A Verdadeira Humildade

Urmila Devi Dasi

O que a distingue da falsa humildade? Como conseguir desenvolvê-la?

Na Bhagavad-gita, o Senhor Krishna lista a humildade como o primeiro item do conhecimento. E Srila Prabhupada escreve que, sem humildade, não podemos obter conhecimento. Até que saibamos que não sabemos, por que devemos aprender? O Senhor Jesus ensinou que os mansos herdarão a Terra, e aqueles que se colocam por último são os primeiros aos olhos de Deus.

No entanto, eu tenho medo da humildade. Os humildes estão cheios de autoaversão? Eles são vítimas voluntárias? Oportunidade e sucesso passam despercebidos por eles? Se a humildade convida à exploração, por que as escrituras a elogiam? O Senhor Chaitanya diz: “Uma pessoa com todas as boas qualidades se inclina com humildade, como uma árvore cheia de frutos.”

Então, considero que talvez, apenas talvez, eu deva pensar em desenvolver humildade em mim. O problema é que não tenho certeza se realmente quero ou não – eu não entendo como vou me sentir e agir quando a tiver, e não tenho noção de como obtê-la. Pelo menos foi assim que me senti algum tempo atrás, quando decidi simplesmente me concentrar em servir ao Senhor Krishna e deixar que esse negócio de humildade se resolvesse sozinho. Krishna encontraria uma maneira de me ajudar a entender e alcançá-la, eu tinha certeza.

Precisamos de humildade? Srila Prabhupada escreve muitas vezes que as pessoas que adotaram seriamente as práticas da consciência de Krishna não precisam trabalhar separadamente para desenvolver boas qualidades. Por exemplo, elas são automaticamente vegetarianos e não precisam ingressar em uma sociedade vegetariana. Ainda assim, os devotos de Krishna selecionam cuidadosamente os alimentos para garantir que não tenham carne, peixe e ovos e sejam adequados para o prazer do Senhor. O devoto, portanto, faz um esforço para ser vegetariano como parte de seu serviço ao Senhor.

Certa vez, eu estava comendo no escuro, assistindo a um vídeo devocional. O excelente banquete, no entanto, tinha um pouco de chutney de figo estragado. Eu engasguei quando provei e rejeitei o resto da refeição. Arrogância é chutney de figo podre. Apesar das boas qualidades de uma pessoa, quando detectamos presunção, nos retraímos e mantemos distância. Posso realmente dizer a Krishna: “Aceite-me, Senhor, como seu servo”, quando a vaidade cobre e permeia tudo o que faço, digo e penso?

A presunção macula todas as demais qualidades.

Estou motivada a definir e desenvolver a humildade porque Krishna exige, e porque o falso orgulho é doloroso. O respeito e a adoração têm um preço alto. Outros nos invejam, ou nos elogiam, mas com segundas intenções. Podemos ser respeitados por nossas qualidades ou feitos, mas abominados por sermos orgulhosos disso. Nós nos deliciamos com a doçura do respeito, mas sofremos a amargura da injúria. Quem recebeu a honra considera a desonra pior do que a morte, diz Krishna.

Então, cheguei ao ponto de pelo menos tentar decidir se quero ser humilde. Já entendo que a humildade é um pré-requisito para a felicidade eterna e o amor ilimitado de Deus, que é o que eu quero. Mas o que exatamente é a humildade?

Humildade É Honestidade

Eu sei que humildade não é uma mentira, porque outra qualidade sagrada que Krishna menciona é a sinceridade. Dizer que sou pobre quando sou rico, feio quando sou bonito, não seria humildade, nem admitir que me falte certas qualidades, o que é apenas uma constatação. Dar crédito e reconhecimento a outras pessoas e minimizar nossas próprias realizações e habilidades, embora desejemos respeito e reconhecimento, não é humildade. Essa falsa humildade (embora muitas vezes seja uma necessidade social) é uma mentira, e quem mente raramente acredita. Quem a ouve acredita menos ainda.

Parte da verdadeira humildade é aceitar toda a verdade: eu possuo qualidades e habilidades pela graça de Deus, Krishna. Ele pode dar e pode tirar. Mesmo se eu disser que Ele está simplesmente administrando a lei do karma, me dando o que eu ganhei pela minha atitude correta, ainda é um presente. O fato de não poder manter meus bens nem mais um segundo do que Ele deseja prova que não sou o possuidor definitivo.

