a traição de toda a célula guerrilheira à qual pertence em troca de poder experimentar todos os seus desejos em Matrix!

Apesar do fácil antagonismo que esta passagem provoca nos espectadores, será que nós mesmos estamos tão distantes de Cypher?

No final da cena, Cypher se justifica ao Agente Smith: enquanto conversam, Cypher tem em sua frente sua refeição preferida. Ao cortar um pedaço de filé, ele diz que sabe que o bocado que está em seu garfo não passa de meros bits que são interpretados pelo seu cérebro como um alimento suculento… mas, na hora que ele o põe em sua boca, imediatamente deixa escapar uma interjeição de intensa satisfação: Hmmm…!

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Cypher. Personagem do filme Matrix, dos diretores Andy Wachowski e Lana Wachowski.

E não é assim mesmo que agimos em muitos momentos de nossa vida espiritual? Apesar de termos uma forte convicção filosófica de que não somos o corpo, quantas vezes nos pegamos justamente cultivando frívolos apegos corpóreos por causa da sensação de prazer que os acompanha?

A tentação em dar vazão aos seus desejos fez com que Cypher aniquilasse quase que completamente o grupo de heróis de Matrix. Como garantir que os nossos não façam o mesmo com nossa vida espiritual?

Yayati, o Desfrutador

O Srimad-Bhagavatam nos conta a interessante história de Yayati, o típico caso de alguém que não hesitou em tentar satisfazer todas as demandas de sua mente.

Yayati era um poderoso rei e um dia vagava por terras ermas, quando encontrou Devayani, a filha do sacerdote dos demônios, presa em um poço. O rei heroicamente salva a moça e o resultado não é difícil de imaginar… ela se apega a ele e, por fim, se casam.

Acontece que Devayani era amiga da bela Sarmista, que também se encanta por Yayati e lhe propõe que ele também se una a ela. Yayati consente com seu pedido e, quando Devayani descobre o acontecido e, enfurecida, relata tudo para seu pai, o poderoso Shukracharya, este lança uma maldição em Yayati, que perde sua juventude.

Sukracharya Curses King Yayati

Shukracharya amaldiçoa Yayati, que perde sua juventude.

Algo relevante a ser dito acerca desta história é que na busca pela autossatisfação certamente entraremos em algum tipo de conflito, porque o cumprimento de nossos desejos será empecilho para o de outrem. É como o caso de dois países que desejam o mesmo território: uma vez que só existe um exemplar desse terreno, ou um país abre mão de sua posse e vê seu povo e governantes amargarem a frustação da perda ou haverá guerra entre as duas nações.

Da mesma forma, temos aqui duas pessoas luxuriosas (Devayani e Sarmista) competindo pelo mesmo objeto de gratificação dos sentidos (Yayati). Consequência: Yayati se tornou um velho e ambas as partes, impedidas de gozar do seu forte impulso sexual devido ao envelhecimento precoce do rei, frustraram-se.

Aqui temos então dois pontos: (1) A mente produz infinitos desejos, (2) o mundo material fornece recursos finitos para a satisfação dos mesmos.

Logo, nunca conseguiremos estar completamente satisfeitos enquanto corrermos loucamente atrás da nossa própria gratificação, pois, em algum momento, pela própria constituição deste mundo e pelas limitações de nossa capacidade de extrair prazer dele, falharemos na tentativa de consumar nossos intentos e, nesse ponto, seremos dominados pela frustação.

Sem contar que mesmo que consigamos atender a um anseio de nossa mente, devido à natureza temporária da matéria, acabaremos, de uma forma ou outra, perdendo o tão sonhado objeto de gratificação e, por já o termos possuído, a desilusão será muito maior.

Tese: Tentar satisfazer todos os desejos não é possível.

Saubhari, o Renunciante

Outro conto do Bhagavata Purana é o de Saubhari Muni. Esse perito yogi místico permaneceu executando austeridades no fundo do rio Yamuna por muito tempo, até que observou um casal de peixes copulando e isso foi o suficiente para trazer à tona todo o seu desejo sexual reprimido por anos.

Saubhari Muni Gets Agitated by the Fish

Saubhari Muni agita-se vendo um casal de peixes copulando.

Estando agitado, Saubhari Muni interrompe suas atividades e sai à procura de uma esposa. Acontece que Saubhari Rishi já era um ancião com cabelos grisalhos e tremores no corpo. Então, ele é obrigado a usar seus poderes para adquirir uma bela compleição física e uma casa opulenta para, assim, poder atrair uma boa candidata para com ele contrair núpcias. O problema é que ele acaba por cativar não apenas uma, mas sim cinquenta princesas ávidas por desfrutar de suas facilidades materiais! E mesmo em idade avançada, Saubhari se degrada terrivelmente, perdendo seu precioso tempo com mera gratificação dos sentidos com suas muitas jovens esposas.

