Nossa Relação Íntima com Krishna

A.C. Bhaktivedanta Swami Prabhupada

Assim como Arjuna, sofremos quando separados de Krishna.

“Arjuna, o célebre amigo do Senhor Krishna, estava tomado de tristeza por causa dos fortes sentimentos de saudade de Krishna, isso muito acima das perguntas especuladoras de Yudhisthira.” (Srimad-Bhagavatam 1.15.1)

Um dos nomes de Arjuna é Krishna-sakha, “o amigo de Krishna”. E ele também é chamado de Krishna algumas vezes porque seus atributos corpóreos eram similares aos de Krishna. Arjuna acabou de retornar de Dvaraka, onde tinha ido para visitar Krishna. Ele estava melancólico por estar separado de Krishna. Seu irmão mais velho, Yudhisthira, ainda estava por ser informado de que Krishna partira deste mundo, então ele estava perguntando se Arjuna estava taciturno por essa ou aquela razão. Na verdade, Arjuna estava triste por estar separado de Krishna.

Isso acontece similarmente com todos nós, e não apenas com Arjuna. Assim como Arjuna, cada um de nós é uma entidade viva. Nós, então, também estamos infelizes por estarmos com saudade de Krishna. Filósofos ou cientistas modernos podem seguir pensando de outro modo, pensando que podem aprimorar a situação do mundo à sua própria maneira, mas isso não é possível. Estamos infelizes por estarmos longes de Krishna. Isso eles não sabem. Somos como uma criança que chora. Ninguém pode dizer o motivo do choro, mas, na verdade, uma criança geralmente chora por estar longe da mãe. Não se trata, portanto, de apenas Arjuna estar triste. Todos nós estamos tristes.

Na Svetashvatara Upanishad (4.6), é dito que Paramatma, ou Krishna, e a entidade estão sentados na mesma árvore, samanam vriksham. Uma entidade viva está comendo o fruto da árvore, e a outra entidade viva está simplesmente testemunhando, anumanta. Krishna está situado no coração de todos. Sem Sua sanção, a entidade viva não pode fazer nada. A entidade viva quer fazer algo caprichoso, e Krishna proporciona boa consultoria: “Isso não fará você feliz. Não faça isso.” Mas ela é persistente e faz. Nesse momento, Krishna, como Paramatma, sanciona: “Tudo bem. Faça. Por sua conta e risco.” É assim que acontece.

Krishna e a entidade viva estão ambos sentados no coração, como dois passarinhos em uma árvore.

Todos nós temos uma conexão muito íntima com Krishna, e Krishna está sentado no coração de todos. Krishna é tão amável que Ele está simplesmente aguardando. “Quando esse patife voltará sua face para Mim?” Ele é muito amável. Contudo, nós entidades vivas somos tão patifes que voltamos nossa atenção para tudo, menos para Krishna. Essa é a nossa posição. Queremos ser felizes com muitíssimas ideias. Todos estão inventando sua própria ideia. Contudo, os patifes não conhecem o verdadeiro processo para se obter a felicidade. Esse processo é a consciência de Krishna. Eles desconhecem isso. Estão tentando muitas coisas: muitos arranha-céus, muitos carros, muitas cidades enormes… Mas não há felicidade, porque não sabem o que está faltando. Esse ponto que falta nós estamos dando. “Pegue Krishna e você ficará feliz.” Esse é o nosso movimento da consciência de Krishna.

Krishna e a entidade viva têm uma conexão muito íntima, como pai e filho, ou amigo e amigo, ou mestre e servo. Contudo, porque nos esquecemos de nossa relação íntima com Krishna e estamos tentando nos tornar felizes neste mundo material, temos que passar por muitas tribulações. Essa é a nossa posição.

Todos a Serviço do Estômago

Por que você está no mundo material, e não no mundo espiritual? No mundo espiritual, ninguém pode se tornar o desfrutador, bhokta. Essa posição é somente do Supremo. No mundo espiritual, também há entidades vivas, mas elas sabem perfeitamente bem que o verdadeiro desfrutador, o verdadeiro proprietário, é Krishna. Essa é a natureza do reino espiritual. Similarmente, mesmo neste mundo material, se nós entendemos perfeitamente bem que não somos o desfrutador e que Krishna é o desfrutador, este mundo se torna o mundo espiritual.