Se meus bens são de Krishna, então meu orgulho deve ser por Ele. Deveria me orgulhar de Sua inteligência, riqueza ou talento, uma parte da qual Ele está me permitindo exibir em Seu nome. (É claro, eu tenho que realmente usá-lo em Seu nome para me sentir assim. Não posso simplesmente dizer que é dEle e, em seguida, tentar usar apenas para mim.) A todo momento, devo me sentir dependente de Krishna para receber tudo o que tenho, assim como a minha capacidade de pensar, sentir e agir.

Krishna fornece meu conhecimento, minha memória, minha atratividade, minha riqueza, minha capacidade de lembrar-me dEle em tempos de aflição. Minha determinação em cumprir minhas promessas a Ele vem por Sua graça. Se é do agrado dEle, pode facilmente me testar além dos meus limites ou remover minha força, seja física, mental, emocional ou mesmo moral e espiritual.

Krishna pode recolher, quando quiser, as habilidades que nos emprestou.

Arjuna, o famoso devoto de Krishna, descobriu que tudo de que se orgulhava era realmente do Senhor. Arjuna, um príncipe e um guerreiro sem igual, foi o melhor arqueiro do mundo. Ele derrotou sozinhos exércitos inteiros. Seu arco foi um presente do maior dos devas, o senhor Shiva, e as flechas nunca terminavam. Pela graça de Indra, governante do céu, Arjuna havia viajado para outros planetas. Pela graça do Senhor Krishna, ele viajou além do mundo material. Ele era bonito, poderoso, inteligente e instruído, e possuía uma riqueza superior à do homem mais rico dos tempos modernos. Sua esposa era como uma deusa; seu filho, um grande herói.

Então, Krishna deixou a Terra e retornou para Seu próprio reino, e Arjuna não conseguiu nem esticar seu famoso arco. Ele usou o arco como um taco para golpear seus inimigos. Sua bolsa de flechas esvaziou, e o herói invicto se viu derrotado pelas mãos de lutadores inexperientes. Arjuna concluiu que o Senhor havia retirado as habilidades que pareciam ser suas.

Tudo o que tenho é presente de Krishna. E descobri que essa verdade não é apenas um passo para a devoção, mas parte fundamental dela.

Humildade É Gratidão

Humildade é mais do que um entendimento contínuo de que tudo é do Senhor. Cheios de virtudes, devotos puros costumam falar de sua indignidade e até miséria. Mas minha experiência com “introspecção honesta” é tão dolorosa quanto minha experiência com orgulho, e outras coisas mais. Eu vejo, encontro e aperto as mãos com meus defeitos, revivo meus erros e tenho pelo menos uma ideia de minhas irritações e, ainda pior, do ponto de vista dos outros. Sinto um pouco da dor que causei aos outros. E conheço meus erros motivados por luxúria, raiva, ganância, inveja e vingança.

É difícil manter um estado de autoavaliação constante. Quando nele, é bom procurar amigos, familiares e o Senhor para pedir perdão. “Tende piedade de mim, um pecador!” Quando estamos atolados na autoaversão, essa humildade parece uma tortura infernal.

No entanto, aqueles que são puros em devoção amorosa ao Senhor Krishna são sempre alegres, vivendo a emoção de cada momento. Assim como a humildade real deve ser verdadeira, também deve ser alegre. Claramente, a torturante negação da própria vontade é fingimento ou sombra de humildade.

A dor que sentimos ao ver nossa natureza perversa vem do orgulho e do narcisismo. Pensamos que somos excelentes, mas nossas falhas nos envergonham. Thomas Merton escreve: “Pois os santos, quando se lembram de seus pecados, não se lembram dos pecados, mas da glória de Deus; portanto, até o passado obscuro é convertido por eles em uma causa presente de alegria e serve para glorificar a Deus.” Com verdadeira humildade, nosso senso de indignidade é ofuscado pela maravilha e felicidade de entender que Krishna nos abençoou, apesar de nossos defeitos.

