Vandana, Voltando-se para a Oração

28 (artigo) Vandana (1757)Dvarakadisha Devi Dasi

Deus é uma pessoa e, através de Sua infinita bondade, Ele permite que nós, mesmo em nossa condição presente, prestemos a Ele serviço pessoal.

No Srimad-Bhagavatam (7.5.23-24), o devoto Prahlada Maharaja, uma grande autoridade espiritual, diz: “Ouvir e cantar sobre os transcendentais santos nomes, forma, qualidades, parafernália e passatempos do Senhor Vishnu, lembrarmo-nos deles, prestar serviço aos pés de lótus do Senhor, oferecer ao Senhor respeitosa adoração, oferecer-Lhe orações, tornar-se Seu servo, considerar o Senhor como o melhor amigo e render-se totalmente a Ele (em outras palavras, servi-lO com o corpo, a mente e as palavras) – estes nove processos são considerados o serviço devocional puro. Quem quer que dedique sua vida a servir Krishna através destes nove métodos deve ser visto como a pessoa mais culta, pois obteve conhecimento completo”.

Aqui, continuamos nossa série sobre os nove processos de bhakti-yoga, ou serviço devocional ao Senhor.

Oração, ou vandana, é o sexto dos nove processos do serviço devocional, um processo pessoal e intenso, e possivelmente também o mais universal, já que a oração preenche as tradições das religiões e culturas do mundo, criando nossos laços mais ancestrais e nossa linguagem mais comum. As escrituras estão repletas de orações que se tornam nossas amigas e companheiras para a vida toda. Praticamente todos já sentiram o conforto de uma oração na infância, ou o sentimento de aconchego quando preces familiares são citadas.

Frequentemente, a oração é o primeiro modo com que as crianças aprendem sobre Deus. Os pais ensinam a seus filhos orações simples para a hora de dormir ou para antes das refeições. Essas orações iniciais ensinam muito às crianças sobre como se aproximarem do Senhor. Há preces simples de gratidão, preces para o bem-estar dos entes queridos, preces para que algum desejo íntimo seja atendido. Orações da infância geralmente expressam o medo do mal ou da ira de Deus. Elas estabelecem princípios teológicos, tais como céu eterno e inferno igualmente eterno, que moldam o comportamento de culturas inteiras.

Enquanto cada um de nós tem seus conflitos únicos com o mundo, a oração convida a comunicação que suplanta as circunstâncias materiais. A oração em sua forma mais amável, desperta novamente nossos sentimentos mais primordiais e nostalgia. A oração articula o conhecimento que parece surgir de algum lugar além das lembranças de nossa vida; é a razão pela qual as palavras de uma oração escrita há séculos pode em geral ser sentida como a mais sincera expressão de nossa própria ânsia espiritual.

Oração de Angústia

A oração é frequentemente motivada pelo sofrimento. De acordo com o Bhagavad-gita, Deus aceita tais orações, embora sejam centradas em nosso próprio prazer, mais do que no de Deus. Uma história encantadora do Srimad-Bhagavatam nos diz o porquê.

Um magnífico elefante chamado Gajendra estava viajando com sua manada quando ficou cansado e com sede. Eles pararam em um lago, onde se divertiram brincando com a água. Bem no fundo do lago, porém, vivia um crocodilo muito forte. Ele prendeu a perna de Gajendra com suas mandíbulas poderosas, e, apesar da força bruta de Gajendra e da ajuda dos elefantes da manada, Gajendra não conseguiu libertar-se.

Eles lutaram por um longo tempo. Lentamente, a força de Gajendra começou a extinguir-se, enquanto o crocodilo, uma criatura da água, permanecia forte em seu ambiente. Ao sentir sua morte aproximar-se, Gajendra percebeu que ninguém além do Senhor Supremo seria capaz de salvá-lo. Das profundezas de seu ser, surgiram as palavras de uma oração aprendida numa vida anterior e ele a cantou com absoluta devoção. Comovido com a oração de rendição, cantada de um coração puro, Krishna, o Senhor Supremo, apareceu e matou o crocodilo.

O que no elefante atraiu o Senhor Krishna? Foi a incrível visão de um elefante recitando uma oração? Foi a própria oração, uma longa narrativa das glórias de Krishna, que O levou até ali?

Nenhuma dessas coisas é apelativa o bastante para o Senhor Supremo. Afinal, orações são sempre e em toda parte recitadas em Sua honra. No entanto, a surpreendente característica da oração de Gajendra foi que ela foi proferida com entendimento puro. Gajendra foi capaz de ver que seu reino triunfante como líder dos elefantes era apenas um papel temporário no mundo. Seu papel eterno era em relação ao Senhor, e, quando Gajendra percebeu isso, foi inspirado em seu coração com palavras de glorificação. O ponto não era que ele sabia a oração e a usou para escapar de um apuro, mas que ele sentiu a oração e a cantou com amor pleno.

Frequentemente, orações estão ligadas a expectativas. Acima de tudo, qual o sentido de comunicar-se com o Senhor do universo se não pudermos expressar livremente nossos desejos? Se vivemos com a consciência da onipotência de Deus, rezar pelo que queremos pode soar natural. Contudo, pense em todas essas orações pelo clima bom, pelo dinheiro, pelas curas miraculosas e considere o quanto é impossível ter todas essas coisas atendidas de uma só vez. Como Srila Prabhupada ponderou, durante a Segunda Guerra Mundial, as esposas dos soldados alemães rezavam pelo retorno seguro de seus maridos, e as esposas dos soldados britânicos estavam rezando pelo retorno a salvo de seus maridos. Em uma guerra, como podem todos serem satisfeitos?

Resultados Mistos

Às vezes, somos abençoados com uma resposta para nossas orações e algumas vezes a benção vem em forma de uma aparente rejeição a elas. Às vezes, nossas preces são respondidas, mas não conseguimos reconhecer a resposta do Senhor Krishna. Como Krishna decide a quais pedidos atender? Como reagimos quando Ele parece ignorar nossas orações, mesmo quando a situação torna-se bastante desesperadora?

A um nível, a resposta é complexa, carregada de consequências cármicas e lições para o nosso próprio bem, tal como um pai que nega à criança os prazeres que podem causar a ela perigo ou dor. Pensem em quantas vezes, em retrospecto, somos gratos por Deus não nos ter respondido em nossas orações? Foi bom, mais tarde refletimos, termos perdido aquele emprego. Foi bom que a pessoa que gostávamos não ter correspondido o nosso amor. Salvos de nossa visão sem abrangência, Deus nos resgatou ignorando nossos apelos.

Às vezes, porém, nossas perdas são tão grandes que não conseguimos encontrar nenhum motivo justo para a negligência de Krishna. Como pode haver algo de bom em perder uma criança? Como pode haver algo de bom em padecer lentamente de uma doença dolorosa? Quando tragédias como estas entram em nossa vida, como acontece neste mundo de miséria imprevisível, geralmente nos voltamos para a oração com intensidade inimaginável. E, geralmente, não há alívio para a dor, nenhum sinal de que Krishna nos está ouvindo ou Se importando. É difícil não deixar que o condimento da raiva e da dúvida tempere nosso relacionamento com Krishna quando Ele parece estar, deliberadamente, destruindo tudo aquilo que amamos.

Contudo, talvez seja esse o Seu ponto. Amamos as pessoas e coisas deste mundo muito profundamente. E embora esse amor seja natural, tem que ser mantido em perspectiva. O amor, em sua mais pura e satisfatória forma, é voltado para Krishna. Somos mais a nossa verdadeira identidade, somos mais a nossa identidade feliz, quando esse amor a Deus é completamente desperto em nosso ser ao darmos e recebermos amor aos outros neste mundo como parte de nosso propósito mais amplo de amar a Ele. Isto, é claro, não é uma visão pequena, e é impossível que seja adotado superficialmente. De tempos em tempos, no entanto, o Senhor traz isto à tona através de uma aparente tragédia. Isso certamente não se parece com uma benção, mas não é nada menos que uma chance de nos voltarmos para Ele que melhor nos ama.

Nada que eu já tenha lido ilustra melhor a relação entre oração e sofrimento do que a prece da rainha Kunti. Ela e sua família tiveram a sorte de estarem com o Senhor Krishna, que as ajudou a aguentar a morte e separação de pessoas amadas, ruína financeira e humilhação. Finalmente, quando suas provações haviam acabado, Krishna preparou-Se para partir. Kunti rezou: “Deixe que nosso sofrimento venha novamente, porque, ao sofrermos, nós vemos Vossa Onipotência, e vendo-Vos, não temos de ver novos nascimentos e mortes”. Mais tarde, ela rezou: “Por favor, cortai as amarras de meu apego à minha família para que meu amor possa fluir unicamente para Vós, assim como o Ganges corre para o mar”. A maioria de nós relutaria em oferecer tais orações, mas não a destemida rainha Kunti!

A oração, então, é uma reflexão sobre nossa compreensão e nosso relacionamento único com Krishna. A oração é tudo, desde nossas mais íntimas conversas com o Senhor no coração, até a expressão universal de louvor e gratidão, ecoando através dos tempos. Não é uma linguagem com palavras, mas uma linguagem do coração. Belas orações sem sentimento nada significam para Deus; a beleza de uma oração, embora articulada, está em sua sinceridade.

Encontre suas próprias orações mais belas e, então, ofereça-as com coragem.

“Ó filho de Maharaja Nanda, Krishna, sou Teu servo eterno, mas, de algum modo, caí no oceano de nascimentos e mortes. Por favor, tira-me deste oceano e coloca-me como um dos átomos de poeira a Teus pés de lótus”. (Sri Caitanya Mahaprabhu)

“Ó Senhor Mukunda, Krishna, reverencio-Vos e respeitosamente peço que atendais a este meu desejo: que em cada um de meus futuros nascimentos, eu, por Vossa misericórdia, sempre me lembre e nunca me esqueça de Vossos pés de lótus”. (Kulasekhara)

“Ó Krishna, ofereço minhas reverências Ti, porque Tu és a personalidade original e não és afetado pelas qualidades do mundo material. Tu existes tanto dentro quanto fora de tudo, apesar do que és invisível a todos”. (Kuntidevi)

“Ó todo-poderoso, não desejo nenhum outro obséquio senão o de servir Teus pés de lótus, o obséquio mais ardentemente buscado por aqueles que estão livres do desejo material. Ó Hari, ó Krishna, que pessoa iluminada que adora a Ti, o outorgador da libertação, escolheria outro obséquio que cause seu próprio cativeiro?”. (Muchukunda)

“Ó meu Senhor, as pessoas que sentem o perfume de Teus pés de lótus, carregado pela brisa do som védico até os ouvidos, aceitam Teu serviço devocional. Tu nunca Te separas do lótus do coração de tais pessoas”. (Brahma)

“Ó Krishna, filho de Vasudeva, reverências Ti, dentro de quem todos os seres vivos residem. Ó Senhor da mente e dos sentidos, mais uma vez Te ofereço minhas reverências. Ó mestre, por favor, protege este alguém que se rendeu a Ti”. (Akrura)

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Tradução de Adi Purusha Prema. Todo o conteúdo das publicações de Volta ao Supremo é de inteira responsabilidade de seus respectivos autores, seja o conteúdo textual, seja o conteúdo de imagens. Fonte da imagem: http://blog.febc.org.

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