A Escolha

Madhava Smullen

Um jovem criado em uma família consciente de Krishna reconhece que a vida espiritual é uma decisão que ele precisa tomar por si mesmo.

A consciência de Krishna diz respeito a quem você é, quem é Deus e qual é a relação entre você e Deus. Mas, em última análise, tudo se resume a uma escolha: você vai fazer alguma coisa a respeito da consciência de Krishna ou não?

Até o dia em que saí de casa, aos dezessete anos, nunca tive a oportunidade de fazer essa escolha. Alguém a fazia por mim. Nasci em Dublin, na Irlanda, filho de devotos de Krishna, e, durante minha infância, a consciência de Krishna não era uma expressão espontânea de amor e devoção vinda do coração. Era simplesmente algo que eu tinha de fazer, como ir à escola ou comer verduras.

Sem ter escolha, eu praticava a consciência de Krishna por todos os motivos errados. Fazia isso para ser um bom menino. Para impressionar meus pais e professores, decorei uma enorme quantidade de versos em sânscrito que eu não compreendia. Cantava os nomes de Krishna para competir com meus colegas. É claro que muitas vezes eu gostava daquilo. E, sem dúvida, aqueles anos serviram de base para todas as vezes em que mais tarde recorri a Krishna. Mas havia algo de irônico em gritar para um colega: “Toma essa! Hoje eu cantei dezenove voltas, e você só cantou dez!”

Quando saí de casa aos dezessete anos e fui morar na cidade grande, finalmente a escolha era minha. E percebi que estava me voltando para Krishna por motivos um pouco melhores. Digo “um pouco” porque poucas coisas conduzem um homem a Deus tão bem quanto um apartamento tão pequeno que você pode ficar sentado no escritório com os pés apoiados na cama enquanto vigia uma panela no fogão. Ainda assim, havia algo mais genuíno no meu cantar. Agora eu cantava porque o mundo não fazia sentido, ou porque estava sozinho e precisava de um amigo ou de algum consolo. Não era algo puro, pois, como Prabhupada escreve na Bhagavad-gita, eu tinha “algum desejo a satisfazer em troca do serviço devocional”. Mas pelo menos estava buscando refúgio em Krishna.

Eu havia começado a trilhar o caminho correto, como o próprio Krishna confirma: “Ó melhor entre os Bharatas, quatro tipos de homens piedosos começam a prestar serviço devocional a Mim: o aflito, aquele que deseja riquezas, o inquisitivo e aquele que busca o conhecimento do Absoluto.”

Um Gosto do Mundo Real

Então aconteceram duas coisas que mudaram drasticamente minha maneira de ver o mundo.

Aos dezenove anos, fiz as malas e parti com dois amigos para a costa oeste dos Estados Unidos. Era minha primeira grande viagem como adulto, e ela abriu meus olhos. Vi belos lagos, florestas e cadeias de montanhas. Vi cidades agitadas e, às vezes, degradadas. E conheci, para dizer o mínimo, muitas pessoas interessantes, das mais diversas origens.

Em um ônibus de Los Angeles, um morador de rua mexicano sentou-se ao meu lado e disse: “Ei, cara, quer ver como é a vida nas ruas? Olha, aqui eu levei um tiro. Aqui alguém me esfaqueou com uma faca de caça. E aqui no ombro, outra marca de bala.”

Foi uma experiência que ampliou meus horizontes.

E o mesmo aconteceu com o que veio depois que voltei da viagem. Eu mal havia retomado minha rotina quando minha namorada da época terminou comigo.

De repente, eu já não conseguia enxergar as coisas como antes. A combinação entre ter ampliado minha experiência do mundo e perceber a natureza temporária dos relacionamentos havia despedaçado minha visão da vida. Fui tomado pelo pensamento de que eu e todas as pessoas que conhecia e amava morreríamos, e de que restava pouco tempo para fazer alguma coisa com minha vida.