Embora eu soubesse que algo estava sendo preparado no meu aniversário no ano passado, eu esperava apenas um bolo na casa do meu filho e nora. Para minha surpresa, muitos devotos da comunidade em que moro se reuniram para me oferecer presentes e compartilhar um banquete. O amor deles era como ondas de prazer, pelo menos em parte eu sentia gratidão porque era muito além do que eu merecia. Menosprezamos a felicidade quando nos achamos merecedores! E mais, orgulhosos de nossas próprias qualificações, acabamos por depreciar o que recebemos. Mas se considerarmos que não temos mérito, mesmo a menor coisa feita por nós trará grande satisfação.

No Sri Chaitanya-charitamrita, lemos sobre Madhai, que nasceu em uma família brahmana elevada, mas se tornou um criminoso. Ele e seu irmão não apenas cometeram todos os crimes imagináveis, como também menosprezaram as pessoas religiosas.

Um dia, Nityananda, o próprio Senhor, foi pedir aos irmãos que melhorassem e cantassem o nome de Krishna. Num momento de fúria, Madhai, alcoolizada, tentou matar Nityananda. O Senhor ainda mostrou misericórdia e perdão. Surpreso, Madhai se arrependeu. Quando ele aceitou completamente a misericórdia e o amor do Senhor Nityananda, sua dor de lembrar-se de seus pecados se transformou em arrebatamento, e os sinais de sua felicidade eram evidentes para todos. O fato de o Senhor ter piedade de uma pessoa como ele lhe deu felicidade em Krishna; em vez de vergonha, nasceu o desejo de ser uma pessoa elevada.

Assim como as pessoas humildes estão sempre conscientes de que todos os seus bens são presentes de Deus, também sabem que esses presentes são dados por Deus por puro amor, e não porque os merecem.

A Humildade É Cheia de Alegria

Prabhupada definiu humildade como não querer respeito dos outros. A pessoa humilde está pronta para oferecer todo respeito aos outros e não quer nada em troca.

A renúncia total ao desejo de respeito, no entanto, ocorre quando abandonamos todo o senso de propriedade sobre nossos “direitos”. O escritor cristão C. S. Lewis declara: “Os homens não se irritam com o simples infortúnio, mas com o infortúnio concebido com ofensa. E a sensação de prejuízo depende se o sentimento de que um direito legítimo foi negado. Quanto mais reivindicações na vida, mais se sentirá prejudicado, e, como resultado, a raiva.”

Temos o direito de que outras pessoas falem conosco com deferência? Somos donos de nosso próprio tempo para reclamarmos que outros nos furtam esse tempo? Se formos insultados, se formos enganados, se nossos planos forem arruinados, nossos desejos pisoteados, o que importará se nosso tempo, corpo, posses e vida pertencerem a Krishna? Por fim, Ele está no controle do que acontece conosco. É uma simples questão de nos rendermos à Sua vontade. E se depositarmos nossa confiança e abrigo nEle, as coisas que normalmente irritam o ego não nos atingirão.

Eu havia planejado um dia escrever este artigo mesmo. Na verdade, eu vinha planejando há duas semanas ter um domingo livre para escrever – não é uma tarefa fácil com a minha agenda. No entanto, naquela manhã, recebi uma ligação de emergência e passei o dia cuidando de um bebê, cozinhando, limpando e lavando roupas cheias de vômito de criança. Em alguns momentos, lembrei: “Meu tempo e vida são Seus, Senhor. Sou apenas um servo humilde que deve seguir a Sua vontade”, então senti grande alegria em deixar de lado meus planos e até meus planos de um serviço devocional específico, conforme Ele ordenou.

A pessoa humilde, que deposita toda a sua afinidade em Krishna, não se preocupa em como os outros devem tratá-la ou como merece ser tratada. A pessoa fica contente e até feliz em todas as situações. O único direito sobre o qual os humildes insistem é ser considerado o servo insignificante de Krishna.

Afinal, um servo humilde sente-se honrado em assumir os problemas pelo mestre. Respeitamos alguém disposto a servir o amado apenas nos tempos bons, ou respeitamos alguém que promete fidelidade “na alegria e na tristeza”? Se, para servir o Senhor, Ele desejar que eu seja tratado injustamente ou forçado a passar por dificuldades, devo ficar feliz com isso.

