Apostando em Deus: A Aposta de Pascal e os Benefícios da Fé

Satyaraja Dasa

Apostar em Deus vale os sacrifícios exigidos nesta vida?

Eu li uma estatística recente que considero impressionante: De acordo com uma série de pesquisas de opinião pública da organização Gallup, noventa e quatro porcento dos americanos acreditam em Deus, e noventa porcento oram. Por que, eu me perguntei, em nossa moderna era do cientificismo, tantas pessoas continuam acreditando em Deus? Vivemos em um tempo em que as coisas que não são provadas empiricamente são normalmente deixadas de lado. É claro que um bom número desses que acreditam tem apenas fé, nada mais que isso, mas há também uma crescente comunidade científica oferecendo ímpeto para estatísticas como essa acima.

Por acaso, eu me deparei com o trabalho de Patrick Glynn, um estudante de Harvard, atualmente o diretor associado da Universidade George Washington de estudos de política comunitária em Washington, D.F. Ele promove o Princípio Antrópico, que se originou nos anos 70 como fruto da mente dos astrofísicos e cosmólogos de Cambridge, incluindo Brandon Carter, colega de pessoas como Stephen Hawking e Roger Penrose. Glynn, todavia, fez a teoria se popularizar através do livro Deus: A Evidência.

Basicamente, o Princípio Antrópico afirma que “aquilo que esperamos observar no universo, deve ser restrito pelas condições necessárias para nossa presença como observadores”. Em outras palavras, todas as aparentemente arbitrárias e desconexas constantes da física têm algo em comum: são exatamente os valores que você precisa para que exista vida no universo. Além disso, a miríade de leis da física parece ter sido precisamente ajustada, desde o começo do universo, para possibilitar a existência de seres humanos.

De acordo com Glynn, mais e mais cientistas estão aderindo ao Princípio Antrópico, que, em um grau considerável, traz a ideia de um universo ordenado e um controlador supremo, ou, em outras palavras, Deus. Por causa disso, Glynn afirmou que “a aposta de Pascal” está começando a fazer sentindo.

“Quem é esse?”, perguntei a mim mesmo.

Eu logo me conectei à internet para descobrir exatamente sobre o que era essa aposta de Pascal.

A Aposta de Pascal

O filósofo/matemático do século XVII Blaise Pascal formulou um argumento pragmático para explicar a crença em Deus. Como existe o risco de erro, Pascal questionou: acreditar ou não acreditar? Sabiamente, ele sugeriu “apostarmos” na existência de Deus, pois colocar nossa fé na incredulidade é uma aposta inferior. Além disso, se uma pessoa que acredita em Deus descobre, por fim, estar errada, não há nenhuma perda. Mas se a pessoa acredita em Deus e descobre estar certa, ela ganha praticamente tudo. E se uma pessoa que não acredita em Deus descobre estar errada? E se a pessoa vive uma vida ateísta e, após a morte, descobre que Deus existe? Isso seria certamente muito problemático.

Blaise Pascal, proponente da “aposta em Deus”.

Muitos filósofos pensam que a aposta de Pascal é o mais fraco de todos os argumentos tradicionais para se acreditar na existência de Deus. Mas Pascal acreditava que era o mais forte. Após completar plenamente a construção de seu argumento em seu trabalho Pensees, ele escreveu: “Isto é conclusivo, e se o homem é capaz de alguma verdade, aqui está ela.” Essa declaração foi um raro momento de certeza de Pascal, um dos pensadores mais céticos da era moderna.

Mas assim é a construção de seu pensamento: Suponha que uma pessoa amada está morrendo. Você tentou de tudo, e todos os especialistas concordaram com unanimidade que não há mais esperança. Então, um doutor aparece e oferece um “remédio milagroso”. Ele diz que há cinquenta porcento de chance de salvar a vida de sua pessoa amada. Não seria lógico tentar, mesmo que tivesse algum custo? E se fosse gratuito? Não poderia qualquer um concluir ser completamente lógico tentar, e ilógico não tentar?

Uma outra analogia: Suponha que você está no trabalho e você ouve que sua casa está em chamas e que seus filhos estão dentro dela. Você não sabe se o que você ouviu é verdadeiro ou falso. Qual é a coisa mais sensata a se fazer? Você ignora o que ouviu, ou você tenta averiguar a informação indo a sua casa ou telefonando?

“Nenhuma pessoa sensata”, escreve Pascal, “ficará em dúvida em tais casos. Decidir acreditar ou não em Deus é um caso como esses. Assim, portanto, é a maior de todas as tolices não ‘apostar’ em Deus, mesmo que você não tenha certeza, provas ou garantias de que sua aposta será a vencedora.”

