Srila Prabhupada Não Pode Salvar Você (Se Você Não Fizer Sua Parte)

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Bhagavan Dasa

Nem Srila Prabhupada, nem Srila Jesus, nem Srila ninguém.

Estava eu tomando um açaí em uma lanchonete calmamente. Eu precisava “fazer hora” por ali, então saboreava bem tranquilamente essa iguaria dos deuses. Na tevê, passava o show de um artista brasileiro muito popular entre estudantes “festeiros”. Em uma das letras, ele falava sobre “pegar” várias mulheres em uma balada. Na outra, enaltecida a cerveja praticamente como uma manifestação do Senhor Supremo para solucionar todos os problemas neste mundo, com menções a “beber até cair”, “ficar muito chapado” e expressões similares.

Até esse ponto, nada havia me surpreendido, pois esses valores me rodeiam desde sempre. Quando fui pagar pela tigela de açaí, porém, fiquei realmente surpreso com as palavras de agradecimento ao final do show. Enquanto todos os músicos solavam seus respectivos instrumentos, as luzes brilhavam loucamente e a plateia aplaudia em delírio, o cantor disse: “Obrigado a todos vocês. Obrigado especialmente ao meu senhor e salvador, Jesus Cristo! Fiquem todos com Deus!”

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Como no meme do Caco, da Vila Sésamo, pensei: “Ué?”

Mais “Salvador” do que “Senhor”

A expressão “senhor e salvador” me parece muito justa, mas, pelas músicas desse artista, era evidente que ele queria Jesus como um mestre para ser salvo, e não para ser obediente. A palavra “senhor”, obviamente, se refere a alguém a que devemos obediência, mas onde estava a obediência dele ao promover a promiscuidade, relação de objeto com mulheres e consumo desenfreado de bebidas alcoólicas?

Em João (14.15), lemos a seguinte declaração de Jesus: “Se vocês me amam, obedecerão aos meus mandamentos.” Mais adiante, em João (14.21), disse ainda: “Quem tem os meus mandamentos e lhes obedece, esse é o que me ama. Aquele que me ama será amado por meu Pai.” (João 14.21)

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Jesus disse: “Se vocês me amam, obedecerão aos meus mandamentos.”

Srila Prabhupada, acharya-fundador da Sociedade Internacional para a Consciência de Krishna, comentou sobre essa mentalidade de se acomodar em atividades pecaminosas presumindo que Jesus nos salvará sem que busquemos nos reformar e sermos “obedientes aos seus mandamentos”. Em uma conversa em 2 de abril de 1977, Srila Prabhupada disse: “Este é outro pensamento pecaminoso: Jesus assinou contrato para livrá-los das suas atividades pecaminosas. Isso é um grande pretexto para os pecadores continuarem agindo pecaminosamente, e Cristo assinará um contrato para neutralizar. Essa é a convicção mais pecaminosa. Em vez de pararem com as atividades pecaminosas, assinamos contrato com Jesus Cristo para neutralizá-las.”

A Consciência É o Critério

Nós devotos de Krishna, que temos Srila Prabhupada como um representante de Deus, talvez também caiamos nessa mesma armadilha, de pensar que alguma aceitação externa de Srila Prabhupada e da corrente de mestres e discípulos que o antecede e o sucede seja suficiente para alcançarmos a meta última na hora da morte: ir de volta ao lar, de volta ao Supremo. Isso, porém, é um equívoco.

Em visita ao Brasil, em 2005, Hridayananda Dasa Goswami, um destacado discípulo de Srila Prabhupada, aproveitou para falar sobre um tema que ele disse ser “atrativo para pessoas inteligentes”. Essa temática escolhida foi o fato de os critérios de elevação e degradação das pessoas, segundo os ensinamentos de Krishna, ser estritamente objetivo, não tendo qualquer ligação com a posição social da pessoa, seu status institucional, que religião professa ou quem diz ter aceito como “senhor e salvador”.

Alguns versos na Bhagavad-gita que marcam isso fortemente são estes:

“Quando alguém morre no modo da bondade, ele atinge os planetas superiores puros, onde residem os grandes sábios. Quando alguém morre no modo da paixão, ele nasce entre os que se ocupam em atividades fruitivas; e, quando morre no modo da ignorância, nasce no reino animal.” (Bhagavad-gita 14.15-16)

“Qualquer que seja o estado de existência de que alguém se lembre ao deixar o corpo, ó filho de Kunti, esse mesmo estado ele alcançará impreterivelmente. Portanto, Arjuna, deves sempre pensar em Mim sob a forma de Krishna e, ao mesmo tempo, cumprir teu dever.” (Bhagavad-gita 8.6-7)

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Os critérios de elevação e degradação das pessoas, segundo os ensinamentos de Krishna, são estritamente objetivo.

