Psicologia Humanista e Autorrealização

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Purushatraya Swami

A Psicologia Humanista é tida como a terceira grande “onda” na história da psicologia. Considera-se a Psicologia Transpessoal como sendo a quarta onda. Neste artigo, conheceremos sucintamente algumas etapas da evolução aqui no Ocidente dessa ciência que lida com a mente e o comportamento e, por fim, nos perguntaremos: Ainda é possível ir além?

A Psicologia Humanista é tida como a terceira grande “onda” na história da psicologia. Considera-se a Psicologia Transpessoal como sendo a quarta onda. Vejamos abaixo, sucintamente, algumas etapas da evolução aqui no Ocidente dessa ciência que lida com a mente e o comportamento.

A primeira tentativa de se compreender sistematicamente a psique humana foi o Behaviorismo, formulado inicialmente por John Watson (1878-1959).

Essa corrente de psicologia defendia que a personalidade e o comportamento da pessoa seria uma consequência direta da influência que o meio ambiente exerce sobre ela. Hoje em dia, essa abordagem psicológica e suas conclusões são consideradas superadas, embora muitos dados da investigação científica desse sistema tenham dado valiosa contribuição para a psicologia em geral, como, por exemplo, o experimento de reflexos condicionados dos cães de Pavlov (1849-1936).

A segunda onda foi a Psicanálise, de Freud (1856-1939). O objeto de estudo da Psicanálise é o inconsciente ou subconsciente. Essa foi a grande contribuição de Freud, que abriu as portas à exploração dos subterrâneos da mente. Ele acreditava que a libido era a energia motivacional primária da vida humana e seu desajuste seria a causa de todas as neuroses e psicoses. Na prática da Psicanálise, o paciente deita relaxado num divã e trata de rebuscar os recônditos da memória e procura registrar, com máximo de detalhes, os seus sonhos. O psicoterapeuta, utilizando técnicas como a interpretação dos sonhos e outras ferramentas, trata de descobrir as causas e neutralizar as neuroses e psicoses. O objetivo é fazer com que o paciente atinja um estado de normalidade em que experimenta uma condição de ausência de tensões, tecnicamente chamada de “homeostase”.

Vários psicólogos que precederam a Freud, inclusive vários de seus discípulos diretos, consideraram que excessiva ênfase na libido seria um exagero. O conceito de Freud de que a pessoa é considerada como um produto ou vítima de necessidades e forças instintivas começa a encontrar resistências nos meios acadêmicos. Diversos outros fatores que influenciam a psique deveriam ser levados em consideração, detectaram vários pesquisadores. Carl Jung (1875-1961) constatou que o inconsciente não era constituído somente de material negativo, lançou a teoria dos arquétipos mentais e promoveu uma abertura para a espiritualidade, coisa que Freud repudiava. Alfred Adler (1870-1937), outro discípulo direto, constatou que o complexo de inferioridade era uma das principais causas de neuroses entre as pessoas da época.

Outra restrição à Psicanálise foi de que o tratamento não devia restringir-se meramente à cura das neuroses para chegar a um estado sem tensões (homeostase). A pessoa devia se desenvolver a partir daí. A condição normal de saúde mental seria o ponto de partida de um processo evolutivo da consciência.

A mente humana possui potencialidades ilimitadas para serem exploradas e desenvolvidas. A pessoa não deve se acomodar e contentar-se com a mediocridade de um mero “bem-estar” ou de uma superficial “autoafirmação”. Essa ilusória “autoafirmação” pode ser uma “máscara” onde se oculta a acomodação e “autoenganação”. Por algum tempo, a pessoa pode sobreviver nesse estado de ilusão, mas, fatalmente, chegará a hora em que terá que se defrontar com a realidade nua e crua da vida. Aí invariavelmente sobrevém uma perplexidade diante da aparente inutilidade da vida. “Para que tanto esforço, se tudo estará em pouco tempo perdido?”… Essa é uma constatação dolorosa para aqueles que não estão devidamente preparados para enfrentar o futuro.

