Bhagavan: A Pessoa de Deus

Adi Purusha Dasa

A tradição de bhakti reconhece tanto o aspecto pessoal quanto impessoal da Verdade Absoluta, mas valoriza um deles como mais desejável do que o outro.

Há centenas de anos, filósofos e teólogos debatem em relação a se Deus é, em última instância, pessoal ou impessoal. Afinal, a natureza de Deus exerce um papel central em nosso destino. Se Deus é uma pessoa, então temos o potencial para uma relação amorosa eterna com Ele. Por outro lado, se Deus não é uma pessoa, mas, em vez disso, é impessoal, como uma luz na qual nos fundimos, então não temos a oportunidade de um relacionamento eterno.

A Natureza de Deus

Para Deus ser completo, Ele tem que ter tanto o aspecto pessoal quanto o aspecto impessoal. Se Deus fosse apenas pessoal ou apenas impessoal, não seria completo, porque careceria de algo. A tradição de bhakti reconhece que Deus tem um aspecto impessoal, um aspecto pessoal e até mesmo um aspecto “localizado”, isto é, uma forma dentro do coração. O Srimad-Bhagavatam (1.2.11), um importante texto de bhakti, afirma:

vadanti tat tattva-vidas
tattvam yaj jnanam advayam
brahmeti paramatmeti
bhagavan iti shabdyate

“Transcendentalistas eruditos que conhecem a Verdade Absoluta chamam essa substância não dual de Brahman, Paramatma ou Bhagavan.” Brahman é o aspecto impessoal de Deus. É como uma luz branca em que o indivíduo pode se fundir caso assim deseje. Paramatma é o aspecto localizado de Deus, também chamado de Superalma. Como a Superalma, Deus está no coração de toda entidade viva, testemunhando e sancionando as ações da entidade viva. Ele também guia aqueles desejos de ouvi-lO, o que pode explicar o porquê de algumas pessoas sentirem que de fato têm experiências reais de Deus Se comunicando com elas a partir de dentro.

Por fim, há Bhagavan, o aspecto pessoal de Deus, que se pode dizer que é Seu aspecto original. Embora a Superalma seja pessoal, Bhagavan é o aspecto pessoal de Deus que quem realizou o aspecto Bhagavan pode ver face a face e interagir de maneira íntima. Bhakti-yogis focam-se em Bhagavan porque podem experimentar imenso êxtase por participarem de Seus passatempos, que Deus realiza para regozijar Seus devotos.

No aspecto impessoal, não há amor e afeição. Se nos fundimos na existência de Deus e perdemos a nossa individualidade, não podemos ter uma relação amorosa com Ele. É preciso duas pessoas para existir um relacionamento amoroso, e a aniquilação de nossa identidade impossibilita qualquer relação.

Quando Deus Vem a Este Mundo

Periodicamente, Deus vem a este mundo para fazer atos e passatempos maravilhosos. Os textos da tradição de bhakti estão repletos de histórias de como Deus age quando vem a este mundo em Seu aspecto pessoal. De acordo com a tradição de bhakti, Deus não é um Deus deísta. No deísmo, Deus cria o mundo, mas, então, Se distancia dele e escolhe não Se envolver. De acordo com a tradição de bhakti, entretanto, Deus não é desconectado do nosso mundo, senão que, ao contrário, vem em vários adventos para agradar Seus devotos e nos atrair para Ele por meio de Suas diferentes atividades. Ele também enfrenta o mal, salva Seus devotos e restabelece a justiça no mundo.

Quando Deus vem a este mundo, Ele algumas vezes nos instrui de modo que possamos ir embora com Ele. Quando veio em Sua forma original como Krishna, Arjuna fez esta pergunta significativa ao nosso tema: “Quais são considerados os mais perfeitos, aqueles que sempre se ocupam devidamente em Teu serviço devocional, ou aqueles que adoram o Brahman impessoal, o imanifesto?” (Bhagavad-gita 12.1) Krishna respondeu: “Aqueles que fixam sua mente em Minha forma pessoal e que estão sempre ocupados em Me adorar com grande fé transcendental, são considerados por Mim como os mais perfeitos.” (Bhagavad-gita 12.2) Assim, Krishna dispersa quaisquer dúvidas ou temores que possamos ter em relação a seguir o caminho do personalismo.

