Quatro Histórias sobre Preconceito

Bhagavan Dasa

O Bhagavatam nos lembra: você não é o estereótipo de um grupo.

Quando o Movimento Hare Krishna completou 50 anos, uma das formas de comemoração foi a produção do documentário Joy of Devotion. De todo seu conteúdo de mais de 1 hora, a parte dele que mais me inspirou reflexão aparece ainda nos primeiros 10 minutos. Um acadêmico e devoto de Krishna diz:

O Bhagavata Purana é um texto que de fato desfaz ou questiona as categorias que temos como estabelecidas no mundo. Pensamos: “Ah! É assim que os homens devem ser. É assim que as mulheres devem ser. É assim que pessoas boas devem ser. É assim que pessoas ruins devem ser.” Temos todos esses estereótipos e temos todas essas categorias como resultado de uma cultura. Toda cultura tem. O Bhagavata Purana pega essas categorias e as vira de cabeça para baixo de várias maneiras para demonstrar que, na verdade, o que importa não é sua idade, seu gênero, não é onde você nasceu, de onde você vem, quem era sua família, mas o que importa de verdade é o seu coração.

Uau! Bhagavata Purana (também conhecido como Srimad-Bhagavatam) é a escritura mais importante dentro do Movimento Hare Krishna! Que orgulho que ela faça isso! Gostaria de convidar o leitor, então, a um breve passeio por suas páginas com foco nesses momentos em que “pega essas categorias e as vira de cabeça para baixo.” Segure-se firme!

Você Não É Sua Família

Uma forma de preconceito é associar o caráter, o destino e outras coisas de uma pessoa a quem são seus pais ou sua família. O Bhagavata Purana “vira de cabeça para baixo” essa ideia em alguns momentos – talvez mais destacadamente na história de Prahlada Maharaja.

Prahlada não tem o caráter de seu pai.

Nessa narrativa, encontramos uma alma pura prestes a nascer para ter como pai o mais terrível dos asuras, de nome Hiranyakashipu. Asura se refere a pessoas de atos, mentalidade e palavras demoníacas. A Bhagavad-gita dedica o capítulo 16 quase inteiramente a descrever suas características, que incluem considerarem que dar prazer para os sentidos é a meta última da vida, usarem assassinato como recurso para alcançar seus planos, e considerarem-se as pessoas mais incríveis de todas. Quando o semideus Indra toma conhecimento de que o asura Hiranyakashipu teria um filho, presume que ele será tão terrível quanto o pai e decide sequestrar a mãe grávida para matar o filho! O próprio Prahlada conta como os semideuses, após derrotarem os asuras em combate, procedem com o objetivo de eliminá-lo:

Vitoriosos, os semideuses saquearam o palácio de Hiranyakashipu, o rei dos demônios, e destruíram tudo o que estava no interior do palácio. Então, Indra, o rei dos céus, prendeu minha mãe, a rainha. Enquanto ela estava sendo carregada, chorando de tanto medo que parecia um kurari capturado por um abutre, o grande sábio Narada, que naquele momento não tinha nenhuma ocupação, apareceu em cena e viu-a naquelas condições. Narada Muni disse: “Ó Indra, rei dos semideuses, esta mulher decerto é sem pecados. Não deves arrastá-la de maneira tão cruel. Ó pessoa afortunadíssima, esta mulher casta é esposa de outrem. Deves, portanto, soltá-la imediatamente.” O rei Indra disse: “No ventre desta mulher, que é esposa do demônio Hiranyakashipu, está a semente desse grande demônio. Portanto, deixa que ela permaneça sob nossa custódia até que seu filho nasça, e então soltá-la-emos.” Narada Muni respondeu: “A criança dentro do ventre desta mulher é íntegra e sem pecados. Na verdade, é um grande devoto, um poderoso servo da Suprema Personalidade de Deus.” (Srimad-Bhagavatam 7.7.6-10)

Tanto Indra quanto Narada são devotos, mas vemos uma superioridade em Narada. Enquanto o bom devoto Indra, no calor da guerra contra o inimigo, julgou a esposa “sem pecados” e a “criança íntegra e sem pecados” como castigáveis tal qual o verdadeiro criminoso Hiryanyakashipu, o devoto puro Narada conseguiu vê-los como merecedores de julgamento individual.

Prahlada, quando crescido, de fato se revelou alguém possuidor de todas as boas qualidades, e ele mesmo destituído de preconceito com outros nascidos de pais asuras. Nesse mesmo capítulo 7 citado acima, Prahlada, com 5 anos de idade, se dirige por 7 vezes a seus colegas de escola como “meus amigos, nascidos de pais asuras” enquanto fala sobre a consciência de Deus para eles.