Srila Prabhupada concorda com Pascal nesse ponto. Em Dialectic Spiritualism: A Vedic View of Western Philosophy [sem tradução para o português], uma série de diálogos entre Prabhupada e alguns de seus discípulos, Prabhupada corrobora a aposta de Pascal. Aqui está o fundamental desse diálogo:

Discípulo: Pascal afirma que temos que obrigatoriamente optar em onde colocar nossa fé, ou o que ele chama de aposta religiosa. Nós podemos ou apostar nossas fichas em Deus – no caso, nós não temos nada a perder nessa vida e tudo a ganhar na próxima – ou podemos negar Deus e por em risco nossa posição eterna.

Prabhupada: Esse é o nosso argumento. Se há duas pessoas, e nenhuma delas realizou Deus, uma talvez diga que não há Deus, e a outra talvez diga que há Deus. A ambas deve ser dada uma chance. Aquela que diz não haver Deus está fora do caso, mas quem afirma haver um Deus deve ser prudente. Ele não pode agir com irresponsabilidade. Se há um Deus, ele não pode correr riscos. De fato, ambos estão aceitando riscos porque nenhum deles está certo se existe Deus. Todavia, é preferível que se acredite.

Discípulo: Pascal diz que as chances são cinquenta porcento para cada lado.

Prabhupada: Sim, então pegue os cinquenta porcento favoráveis.

Discípulo: Pascal também advogou isso. Não temos nada a perder e tudo a ganhar.

Prabhupada: Sim. Nós também sugerimos às pessoas que cantem Hare Krishna. Se você não tem nada a perder e tudo a ganhar, por que não cantar?

Claro que a aposta de Pascal não é a melhor forma de se aproximar de Deus. Obviamente, se uma pessoa tem inerente apreciação por Deus e O serve com amor e devoção naturais, isso é o melhor. Se não, a pessoa deve desenvolver a ideia do amor a Deus seguindo as recomendações daqueles que O amam de fato, juntamente com as injunções escriturais e dos sábios. Mas, como nos declara a Bhagavad-gita (capítulo 12), raramente as pessoas são amantes espontâneos de Deus. A segunda melhor opção, diz Krishna, é fixar a mente em Deus. E se uma pessoa não pode fazer isso, ela deve, então, seguir os princípios reguladores estabelecidos por um caminho religioso. Essa seria a sugestão de Pascal também. Neste sentido, a Gita oferece várias opções para aqueles entre nós que não nasceram com amor natural ou inato por Deus.

Para entendermos a aposta de pascal, seria útil conhecermos seu contexto. Pascal viveu em uma época de grande ceticismo. Ele era um apologista do cristianismo procurando uma maneira de explicar Deus a seus amigos céticos. Ele via a fé e a razão como dois meios para o Divino. Qual opção restaria àqueles destituídos dos dois?

“Haveria um terceiro meio”, ele se questionou, “de sair do escuro buraco da incredulidade em direção à luz da credulidade?”

A aposta de Pascal é esse terceiro meio. Pascal estava ciente da inferioridade desse meio.

“Se sua crença em Deus nasce como uma aposta”, ele escreve, “certamente não é uma fé profunda, madura ou adequada. Mas é alguma coisa, é um começo, é suficiente para represar a maré de ateísmo.”

A aposta apela não para algo muito elevado, não apela para fé, esperança, amor ou evidência de alto escalão, mas de baixo: o instinto de autopreservação, o desejo de ser feliz e não infeliz. Aposte em Deus e será feliz; se não, não será. É esse seu valor.

Contra-argumentos

Naturalmente, os filósofos ateístas são avessos à aposta de Pascal. O primeiro problema, eles dizem, é que a aposta traz implícita a necessidade de uma escolha ser feita. Mas, na verdade, dizem os opositores a Pascal, nós não temos que fazer uma. Nós podemos simplesmente aderir ao princípio agnóstico e admitir que nós não podemos de fato afirmar se Deus existe ou não. Nós podemos viver nossas vidas com essa ausência de certeza. Ponto final.

Mas, no campo de batalha da vida, a pessoa deve simplesmente escolher um caminho ou outro. Consideremos Arjuna, o herói da Bhagavad-gita. No impasse de uma guerra civil, bem ali no campo de batalha, ele disse: “Eu não vou lutar.” Como Arjuna, nós, algumas vezes, pensamos poder fingir que não há batalha, que podemos viver nossas vidas sem optar por um caminho de ação ou outro, que podemos viver nossas vidas sem consequências. Claramente, esse tipo de negação não é algo benéfico. No caso de Arjuna, tropas estavam dispostas esperando pela batalha. Ele tinha que escolher. Pascal diz que devemos apostar em Deus ou contra Ele, e essa aposta vai determinar exatamente como viveremos nossa vida, para melhor ou para pior. Uma pessoa pode ser boa sem Deus, mas isso é pouco provável, diz Pascal.

Outro problema levantado por aqueles que criticam a aposta de Pascal é que ela é focada no Deus do cristianismo, juntamente com Suas regras apresentadas através da tradição bíblica. Mas por que, eles perguntam, deveria a aposta ser assim limitada? E se eu apostar na concepção cristã de Deus e essa concepção for errada? E se Deus for outra pessoa, com outro conjunto de regras?