Essa história nos ilustra o extremo oposto da anterior: o erro causado por se tentar renunciar aos próprios desejos artificialmente.

Sendo a capacidade de desejar inerente à mente, ela nunca deixa de lado esta atividade, e, depois de algum tempo, os desejos reprimidos voltam mais fortes do que antes e, como no triste caso de Saubhari Muni, são a causa de uma inevitável queda.

Esse tipo de comportamento reativo é recorrente em tradições espiritualistas que se inclinam a tentar exterminar de qualquer maneira todos os desejos, como os impersonalistas e niilistas.

No entanto, isto definitivamente não funciona, já que a mínima contemplação deste mundo é o suficiente para despertar as mais variadas classes de desejos, e, para realmente acabar com o fluxo incessante de demandas da mente, se teria que cessar completamente qualquer interação com a matéria, o que, de fato, não é possível para a alma corporificada.

Se a tentativa de satisfazer a qualquer custo todas as suas aspirações pessoais não fará bem a ninguém, parece que a simples repressão também não é a saída…

Antítese: Refrear artificialmente a mente não é a solução. Como os desejos são naturais, naturalmente eles irão voltar e derrubar o renunciante despreparado.

Encontrando o Gosto Superior

Temos aqui dois exemplos de como não queremos agir: gozo dos sentidos irrestrito e falsa renúncia. Falta ainda entendermos como resolver esse impasse…

Krishna ajuda-nos a resolver essa charada ao declarar no verso 59 do segundo capítulo do Bhagavad-gita:

vishaya vinivartante
niraharasya dehinah
rasa-varjam raso ’py asya
param dristva nivartate 

“A alma encarnada pode restringir-se do prazer dos sentidos, embora o gosto pelos objetos dos sentidos permaneça. Porém, interrompendo tais ocupações ao experimentar um gosto superior, ela se fixa em consciência”.

A primeira parte do verso diz respeito ao que aconteceu com Saubhari Muni: como não tinha verdadeiramente se desapegado, sua atração pelo desfrute material permanecia como uma bomba-relógio, na iminência de explodir a qualquer momento.

Agora, a segunda parte do verso fala sobre um gosto superior, param dristva, que parece ser a chave para desvendarmos o nosso mistério…

Pelas histórias de Saubhari Rishi e Cypher, podemos entender que as sensações são mais fortes do que as convicções! E, de fato, não há nada de mau nisso. O problema todo é que sentimos de forma inadequada!

Como o próprio Krishna diz: “A mente é a amiga da alma condicionada, e é também a sua inimiga”. E sendo tão poderosa, a ponto do próprio Arjuna admitir que achava mais fácil controlar o vento do que ela, seria infantilidade achar que a inteligência poderá lutar e subjugar a mente por toda a vida. Temos, como Krishna já instruiu com clareza, que conquistar sua amizade, o que é possível se lhe dermos o que ela deseja: prazer!

E a grande vantagem do serviço devocional é que ele é pleno de atividades que trazem satisfação em todos os níveis: físico através da dança e da prasada, emocional através da meditação nos mantras e da associação com os devotos, e intelectual através do acurado estudo das escrituras.

Outro ponto é que sendo a mente alimentada pelas informações vindas de nosso relacionamento com o mundo, temos que mudar a forma como lidamos com as pessoas e situações com que nos deparamos para que ela comece a ceder ao nosso controle. E só existem duas possibilidades de relacionamento neste mundo: exploração e serviço.

Para nossa felicidade, a vontade de servir depende basicamente de um sentimento interno de apreciação por alguém e não de algum fator externo. Logo, quando removemos a camada de egoísmo que recobre nossos desejos, o que sobra é a tendência a desejar de forma pura, ou, em outras palavras, o desejo de servir. E como esse desejo é interno, ele não está conectado à capacidade deste mundo de supri-lo, senão que está conectado a Krishna, que pode fornecer tudo o que precisemos. Eis a vantagem do desejo consciente de Krishna: ele sempre pode ser satisfeito!

Síntese: Para que consigamos conviver com nossos desejos, e até mesmo dar um uso construtivo a eles, teremos que os sublimar, ou seja, alinhá-los com os de Krishna.

E como Srila Prabhupada diz: “Mas quem, no curso de seu progresso na consciência de Krishna, experimentou a beleza do Supremo Senhor Krishna perde o gosto por coisas materiais mortas. […] Quando se é de fato consciente de Krishna, automaticamente perde-se o gosto por coisas insípidas”. (Bg. 2.59, sig.)

 

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Uma resposta

  1. Muito bom! Excelente texto comparativo e instrutivo, com exemplos de personagens dos textos védicos.

    4 de outubro de 2013 às 1:21 PM

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