Ahimsa: A Primeira Qualidade de uma Pessoa Santa

A.C. Bhaktivedanta Swami Prabhupada
(Da obra Yoga: As 26 Qualidades de um Sábio)

Um devoto de Krishna estende sua amabilidade para todos os seres vivos.

Os devotos são de fato pessoas santas, sadhus. A primeira qualificação de um sadhu, ou devoto, é ahimsa, termo este que quer dizer “não-violência”. Quem tem interesse no caminho do serviço devocional, interesse em voltar ao lar, voltar ao Supremo, tem que praticar ahimsa, não violência.

O mundo inteiro está repleto de violência, e o primeiro afazer do devoto é descontinuar essa violência, incluindo o desnecessário abate de animais. Um devoto não é apenas amigo da sociedade humana, senão que é amigo de todas as entidades vivas, pois ele vê todas as entidades vivas como filhos da Suprema Personalidade de Deus. Ele não alega ser o único filho de Deus e permite que todos os outros sejam mortos, julgando que não possuem espírito. Um devoto puro do Senhor jamais defende esse tipo de filosofia.

Existem 8.400.000 espécies de vida, mas, dentro de cada uma delas, há uma alma espiritual, uma parte integrante de Deus. Suponhamos que um homem tenha dois filhos, não igualmente meritórios. Pode ser que um seja juiz da Suprema Corte e o outro seja um operário comum, mas o pai considera ambos como filhos. Ele não faz a distinção de que o filho que é juiz é muito importante, e o filho operário não é importante. E se o filho juiz disser: “Meu caro pai, seu outro filho é inútil; vou decapitá-lo e comê-lo”, acaso o pai permitirá isso?

Krishna afirma na Bhagavad-gita que Ele é o pai de todas as espécies de entidades vivas, em consequência do que o devoto de Krishna é sempre amigo de todos. Suhridah sarva-dehinam: “Um verdadeiro devoto é amigo de todas as entidades vivas.” (Srimad-Bhagavatam 3.25.21) Isso se chama ahimsa.

Os animais que vivem conosco em nossas fazendas estão satisfeitos. Eles não têm medo. Se eles estão descansando e algum de meus discípulos se aproxima, eles não fogem nem ficam com medo. Eles entendem: “Essas pessoas nos amam. Eles não vão nos maltratar. Estamos seguros. Estamos em casa.” Qualquer animal, seja um pássaro, seja um animal feroz, pode perceber esse sentimento de segurança e amizade. “Animal” significa “ser vivo, ser espiritual”, não alguma pedra morta. Por isso, ele pode entender: “Este homem está me alimentando. Ele é meu amigo.” Amor, amizade e outros sentimentos existem todos nos animais também. Pertencer à mesma espécie é muito conducente para o amor, mas o amor é possível entre qualquer entidade viva – porque toda entidade viva é espírito, parte integrante de Deus, o Espírito Supremo.

“Para a satisfação da minha língua, matarei muitos animais.” Um devoto jamais aceitará essa ideia. Ahimsa quer dizer não impedir a vida progressiva de nenhuma entidade viva. Ninguém deve pensar que, como a centelha espiritual não morre mesmo após a morte do corpo, não há mal algum em obter gozo dos sentidos através da matança de animais. Hoje em dia, as pessoas estão habituadas a comer animais, apesar de terem um amplo suprimento de cereais, frutas e leite. Não há necessidade de matar animais. Este preceito é para todos.

Um krishna-bhakta não gosta de matar nem mesmo uma formiga. Há uma história em relação a isso.