Fui dominado por uma espécie de fome desesperada por conhecimento espiritual e por maior proximidade com Deus. Eu trabalhava em tempo integral, mas cantava diariamente mais de vinte voltas do maha-mantra, às vezes durante todo o intervalo do almoço. No ônibus, indo e voltando do trabalho, lia livros sobre a eternidade da alma. Devorei os seis volumes da biografia de Srila Prabhupada, que me tocaram de uma maneira que nada havia feito antes – nem fez desde então. Mantinha uma imagem de Krishna sobre minha mesa no trabalho e, nos momentos de menor movimento, frequentemente lia transcrições de conversas com Srila Prabhupada. Isso me causou problemas mais de uma vez, mas eu não me importava. Precisava encontrar respostas que acalmassem meus temores.

A Morte à Porta

Aos poucos, a vida foi ficando mais fácil. E, à medida que isso acontecia, ser consciente de Krishna parecia menos importante. Continuei cantando, mas com menos sentimento e menos urgência.

Em 2007, Krishna pareceu achar que eu precisava de um lembrete sobre o que realmente importa na vida. A morte bateu à minha porta. Não conseguiu entrar, mas quase conseguiu arrombá-la. Fui parar no hospital com o apêndice rompido. Uma bolsa de pus infeccionado havia se formado ao redor dele e também estava prestes a se romper. Se isso tivesse acontecido, disseram os médicos, eu teria morrido.

Passei duas semanas intensas no hospital e, quando saí de lá, era uma pessoa diferente. Lembro-me do momento em que deixei pela primeira vez aquelas salas pálidas e aqueles corredores escuros da clínica e saí para a luz radiante do sol. Era como se estivesse vendo cada planta e cada nuvem no céu pela primeira vez. Quando conversava com as pessoas, percebia que realmente me importava com elas e com suas vidas. E elas conseguiam perceber isso. Ter acenado para a morte do outro lado de um quarto de hospital fez com que eu valorizasse muito mais a criação de Krishna e Seus devotos.

Porém, mais uma vez, à medida que me recuperava, minha clareza espiritual foi desaparecendo.

Amor, Não Medo

Agora percebo que, embora acontecimentos tão devastadores na vida possam nos dar um impulso para seguir adiante, seu efeito dura apenas algum tempo antes de desaparecer. O medo pode nos levar a buscar consolo, mas não substitui o amor.

O amor é a chave para sermos conscientes de Krishna, e ele não surge facilmente. Precisa estar livre de motivações egoístas, como Srila Prabhupada escreve em The Way of Transcendence:

“Não é que digamos: ‘Meu querido Deus, eu Te amo porque Tu me forneces o pão de cada dia.’ Seja na igreja, no templo ou na mesquita, as pessoas oferecem o mesmo tipo de oração. Na Índia, as pessoas vão ao templo e oram: ‘Meu querido Krishna, estou passando por dificuldades. Por favor, tira-me desta situação’, ou: ‘Preciso de dinheiro. Por favor, dá-me um milhão de dólares.’ Isso não é amor a Deus.”

Uma Escolha Diária

Enquanto escrevo estas palavras, estou muito distante daqueles dias de competição da infância. Já não sinto que preciso agradar ou impressionar alguém com minha extraordinária prática de serviço devocional. E estou razoavelmente satisfeito com minha vida, sem nenhum grande medo ou necessidade desesperada de consolo.

Então, por que canto? Em algum lugar, bem no fundo, deve haver um fragmento de amor verdadeiro.

Mas é apenas um fragmento, quase imperceptível. Ainda tenho dificuldade para compreender minha relação com Krishna, e aquela escolha continua pairando sobre mim: “Você vai fazer alguma coisa a respeito disso ou não?” Agora que não há mais ninguém para fazer “A Escolha” por mim, essa é uma pergunta que preciso fazer a mim mesmo todos os dias.

E é isso que temos em comum, você e eu. Talvez você não tenha crescido na consciência de Krishna como eu, mas também percorreu sua própria jornada, cheia de acontecimentos, e ela o trouxe até aqui.

Amanhã de manhã, vou esfregar os olhos para afastar o sono, jogar as cobertas para o lado e fazer uma pergunta a mim mesmo. Consciente ou inconscientemente, é bem possível que você esteja fazendo a mesma coisa.

Então terei de fazer uma escolha.

Espero fazer a escolha certa.

E você?

Madhava Smullen trabalha como escritor freelancer desde os dezesseis anos. Escreve para a Volta ao Supremo, ISKCONnews.com e Friends of the BBT. Vive em Alachua, Flórida, Estados Unidos.