Yajna: Uma Análise Criteriosa de Sacrifício e Oferenda na Bhagavad-gita

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Hridayananda Dasa Goswami
(excerto da obra Guia Completo da
Bhagavad-gita com Tradução Literal)

O próprio Universo que nos ata ao karma oferece-nos um caminho para a liberdade.

(Nota: Os números fornecidos entre colchetes se referem a versos da Bhagavad-gita. Por exemplo, 3.9 significa “capítulo 3, verso 9”. O texto reproduzido abaixo sem diacríticos consta no livro impresso com diacríticos)

O próprio Universo que nos ata ao karma oferece-nos um caminho para a liberdade: yajna, oferenda. À parte dessa saída, ou cláusula de salvaguarda, o mundo todo não passa de uma infindável variedade de cativeiro de karma [3.9]. Aquele que não faz nenhuma oferenda não pode desfrutar deste ou de qualquer outro mundo [4.31].

O que é, então, yajna, oferenda? Como é que isso desempenha um papel tão importante na função cósmica e salvação pessoal?

Krishna ensina que somos criados para oferecer sacrifício, pois o criador estabeleceu-o em nossa profunda natureza como criaturas [3.10]. Praticamente todo indivíduo oferece algo de valor simbólico ou tangível a um superior a fim de agradar, aplacar, obrigar ou receber um favor. E sempre que o fazemos, ocupamo-nos, no sentido mais básico, em yajna (sacrifício). Isso é algo tão inerente à nossa natureza que, mesmo aqueles que rejeitam textos sagrados e evitam ritos celestiais, realizam yajna. Desse modo, as pessoas pagam impostos (e propinas) aos poderes políticos superiores. Ritualmente honramos superiores nas forças armadas, no trabalho, no governo, no campo desportivo, na universidade etc. As pessoas sacrificam tempo, energia, dinheiro, e até mesmo suas vidas, pelo que elas veem como uma causa superior ou como uma forma racional de negociar e enfrentar poderes superiores. Assim, yajna (oferenda) é um impulso universal, uma necessidade e uma inspiração das pessoas em toda parte.????????????????????????????????????

Mesmo aqueles que rejeitam textos sagrados e evitam ritos celestiais, realizam yajna.

Não é surpreendente constatarmos que quase todas as religiões ocupam os fiéis num tipo de oferenda ao poder superior ou divino, seja lá como este for concebido. Normalmente, o indivíduo busca o favor divino para garantir segurança, felicidade, prosperidade ou iluminação para si mesmo e seus entes queridos, afastando o mal e conquistando seus desejos. Em raras ocasiões, um espiritualista devotado busca o prazer de um ser divino como um fim em si mesmo, mas isso não é o que se espera comumente do ser humano.

A Bhagavad-gita analisa cuidadosamente o ato de oferecer, fazendo uma distinção crucial entre a ação (karma) e seu fruto ou recompensa (karma-phala). Impelidos por nossa natureza, devemos agir a cada momento [3.5], e nossos atos produzem frutos: riqueza, fama, poder, conhecimento, amor ou prazer corpóreo. Notavelmente, Krishna nos diz que temos direito a nosso dever, mas nunca a seus frutos [2.47]. Devemos oferecer os frutos a esses poderes superiores que os concederam. De fato, o karma ata-nos precisamente quando agarramos o fruto do trabalho. Krishna define um ato egoísta e aprisionador como aquele em que nos aferramos aos frutos [5.12]. Se invertemos esse movimento, e primeiro oferecemos o fruto a sua fonte antes de desfrutá-lo, realizamos yajna e libertamo-nos de karma.

Alguém bem poderia perguntar: “Por que não podemos desfrutar o fruto do nosso próprio trabalho?” Na verdade, podemos, mas só depois de primeiro reconhecermos a fonte da nossa recompensa. Por exemplo, oferecer nosso alimento antes de comê-lo não significa que passamos fome; em vez disso, por um simples rito de reconhecimento, respeito e gratidão, livramo-nos da ofensa de tomar algo sem retribuir [3.13].