Mrigari, o Caçador

Certa vez, havia um caçador na floresta de Prayaga, o qual teve a grande sorte de encontrar-se com Narada Muni quando o grandioso sábio regressava de Vaikuntha após ter visitado o Senhor Narayana. Narada foi a Prayaga para banhar-se na confluência do Ganges com o Yamuna. Enquanto passava pela floresta, Narada viu um pássaro caído no chão. O pássaro estava semimorto, atravessado por uma flecha, piando pateticamente. Em seguida, Narada viu um veado debatendo-se em agonia. Adiante, viu que um javali também estava sofrendo, e, em outro lugar, viu um coelho contorcendo-se com dores. Tudo isso o deixou muito compassivo e o fez pensar: “Quem é o tolo que cometeu tamanhos pecados?” Se mesmo os devotos neófitos são compassivos com os sofrimentos das entidades vivas, o que se dizer, então, do grande sábio Narada? Ele ficou muito pesaroso com essa cena, e, após dar alguns passos adiante, viu um caçador, com arco e flechas, ocupado em caçar.

Narada encontra-se com Mrigari.

Sua tez era muito escura, e seus olhos, vermelhos. O simples fato de vê-lo postado ali com seu arco e flechas, assemelhando-se a um sequaz de Yamaraja, a Morte, causava temor. Ao vê-lo, Narada Muni adentrou a floresta para ter com ele. Quando Narada Muni passou pela floresta, todos os animais apanhados nas armadilhas do caçador fugiram. O caçador ficou muito irado com isso, e estava prestes a insultar Narada, mas, devido à santidade de Narada, o caçador não conseguiu proferir suas blasfêmias. Ao contrário, com comportamento gentil, perguntou a Narada: “Meu caro senhor, por que veio aqui enquanto estou caçando? Por acaso se desviou da trilha principal? Como veio aqui, todos os animais em minhas armadilhas fugiram.”

“Sim, sinto muito”, respondeu Narada. “Vim até você para encontrar meu próprio caminho e para lhe perguntar algo. Vi que há muitos javalis, veados e coelhos no caminho. Eles jazem debatendo-se semimortos no chão da floresta. Quem cometeu esses atos pecaminosos?”

“O que você descreve ter visto está correto”, respondeu o caçador. “E fui eu que fiz isso.”

“Se você está caçando todos esses pobres animais, por que não os mata de uma vez?”, perguntou Narada. “Você os deixa semimortos, e eles estão sofrendo as torturas da morte. Isso é um grande pecado. Se você quer matar um animal, por que não o mata de vez? Por que os deixa semimortos e permite que morram contorcendo-se?”

“Meu caro senhor”, respondeu o caçador. “Meu nome é Mrigari, o inimigo dos animais. Estou apenas seguindo os ensinamentos do meu pai, que me ensinou a deixar os animais semimortos, contorcendo-se de agonia. Quando um animal semimorto sofre, sinto grande prazer nisso.”

“Peço apenas uma coisa a você”, implorou Narada. “Por favor, aceite o que lhe peço.”

“Sim, lhe darei o que você quiser”, disse o caçador. “Se você quer algumas peles de animais, venha até minha casa. Tenho muitas peles de animais, incluindo tigres e veados. Eu lhe darei o que você quiser.”

“Não desejo tais coisas”, respondeu Narada. “Entretanto, tenho um pedido. Se, por bondade, você estiver disposto a me atender, lhe direi do que se trata. Por favor, de amanhã em diante, quando matar um animal, por favor, mate-o de uma só vez. Não o deixe semimorto.”

“Meu querido senhor, o que está me pedindo? Qual a diferença entre deixar um animal semimorto ou matá-lo de uma só vez?”

“Se você deixa os animais semimortos, eles sofrem grande dor”, explicou Narada. “E se você inflige demasiada dor a outras entidades vivas, você comete um grande pecado. Você incorre em uma grande ofensa ao matar um animal, mas a ofensa é muito maior quando os deixa semimortos. Na verdade, num futuro nascimento, você terá de aceitar a dor que você causa aos animais semimortos.”

