Quando os Devotos Nos Decepcionam

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Bhagavan Dasa

Cedo ou tarde, você muito provavelmente terá seus dias de conflito.

Em dez anos no Movimento Hare Krishna, um número considerável de pessoas, entre simpatizantes e devotos iniciados, já me procuraram para desabafar e explicar por que estavam deixando o Movimento Hare Krishna. Também nessa uma década, vi outros deixarem o mesmo grupo sem explicações, mas com razões deduzíveis. Neste, eu gostaria de dar minha contribuição para os devotos que vivem algum tipo de decepção com os devotos.

Afinidade

Uma expressão equivocada comumente utilizada por quem deixa o Movimento Hare Krishna é dizer que se decepcionou com “os devotos”. Isso raramente é verdade. Em geral, a pessoa se decepcionou com “alguns devotos”, o que pode ser a maioria ou a minoria, mas muito raramente serão os devotos em absoluto. Reconhecer isso é muito importante, pois indica que a solução do problema pode ser mero afastamento de um determinado tipo de devoto, de alguns devotos em específico, e não uma autoexclusão do Movimento Hare Krishna.

Em O Néctar da Devoção 1.2.91, a recomendação para avançarmos no serviço devocional é que devemos nos associar com dois tipos de devotos: devotos com que temos afinidade e devotos que são mais avançados do que nós (svato vare). Afastar-se de devotos que julgamos não serem favoráveis a uma paz mental pessoal que nos permita praticar o serviço devocional e progredir, portanto, não é contrária às instruções espirituais. (Naturalmente, essa instrução é mais relevante para devotos que estão decepcionados com devotos do que para devotos que se sentem fortes, pois os segundos podem se associar com devotos abaixo do ideal para ajudá-los e influenciá-los. Quando alguém decide se associar com devotos mais avançados, é óbvio, um devoto mais avançado aceitou se associar com um devoto menos avançado.)

As instruções de Prabhupada sobre afastar-se ou não de um grupo de devotos em conflito são variadas, o que indica que há várias considerações para o que é bom ou ruim para cada pessoa. Nesta conversa durante uma caminhada, por exemplo, Prabhupada autoriza devotos em desacordo a viverem separados dos demais: “Se ele não concorda com seus irmãos espirituais, amigos, ele pode viver separadamente”. (3 de fevereiro de 1975) Em outros momentos, como na carta a seguir, Prabhupada diz o contrário: “Na Sociedade, pode haver desentendimentos algumas vezes, mas isso não significa que se deva viver separadamente”. (26 de dezembro de 1971) Assim, Prabhupada parece sugerir que é possível gerenciar o estresse de um convívio desagradável sem eliminar o convívio – diversas técnicas de estudos acadêmicos de Psicologia, Recursos Humanos etc. podem auxiliar nisso, além dos ensinamentos espirituais, é claro.

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Nunca se incentiva que a pessoa se afaste de devotos mais avançados ou de devotos de igual mentalidade.

Independente dessas duas posturas diante de devotos de difícil convívio para nós, isto é fato: Nunca se incentiva que a pessoa se afaste de devotos mais avançados ou de devotos de igual mentalidade, e isso nunca é uma necessidade. Fazê-lo ou é uma generalização errônea ou a pessoa quer se afastar por outros motivos – como dificuldade em seguir os princípios, conflitos filosóficos etc. – e não tem coragem de assumir isso para os outros ou para si mesma. Talvez existam ainda outras situações, mas nunca é uma necessidade categórica o afastamento completo.

Uma Casa Onde Todos Podem Morar

É pertinente observar que, embora haja diretrizes básicas que devem ser preservadas, os projetos da ISKCON têm grande autonomia. Qualquer um que conhece diferentes projetos – alguns até na mesma cidade – sabe o quanto podem ser contrastantes sem serem de modo algum categorizados entre “certo” e “errado”. Entre os devotos que escolheram permanecer no Movimento Hare Krishna apesar das decepções, é comum dizerem que o que lhes “salvou” foi encontrar uma liderança diferente ou um estilo de devoto diferente dos devotos decepcionantes. Por exemplo, devotos que se frustram vendo líderes que apreciam gurus fora da escola de bhakti-yoga ou que têm uma pregação muito indireta ou que consideram diferente da pregação de Prabhupada, encontram-se em líderes como Shiva Rama Swami, Bhakti Vikasa Swami e outros. Devotos que se frustram pelo motivo contrário – verem líderes falando muito severamente contra outras religiões e gurus de outras linhas ou outras posturas que poderíamos chamar de “conservadoras” – encontram refúgio em líderes como Radhanatha Swami ou Bhakti-tirtha Swami. Isso é um reforço do ponto acima: Sua solução provavelmente não é sair, mas relocar-se. Não apenas você pode relocar-se, na verdade, mas iniciar um projeto básico, desde que não altere algo fundamental, como pregar que Krishna é apenas um símbolo para algo ou dizer que alguém pode ser iniciado na corrente de Prabhupada sem seguir os 4 princípios que ele estabeleceu, por exemplo.

