Um Resgate de Krishna

chandramukhaChandramukha Swami

Você trocaria um emprego estável e bem remunerado na Globo para distribuir livros na Av. Brasil, sob um sol de 40 graus? O adolescente Cláudio, mais tarde conhecido como Chandramukha Swami, considerou que era a coisa certa a se fazer.

Sinceramente, sem falso ego, eu acho que, desde o começo, eu já tinha uma coisa legal com Deus. Desde pequeno, lembro que eu me relacionava com Ele como uma pessoa, como um amigo. Eu tinha um contato pessoal, mas acho que, de alguma forma, tudo é muito difícil de organizar na cabeça sem lermos os livros de Srila prabhupada. Ainda assim, eu sempre tive essa questão muito forte, de ter pelo menos uma consciência parcial de Deus. Era algo bem legal, uma espécie de intuição forte da existência de Deus, de que esta vida é uma vidinha no meio de uma infinidade de vidas, de que o corpo não é o eu. Eu acho que, para uma pessoa se tornar devota e realmente entender a consciência de Krishna, ela já tinha isso, como Prabhupada fala no Néctar da Devoção.

Aconteceu comigo quando eu tinha mais ou menos 16 anos de idade. Veio muito forte. Eu estava realmente muito interessado em vida espiritual, e é uma idade complicada para isso porque todo mundo está afim de curtir pra caramba e fazer isso e aquilo. E eu fiz isso e aquilo, mas fiz antes dos 16.  Então, segundo me lembro, quando eu tinha 16 anos e morava em São Paulo, capital, eu e dois amigos decidimos nos mudar para Arraial do Cabo. Parei de estudar por um ano, porque já não dava mais. Eu estava afim de vida espiritual!

Minha primeira realização maior com Deus foi com a natureza. Eu precisava estar com a natureza, estar na praia, curtir os pássaros… Mas, como a natureza é impessoal, ela não reciproca. Não é a mesma coisa que ser consciente de Krishna. Então, depois de um ano amando a natureza, ela estava lá, nem aí para mim. Foi uma sensação meio maluca. E comecei a achar pouco. Tinha que ter algo mais.

Eu lia muito, e também escrevi muito nessa época, mas joguei tudo fora. Eu escrevia muito porque eu estava agonizando, no sentido de que não me encaixava mais na vida material. Eu não estava nem um pouco interessado naquilo que as pessoa da minha idade buscavam. Agora estou falando de mim com 17 ou 18 anos. Nessa época, eu realmente tinha uma coisa muito forte dentro de mim.

Então, voltei para o Rio, depois de um ano ou um ano e meio. Nessa época, meus pais foram morar no Rio. Aí tentei me encaixar, voltei a estudar, entrei na Globo, comecei a trabalhar, e era uma profissão que ia me dar dinheiro, que ia dar certo, que ia ser estável – pelo menos era a impressão que eu tinha. Mas eu estava achando que aquilo não tinha nada a ver, e eu passava noites escrevendo e meditando, até que meu irmão, Rasananda, que morava em São Paulo, me falou da Bhagavad-gita. E lendo isso, ele falou que achava que tinha tudo a ver comigo.

Então, fui visitar um templo para conhecer. Isso foi numa sexta-feira à noite, e foi muito interessante. Era uma casa muito feia, muito pequena. Era na Glória, na rua Hermenegildo de Barros. Era uma casa feia, com pessoas feias e bem estranhas, e Paravyoma estava dando aula, e eu peguei só um pedaço da aula, mas não entendi nada. Em todo caso, comprei uma Bhagavad-gita e uma japa e, na mesma sexta-feira, fui para Saquarema com os amigos, que é uma praia indo também para Arraial do Cabo, mas já estava com Gita e japa na mão. Aí, no dia seguinte, eu acordei, peguei a Bhagavad-gita e fiz uma coisa que eu nunca tinha feito na vida: comecei a ler caminhando pela praia. Caminhei e caminhei, horas e horas. Li a introdução inteira e continuei lendo até o terceiro capítulo de uma vez só.  E aí quando voltei para Saquarema, depois dessa caminhada, eu, sinceramente, já não era mais a mesma pessoa. Depois daquele terceiro capítulo, karma-yoga, eu mudei… Eu tinha uma turma e ia acontecer coisas lá, e eu disse que eles podiam ficar com o carro, uma Belina que eu tinha na época, e voltei para o Rio de carona. Cheguei no Rio no sábado à noite.

Quando cheguei, aconteceu algo interessantíssimo. Meus pais tinham uma casa no Flamengo, mas estavam viajando. Quando eu tentei abrir a porta, estava trancada por dentro, e um barulho vinha de lá. De repente, alguém abriu a porta, e era meu primo, que estava dando uma festa na casa. Quando ele abriu a porta, vi um monte de gente lá, e eu já entendia o que era maya e logo vi que não ia dar certo ficar ali. Eu, então, falei com ele que eles tinham que ir embora e fui para a praia em frente, passei uma meia hora ali, e nesse tempo eles foram embora.