Contudo, aqueles acostumados ao modo de adoração impessoal talvez pensem que o Brahman impessoal é a fonte de Deus e que devemos, portanto, nos focar no aspecto impessoal de Deus. Para esclarecer o assunto, porém, Krishna afirma mais adiante, brahmano hi pratishthaham: “Eu sou a base do Brahman impessoal.” (Bhagavad-gita 14.27). Portanto, o aspecto impessoal de Deus, Brahman, vem de Krishna, e não o contrário.

O que Deus mais gosta de fazer quando vem a este mundo é ter relações de amor com Seus devotos. Quando Krishna está com Seus amigos, experimentam trocas muito doces e amorosas. Com Seus colegas vaqueirinhos, Ele brinca de esconder, imita o som dos animais locais, faz música, dança, come e Se entrega a todo tipo de diversões. Deus não quer simplesmente Se sentar em um trono e ficar julgando as pessoas; Ele quer Se divertir, e Ele quer que nós participemos.

Além disso, Deus Se agrada de até mesmo servir Seus devotos. Arjuna tinha que lutar em uma grande batalha, e, por afeição a Arjuna, Krishna concordou em Se tornar seu quadrigário. Como Deus, Krishna não tinha nenhuma necessidade de assumir esse humilde papel. Ele poderia ter acabado com todo o exército em um piscar de olhos. Contudo, porque Krishna tem tanto amor por Arjuna, decidiu se tornar o quadrigário de Arjuna e assim servi-lo.

Os Benefícios do Personalismo

Ainda assim, apesar da natureza doce do aspecto pessoal de Deus, o aspecto impessoal pode ter seu apelo. Nós, algumas vezes, podemos nos sentir frustrados com a variedade material, então concluímos que variedade de qualquer tipo leva à infelicidade e que o caminho para a verdadeira felicidade é parar toda atividade. Assim, podemos concluir que a felicidade última é nos fundirmos no aspecto impessoal de Deus. Mas isso realmente parece felicidade de verdade?

Imagine que você tivesse que parar todas as suas atividades e simplesmente se sentar em uma sala fazendo nada. Você ficaria feliz? Provavelmente não. Você ficaria muito mais feliz caso estivesse com alguém que você ama. Uma pessoa no caminho do impersonalismo pode ser capaz de escapar do sofrimento, mas perde a oportunidade de sentir uma felicidade muito maior na experiência de uma relação amorosa com Deus. O personalismo nos dá a oportunidade de compartilhar nossa alegria com Deus e com Seus devotos. Em contraste, o impersonalismo é como uma solitária.

Em bhakti-yoga, estabelecemos nossa relação amorosa com o Senhor Supremo mediante uma variedade de atividades espirituais, como ouvir sobre Ele, cantar Seus nomes, dançar para o Seu prazer e até mesmo fazer jardinagem ou negócios para Ele. Muitos caminhos espirituais dizem que nosso sofrimento é causado por atividades materiais, mas, como mencionado antes, parar todas as atividades, como alguém pode fazer no caminho impessoal, é tedioso. O personalismo oferece uma solução perfeita porque nos providencia a oportunidade de realizarmos atividades espirituais, as quais são plenas de variedade. E, como sabemos, variedade é a mãe do prazer. Além disso, diferente das atividades materiais, as atividades espirituais não nos frustram.

Na Bhagavad-gita (2.62), Krishna explica por que as atividades materiais são frustrantes:

dhyayato vishayan pumsah
sangas teshupajayate
sangat sanjayate kamah
kamat krodho ‘bhijayate

“Enquanto contempla os objetos dos sentidos, a pessoa desenvolve apego por eles, e de tal apego, se desenvolve a luxúria, e da luxúria surge a ira.” Quando realizamos atividades materiais, nos sentimos frustrados quando não conseguimos o que desejamos. Ou se conseguimos o que desejamos, mas não corresponde às nossas expectativas, também nos sentimos frustrados. É como quando um garotinho vê um sorvete de casquinha. Ele começa a desejar isso com cada vez maior intensidade, mas, se sua mãe diz que ele não pode comer, ele se frustra. Mas mesmo se ele consegue o sorvete, talvez não seja tão gostoso quanto esperava, ou não seja tanto quanto ele queria, ou deixe um mal-estar depois de comido. Por fim, ele estará frustrado de qualquer maneira, pois o mero prazer corpóreo não pode satisfazer a alma.