Alguém decepcionado com os devotos majoritários, ou decepcionado com uma política muito ampla, talvez não ache muito agradável morar em uma casa (o Movimento Hare Krishna) em que terão pouco espaço ou pouca voz. Bem, faça do seu cômodo na casa o mais bonito possível: pendure um quadro de Prabhupada na parede, compre dois vasinhos de violeta para cima da mesa e pendure seu saco de contas na cabeceira da cama. Se você acender um incenso muito cheiroso de amor, você pode atrair pessoas em outras partes da casa, e, se elas se contagiarem com o amor de sua pessoa, que decidiu ficar para ser uma boa influência em vez de sair, talvez queiram se juntar a você, e vocês podem juntos se mudar para uma parte maior da casa.

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Prabhupada sugere que os críticos sejam exemplo para os criticados.

Prabhupada de fato sugeria que os críticos fossem um exemplo para os criticados, e que isso os levaria a se reformarem. Eis uma carta de Srila Prabhupada: “Brigas entre nós não é algo bom de modo algum […], mas se deixamos de seguir os princípios reguladores, como acordar antes das quatro horas, cantar 16 voltas etc., maya entrará e estragará tudo. Então, meu melhor conselho a você é que siga estritamente essas coisas e seja o exemplo para que todos os outros possam seguir. Não devemos criticar os outros, como vaishnavas, porque há defeitos em todos, e nós mesmos podemos estar sujeitos a críticas. O melhor é você mesmo ficar acima de qualquer suspeita, então, se virmos discrepâncias e fizermos sugestões, os outros automaticamente respeitarão e tomarão medidas para retificarem as questões”. (18 de novembro de 1972)

Vitimismo

O ponto do discurso acima não é dizer que aqueles que nos fazem querer abandonar tudo não tenham responsabilidade. Ao contrário, Prabhupada diz que eles têm responsabilidade, sim. Repetidas vezes, Prabhupada disse que os membros de seu Movimento devem ser estritos, ou ninguém nos levará a sério. Prabhupada também disse que todos devem ser bem cuidados, vistos como convidados de Radharani, como filhos queridos de Krishna. Disse que devemos estudar a filosofia muito solidamente para saber apresentá-la a todo tipo de indagador e assim por diante. O ponto de insuflar responsabilidade em quem deseja sair é que o que os outros fizeram conosco é responsabilidade deles: eles terão que responder por seus erros. Contudo, o que fazemos com o que somos – ainda que o que somos seja em parte produto do que fizeram conosco – é responsabilidade nossa. Querermos nos vitimar é uma das opções do que podemos fazer, e espero que até aqui você esteja convencido de que não é a única opção nem a melhor.

A Maioria dos Devotos Serem Ruins É Esperado e Bom

Srila Prabhupada diz que a maioria dos devotos são prakrita-bhaktas, um termo que diz respeito a devotos bem imaturos em conhecimento espiritual teórico e na aplicação real dele, em especial quanto a saber como tratar as pessoas em geral e outros devotos. Saber que algo está acontecendo como esperado, pode ser consolador, embora não seja, é claro, motivo para acomodação e abandono de aprimoramento. Isso é ainda um bom convite para a tolerância, paciência e postura de ajudar os caídos em vez de rechaçá-los, pois eles têm o espaço natural deles dentro do Movimento Hare Krishna.

“Ele está pronto para oferecer respeito a todos, até à formiga. Esse é o maha-bhagavata [o devoto mais elevado]. Geralmente, estamos no estágio mais baixo do serviço devocional. Assim como, geralmente, as pessoas vêm oferecer respeito às Deidades no templo, mas não sabem como mostrar respeito por outros devotos, como ajudar outros a se tornarem devotos. Eles estão no estágio mais baixo”. (Aula de Srila Prabhupada, 23 de outubro de 1972)

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Imagine quão estranha esta situação: Um hospital onde não se admitem pacientes, mas apenas médicos e enfermeiros.