De fato, a capacidade de sentir gratidão e de reciprocar eleva-nos acima da selvageria abjeta. Mediante oferenda sincera, o indivíduo escapa da forma mais cega de egotismo; escapa da minúscula prisão do egocentrismo, constatando que algo ou alguém no Universo é maior que ele e o sustenta.

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A capacidade de sentir gratidão e de reciprocar eleva-nos acima da selvageria abjeta.

Todavia, como um rito antigo, inato e ubíquo liberta o indivíduo de karma? Isso é meramente uma reivindicação de fé? Pode alguém simplesmente oferecer qualquer coisa a qualquer poder, real ou imaginário, e livrar-se do karma? É tão fácil assim? Não mesmo. Basta olhar para a história: mesmo tiranos assassinos costumavam fazer oferendas místicas ou mágicas [16.15, 17]. Eles decerto não são almas liberadas.

Só uma oferenda verdadeiramente espiritual dissolve o karma do indivíduo [4.23-24], mas a maioria das pessoas realiza yajna como realiza todos os demais atos: imersa nos modos da natureza [17.1-3, 17.11-13].

A Gita apresenta uma extensa hierarquia de oferendas, que vão desde o obscuro e demoníaco ao divino e libertador. Vamos rever essa hierarquia, pois iremos, assim, contemplar em cores nítidas a escala de consciência – e da própria vida.

Embora nos incite a transcender este mundo mediante yajna espiritual, Krishna também explica o yajna mundano para ajudar o leitor a se tornar um bom consumidor que compara preços. Assim, a Gita apresenta a função, variedade e limites das oferendas mundanas.

O capítulo três ordena, por duas vezes, o indivíduo de mentalidade mundana a participar, através de yajna, de uma espécie de economia cósmica que, adequadamente cultivada, traz prosperidade para todos. Na primeira iteração desse dever, Krishna simplesmente afirma que as pessoas devem fazer oferendas aos gestores cósmicos (devas, ou deuses) que, então, suprem todas as necessidades humanas [3.10-13]. Com essa recompensa, os seres humanos fazem depois mais oferendas, que trazem recompensas renovadas [3.14-15].

Assim, um ciclo é posto a girar [3.16]: o ciclo de receber e retribuir. Se não mantemos esse ciclo girando, se aceitamos mas não retribuímos, nossa desatenta entrega ao prazer e ingratidão ofendem a ordem natural. Vivemos em vão, como ladrões [3.12, 3.16]. Por outro lado, se comemos após primeiro oferecermos, libertamo-nos de todo pecado [3.13].

É claro que a maioria das pessoas hoje, embora aceite o princípio geral da reciprocidade, não acredita em deuses nem faz oferendas a eles. Seria a conversa de Krishna sobre os deuses um pouco de mito antigo misturado a um tratado iluminador noutros aspectos? Deveríamos higienizar semelhante conversa sobre deuses com interpretações simbólicas?

Antes de fazer isso, vamos levar em conta quem realmente são os deuses na Bhagavad-gita. Caso contrário, para um leitor moderno, o termo deuses pode evocar imagens de panteões antigos de desenho animado ou provocações pagãs ao monoteísmo.

Em primeiro lugar, os deuses não são Deus. Em segundo lugar, eles executam funções racionais: gerenciam uma grande corporação chamada o Universo. Tenha em mente que o Ocidente moderno ainda usa linguagem divina para nomear seres humanos ricos e poderosos.¹ Em terceiro lugar, esses administradores cósmicos são muito superiores a nós; não podemos, portanto, exigir acesso imediato a eles, da mesma forma que cidadãos comuns não podem exigir reuniões particulares com os líderes mais poderosos do mundo.