Viktor Frankl (1905-1997), criador da Logoterapia, pesquisando independentemente, chegou à conclusão de que, para a maioria das pessoas, a principal causa da condição neurótica seria a falta de uma definição quanto ao propósito da vida. A ausência de um propósito superior na vida acarreta um “vácuo existencial”, uma neurose de carência espiritual. Ele chegou à conclusão de que, mesmo nas condições mais adversas que a pessoa possa enfrentar, como numa doença terminal ou situações desesperadoras, pode-se encontrar um propósito para a vida e, assim, manter a estabilidade psíquica. Frankl entendeu isso por experiência própria, pois viveu o inferno em campos de concentração nazista durante a segunda guerra mundial. Em condições sub-humanas que teve que suportar, ele se afirmava mais ou menos com estas palavras: “Minha personalidade externa está fora de meu controle, pois estou nas mãos de pessoas que não hesitam em me causar todo tipo de sofrimento e humilhação. Mas acontece que interiormente eu estou livre. Elas não podem tocar em minha consciência, pois esta está totalmente sob meu controle”. Que preciosa experiência de vida!

Definitivamente, o ser humano não é um produto acabado – existe sempre a possibilidade de crescimento interior, aperfeiçoamento e esmero do caráter e da personalidade, além da expansão ilimitada da consciência. O papel básico da psicologia deve ser, sem dúvida, a cura das neuroses. Isso constitui a prioridade. Mas não se deve parar por aí. Existe algo mais.

O ser humano psiquicamente saudável leva dentro de si uma tendência natural para desenvolver-se e aprimorar-se. A Psicologia deve estimular o autoaperfeiçoamento e a expansão da consciência da pessoa. Como Erich Fromm (1900-1980) disse: “Torná-la mais humana”. Daí o nome “Psicologia Humanista”, a terceira onda.

Fromm deixou contribuições importantes: “Ter ou Ser”, “Arte de Ser”, “Análise do Homem” são alguns de seus temas que ajudaram muitos a sair de uma vida medíocre. Ele disse que algumas pessoas têm uma postura biófila diante da vida, ou seja, amor à vida, à evolução espiritual. Outras, opostamente, dão uma orientação necrófila, em direção à morte, num processo gradual de definhamento ou então, o que é mais triste, num processo praticamente irreversível de degradação moral e espiritual da consciência.

Podemos observar na maioria das pessoas que a maturidade psíquica não necessariamente acompanha a maturidade biológica. Crescer implica uma dose de tensão e certa ansiedade. A maioria evita isso. Para aqueles que arriscam e ousam ir em frente, a “homeostase” (ausência das tensões) fica para trás e o indivíduo se dispõe a progredir no árduo caminho da autorrealização. Esse ímpeto de evoluir psíquica e espiritualmente exige esforço e, inevitavelmente, produz uma espécie de tensão, uma ansiedade existencial. Essa tensão ou ansiedade, ao contrário da ansiedade patológica e neurótica, é cem por cento natural e saudável.

Um dos mais expressivos expoentes da linha humanista foi o americano Abraham Maslow (1908-1970). Maslow teve uma trajetória profissional e acadêmica bem diferente dos acadêmicos de psicologia em geral. Ele dirigiu suas pesquisas, não para entender as neuroses e psicoses e como curá-las, mas para compreender o que realmente significa sanidade psíquica. Chegou ao conceito do que chamou de “pessoa autorrealizada”, uma pessoa psiquicamente saudável. Para atingir esse patamar, Maslow verificou que existe uma gradação natural do envolvimento da pessoa neste mundo. Ele denominou “hierarquia das necessidades”, cuja representação gráfica é uma pirâmide com cinco estágios.