Quando agimos para dar prazer a Deus, e não a nós mesmos, não experimentamos o desejo insatisfeito. De fato, quando agimos para o prazer de Deus, sentimos mais alegria do que se tivéssemos tentado agir para nosso próprio gozo. E então encontramos cada vez menos felicidade nas atividades materiais. Tomemos novamente o sorvete como exemplo. É gostoso, mas, depois de certo ponto, ficamos saturados. As atividades espirituais são diferentes. Quanto mais você as faz, mais ficam saborosas.

A Reciprocidade do Senhor

Outro ponto alto do personalismo é que o Senhor reciproca nosso amor por Ele e nos ama em um grau infinito. Todos nós estamos buscando por amor, e Deus pode satisfaz completamente nosso desejo de amar e ser amado. Uma história entre Chaitanya Mahaprabhu, que é o próprio Krishna, e Seu devoto Sanatana Gosvami ilustra o quanto Deus nos ama. Sanatana Gosvami, certa vez, sofria de coceira, com feridas secretando pus por todo o seu corpo. Contudo, o Senhor Chaitanya tinha tanto amor por Seu devoto que O abraçou, e Sanatana Gosvami foi curado de sua condição.

Esse incidente chama atenção para uma das qualidades do Senhor: Ele nos ama incondicionalmente, apesar de nossas imperfeições ou defeitos. Nosso namorado, namorada, amigos, animais de estimação e assim por diante podem nos deixar a qualquer momento. Em contraste, mesmo em nossas horas mais difíceis, podemos contar que Krishna estará ali conosco, pronto para nos abraçar. Além disso, o Senhor também pode preservar tudo que temos e trazer o que nos falta. Assim, por nos refugiarmos em Deus, podemos superar qualquer dificuldade que nos confronte.

Outra história envolvendo o Senhor Chaitanya demonstra o amor de Deus por Seus devotos. Quando o grande devoto Haridasa Thakura morreu, o Senhor Chaitanya carregou seu corpo para o mar, realizou a cerimônia fúnebre e cobriu de areia o seu corpo dentro da tumba.

O Senhor Chaitanya carrega o corpo de Haridasa para o mar.

Sendo Deus, o Senhor Chaitanya não tinha de fazer nada disso; Ele poderia ter delegado o afazer a outra pessoa. Contudo, movido por amor e afeição por Seu devoto, fez esse serviço a Haridasa Thakura.

A Bem-aventurança de Bhakti-yoga

Ademais, todo o processo de bhakti-yoga é muito bem-aventurado. Podemos ter um vislumbre disso através da história de Dhruva. Dhruva foi um menino cujo pai era um rei com duas esposas. Infelizmente para Dhruva, sua mãe era a esposa que o rei estimava menos. Um dia, quando Dhruva tentou se sentar no colo de seu pai, sua madrasta o impediu. Ela disse a Dhruva que, se ele queria se sentar no colo de seu pai, teria que adorar a Deus e nascer do ventre dela.

Desapontado, Dhruva contou à sua mãe o que acontecera. Ela tentou consolá-lo, e ela também disse que adorar o Senhor seria a única maneira pela qual ele poderia se sentar no colo do pai. Dhruva, então, partiu para a floresta determinado a adorar o Senhor, não apenas para poder se sentar no colo do pai, mas também para ganhar um reino muitíssimo maior do que o de seu pai. No caminho, Dhruva se encontrou com o sábio Narada, que lhe deu um mantra para meditar. Entoando esse mantra, Dhruva, por fim, viu Deus face a face.

Depois de ver Deus (Krishna em Sua forma de Vishnu), Dhruva ficou em êxtase. Ele sentiu tamanha bem-aventurança que se condenou por ter buscado Deus querendo benefícios materiais. Ele considerou a bem-aventurança de ver Deus como muito maior do que qualquer opulência material. Ele disse que saiu em busca de alguns cacos de vidro e, em vez disso, encontrou um diamante. Em conclusão, muito embora possamos obter grande alegria com a riqueza material, o júbilo de amar a Deus faz com que essa felicidade pareça tão insignificante quanto vidro quebrado.

Dhruva encontra-se com o Senhor Supremo.

Essa intensa bem-aventurança nos está disponível mediante a prática de bhakti-yoga, começando com ouvir e cantar os nomes de Deus, como no maha-mantra: Hare Krishna, Hare Krishna, Krishna Krishna, Hare Hare/ Hare Rama, Hare Rama, Rama Rama, Hare Hare. Entoar esse mantra revive o amor dormente por Deus que há em nós. Assim, por abordarmos o aspecto pessoal de Deus, podemos sentir níveis crescentes de bem-aventurança e experimentar o amor pelo qual todos nós estamos buscando.

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