Rapazes e moças arriscam a vida e a saúde de bom grado para servir seu país nas forças armadas. Serem feridos, capturados, terem cicatrizes para o resto da vida ou deficiências fazem com que se sintam orgulhosos de assumirem problemas em honra de seu país. Tal “orgulho” é a felicidade dos humildes.

Quem rejeita toda reverência, portanto, não deixa de ter a felicidade que advém da honra material. Em vez disso, ele obtém muitas vezes essa satisfação por ter orgulho de ser servo do Senhor, tanto em situações simplórias quanto difíceis. A satisfação é tão grande que, comparando com comportamentos positivos e negativos do mundo, esses não têm a menor importância. Aqueles que foram tomados pelo privilégio de muitos “direitos” neste mundo não conseguem entender a felicidade interior de um devoto puro de Krishna.

Alcançando a Humildade

Após algumas pesquisas e contemplações, sinto que tenho uma ideia melhor do que é a humildade. É honestidade: tudo pertence a Krishna, então Ele recebe o crédito pelo que tenho e pelo que faço. É gratidão: tudo o que Ele me dá é muito grande e eu não sou digno. É cheia de alegria: ser servo de Krishna é tão maravilhoso que fico feliz em fazer tudo o que O agrada, mesmo que um materialista me veja como infeliz ou explorado.

Como podemos obter essa grata alegria da verdadeira humildade? Começamos nos submetendo a um mestre espiritual. Afirmar que somos servos de Deus é fácil; o teste é se podemos ou não servir um servo de Deus. O mestre espiritual fidedigno nos instrui de acordo com as escrituras e outras pessoas santas. Ele também vive em obediência ao seu próprio mestre espiritual. E suas ordens são fundamentadas no amor a Krishna e no amor por seus discípulos.

Ao servir nosso mestre espiritual, devemos estar prontos para fazer qualquer trabalho modesto, sem compensação ou reconhecimento, enquanto buscamos a misericórdia do Senhor Krishna.

Nossa única oração deve ser: “Qual é a sua vontade, ó Senhor Krishna? Dê-me a força para servir a Sua vontade. Deixe-me amá-lO e tê-lO em meus pensamentos, sempre.”

Lamentavelmente, podemos orar por outras coisas e tentar barganhar com Krishna, como se fôssemos Seus iguais ou Ele nosso servo, mas pelo menos podemos saber o objetivo e a prática para alcançá-lO.

O Senhor nos permite conhecer Sua vontade dentro de nossos corações e através de nosso mestre espiritual, das instruções nas escrituras e dos exemplos de muitas pessoas santas. De acordo com nosso desejo de fazê-lo, Ele nos concede a determinação de trabalhar de acordo com Sua vontade.

Nossa oração por essa determinação é tão simples quanto invocar os nomes de Krishna em um clima de rendição desamparada, como uma criancinha chamando a mãe. O maha-mantra Hare Krishna, Hare Krishna, Krishna Krishna, Hare Hare/ Hare Rama, Hare Rama, Rama Rama, Hare Hare é simplesmente os nomes de Deus e Sua energia. No entanto, Prabhupada explica que o mantra é uma oração em que pedimos ao Senhor e à Sua energia para sermos usados em Seu serviço.

O uso de nosso desejo para subjugar completamente o nosso próprio desejo em favor do de Krishna é o desenvolvimento natural de nossa humildade espiritual. Nas relações materiais, essa subjugação seria tolice. Quem se submete a um mestre material é rapidamente explorado. Mas Krishna não quer robôs, nem escravos, mas filhos, amigos e amantes. Ele quer uma profunda e significativa troca de amor com os devotos que se entregam felizes e voluntariamente. E Krishna também Se entrega ao Seu devoto. Ele assume a forma e o relacionamento que o devoto deseja. Entregar-nos a Krishna significa não darmos nada que temos para dar, e ganhar tudo. Vamos entregar apenas a dor e a causa da dor, que é o falso orgulho. A rendição a Krishna é uma humilde entrega à paz, à satisfação e ao prazer ilimitado.

Tradução de Simone Queiroga. Revisão de Bhagavan Dasa.

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