Porém, mesmo que escolha suspender a incredulidade contemporânea, o indivíduo ainda pode se opor ao yajna com o argumento de que Deus parece estar fazendo negócios em vez de apenas nos amar. Krishna, no entanto, prescreve oferendas aos deuses só para as almas insensatas que não se importam com Deus, mas tentam mesmo desfrutar de Sua criação. De fato, tão logo prescreve essas oferendas, Krishna acrescenta uma ressalva: aquele que se deleita no eu apenas, satisfeito no eu apenas, não precisa fazer oferendas aos deuses [3.17-18]. Só aqueles que estão absortos em desfrutar deste mundo devem pagar um imposto de luxo sobre os prazeres mundanos. Aqueles que encontram um prazer superior na alma e em Deus, e não tentam explorar Sua criação, não precisam fazer tais oferendas. Krishna, no entanto, solicita que eles, ainda assim, façam isso a fim de estabelecer um bom exemplo para pessoas não iluminadas. Ele chega a citar Seu próprio exemplo [3.20-26]. De fato, ao vir a este mundo, Krishna desempenhou muitos deveres usuais para ensinar aos outros.

Esta é a verdadeira razão para yajna: aqueles que buscam apoderar-se deste mundo precisam superar a bestialidade de apanhar o que quiserem sem se importar com a fonte e proprietário últimos de tudo. Ao retribuir aos agentes de Deus, que governam o próprio mundo que o indivíduo busca desfrutar, este desperta sua própria natureza ética superior. Assim, o materialista escapa da minúscula prisão do egocentrismo e conecta-se a uma comunidade cósmica vasta, justa e pessoal.

Afinal, a própria civilização depende da nossa capacidade de justiça, da nossa vontade de respeitar uns aos outros e de dar aos outros o que lhes é devido. O karma nos aprisiona precisamente quando tentamos agarrar e monopolizar os frutos de nosso próprio trabalho. Por quê? Porque, ao fazê-lo, violamos uma lei universal de seres civilizados: aqueles que tomam deveriam retribuir, valor por valor. Só os delirantemente perversos acreditam ser senhores autônomos independentes do mundo [16.14] – embora, como veremos, mesmo esse seleto grupo faz uma espécie “maluca” de oferenda.

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O karma nos aprisiona precisamente quando tentamos agarrar e monopolizar os frutos de nosso próprio trabalho.

Por meio da oferenda sincera, aprendemos, como a ciência agora confirma, que dar nos concede mais alegria que receber, que generosidade supera ganância. A reciprocidade, que é o coração de yajna, sustenta a justiça em nossas mentes, sociedades e civilizações. Constatamos que nossos corpos, nossa recompensa e nossas vidas – e o mundo natural que sustenta tudo isso – provêm como dádivas do alto. Assim ensina a Gita.

Ao mesmo tempo, a maioria de nós é, como diz o ditado, uma “obra em progresso”. Muitas emoções além de amor puro e gratidão enchem nossos corações. Assim, a despeito da religião – seja ela animista, politeísta, monista, monoteísta ou humanista secular –, as pessoas realizam oferendas mundanas como fazem quase tudo: sob o encanto dos três modos da natureza. Exploraremos a variedade de oferendas mundanas nos próprios termos gerais e não-sectários da Gita.

Vamos começar pelo nível materialista mais baixo e ir subindo até a liberação espiritual última. Ocupando o degrau mais baixo, está a oferenda dos perversos. A história exibe demasiados vilões cujas atrocidades causaram sofrimento cruel à humanidade e ao resto da natureza. No capítulo dezesseis, Krishna traça o perfil dos perversos: eles afirmam que não existe a Verdade, só verdades; não há Deus, só buscas egoístas concorrentes [16.8]. Esses indivíduos depravados prosperam ao prejudicar os outros, e põem o mundo gravemente em risco [16.9]. Loucos de orgulho e presunção [16.10], matarão qualquer um para obter seu ganho, pois alegam serem senhores do mundo: “ricos, poderosos, perfeitos e felizes” [16.13-14].

Esses não são o tipo de pessoas que você quer como vizinhos. Essas figuras distorcidas, no entanto, na louca busca pelo poder, fazem oferendas, como afirma a Gita [16.15], e toda a história confirma. Krishna chama essas oferendas de namayajna, “oferendas só de nome”: “obstinados e vaidosos, os perversos fazem oferendas hipocritamente, sem se importarem com as regras” [16.17]. No verso seguinte, Krishna acrescenta que semelhantes executores de sacrifício “odeiam e invejam Deus em seus próprios corpos e nos demais” [16.18]. Em outras palavras, os perversos não fazem oferendas para agradar ou honrar um poder maior. Em vez disso, imersos em autoadoração, buscam por um poder maior mediante a exploração ritualística do que acreditam ser uma fonte de poder mágico amoral. A meta final de tais oferendas é perseguir, escravizar e acabar com outras pessoas. Harry Potter entenderia esse problema!

À parte de oferendas demoníacas, a Gita descreve yajnas que são mais convencionalmente corrompidos pelos três modos da natureza. Eis a tríade.

A oferenda em escuridão lembra o rito perverso no sentido de ser caótico, descrente, sem caridade e oferecido a espíritos estranhos e fantasmas [17.4, 13]. Mas esse rito não tem intenção explicitamente má.

Pessoas passionais tendem a fazer oferendas a espíritos guardiões e outros seres sobrenaturais benevolentes. Esses ritos exibem uma hipocrisia urbana: o indivíduo parece dar, mas realmente busca ganho pessoal e fama [17.4, 12], embora, mais uma vez, não haja intenção explicitamente má.

Aqueles que lidam com yajnas obscuros e passionais nem mesmo aceitaram seriamente os gestores cósmicos, os deuses. Então, está fora de cogitação, nesse nível, um monoteísmo profundo ou devotado.

Aqueles situados em bondade decerto fazem oferendas aos agentes de confiança de Deus, os deuses, com atenção sincera e sem buscar qualquer retorno egoísta. Eles oferecem porque acreditam que “é a coisa certa a se fazer”, e seguem as regras dadas em textos sagrados [17.4, 11].

Em certo sentido, o verdadeiro yajna começa aqui, em bondade. Em escuridão, presta-se oferenda em confusão, mal sabendo o que se faz. Yajna passional é mais um investimento astuto que um presente devotado – o indivíduo dá para receber. Em bondade, o indivíduo tem finalmente um sentido moral sincero de fazer oferenda a seres maiores, de fazer o certo sem motivo ulterior. Mesmo em bondade, no entanto, faz-se oferenda aos deuses em vez de a Deus [17.4]. Por isso, ainda não se tem plena consciência de quem realmente merece o presente [5.27, 9.24, 13.23] e quem, em última análise, envia a recompensa [7.20-22].

Uma pesquisa das palavras sânscritas usadas nesse contexto revela como Krishna quer que nos relacionemos com Seus agentes, os deuses: não deveríamos aceitar refúgio definitivo neles (prapad) [7.20], nem nos devotar a eles (bhakti) [9.23], nem jurar fidelidade última a eles (vrata) [9.25], mas deveríamos honrá-los da maneira que honramos sacerdotes, professores ou sábios (pujanam) [17.14]. De fato, lista-se honra aos deuses, junto com limpeza e honestidade, como parte de uma vida disciplinada decente.

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Não devemos nos refugiar nos deuses, nos devotar a eles ou jurar fidelidade a eles. Devemos honrá-los da maneira que honramos sacerdotes e professores.

Então, qual é o status dos yajnas descritos acima? Todos eles incorrem em karma, pois todos se desdobram dentro dos modos da natureza, produzindo frutos rápidos, porém fugazes [4.12, 7.23]. Por isso, aqueles que buscam sucesso no karma, e não se libertar do karma, fazem oferendas aos deuses [4.12]. Só por meio da oferenda a Deus (não aos deuses), com pleno conhecimento, é possível efetivamente se liberar [4.30]. Mesmo que, mediante yajna mundano, o indivíduo eleve-se ao paraíso deste mundo, ele cairá de novo [9.20-21]. Yoga espiritual avançado leva o indivíduo para além das melhores recompensas das oferendas mundanas [8.28], todas as quais são, em última análise, inadequadas [9.23] e não conduzem a Deus, pois não visam a Ele [7.23, 9.25]. Elas não nos ajudam a ver Deus [11.48]. Conclusão: esteja atento para a quem você faz suas oferendas.

Krishna, todavia, ensina que mesmo um yajna mundano é melhor do que absolutamente nenhum yajna. Ainda que não se tenha desejo algum de servir a Deus, deve-se, pelo menos, pagar impostos cósmicos sobre todos os recursos naturais que recebemos dos agentes de Deus. Entretanto, existem coisas mais importantes disponíveis do que bom karma. Existe vida espiritual verdadeira, uma chave para o que é yajna espiritual, que passaremos a considerar agora.

Quando nos esquecemos de nossa Fonte e, por isso, de nossa verdadeira natureza, tentamos explorar este mundo. A ilusão (maya), então, encobre a nossa consciência real [3.39] e imaginamos que somos matéria: o corpo material. Entretanto, quando devotadamente oferecemos nossas ações ao Supremo, desvelamos o verdadeiro conhecimento: que somos partes eternas de Deus [15.7]. Como faíscas caídas colocadas de volta no fogo, resplandecemos, então, com conhecimento puro e alegria.

Como vimos, a Gita enfatiza que se deveriam fazer oferendas a Deus, não aos deuses. Afinal, somos eternamente partes de Krishna [15.7]. Por isso, é natural servir a Deus tanto quanto a mão naturalmente serve o corpo do qual faz parte. Ao alimentar o corpo, a mão nutre a si mesma.

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É natural servir a Deus tanto quanto a mão naturalmente serve o corpo do qual faz parte. Ao alimentar o corpo, a mão nutre a si mesma.

Krishna refere-Se a Si mesmo como o Desfrutador² das oferendas (yajna) [5.29] – na verdade, o Desfrutador e Senhor de todas as oferendas [9.24]. Ao se deixar de reconhecer a diferença categórica entre Deus e os deuses, cai-se do plano espiritual [9.24]. A Bhagavad-gita ensina, desse modo, que só uma oferenda ao Senhor Supremo mantém o indivíduo no mais elevado plano espiritual. Krishna incita-nos, para o nosso bem mais elevado, a fazer oferendas a Ele [9.27, 9.34, 18.65].

Krishna deixa claro que não precisa de nada [3.22]. Ele age neste mundo para dar um bom exemplo [3.23-24] e para estabelecer o controle justo da Lei, dharma [4.7-8]. Ele institui yajna, oferenda sagrada, para este propósito – nosso desenvolvimento moral e espiritual –, e não para nos explorar. O que será que Deus haveria de fazer com nossas oferendas infinitesimais?

Considere como a maioria das famílias comuns funciona. A mãe ensina seus filhos a darem ao pai um presente de aniversário (que os próprios pais geralmente pagam). O pai, então, ensina os filhos a honrar o aniversário da mãe. Isso não é vaidade parental. Ao contrário, pais devotados civilizam seus filhos ao ensinar-lhes os caminhos do dever e do amor. O pai supremo faz o mesmo. O exemplo vem de cima.

Seja qual for o modo ou o lugar que escolhamos para fazer uma oferenda, Krishna governa a oferenda e faz isso de dentro do nosso corpo [8.4]. Krishna permeia este mundo inteiro,³ mas está especialmente presente em nossos corações [13.18, 15.15, 18.61], de onde Ele oferece orientação – ou, se preferirmos, ignorância [15.15, 4.11].

Somos como folhas que só vivem e vicejam enquanto unidas à árvore da qual cresceram. Ao oferecermos os frutos do trabalho a Krishna, reunimo-nos a Ele e novamente florescemos como seres eternos. Mediante yajna espiritual, conectamo-nos a toda a existência, por nos conectarmos a sua Fonte, pois Krishna causa a existência de todos os seres [9.5, 10.15].

Almas puras devotam todos os seus atos ao Supremo [9.27] e, assim, dissolvem completamente o karma [4.23], transcendendo um mundo repleto de sensores e grilhões cármicos. O indivíduo, então, age não como o senhor do mundo, mas como um devotado instrumento da vontade suprema [11.33], espiritualizando corpo e alma [4.26-27, 5.11].

Isso é possível porque matéria e espírito são, respectivamente, energias inferior e superior de Krishna [7.4-5]. Tudo flui de Krishna; Ele é a fonte de tudo [10.8]. Sendo assim parte de Deus, matéria e espírito têm uma natureza espiritual original, que se manifesta em contato direto com sua Fonte, Krishna. Yajna desenvolve essa conexão transformadora.

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Almas puras devotam todos os seus atos ao Supremo.

Para ilustrar esse processo, mestres ancestrais citam o exemplo da centelha e do fogo. Uma centelha brota do fogo e, assim, queima e brilha como tal. Contudo, quando se separa do fogo, a centelha perde a sua natureza ígnea. Retornando ao fogo, ela inflama novamente.

Almas são como centelhas. Deus é o fogo original. Conectados a Deus (yoga), manifestamos nossa natureza divina. Afastando-nos de Deus, nossa natureza divina desaparece até que voltemos a nos conectar a nossa Fonte. Mesmo objetos materiais, como alimento ou corpo, agem espiritualmente quando oferecidos a Deus [4.25-30] com devoção.

Krishna descreve explicitamente o poder transformador de yajna utilizando a linguagem clássica da oferenda. Em todo o mundo antigo, as pessoas ofereciam oblações ao fogo sagrado, conectando-se assim ao poder divino, seja lá como este fosse concebido. Krishna usa os termos oblação e fogo, literal e simbolicamente, para descrever o poder transformador da oferenda. Aqui Krishna emprega a palavra-chave brahman. A literatura védica4 costuma usar o termo brahman para indicar o Absoluto, o Espírito Universal, o fundamento eterno de toda a existência ou o eu espiritual individual (atman).

Dessa maneira, Krishna afirma que, numa oferenda espiritual – uma oferenda a brahman –, o objeto oferecido (a oblação) também é brahman. Ademais, é o fogo-brahman que aceita a oferenda-brahman. E a pessoa que faz a oferenda também é brahman. Assim, mediante foco total (samadhi) na ação-brahman (a oferenda), a alma que faz a oferenda decerto atinge brahman [4.24].

Por si só, esse verso um tanto quanto enigmático poderia conduzir a algum tipo de conclusão monista. Afinal, tudo é a mesma coisa: brahman. Ademais, a palavra brahman aqui não é masculina nem feminina, mas é gramaticalmente neutra – algo como a palavra “isso”. Assim, pode-se supor que o Uno (brahman) seja impessoal.

Entretanto, quando colocamos o verso 4.24 no contexto de toda a Bhagavad-gita, surge um retrato muito diferente de brahman e sua relação com Krishna. Deus e a alma são ambos brahman (como afirmado em 4.24), mas Krishna é o Brahman Supremo [10.12]. Além disso, o brahman comum – não o Brahman Supremo – repousa em Krishna [14.27].

Então, embora o verso 4.24 identifique vários componentes da oferenda com brahman: fogo, oblação, o ato de oferecer etc., Krishna depois revisita esses mesmos componentes, afirmando que Ele, Krishna, é, na verdade, todos esses elementos. Assim, Krishna é a oferenda, o mantra, a oblação, o fogo etc. [9.16].

Considere o uso que Krishna faz da palavra arpanam, oferenda. É com essa palavra que iniciamos em 4.24, onde Krishna fala de uma “oferenda-brahman” (brahmaarpanam). Krishna traz de volta esta palavra arpanam em 9.27, onde declara: “Tudo o que fizeres, comeres, ofereceres ou presenteares (…), faze disso uma oferenda (arpanam) a Mim”. Assim, a oferenda a brahman resulta ser uma oferenda a Krishna. Isso não é monismo. Deus e a alma são distintos: a alma presta adoração; Deus é adorado.

Notas:

1- Especialmente as Upanishads, Brahma-sutras, comentários sobre essas obras e seções filosóficas do Maha-bharata.

2- Assim, com o alemão herr, o italiano signore, o português senhor, o espanhol señor, o francês monsieur e mesmo com o inglês sir, um indivíduo educadamente dirige-se a homens com uma palavra que significa Senhor ou deriva-se desta. E, na maioria desses casos, há um equivalente feminino preciso. Então, temos o sânscrito deva (deus).

3- “Desfrutador” traduz a palavra sânscrita bhokta, que também pode significar “aquele que possui, governa, experiencia e consome”.

4- 6.30, 9.3, 13.28-29.

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