Kirtana nas Religiões do Mundo

Satyaraja Dasa

Kirtana é o canto que caracteriza o movimento Hare Krishna, em que uma pessoa canta uma parte do mantra e o coro repete em seguida. É a religião fundamental da nossa era – o clamor da alma por Deus como um meio de se reunir a Ele.

Robert Gass, autor de Chanting: Discovering Spirit in Sound, acredita que o canto ritual está entre os impulsos humanos mais universais, bem como um dos primeiros: “Não temos registros dos primeiros humanos”, escreve ele, “mas quando encontramos tribos indígenas que tiveram pouco contato com a civilização moderna, todos eles têm cantos sagrados que, de acordo com sua história oral, remontam às suas origens mais antigas.” E se você olhar para os mitos da criação de diferentes culturas, em quase todos os casos se diz que o mundo nasce através do som, através do canto. Está no hinduísmo, cristianismo, judaísmo e religiões nativas americanas. Isso é uma evidência, de certa forma. A outra evidência você pode observar nas crianças pequenas: Quase todas as crianças pequenas inventam canções repetitivas – elas se perdem no êxtase do canto.

No judaísmo, o hazzan, ou cantor, é um tipo de líder de kirtana, dirigindo todas as orações litúrgicas e cânticos em sinagogas ao redor do mundo. Se nenhum cantor estiver disponível, um “líder de kirtana” menos qualificado é chamado, conhecido como o ba’al tefilah. Essa pessoa, então, canta as orações, e a congregação repete cada trecho, como em um kirtana tradicional. A prática básica vem de um princípio encontrado na Bíblia (Salmos 150.4-5): “Louvem-nO com tamborins e danças, louvem-nO com instrumentos de cordas e com flautas, louvem-nO com tamborins e danças, louvem-nO com instrumentos de cordas e com flautas.” Se isso não é kirtana, o que é? De fato, um dos maiores místicos do judaísmo, Baal Shem Tov, pode ser considerado o kirtaniya máximo – seu próprio nome significa “Mestre do Santo Nome”, e ele encorajou seus seguidores: “Cantem, cantem, cantem!”

Um famoso hazzan conduz o canto em uma sinagoga.

Jesus, vindo essencialmente da mesma tradição, ensinou a seus discípulos como orar: “Pai nosso que estais no céu, santificado seja o Vosso nome.” Essa foi a base do cristianismo primitivo. Em sua Epístola aos Romanos (10.13), São Paulo escreve: “Porque todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo.” Coros batistas ou católicos carregam esse mandamento em seu coração, muitas vezes com grande entusiasmo, personificando a mesma essência dos grupos de kirtana indianos.

O clamor pelo nome tornou-se parte formal da Igreja Católica Romana durante os dias do Papa Gregório I (cerca de 540-604 d.C.). Mesmo assim, o canto gregoriano é apenas um entre muitos, com a tradição cristã reivindicando centenas de milhares de “mantras”, que são muitas vezes recitados na forma de um líder cantando um trecho e o coro repetindo, como o kirtana. Na mesma linha, os místicos cristãos deram ao mundo a Oração de Jesus: “Senhor Jesus, filho de Deus, tem misericórdia de mim”, um contínuo encantamento em forma de mantra, cuja prática se assemelha à japa, o canto repetitivo com a ajuda de um rosário, no clima dos sadhus indianos.

Os qaris muçulmanos são aqueles que recitam profissionalmente o Alcorão. Por sua melodia e paixão, eles facilmente trazem à nossa mente a lembrança dos cantores de kirtana. Embora o canto demonstrativo não seja geralmente permitido no islã convencional, o canto a Alá é permitido, e é visto como uma forma particularmente eficaz de oração. Na verdade, os qaris são kirtaniyas cujos cânticos são chamados tajwid, que, em árabe, significa “música vocal”. Os noventa e nove nomes de Alá, chamados “Os Nomes Mais Belos de Alá”, são cantados em contas, inscritos em mesquitas e glorificados de inúmeras maneiras.

Em particular, os sufis, os místicos islâmicos, procuram evocar a presença de Deus pronunciando Seus nomes. Isso é chamado de qawwali, uma forma de música vocal islâmica sagrada originária do Paquistão e da Índia – é uma forma de arte ou ritual extático baseado nos textos clássicos sufistas. Uma de suas principais funções é orientar seus ouvintes – aqueles que mergulham profundamente em sua poesia e significado – para um estado de êxtase (wajd), muito parecido com experientes kirtaniyas do passado.

No Japão, os seguidores da religião xintoísta se envolvem em cantos ritualísticos, conhecidos como norito, que é sua versão de kirtana. Os hinos budistas são chamados de shomyo. Essa também é uma forma de kirtana.

Budistas realizam o canto ritualístico shomyo.