O fato é que Deus, em Sua plenitude, talvez esteja fora de nossa capacidade de conhecimento, mas Suas leis certamente estão dentro de nosso raio de alcance. Leis morais e, mais elevadas, leis espirituais, não são segredos para a humanidade. Independente do que alguns digam, as instruções de Deus variam muito pouco de religião para religião. Sanatana-dharma, ou o eterno papel da alma, é o laço que une a essência mística das religiões. E a ciência de Deus é focada nisso. A consciência de Krishna ensina que apostar em Deus é a prerrogativa da forma de vida humana. A aposta de Pascal – mesmo sendo uma aposta de cinquenta porcento – é uma escolha sábia.

Deus é uma Aposta Segura

Se Deus definitivamente não existe, não importa sua aposta, pois não há nada a se ganhar após a morte e, igualmente, nada a se perder. Mas se Deus existe, sua única chance de ganhar a felicidade eterna é acreditando – e agindo de acordo com essa crença – e sua única chance de perder a eternidade é se negando a acreditar.

Mas valeria a pena? Essa é a verdadeira questão. Valeria a pena renunciar o que é necessário para apostar na existência de Deus? Lembremo-nos de que qualquer coisa que acaso renunciemos é apenas uma coisa finita, e, como Pascal diria, é muito mais sensato apostar algo finito na chance de ganhar algo infinito, do que o contrário. É essa a iniciativa teísta. Mesmo que você tenha de renunciar certos prazeres ou hábitos enraizados para apostar em Deus, a possibilidade de uma felicidade superior não faria isso tudo valer a pena no final? Patrick Glynn, mencionado anteriormente, lida com isso na seguinte dimensão:

“Claro que a delicada discussão aqui tomada é referente ao que aqueles que optam por acreditar devem renunciar em suas vidas: a revelação ensina que eles devem, nas palavras de Pascal, ‘encurtar’ suas ‘paixões’”. Pascal tentou minimizar esse sacrifício apontando para os benefícios puramente racionais de viver uma vida em conformidade com as leis morais. “Agora, que prejuízo poderia surgir”, ele escreveu, “por se fazer essa escolha? Você será fiel, honesto, humilde, grato, generoso, um amigo sincero, veraz. Certamente você não desfrutará daqueles deleites perniciosos – orgulho e luxúria; mas não irá experimentar outros?”

A posição ateísta e agnóstica sempre foi de que Pascal teria suavizado o sacrifício perante a barganha final. Considerando os prazeres e desfrutes que a religião nos ensina a evitar, o argumento dos ateístas faria sentido ao dizerem que sacrificamos muito. Mas pesquisas modernas no campo da psicologia deixam claro que a vida moralmente irrestrita não é uma boa ideia. A grande ironia acontece assim: Mesmo que suas crenças sejam comprovadas como ilusórias, pessoas religiosas têm vidas mais felizes e mais saudáveis, como demonstram numerosos estudos.

O paradigma da psicologia secular moderna – o empreendimento para dar uma explicação completa para o funcionamento da mente humana sem referência em Deus ou espírito – demonstrou-se fracassada. A modernidade falhou em sua ambição de estabelecer uma alternativa material para a compreensão religiosa da condição humana. Uma visão puramente secular da vida mental do homem demonstrou-se falha, não apenas no nível teórico, mas também no prático. A última coisa em que Freud apostaria como resultado de meio século de pesquisas psico-científicas e experiências terapêuticas seria na redescoberta da alma.

Uma vida consciente de Deus tem muito a oferecer, anulando, com sua bem-aventurança, dificuldades de todas as esferas. Certo: devotos acordam cedo, têm a regulação de cantar o maha-mantra e seguem certos princípios reguladores, como não comer carne, não se intoxicar, não praticar sexo ilícito e não praticar jogos de azar. Mas esses agregados da vida devocional não são tão penosos quanto podem parecer, e se tornam mais fáceis com o passar dos anos.

De fato, as pesquisas mostram que tudo isso é bom para você. Acordar cedo e ter horários é algo bom para a saúde, assim como o é o vegetarianismo e a renúncia às drogas. Aprender a como meditar nos nomes de Krishna e a contemplar a filosofia da consciência de Krishna é algo muito bom para o cérebro, estimulando-o de tal maneira que os prazeres matérias não podem nem se aproximar. Associar-se com os devotos significa estar com as melhores pessoas do mundo. Eu passei a amar vários de meus co-praticantes, pois eles exibem qualidades elevadas e estão entre as melhores pessoas que já conheci em minha vida. E cantar os santos nomes em kirtana – em casa, no templo ou nas ruas – é o maior prazer que o homem pode conhecer! Os benefícios da fé definitivamente se sobrepõem às dificuldades. E se Pascal estivesse aqui hoje conosco, ele teria, certamente, ainda mais motivos para advogar a favor da devoção.

Adquira e receba em casa: