Corona-samhita: Uma História de Amor em Meio à Pandemia

Bhagavan Dasa

Vitimado pelo demônio Corona e sem abrigo em qualquer hospital ou mesmo casa, o que você faria?

VERSO 1: Inicio este Corona-samhita oferecendo minhas mais humildes e respeitosas reverências a Sua Divina Graça A.C. Bhaktivedanta Swami Prabhupada, que, com os ensinamentos em seus livros e em sua vida pessoal, matou o vírus do egoísmo no coração de seus seguidores sinceros e estabeleceu ali a semente sempre saudável conhecida como serviço devocional.

VERSO 2: Em seguida, ofereço minhas reverências a todos os leitores pela paciência de permitirem que um desqualificado como eu imite Bhaktivinoda Thakura e Narada Muni em escrever ficção. Essas duas personalidades, devotos puros de Krishna, compuseram magníficas histórias ficcionais vividas pelos personagens Prema Dasa e Puranjana, as quais são ricas em ensinamentos profundos. Peço aos meus leitores que não riam de mim, pois estou ciente de minha pequenez.

VERSO 3: Este Corona-samhita é inteiramente ficcional, mas faz referências aos ensinamentos da Bhagavad-gita e do Srimad-Bhagavatam, que são completamente verdadeiros, de natureza revelada e infalíveis, o que confere dignidade para este texto.

VERSO 4: No final do ano de 2019, surgiu em terras orientais um poderoso demônio conhecido pelo nome Corona. Possuidor dos poderes místicos de tornar-se menor do que o menor e de se tornar mais leve do que o ar, ele logo dominou o mundo inteiro.

VERSO 5: Viajando pelo céu e pelos mares, Corona espalhou terror por toda a Terra, tal qual fizeram no passado demônios formidáveis como Hiranyaksha e Hiranyakashipu. Sem discriminar entre homens e mulheres, brancos e negros, privava o mundo de ar e anunciava mais cedo a morte de muitos.

VERSO 6: Temendo essa ameaça invisível aos olhos, os governantes de diversas partes do planeta esconderam-se em seus castelos e ordenaram que todos os cidadãos fizessem o mesmo. Exceto aqueles hábeis no manuseio de ervas medicinais, comerciantes de alimentos e os responsáveis pelo patrulhamento das ruas, todos se retiraram do convívio público.

VERSO 7: Se em uma vila se fazia conhecida uma vítima desse demônio, logo eram duas vítimas, e depois quatro, e depois vinte, e depois mais de cem. Aqueles que perdiam seus entes queridos não podiam enterrá-los, com medo de a besta estar escondida dentro de um grão de poeira ou mesmo na gota de um espirro.

VERSO 8: Ó melhor dos leitores, escuta agora, por favor, a história de uma das vítimas mais memoráveis do Corona. Sua história merece ser contada porque a mesma se mistura às glórias do Senhor e de Seus devotos.

VERSO 9: Vítor, enquanto voltava de uma viagem em terras estrangeiras, sofreu um golpe avassalador em suas costas. Era o demônio Corona que o atacava, invisível como um fantasma. Uma faca parecia perfurar o pulmão do pobre sujeito. Ao olhar para trás, não havia ninguém – nem um grito de ódio, nem uma marca de pés no chão.

VERSO 10: Horas se passaram e a dor se agravou. O ar lhe faltava cada vez mais, e a febre parecia cozinhá-lo como um lagarto debaixo do sol. Já sem esperança de ser acolhido em algum dos hospitais sem leitos, e ainda longe de sua casa, Vítor vagou sem rumo pelas ruas desertas de São Paulo, cambaleando como alguém intoxicado.

VERSO 11: Vítor implorava que alguém o recebesse em sua casa, mas os portões se mantiveram todos silenciosos. O demônio tirava o ar dos pulmões, e também o calor do coração de muitos. Vítor, sem rumo como um barco à deriva, orou a Deus, então, com absoluta sinceridade no íntimo do seu coração, não encontrando qualquer outro refúgio em um mundo desolado.

VERSO 12: Vítor orou: “Ó Senhor Supremo, no ventre de minha mãe, prometi que seria Teu servo amoroso. Em vez disso, após meu nascimento, dediquei minha vida a buscar o meu próprio prazer egoísta, aceitando minha língua e meus genitais como meus amos adoráveis. Agora, sentindo as dores que anunciam minha morte iminente, me arrependo de ter dedicado meus dias ao cultivo da inveja, da raiva e da cobiça. Ó amigo dos aflitos, se me achas digno de Tua misericórdia, por favor, vem em socorro deste tolo amedrontado.”

VERSO 13: Após orar desse modo, Vítor, sem qualquer força, caiu na calçada, batendo sua cabeça contra uma porta pintada de rosa claro. Passados instantes, antes que Vítor conseguisse se levantar, alguém abriu a porta com um rangido. O homem debilitado, olhando para cima, viu um monge alto, como um farol sobre uma rocha, que o olhou com compaixão.

VERSO 14: O monge disse: “Pobre coitado! Ó desabrigado, não posso tocar em ti, visto que os caminhos do Corona são tortuosos. Por favor, não consideres meu distanciamento como frieza ou falta de hospitalidade. Sozinho, peço-te que te coloques de pé e adentres este humilde templo.”

VERSO 15: Arrastando-se para dentro, Vítor se sentou com dificuldade sobre um tapete velho e sem cor. Distante fisicamente, mas próximo em seus sentimentos, o monge cuidou de Vítor no melhor de seus limites, auxiliando-o com higiene, comida e remédios.

VERSO 16: O monge disse: “Meu nome é Acharya, e moro sozinho neste templo. Muitos anos atrás, comprei esta casa com o dinheiro que arrecadei vendendo os livros de meu mestre, o tripulante do Jaladuta. Por favor, peço que te sintas acolhido aqui. Eu não posso salvar teu corpo, mas, por favor, dize-me o que posso fazer por quem realmente és.”

VERSO 17: O homem moribundo disse: “Meu nome é Vítor, e serei eternamente grato a ti. Ó Acharya, entendo o que queres dizer sobre a diferença do corpo e do eu verdadeiro. Sei sobre essa realidade por um livro que me vendeste nas ruas muito tempo atrás, o qual descreve as glórias de uma vida além do nascimento e da morte. Em verdade, acho que foi o mérito piedoso que obtive naquele dia, ao te fazer uma doação pelo livro, o que me permitiu este abrigo em teu templo justo agora quando eu mais necessito.”

VERSO 18: Acharya sorriu com seus dentes amarelos e disse: “Tu me trouxeste a maior das alegrias ao me contar sobre tua leitura. Porque eu pude beneficiar alguém com meu empenho, sinto que minha vida não foi em vão, e que Krishna talvez esteja satisfeito comigo.”

VERSO 19: Acharya continuou: “Por favor, faze-me perguntas como queiras do que tenhas lido nesse livro. Para homens como nós, que fomos privados de toda esperança de felicidade material – advindas de saúde, riquezas ou gozo dos sentidos –, o único abrigo são as conversas centradas em Krishna e em Seus ensinamentos.”

VERSO 20: Vítor, entendendo que a situação que se dava era a resposta perfeita à sua oração, dirigiu a palavra ao monge com todo respeito com que falaria com o próprio Senhor Supremo, aceitando-o como um representante fidedigno de Deus.

VERSO 21: Vítor disse: “Ó melhor dos devotos, ó servo autêntico de Prabhupada, não consigo pensar em nada além de minha morte iminente. Desperdicei minha vida criando inimigos por assuntos políticos e outras futilidades, e agora temo o meu destino. Por favor, informa-me sobre o que acontece na hora da morte, e como posso saber para onde irei depois de abandonar o corpo.”

VERSO 22: Acharya disse: “Tua pergunta é excelente, ó melhor dos indagadores. Por favor, escuta o que o próprio Krishna diz sobre essa questão.”