Na Índia, o kirtana é um estilo de vida. Os sikhs, por exemplo, veem o kirtana como central para sua prática religiosa, como qualquer busca no Google sobre kirtana rapidamente revela. Naturalmente, todas as formas de hinduísmo fazem uso do kirtana também, e isso é verdade quer estejamos falando dos ramanujitas do Sul da Índia, quer dos gaudiya-vaishnavas na Bengala, quer das devadasis que cantam para seu amado Jagannatha. O canto com um líder e resposta do coro é a própria base da religião, e foi desenvolvido em um sistema de conhecimento muito meticulosamente definido na Índia. Foi essa ciência que foi herdada pelo Movimento Hare Krishna.

Kirtana é a essência do yoga, uma palavra que literalmente significa “conexão com Deus”. Também é, portanto, a essência da religião, já que a raiz da palavra religião é o latim religio, que também se refere à ligação com Deus. De acordo com a maioria dos renomados sábios da Índia, se o yoga e a religião têm a ver com a conexão com Deus, o kirtana é a melhor maneira de facilitar essa conexão. Eis o porquê: Quando você canta para alguém, você desenvolve intimidade com essa pessoa. Na verdade, tal canto pressupõe intimidade – você geralmente canta para aqueles que são próximos e queridos. E o canto também aproxima ainda mais aqueles que já são próximos. Desta forma, o kirtana acende algo enterrado no fundo do coração, reavivando gradualmente as memórias de um relacionamento quase perdido com o Divino. E acelera esse relacionamento, colocando você próximo a Deus, o que é naturalmente do que se trata o yoga e a religião.

Na Bhagavad-gita, um dos textos de yoga mais importantes do mundo, o Senhor Krishna descreve brevemente, entre outras práticas, o raja-yoga – isto é, o yoga como o conhecemos hoje, com exercícios respiratórios, posturas sentadas etc. Mas Arjuna, o adepto a quem Krishna está falando, acha a técnica do yoga muito difícil, de modo que, ao final do sexto capítulo da Gita, Krishna adere ao ponto de Arjuna, dizendo que, de todos os yogis, “aquele que habita em Mim [Krishna] com grande fé, adorando-Me no serviço amoroso transcendental, é o mais intimamente unido a Mim em yoga e é o mais elevado de todos”. Em outra parte da Gita (9.14), Krishna diz que tais grandes almas estão sempre entoando Suas glórias.

Assim, como já foi dito, o kirtana é a essência do yoga, pois, ao cantar os nomes de Deus, pode-se desenvolver intimidade com Ele, que é o objetivo final da vida. Mais uma vez, o canto pode empregar o nome original de Krishna ou qualquer um de suas centenas de milhões de nomes, em qualquer idioma, de qualquer tradição. Deve ficar claro que, quando os devotos de Krishna dizem “Krishna”, nós nos referimos simplesmente a Deus, e Deus aparece de formas variadas, a numerosos povos: Alá, Jeová, El, Adonai, e assim por diante. Na verdade, Krishna tem formas ilimitadas, e Ele aparece misericordiosamente em ambos os sexos – como Sita-Rama, Radha-Krishna, Lakshmi-Narayana e assim por diante – e faz Seu advento em várias espécies de vida, como Varaha (javali), Matsya (peixe), Kurma (tartaruga), Hayagriva (cavalo) ad infinitum. Todas essas formas são discutidas em textos védicos e outros livros sagrados. Por fim, Ele encarna em Seu santo nome, e Ele vem até nós através do kirtana.

Prabhupada, fundador do Movimento Hare Krishna, lidera o canto do santo nome de Krishna em um ambiente público.

Finalmente, o kirtana não deve ser intimidador. Embora exista uma grande arte ou ciência para cantar os nomes do Senhor, ela também pode ser apreciada em um nível simples. Não precisa ser uma experiência “religiosa”. Apenas ouvindo o som e deixando-o entrar, você pode participar do processo do kirtana. Os pensamentos sobre Deus e o universo podem vir mais tarde, se vierem a acontecer. No início, se você apenas saborear a melodia, você terá dado início ao processo. Qualquer pessoa pode fazer isso. E os resultados são edificantes, curativos e vivificantes. Uma criança pode se beneficiar disso, assim como um sábio realizado. O líder do kirtana se sente mais próximo do Divino enquanto canta, mas o público também – e qualquer um que o ouve.

Como Arjuna observou, yoga e meditação não são fáceis para a maioria das pessoas. E é aí que entra o kirtana. Qualquer um pode cantar, e a natureza do canto é tal que envolve imediatamente os sentidos, a mente, o coração. Seu método participativo atrai, e então, antes que você se dê conta, você está absorto no canto, concentrando-se no santo nome como um yogi consumado. E esta é a questão: Ao permitir que o canto entre em seus ouvidos e em seu coração, você é, de certa forma, um yogi, sem fazer um esforço consciente. E embora isso possa ser apenas o começo, você, de fato, participou do yoga do kirtana, em qualquer religião que você esteja.

Tradução de Krishna-kanta Gopalini Devi Dasi, revisão de Bhagavan Dasa.

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