Srila Prabhupada Era Fanático?

prabhupadaHridayananda Dasa Gosvami

Pela maneira contundente como Srila Prabhupada defendeu o personalismo, podemos considerá-lo um fanático?

Em seus significados, algumas vezes Srila Prabhupada faz comentários sobre os mayavadis, ou impersonalistas, de certo modo que parecem depreciativos.

É importante entender isso no contexto da história religiosa indiana, e não no contexto da história religiosa ocidental. Eis a diferença. Na Índia, não encontramos uma história longa de guerras sangrentas apoiadas em religião. A religião indiana sempre tendeu a ser inclusivista, em vez de excludente. Assim, as diferentes religiões na cultura hindu tenderam a aceitar umas às outras como válidas, mas também a ver as outras escolas como subordinadas ou preliminares às suas próprias visões. Seguindo essa tradição, Srila Prabhupada frequentemente estabelece que os impersonalistas são “transcendentalistas fidedignos”, mas que a compreensão impessoal deles é subordinada ou preliminar ao vaishnavismo. Isso é bastante distinto de declarar que o impersonalismo é simplesmente falso e mau. Esse debate teológico vigoroso floresceu na Índia, com segurança, em um ambiente religioso plural, que não foi um precursor de guerras.

Tudo isso contrasta fortemente com o fanatismo sangrento que frequentemente qualifica a abordagem religiosa na Europa e no Oriente Médio. A prematura igreja cristã desenvolveu a noção de religiões verdadeiras e falsas, de deuses vivos e mortos, e conceitos similares. Com o tempo, esse ponto de vista radical e fanático conduziu a cruzadas, inquisições, guerras religiosas etc. Esse tipo de pensamento e a violência que o mesmo nutriu nunca foram proeminentes na Índia.

Hoje, no Ocidente, muito dos comportamentos liberais e ecléticos (do tipo “todos os caminhos são o mesmo”) é uma reação direta a séculos de fanatismo na Europa e no Oriente Médio. Assim como na física de Newton, temos aqui uma reação igual e oposta, mais tolerante, mas, de seu próprio modo, igualmente fanática.

Em geral, os pensadores liberais no Ocidente não argumentam para a conclusão de que todos os caminhos são igualmente válidos. Em vez disto, eles tendem a sustentar seu ponto de vista mais como um princípio ético do que como uma conclusão filosófica, mais como um antídoto para o fanatismo do que como uma descrição séria, lógica, de realidade definitiva. Proveniente de uma cultura tolerante, inclusivista, Prabhupada não sente necessidade de enfatizar a relatividade de visões espirituais, mas, em vez disto, rigorosamente busca a verdade lógica sobre Deus.

Eu entendo os fundamentos das convicções dos impersonalistas, e sei como a consciência de Krishna é diferente. Pessoalmente, prefiro as convicções vaishnavas e de bhakti-yoga do que a adoração a um Deus sem forma. Mas duvido de qualquer coisa que pareça ser um julgamento de valor contra outra religião.

Uma preferência é um julgamento de valor. O problema, aparentemente, não é Prabhupada fazer um julgamento de valor, mas, sim, mais do que isto, o problema parece ser torná-lo público. É justo dizer que ambos os aspectos pessoal e impessoal de Deus existem simultaneamente. Porém, não é justo, ou lógico, dizer que ambos os aspectos pessoal e impessoal de Deus sejam simultaneamente supremos. Uma alma que seriamente busca a verdade superior tem direito de saber o que seja essa verdade última. Se na realidade eu sei que, por fim, Deus é uma pessoa, e não o digo em público, então eu estou de maneira consciente desorientando ou enganando quem sincera e incondicionalmente busca a verdade superior.

Se eu prefiro bhakti-yoga e me dedico a Krishna com amor, mas um impersonalista prefere algo diferente, o que há de errado nisso?

Em um senso moral mundano, não é “errado” preferir o impessoal. De certo modo, toda alma prefere qualquer coisa que pareça melhor para ela. Prabhupada nunca ensina que impersonalistas são almas más, porém ele emite apreciações profundas sobre a psicologia metafísica. Se há um Deus pessoal e, propriamente informado deste fato, escolho rejeitar esse Deus pessoal, não é, então, errado para um mestre espiritual iluminado analisar meus motivos de tomar essa decisão. Afinal, se houver um único valor em conhecer a natureza última de Deus, então, logicamente, deve haver uma perda de valor em não conhecer esse fato.

Para evitar essa perda monumental, Prabhupada, que, na realidade, no fundo, tem no coração o bem último de todas as almas, fala a verdade. Nós não podemos, a priori, rejeitar suas palavras simplesmente porque ele não estabelece relações entre todas as pretensões espirituais. Afinal, relacioná-las é o mesmo que negar todas elas. Consideremos o seguinte:

Os personalistas afirmam que, no final das contas, Deus é uma pessoa. Os impersonalistas reivindicam o oposto. Porém, afirmar que personalismo e impersonalismo são o mesmo é, de fato, discordar e rejeitar as pretensões tanto dos personalistas quanto dos impersonalistas. Então, a equidade metafísica é apenas aparentemente liberal e tolerante. Na realidade, assemelha-se ao cristianismo fanático, ao rejeitar, afinal, as pretensões de virtualmente todas as religiões históricas, ao relacioná-las e compará-las.

Considero todas as outras abordagens como modos muito válidos para entender Deus. No momento, estou muito atraído por Krishna, sou um estudante muito entusiástico da consciência de Krishna, e penso que esta é a melhor abordagem para mim, como é para todos os outros vaishnavas que conheço. Mas eu não penso que eu possa dizer o que é melhor para quem quer que seja. Minha abordagem sem julgamentos, eu creio, ajuda-me a estar mais qualificado e compassivo. E espero manter esta perspectiva.

Como explicado anteriormente, diferentes caminhos têm diferentes pretensões. Muitas dessas pretensões são válidas, porém validade e igualdade são conceitos muito diferentes e não devem ser confundidos. Krishna declara na Gita que Ele é a fonte de tudo. Esta reivindicação, logicamente, é verdadeira ou falsa. Se for verdadeira, então outras visões válidas devem ser entendidas no contexto da declaração de Krishna. Se a argumentação de Krishna não for verdadeira, então, mesmo que digamos educadamente que ela é válida, ainda assim ela não é verdadeira.

De maneira semelhante, alguns budistas negam a existência de Deus. Se a argumentação deles for verdadeira, a de Krishna é falsa. Se a argumentação de Krishna for verdadeira, a deles é falsa. Se nós dissermos que ambas as reivindicações são verdadeiras, negamos ambos os caminhos, já que ambas as tradições rejeitam a noção de que ambas as argumentações são verdadeiras.

Certamente, o budismo muito ensina o que seja verdade quanto à psicologia humana e à natureza temporária do mundo. Porém, a validade desse ensinamento não torna válida a argumentação proposta por algumas formas históricas de budismo de que Deus e a alma não existem.

O ponto simples aqui é que devemos evitar tanto o exclusivismo fanático quanto o inclusivismo fanático. Devemos reconhecer a sabedoria e a validade presente em muitas das tradições de mundo, mas, ao mesmo tempo, devemos ter coragem e sabedoria para buscar e falar a verdade superior sem transigir.

Tradução: Vanavihari Devi Dasi.

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