A base inferior da pirâmide, onde se concentra um número maior de pessoas, é o estágio onde as pessoas estão preocupadas com suas necessidades fisiológicas e psicológicas básicas. A necessidade fisiológica básica é não passar fome nem sede; a necessidade psicológica básica é não ser rejeitada no grupo familiar e social a que pertence. Sentir-se rejeitada é a pior situação psicológica que a pessoa pode experimentar.

No segundo estágio da pirâmide, estão aqueles que buscam segurança: segurança no emprego, moradia, saúde e outras coisas básicas. O estilo de vida urbana moderna trava a vida de muita gente nesse estágio, pois cria muitas necessidades supérfluas que complicam a vida da pessoa. Quantas pessoas, depois de assumir a responsabilidade de arcar com vinte e cinco anos de prestações do apartamento, carro do ano e outras tantas “necessidades”, e, ainda por cima, ter que manter a família e educar os filhos, morrem de medo de perder o emprego, escravizadas que estão pelos financiamentos e outros compromissos? Definitivamente, a vida poderia ser muito mais simples…

No patamar seguinte, a pessoa sente a necessidade de bons e sólidos relacionamentos. Em sua vida sentimental doméstica, ela necessita experimentar um relacionamento estável e produtivo que lhe dê respaldo e segurança. Sente também uma necessidade de romper os limites das quatro paredes e atuar mais socialmente. Uns dedicam-se a filantropia, participam em funções na igreja e nos centros culturais e esportivos, outros se tornam ativistas de alguma proposta mais ampla ou entram na política, enquanto outros se contentam em serem os síndicos no prédio onde moram. A pessoa sente que deve se expandir e participar.

O quarto nível de necessidade é o da autoestima. A pessoa se destaca na atividade que executa. Passa, então, a exigir o devido reconhecimento. Uma citação de seu nome em público, um elogio, uma aparição, mesmo que momentânea, em um programa televisado já vai adular seu ego e alimentar sua autoestima. Na vida profissional, essa pessoa esforça-se para ser a melhor em sua especialidade. Isso chama atenção do público para si e reforça sua autoestima. O problema nessa fase é a facilidade que o sucesso pessoal tem em inchar o ego. A pessoa pode tornar-se um ególatra. Isso a impede de ir para frente em seu desenvolvimento psíquico.

No topo da pirâmide, Maslow chamou essa “necessidade” de autorrealização.

Nesse caso, essa autorrealização se restringe ao sentido prático e secular da vida. A pessoa nesse estágio experimenta plena satisfação e realização em seu desempenho nas atividades profissionais, sociais e, também, no íntimo, consigo mesmo. Está de bem com a vida e é emocionalmente estável. Não tem interesse em se promover nem chamar atenção para si. Leva uma vida simples, sem sofisticação. É uma pessoa generosa, criativa e quer distribuir o conhecimento que adquiriu, fruto de muito esforço e dedicação, com quem merece receber esse conhecimento. Tem a mente aberta e uma inclinação natural para os questionamentos espirituais. Esse seria o “top” da vida material dentro da sociedade.

A questão que fica é: Será essa autorrealização psíquica o “fim da linha”?

Na sociedade doentia em que vivemos, chegar ao ponto de “mens sana in corpore sano” é uma verdadeira façanha que poucos conseguem sequer almejar, o que dizer conquistar. Depois de chegar a esse ponto, o que estaria faltando? Existiria alguma outra proposta superior para prosseguirmos na escalada do desenvolvimento pessoal?