Aí, no próximo domingo, eu fui ao templo e cheguei cedinho lá. Os devotos estavam descarregando uma a Kombi do Ceasa, do Cobal, e ajudei a descarregar a Kombi, que era uma Kombi azul escura.

Nesse dia, Paravyoma estava saindo a sankirtana e era ekadashi. E aí eu fui com ele a sankirtana, no segundo dia em que estive lá. E foi legal, fiz sankirtana, falei o mantra no primeiro dia, achei tudo muito legal. Ele sempre brinca e fala no meu vyasapuja que ele me deu amendoim cru e quase me “queimou” – era um negócio horrível. Era ekadashi e eu não sabia nada.

Aí eu lembro que eu voltei para o templo, para o festival de domingo, mas eu não pude ficar, porque eu trabalhava no jornalismo da Globo e tinha uma entrada no Fantástico, e eu tinha horário para estar lá. Então, lembro que não fiquei para o festival, mas fui para a Globo, fiz o que eu tinha que fazer lá e, no final do dia, já procurei lá meu chefe e pedi as contas. Só que eu tinha um primo lá, que já faleceu, e era gerente administrativo forte. No dia seguinte, esse primo pediu para conversar comigo, e quiseram me dissuadir me oferecendo até mesmo a oportunidade de trabalhar no Jornal Nacional, que é algo que todo mundo quer, porque o salário é muito mais alto. Mas eu não estava afim! Eu estava afim de fazer sankirtana! Estava afim de ir para a Av. Brasil, a 40 graus. Eu expliquei direitinho para eles e eles falaram, depois de uma conversa, que tudo bem, e nem precisei cumprir os 30 dias de aviso prévio, mas eles falaram que o dia em que eu quisesse voltar, fosse dali a 5 ou 10 anos, eu podia. Se eu quiser voltar, acho que ainda dá!

Naquele tempo, eu não tinha uma compreensão de que eu estava entrando no parampara, na filosofia, mas foi um chamado muito forte, foi mesmo um resgate de Krishna. E depois, a cada aula que eu ouvia, eu achava tudo incrível. O presidente do templo era Purushatraya Dasa Brahmachari, e na época as aulas do Srimad-Bhagavatam eram do segundo canto, com a história de Brahma nascendo do umbigo – uma viagem. A cada aula que eu ouvia, eu percebia que a coisa era muito mais do que eu pensava. Aí passava uma semana, e era muito mais. A cada mês, a cada ano, a cada década ainda é assim.

Então, acho difícil alguém entrar tendo a compreensão da grandeza mesmo do Movimento. Pode ser que existam pessoas que entraram e participaram e entenderam, como os gosvamis de Vrindavana, mas eu acho difícil entender. Acho que é uma misericórdia de Krishna mesmo, em que Ele pega você, leva você e, mais tarde, você consegue entender onde você caiu. É difícil entender porque quanto mais a gente entende, mais a consciência se expande, e isso não tem fim.

Somos uma galerinha que foi chamada por Krishna mesmo, mas, agora, existe aquela história: muitos serão chamados e poucos serão escolhidos. Fomos chamados, agora vamos nos manter na consciência de Krishna. Mas, para mim, esse negócio de encontrar os devotos, encontrar minha turma, foi um alívio infinito. As pessoas são legais, todo mundo é uma alma espiritual, todo mundo sempre tem algo de legal, mesmo as pessoas mundanas que são boazinhas, mas, no final, todo mundo é muito contaminado, muito invejoso, muito luxurioso. Quando você está na espiritualidade, essa vibração não dá mais.

Eu estava tão queimado com o mundo material, e queimado de uma maneira muito legal, no sentido de que Krishna realmente me mostrou que nada mais fazia sentido. Vi poucas pessoas entrarem no Movimento realmente com essa compreensão tão clara de que não tem nada mais lá fora. Então, senti uma vontade de fazer sankirtana, e fiz muito, sentindo que era o maior néctar estar na rua fazendo esse trabalho de doar. Isso fazia realmente total sentido para mim, ao ponto de achar que nada mais fazia sentido, e acho isso cada vez mais.

Este material é parte de uma entrevista conduzida pelos alunos Gopi-bharta, Laura Dantas, Marcela Antunes, Premavatti, Mateus Moreira, Radesh Dasa e Silvio Pinto, da primeira turma do Curso de Estudos e Práticas Monásticas de Bhakti-yoga, promovido pelo IBEV, em parceria com a Volta ao Supremo.