VERSO 23: “‘Qualquer que seja o estado de existência de que alguém se lembre ao deixar o corpo, ó filho de Kunti, esse mesmo estado ele alcançará impreterivelmente. Portanto, Arjuna, deves sempre pensar em Mim na forma de Krishna e, ao mesmo tempo, cumprir com teu dever prescrito de lutar. Com tuas atividades dedicadas a Mim e tua mente e tua inteligência fixas em Mim, não há dúvida de que Me alcançarás.’” (Bhagavad-gita 8.6-7)

VERSO 24: Acharya comentou o verso citado: “Assim, se morreres desejando o mal àqueles que imaginaste que são teus inimigos, receberás em teu próximo nascimento a oportunidade de machucá-los. Se tens esperança de que alguma mudança no mundo político pode te trazer o néctar pelo qual sempre ansiaste, terás um nascimento para ajudar a consolidar esse regime tão sonhado. Como Krishna diz, há tanta variedade de nascimentos como os estados de consciência de cada ser humano.”

VERSO 25: Acharya continuou: “Krishna, então, sugere que pensemos nEle, e não em algum inimigo, miragem política ou qualquer outra coisa. Por favor, agora que tens pouco tempo de vida, segue a instrução de Krishna com afinco e abandona toda vã esperança nas conexões com este mundo e com relacionamentos baseados em apego e aversão.”

VERSO 26: Vítor se permitiu pela primeira vez percorrer com seus olhos o cômodo ao redor. Não havia nada ali que se parecesse com um templo. Eram apenas quatro paredes, como tantas outras de qualquer outro lugar. Ainda assim, algo inexplicável fazia daquele lugar um templo.

VERSO 27: Vítor disse: “Ó Acharya, por favor, dize-me como posso pensar em Krishna mesmo com tão curta duração de vida que me resta. Além disso, sou preguiçoso, não tenho boa inteligência, estou destituído de minhas posses e, acima de tudo, minha mente está sempre perturbada. Embora me seja impossível pensar em Krishna como me pedes, por favor, dize-me também, apenas por curiosidade, como Krishna retribui aquele cuja consciência se fixa nEle.”

VERSO 28: Acharya disse: “Vítor, não existem pessoas desqualificadas para meditar em Deus depois que o Senhor Chaitanya fez Seu advento na Terra. Chaitanya, o avatar da misericórdia, tornou Krishna facilmente acessível na forma do santo nome.”

VERSO 29: Acharya prosseguiu: “Uma pessoa com vida curta não pode adotar o longo processo do yoga óctuplo, alguém preguiçoso não conseguirá fazer austeridades nos Himalaias, um tolo é incapaz de estudar os Vedas, a pessoa pobre não pode remunerar um sacerdote para fazer um cerimonial, e alguém de mente perturbada não pode se dar à meditação silenciosa. Porém, nenhuma dessas limitações afeta o cantar do nome de Deus.”

VERSO 30: “‘Qualquer resultado obtido em Satya-yuga pela meditação em Vishnu; em Treta-yuga, pela realização de sacrifícios, e em Dvapara-yuga, por servir os pés de lótus do Senhor, pode ser obtido em Kali-yuga simplesmente por se cantar o maha-mantra Hare Krishna.’” (Srimad-Bhagavatam 12.3.52)

VERSO 31: “Ó Vítor, ó melhor dos leitores de Prabhupada, ouve agora a resposta ao teu outro questionamento, sobre a misericórdia de Krishna na hora da morte.”

VERSO 32: “Krishna pessoalmente Se torna a lembrança na hora da morte de Seu devoto. Confirmam isso as histórias de vida de duas grandes almas: Bhisma, que em seu leito de morte foi visitado pelo próprio Senhor, e Jatayu, que teve como sacerdote de seus ritos fúnebres o próprio Senhor. Quem, então, não adorará a Personalidade de Deus, que é assim tão amável?”

VERSO 33: “Homens insensatos, que deixam de lado as orientações das escrituras, preferindo agir segundo seus próprios caprichos, são carregados na hora da morte pelo resultado de suas próprias ações, que geram novos karmas, os quais podem ser ruins, bons ou uma mistura dos dois. Para os devotos, porém, Krishna diz: ‘Eu sou o pronto salvador do oceano de nascimentos e mortes.’ Por isso, Vítor, canta sem demora o santo nome.”