Sim, definitivamente, a vida não estará completa sem uma profunda realização espiritual. A necessidade de se dar um sentido espiritual à vida pode não se manifestar explicitamente no decorrer do período de vida prática, pois normalmente a pessoa fica sobrecarregada de responsabilidades familiares e profissionais, além das inúmeras possibilidades de lazer e entretenimento, pois “ninguém é de ferro”…

Aqueles que não se abrirem para as questões espirituais ficarão estancados na consciência material. Por mais que tentem absorver suas mentes com as eventuais preocupações corriqueiras e inúmeras distrações, chegará uma hora, já na etapa final do ciclo de vida, que muitos questionamentos sobre a vida aparecerão. “Tanto esforço foi feito durante a vida, e agora? Tudo será perdido? Qual é o propósito disso tudo? O que será de mim daqui para frente? Como poderei seguir sozinho, sem a companhia das pessoas que me apoiam? O que será de mim?”. O fato é que quem não estiver preparado para resolver essas questões existenciais e espirituais entrará num estado de perplexidade diante da iminência da morte que, fatalmente, gerará frustrações, profunda depressão, medo terrível e desespero.

Para se prosseguir nessa escalada existencial, quatro níveis de realização se apresentam. O primeiro nível é o autoconhecimento. O que vem a ser “autoconhecimento”? Autoconhecimento é estar plenamente consciente da nossa própria natureza, da nossa relação com este mundo e, também, da nossa relação com a Transcendência. Não é um conhecimento quantitativo, mas qualitativo. Sua característica básica é que o interesse por esses temas tem que surgir de dentro da pessoa, do fundo da consciência. O conhecer-se a si mesmo e a Realidade “com R maiúsculo” passa a ser o projeto de vida da pessoa.

Com autoconhecimento, a pessoa pode desenvolver autocontrole. Por estar consciente das dinâmicas envolvendo o corpo físico, os sentidos, a mente e o intelecto, a pessoa adquire a força interior para se livrar da ditadura imposta pela sua mente, assim como pelos seus sentidos vorazes e descontrolados. A pessoa livra-se das dinâmicas viciosas que forçam a consciência para baixo. Passa a viver governada pela inteligência superior. Sua vida é agora conduzida por valores e princípios. A pessoa pode, então, afirmar com segurança: “Aqui quem manda sou eu”.

Tendo realizado o autoconhecimento e autocontrole, somados à bagagem de todas as experiências que a vida nos oferece, a pessoa naturalmente manifesta sabedoria. A sabedoria independe de diplomas e títulos acadêmicos. Manifesta-se, geralmente, na velhice, numa situação em que a pessoa madura, exercendo lucidez e discernimento, não permite que sua consciência se identifique com sua condição corpórea em natural estado de decadência. Sua consciência paira muito acima dos desfrutes fúteis e aflições mundanas. A pessoa sábia está totalmente sintonizada com a situação do momento. Os mais jovens podem aproximar-se livremente para obter conselhos, sem choque de gerações.

O estágio máximo de autorrealização é a iluminação espiritual. É o fruto maduro de todo processo de superação das necessidades básicas da vida e da conscientização de que o sucesso na vida não se restringe a chegar a um estado de realização material, bem-estar e conforto. São poucos aqueles que despertam para a possibilidade mais auspiciosa que a vida nos apresenta: a realização espiritual. A culminação de todas as experiências que passamos na vida é chegar a um nível de consciência pleno de conhecimento espiritual, satisfação, paz interior, beatitude e santidade.

Isso pode parecer uma utopia para a maioria, mas, na verdade, trata-se de uma possibilidade factível para qualquer pessoa psiquicamente saudável. O segredo é não perder tempo com as inúmeras distrações que nos rodeiam. No percurso da vida, existe o tempo certo para tudo: primeiramente, a fase de preparação para a vida, com muito estudo; a seguir, a fase de intensa atuação prática e muitas experiências, dentro da família e no trabalho; na aposentadoria, é a fase em que se tem a oportunidade de sério cultivo de um processo espiritual. Por fim, chega-se à fase derradeira em que a pessoa realiza o verdadeiro propósito da vida, vive sob os princípios do desapego e renúncia e colhe os frutos dos anos dedicados à prática espiritual vivenciando uma profunda e íntima relação com Deus. A vida será coroada de êxito se chegarmos até esse ponto.

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