Se você acha que haver em sua maioria devotos no estágio mais baixo é algo ruim, você está enganado. Um Movimento que apenas acomodasse santos não seria de fato um movimento, pois os santos já são perfeitos e não precisam “se mover” para lugar algum. Felizmente, temos um movimento, que tenta mover da posição mais baixa da vida espiritual, aqueles que nela se encontram, em direção a posições gradualmente mais elevadas. Se o Movimento excluísse a classe mais baixa de devotos, conhecida como prakrita-bhaktas, provavelmente você também não teria autorização para estar nele, pois esse é o ponto de partida. Se você parte de um estágio mais elevado, já esteve em estágios inferiores em outras vidas, e deve ser compassivo.

Imagine quão estranha esta situação: Um hospital onde só há médicos e enfermeiros, e onde não se admitem pacientes. O mesmo é esperar que uma religião não tenha membros problemáticos, mas apenas grandes santos e pessoas quase santas.

O Problema Pode Ser Você

Estamos conversando com seriedade, e não como crianças, né? Neste ponto, portanto, não é problemático dizer que o problema pode ser você. O fato de nos posicionarmos como críticos não nos torna perfeitos, embora o ego possa acreditar nisso. Krishna diz que muitas pessoas o criticam, Jesus foi crucificado e Prabhupada foi perseguido pelos outros discípulos de Bhaktisiddhanta Sarasvati. Assim, muitos críticos voltam suas decepções e raivas contra pessoas que muitos consideram santas. No comentário oficial da ISKCON ao Srimad-Bhagavatam 11.2.47, lemos: “De fato se vê que mesmo devotos autorizados que estão dedicados ao serviço ao Senhor através da pregação da missão da consciência de Krishna por vezes são criticados por devotos neófitos”.

Podemos estar criticando devotos puros ou avançados, podemos estar criticando a Suprema Personalidade de Deus, podemos estar negando ajuda a devotos menos avançados rechaçando-os como eternamente vinculados a seus defeitos etc.

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Análises e autoanálises podem sofrer diversas distorções, por autoengano, reações sutis de ofensas cometidas, vaidade e outros motivos.

É possível até mesmo que estejamos perdendo a companhia dos devotos por reação a ofensas que tenhamos cometido. Akrura, por exemplo, teve de se associar com o ladrão e demônio Satadhanva e se misturar às atividades nefastas dele por ter ofendido Radharani, Yashoda e outros devotos de Vraja. (Cf. Krishna, a Suprema Personalidade de Deus, capítulo 57) Se estamos em uma situação similar, de estarmos recebendo a reação de nossas ofensas, atacar os devotos, em vez de tentar apreciar seus esforços – por vezes malsucedidos – e nos afastarmos dos devotos, em vez de buscarmos esclarecimento sobre como adorarmos apropriadamente os associados de Krishna, são atos que podem apenas agravar a situação e nos deixar para sempre cegos de em que posição realmente estamos na turbulenta situação de críticas e afastamentos.

Servos de Krishna

Sim, falar é fácil, mas não pense que quem fala não teve experiências negativas. Seria muita ingenuidade pensar que membros da ISKCON que estão nela desde os primórdios, como Hridayananda Dasa Goswami ou Dhanvantari Swami, não tiveram que lidar com muitos tipos de situações no mínimo menos do que agradáveis.

Grandes devotos fizeram de seu serviço devocional restabelecer a missão de Chaitanya quando estava em crise, inclusive em relação ao tipo de membros que a compunha. Com efeito, o próprio Krishna diz que vem quando a religião entra em crise, para restabelecê-la. Espera-se, naturalmente, que os devotos de Krishna sirvam Krishna em Seus esforços de preservar a religião e restabelecê-la. Quem dirá que o Movimento de Prabhupada não merece a atenção de membros críticos e insatisfeitos para preservá-lo ou mesmo restabelecer elementos perdidos?

Há muitas pessoas que, assim como você, já sentiram o coração parecer ser atravessado por muitas flechas com diferentes tipos de desapontamentos. No fim, porém, a escolha de como vivenciar isso é sempre de cada um de nós.

Sobre o autor: Bhagavan Dasa é discípulo de Dhanvantari Swami e cursou o Seminário de Filosofia e Teologia de Campina Grande no ano de 2005, quando recebeu o título Bhakti-shastri. É graduado em Letras, graduando em Filosofia e atua como tradutor na Bhaktivedanta Book Trust do Brasil desde 2006. É casado e pai de um menino.

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