VERSO 34: Nessa hora, sirenes foram ouvidas passando fora da casa. As luzes vermelhas e brancas de uma ambulância projetaram losangos luminosos na parede no formato da treliça da janela. Aquilo soou para os dois devotos como um lembrete de que estavam em Mrityu-loka, o mundo da morte.

VERSO 35: Vítor disse: “Ó Acharya, ó portador da misericórdia do Senhor Chaitanya, sinto que minha morte não tardará, e aceito que não tenho outro dever além de me absorver em Deus na forma de Seu nome. Farei isso. Antes, peço-te apenas mais uma instrução. Por favor, me explica o que Krishna quis dizer sobre pessoas pensarem nEle e, ao mesmo tempo, cumprirem seu dever de lutar. O que a Suprema Personalidade de Deus quis nos ensinar com essas palavras?”

VERSO 36: O monge disse: “Ó alma solidária, embora já tenhas identificado que teu dever como alguém à beira da morte é simplesmente se lembrar da Personalidade de Deus cantando Seus nomes, fazes essa pergunta por aqueles que têm outros deveres. Na verdade, porque leste Prabhupada, já sabes a resposta, mas queres o bem de todos. Por favor, ouve enquanto compartilho a resposta com tua pessoa.”

VERSO 37: O monge continuou: “Aqueles que têm o dever de estarem em hospitais, comerciarem alimentos ou garantirem a segurança dos cidadãos não devem abandonar seus deveres durante os dias de isolamento. Em vez disso, devem cumprir seus deveres como uma oferenda a Krishna, ao mesmo tempo em que pensam em Krishna.”

VERSO 38: “Ouve com atenção, ó Vítor de coração compassivo. Essas pessoas colocam em risco sua própria vida pelo bem coletivo. Quem é merecedor de um sacrifício tão grande? Deus é conhecido como Prana-natha, o senhor da vida, e também Yajna-tapasa, o desfrutador dos sacrifícios. O sacrifício de uma vida deve ser oferecido a Deus, pois só Deus pode ser suficientemente grato por um ato tão nobre.”

VERSO 39: “Em verdade, tanto tu que te recolhes para morrer cantando o santo nome quanto aqueles que cumprem seus deveres enquanto se lembram de Krishna alcançarão o mesmo destino: a libertação do ciclo de nascimentos e mortes e o ingresso na morada eterna de Krishna.”

VERSO 40: Com um olhar abatido e dificuldade para respirar, Vítor esboçou um sorriso de pouca expressão. O olhar de Acharya também se entristeceu vendo o estado daquele buscador sincero. Sem conseguir agradecer com palavras, Vítor agradeceu com o pouco brilho que ainda restava no seu olhar.

VERSO 41: Vítor se deitou sobre o travesseiro que Acharya já havia preparado para ele. Acharya colocou sobre o peito daquele homem um conjunto de contas de japa para ele repetir o mantra Hare Krishna. Vítor segurou a japa, mas, vencido pela dor, não conseguiu cantar. Acharya cantou por ele, o mais alto que pôde, e viu Vítor morrer.

VERSO 42: Uma semana mais tarde, no dia auspicioso do aparecimento do Senhor Rama, Acharya também morreu – também sem ar e também com febre. Muitas e muitas pessoas morreram, mas essas duas mortes são especiais, pois morreram um homem que ajudou e um homem que aceitou ser ajudado, e ambos entregues a Deus.

VERSO 43: Tempos mais tarde, Corona foi vencido, como todos os demônios que vieram antes dele. Algumas pessoas tiraram boas lições dos dias de medo, enquanto outras, infelizmente, apenas retomaram suas atividades insignificantes. Mas Acharya e Vítor sempre serão lembrados como aqueles que melhor se amaram.

VERSO 44: E todo aquele que se recorde desta história em um momento difícil, ou a conte para alguém com medo da morte, também receberá forças para cumprir seus deveres como uma oferenda a Krishna e lembrar-se dEle na hora final.

Bhagavan Dasa é editor-chefe da BBT Brasil e coordenador pedagógico do Instituto Bhaktivedanta de Estudos Védicos. Em 2005, cursou Bhakti-shastri no Instituto Jaladuta. Hoje reside no Ashram Vrajabhumi com esposa e filhos.

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