Mais tarde, Krishna homenageou Prahlada falando na Bhagavad-gita (10.30): “Em meio aos demônios daityas, sou o devotado Prahlada.”

Você Não É Com Quem Você Anda

No Bhagavata Purana, e de fato em várias escrituras, lemos sobre o devoto puro Shiva sendo vítima de variados tipos de preconceitos. O mais notável, porém, talvez seja ele ter seu caráter vinculado aos lugares onde ele fica e às pessoas com quem convive.

Shiva não tem o caráter daqueles que o cercam.

Lemos, por exemplo, estas palavras duras do progenitor celestial Daksha dirigidas diretamente a Shiva diante de uma grande assembleia de pessoas respeitáveis:

Ele vive em lugares imundos, como crematórios, e seus companheiros são os fantasmas e demônios. Nu como um louco, às vezes rindo e às vezes chorando, ele unta com as cinzas do crematório todo o seu corpo. Ele não se banha regularmente, e enfeita seu corpo com uma guirlanda de crânios e ossos. Portanto, somente pelo nome ele é shiva, o auspicioso; na verdade, ele é a criatura mais louca e inauspiciosa. Desse modo, ele é muito querido por seres dementes no grosseiro modo da ignorância, e é o líder deles. (Srimad-Bhagavatam 4.2.14-15)

Há várias críticas aí, mas, sem dúvidas, se destacam a questão das companhias que ele tem em determinados lugares, já que é o ponto que Daksha coloca ao começo e reitera no final. O grande erro desse julgamento é não entender a motivação para se estar ali. Shiva anda com loucos, fantasmas e demônios não por estar em harmonia com eles, mas para beneficiá-los instruindo-os e levando a misericórdia de Deus para eles que não seriam buscados por pregadores menos puros ou destituídos de preconceito.

De fato, vemos isso que Shiva faz também no caráter de outros devotos puros. Srila Prabhupada, assim como Shiva, se cercou de bêbados, usuários de LSD, pessoas demoníacas (algumas certamente assombradas) e doentes mentais, movido por compaixão genuína e livre de preconceito.

Shiva foi alvo de críticas por pessoas de mentalidade inferior, mas a última menção que o Srimad-Bhagavatam (12.13.16) faz dele é que ele é o melhor dos devotos de Deus.

Você Não É o Seu Sexo

A superioridade do homem em relação à mulher é um preconceito bem antigo e bastante discutido na atualidade. Uma história no Srimad-Bhagavatam é bem significativa em retratar mulheres superiores a seus esposos. Nela, lemos como Krishna (Deus em pessoa em uma de Suas vindas à Terra) pede a Seus amigos que vão até alguns sacerdotes pedir que eles doem alguns artigos alimentícios para eles. Os sacerdotes, porém, se negam a isso, pois “estavam cheios de desejos inferiores e enredados em rituais complicados. Embora se considerassem avançados em compreensão védica, eram, na verdade, tolos inexperientes.” (Srimad-Bhagavatam 10.23.9) Quando informado por Seus amigos de que os sacerdotes nada dariam, Krishna fala aos Seus amigos, então, para pedirem o mesmo às esposas desses sacerdotes, e o resultado é muito diferente:

As esposas dos brahmanas viviam ansiosas por ver Krishna, pois suas mentes tinham sido encantadas por descrições sobre Ele. Assim, logo que ouviram que Ele chegara, ficaram muito empolgadas. Levando consigo em grandes vasilhas as quatro espécies de alimento, cheias de finos sabores e aromas, todas as senhoras adiantaram-se para encontrar seu amado, assim como os rios correm para o mar. Embora seus esposos, irmãos, filhos e outros parentes tentassem proibi-las de ir, sua esperança de ver Krishna, cultivada pelo fato de terem ouvido extensivamente sobre Suas qualidades transcendentais, triunfou. Ao longo do rio Yamuna, num jardim decorado com botões de árvores ashoka, elas O avistaram passeando em companhia dos vaqueirinhos. (Srimad-Bhagavatam 10.23.18-21)

Essa descrição é muito bonita. As mulheres meditavam peritamente em Krishna, tendo a mente encantada por Ele. Elas se determinaram a servir Krishna, mesmo com muitos homens tentando impedi-las. Também vemos aí que elas eram conhecedoras das qualidades transcendentais de Krishna porque ouviram muito sobre isso.