Embora o caçador fosse muito pecaminoso, seu coração abrandou-se e, em virtude da associação com um grande devoto como Narada, ficou temeroso em ter de sofrer por seus pecados. Os pecadores grosseiros não têm nenhum medo de cometer pecados, mas aqui podemos ver que, devido à associação com um grande devoto como Narada, o caçador purificou-se e receou por ter cometido tantas atividades pecaminosas. O caçador, portanto, respondeu: “Meu querido senhor, desde minha infância fui ensinado a matar animais desta maneira. Por favor, me diga como posso livrar-me de todas as ofensas e atividades pecaminosas que acumulei. Rendo-me a seus pés de lótus. Por favor, salve-me de todas as reações às minhas atividades pecaminosas cometidas no passado e, por favor, oriente-me ao caminho adequado conducente à liberação.”

“Se você de fato quer seguir minhas orientações, eu posso lhe mostrar o verdadeiro caminho através do qual poderá ficar livre de todas as reações pecaminosas.”

“Seguirei tudo o que você disser, sem hesitação”, concordou o caçador.

Narada mandou-o primeiro quebrar seu arco; só então revelaria o caminho da liberação.

“Você está pedindo que eu quebre meu arco”, protestou o caçador, “mas, se o quebro, quais serão meus meios de subsistência?”

“Não se preocupe com a sua subsistência”, disse Narada. “Eu lhe enviarei cereais suficientes para as suas necessidades.”

O caçador, então, quebrou seu arco e prostrou-se aos pés de Narada. Este pediu-lhe que se levantasse, e instruiu-o: “Vá à sua casa e distribua aos devotos e brahmanas todo dinheiro e objetos de valor que acaso possua. Depois, venha e me siga, usando apenas um trapo. Construa uma pequena cabana de sapé à margem do rio e semeie uma planta de tulasi perto da casa. Circum-ambule a planta de tulasi, e todos os dias saboreie uma folha que caia. Acima de tudo, sempre cante Hare Krishna, Hare Krishna, Krishna Krishna, Hare Hare/ Hare Rama, Hare Rama, Rama Rama, Hare Hare. Com relação ao seu sustento, enviarei cereais para você, mas você deverá aceitar apenas o suficiente para você e sua esposa.”

Narada, então, reviveu os animais semimortos, que, vendo-se livres da terrível condição, fugiram. Ao ver Narada executar este milagre, o caçador negro ficou estupefato. Depois de levar Narada à sua casa, voltou a prostrar-se a seus pés.

Narada retornou a seu lugar, e o caçador, depois de voltar para casa, passou a executar as instruções que Narada havia lhe dado. Neste ínterim, a notícia de que o caçador se tornara um devoto espalhou-se por todas as vilas. Consequentemente, os residentes dessas vilas iam ver o novo vaishnava. É um costume védico levar cereais e frutas quando se visita uma pessoa santa, e como todos viram que o caçador havia se tornado um grande devoto, trouxeram comestíveis para ele. Assim, todos os dias, ofereciam-lhe uma quantidade de cereais e frutas que dava para dez ou vinte pessoas. De acordo com as instruções de Narada, ele não aceitava nada mais que o necessário ao seu sustento e de sua esposa.

Depois de alguns dias, Narada falou a seu amigo Parvata Muni: “Eu tenho um discípulo. Vamos vê-lo e verificar se ele está indo bem.”

Quando os dois sábios, Narada e Parvata, chegaram à casa do caçador, este, ao ver seu mestre espiritual vindo de longe, colocou-se a caminhar em sua direção com grande respeito. A caminho para saudar os grandes sábios, o caçador viu que havia formigas no chão impedindo sua passagem. Quando alcançou os sábios, tentou prostrar-se diante deles, mas viu que havia tantas formigas que ele não poderia prostrar-se sem esmagá-las. Então, ele suavemente as tirou com sua roupa.

Mrigari mostra preocupação com o bem-estar das formigas.

Ao ver que o caçador estava tentando salvar a vida das formigas desta maneira, Narada lembrou-se de um verso do Skanda Purana: “Não é maravilhoso que um devoto do Senhor não tenha inclinação a causar nenhuma espécie de dor a ninguém, nem mesmo a uma formiga?”

Ainda que, anteriormente, sentisse grande prazer em deixar animais semimortos, ao se tornar um grande devoto do Senhor, não estava disposto a machucar nem mesmo uma formiga.

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