No primeiro par de versos, começando por “Quando alguém morre no modo da bondade…”, vemos uma avaliação objetiva, tendo por critério o envolvimento do sujeito com os três modos da natureza. Sua afinidade com um modo da natureza em específico, lhe proporciona um nascimento correspondente após a morte.

No segundo par de versos, começando por “Qualquer que seja o estado de existência”, Krishna diz que não há outro juiz para o destino pós-morte do indivíduo senão seu “estado de consciência”. E Krishna sugere, então, para que se alcance Ele, o Senhor Supremo, que busquemos um estado de consciência harmônico com Ele, em que estamos absortos nEle e, ao mesmo tempo, estamos cientes de nossos deveres com nossos semelhantes.

Em outras palavras, caso nos envolvamos com o modo da ignorância, rejeitemos nossa relação com Deus e sejamos negligentes com nossas obrigações para com nossos parentes, vizinhos e toda a humanidade, de nada adiantará nos dizermos “Hare Krishnas”, rasparmos a cabeça ou adotarmos qualquer outra designação ou aparência externa.

Um Sannyasi que Foi para o Inferno

O exemplo mais marcante disso, dentro da história do Movimento Hare Krishna, provavelmente seja o caso de Chayavana Swami. Chayavana Swami tinha os maiores títulos que “atribuem santidade” a alguém. Ele era um sannyasi, isto é, um monge renunciado. Ele recebera três iniciações espirituais diretamente de Srila Prabhupada, um mestre espiritual cujo poder é inquestionável, já que se diz que somente alguém dotado de poder diretamente por Deus poderia ter feito o que Srila Prabhupada fez, isto é, propagar o cantar do mantra Hare Krishna pelo mundo todo. Então, Chayavana Swami era iniciado no mantra Hare Krishna, iniciado no mantra Gayatri e iniciado como um sannyasi em uma sucessão discipular fidedigna, diretamente por Srila Prabhupada.

Apesar de ter toda essa externalidade a seu favor, Srila Prabhupada disse sobre o destino dele após a morte: “Você sabia que ele [Chayavana Swami] foi para o inferno?” (Um Diário Transcendental, 22 de fevereiro de 1976)

O que saiu errado? Sua adesão externa a um guru fidedigno, a ritos iniciáticos fidedignos, a cânticos fidedignos não encontrou correspondência com uma adesão interna, uma reforma de consciência. Enquanto, do ponto de vista meramente formal, era um seguidor de Srila Prabhupada, na vida prática se dedicava a roubar o dinheiro do Movimento Hare Krishna, um dinheiro acumulado pelo serviço voluntário de vários devotos esforçados do Senhor e que deveria ser utilizado para servir à humanidade com a impressão de livros, distribuição de alimento vegetariano santificado, edificação de templos e outros serviços do tipo, e nunca ser utilizado para os interesses pessoais de um ladrão.

Prabhupada Não Pode Salvar Você

Assim como Jesus, Srila Prabhupada disse com todas as palavras que um acharya (um poderoso mestre espiritual) não pode salvar alguém que não segue seus ensinamentos, mas que tem uma relação apenas “institucional” com ele ou algo similar.

Em uma palestra em Londres, no dia 21 de julho de 1973, Srila Prabhupada disse: “Se você cumpre os deveres espirituais corretamente, você está salvo. De outro modo, se você não segue, mesmo tendo recebido a instrução do acharya, como você poderia ser salvo? Ele pode salvar você por meio da instrução, por meio da misericórdia, tanto quanto possível. Por outro lado, você tem que pegar isso em suas mãos com seriedade”.

Responsabilidade

O convite deste artigo não é rebaixar o poder dos representantes de Deus. De fato, sem a misericórdia deles em virem até nós e dedicarem suas vidas a nos instruir, não saberíamos quais são os nossos deveres, nem como executá-los. A gratidão e a busca pelo refúgio deles devem permanecer intensas. O convite deste artigo, no entanto, é para que jamais tiremos de nós a responsabilidade por nossa salvação, estando sempre cientes de que cabe somente a nós, e a ninguém mais, seguir ou não seguir, sem confundirmos verdadeiro avanço espiritual com avanços externos, como a progressão de iniciações, títulos e a opinião pública que nos conhece nos fins de semana, e não na privacidade da nossa consciência. Nenhum mestre pode nos salvar com “mágica”, tampouco algum mestre pode nos obrigar a seguir as instruções divinas, até porque isso não teria efeito nenhum.

E, então? Despido de toda externalidade de sua religião, bem como de suas relações dentro dessa religião, como vai sua consciência?

Sobre o autor: Bhagavan Dasa é discípulo de Dhanvantari Swami e cursou o Seminário de Filosofia e Teologia de Campina Grande no ano de 2005, quando recebeu o título Bhakti-shastri. É graduado em Letras, graduando em Filosofia e atua como tradutor na Bhaktivedanta Book Trust do Brasil desde 2006. É casado e pai de um menino.

 

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