Essa história tem um final feliz em termos de superação de preconceitos. Seus esposos, por fim, notam a devoção de suas esposas e assumem que elas são superiores:

Atentando para a transcendental devoção pura de suas esposas pelo Senhor Krishna, a Suprema Personalidade de Deus, e vendo sua própria falta de devoção, os brahmanas sentiram muito arrependimento e passaram a se condenar: “Para o inferno com nossas três classes de nascimento, nosso voto de celibato e nossa extensa erudição! Para o inferno com nossa procedência aristocrática e nossa perícia nos rituais de sacrifício! Tudo isso é condenado porque somos hostis à transcendental Personalidade de Deus.” (Srimad-Bhagavatam 10.23.39-40)

Você Não É Sua Raça

Preconceito racial dispensa apresentação. O nome Purana significa “história antiga”, e parte da história antiga, segundo essas obras, é que o mundo em eras remotas era muito diferente do mundo como conhecemos hoje, tendo sido habitado por várias raças de seres inteligentes hoje desconhecidas. Uma raça que aparece frequentemente nos Puranas, e também no Bhagavata Purana, são as nagas, comumente retratadas como cobras humanoides muito invejosas, violentas e afeitas a pedras preciosas. O Bhagavata Purana, porém, também nos mostra nagas descritas como sadhvis, que significa “santas”. Elas aparecem no contexto de uma história em que Krishna está castigando o marido delas por ele ter envenenado um rio. Krishna castigou esse naga dançando sobre sua cabeça e fazendo, assim, com que todo o seu veneno fosse extraído. Nessa hora, as esposas desse naga aparecem com seus filhos no colo e oram a Krishna. A descrição é muito significativa para nosso tema:

Com suas mentes muito perturbadas, aquelas senhoras santas [sadhvis] puseram seus filhos diante delas e, então, prostraram-se perante o Senhor de todas as criaturas, estirando seus corpos no chão. Elas desejavam a liberação de seu marido pecador e o abrigo do Senhor Supremo, que concede o abrigo último, e assim, de mãos postas em súplica, aproximaram-se dEle. (Srimad-Bhagavatam 10.16.32)

Dentro de todas as raças, há santos e pecadores.

Temos aí, em um mesmo verso, a descrição de alguém como “pecador” e alguém como “senhoras santas” embora pertencessem à mesma raça! Essa palavra traduzida por “senhoras santas”, sadhvi, é o feminino de sadhu, e é uma palavra que retrata alguém possuidor de todas as qualidades. Essa palavra é assim definida no Srimad-Bhagavatam (3.25.21): “Os sintomas de um sadhu são que ele é tolerante, misericordioso e amigo de todas as entidades vivas. Ele não tem inimigos, é pacífico, segue as escrituras, e todas as suas características são sublimes.”

Mais de Onde Veio

Essas não são todas as histórias do Srimad-Bhagavatam que tentam nos levar para além dos preconceitos. Há muitas outras tanto no Srimad-Bhagavatam quanto em obras de igual autoridade. Ainda no Srimad-Bhagavatam, encontramos um discípulo que é mais avançado do que seu guru, e, ao retornar para o mundo espiritual, garante que seu guru, que por acaso era sua mãe, também ascenda aos reinos da imortalidade. Em outra história, um jovenzinho de dezesseis anos é quem preside um grande encontro de sábios, com renunciantes com idade para serem seus pais e avós o ouvindo com absoluta atenção e alegria. Na Bhagavad-gita, um guerreiro nobre argumenta que pessoas mais velhas do que ele ou com status de professores não devem ser punidas, sendo incondicionalmente adoráveis, mesmo caso sejam criminosas, mas Krishna, o Senhor Supremo, o convence do contrário: as pessoas devem ser julgadas pela sua conduta, e não por posições sociais. No Chaitanya-charitamrita, lemos como um homem proibido de entrar no templo do Senhor Supremo por preconceitos de sua época era pessoalmente visitado em sua casa pelo próprio Senhor Supremo, todos os dias…

Essas histórias não têm fim. É Deus pessoalmente se divertindo na História humana com a ajuda de Seus devotos puros, repetidamente nos mostrando que o que alguém realmente é sempre estará acima de qualquer ideia pré-concebida.

Bhagavan Dasa é editor-chefe da BBT Brasil e coordenador pedagógico do Instituto Bhaktivedanta de Estudos Védicos. Em 2005, cursou Bhakti-shastri no Instituto Jaladuta. Hoje reside no Ashram Vrajabhumi com esposa e filhos.

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