Este movimento da consciência de Krishna está tentando convencer todos de que não somos o desfrutador, mas que o desfrutador é Krishna. Em todo o nosso corpo, o desfrutador é o estômago, e as mãos e pernas e olhos e ouvidos e cérebro e tudo devem se dedicar a encontrar coisas desfrutáveis e colocá-las no estômago. Isso é natural. Similarmente, somos partes integrantes de Deus, ou Krishna, e não somos o desfrutador.

Todas as partes do corpo trabalham para dar prazer ao estômago.

Em toda religião se aceita isso. Na religião cristã, é dito: “Ó Deus, o pão nosso de cada dia dai-nos hoje.” Nós não podemos manufaturar o pão. Ele tem que vir de Deus. Essa é a versão védica também. Deus, ou Krishna, dá todas as necessidades da vida, mas se você aceita suas coisas desfrutáveis como bem entender, você ficará enredado. Se você aceita as coisas a serem desfrutadas por você como Krishna as oferece, você ficará feliz. Se um paciente doente que desfrutar da vida à sua própria maneira caprichosa, ele continuará doente. Por outro lado, se ele aceita um estilo de vida segundo as diretrizes do médico, ele fica livre da doença.

Existem dois métodos: pravritti e nivrittiPravritti significa: “Eu tenho a inclinação a comer isso ou a desfrutar disso. Por que não? Eu o farei. Tenho minha liberdade.” “Mas o senhor não tem liberdade alguma, cavalheiro. O senhor não tem liberdade.” Temos essa experiência. Suponha que esteja diante de mim uma comida muito saborosa. Se eu pensar: “Comerei tanto quanto possível”, então, no dia seguinte, terei que jejuar, pois terei disenteria ou indigestão.

Você não pode violar as leis de Krishna, ou as leis da natureza. Isso não é possível. Você não é nem um pouco independente. Os patifes não entenderão isso. Estão sempre pensando que são independentes. Essa é a causa de toda a infelicidade. Ninguém é independente. Como você pode ser independente? Ninguém é independente. Isso é fato. Quem é independente? Quem pode dizer: “Sou independente de tudo”? Não. Ninguém pode dizer isso. Esse é o nosso erro. E por usarmos mal nossa independência, estamos sofrendo neste mundo material de muitíssimas maneiras. Isso tem que ser mudado, interrompido. Esse é o propósito do movimento da consciência de Krishna.

A Ilusão de Ser Independente

Chaitanya Mahaprabhu pregou: jivera ‘svarupa’ haya—krishnera ‘nitya-dasa.’ Nós entidades vivas somos eternamente servos de Krishna. Essa é a nossa posição. Contudo, se negamos essa posição – “Agora, por que devo me tornar servo de Krishna? Sou independente” –, começa o sofrimento imediatamente. Tão logo você deseje desfrutar de modo independente, você é capturado por maya, a energia ilusória.

É muito fácil entender. Se você não se importa com as leis do governo, se você quer viver de modo independente, você imediatamente cai nas garras da força policial.

Nossa posição é que somos sempre dependentes de Deus. Devemos entender isso. Essa compreensão é a consciência de Krishna. Bhaktivinoda Thakura escreve em uma canção, manasa, deho, geho, jo kichu mor, arpilun tuwa pade, nanda-kishor: “Mente, corpo, família e qualquer outra coisa que acaso me pertença, entreguei a Teus pés de lótus, ó jovial filho de Nanda!”

No Srimad-Bhagavatam (2.1.4), é dito:

dehapatya-kalatradishv
atma-sainyeshv asatsv api
tesham pramatto nidhanam
pashyann api na pashyati

“Pessoas destituídas de atma-tattva [conhecimento do eu], não se perguntam sobre os problemas da vida, estando excessivamente apegados aos soldados falíveis, como o corpo, os filhos e a esposa. Muito embora tenham experiência o suficiente, não enxergam sua inevitável destruição.” Nosso erro é pensarmos que somos independentes. “Sou independente, e meus soldados, ou minha sociedade, comunidade ou família me protegerão.” Hitler declarou guerra, e muitíssimas guerras são declaradas. Todos estão pensando: “Eu sou independente.” E estamos pensando que temos muitíssimos soldados, muitíssimas bombas atômicas e muitíssimos aviões, e sairemos vitoriosos. De igual modo, cada um de todos está pensando: “Sou independente, e meus soldados são minha esposa, meus filhos, minha sociedade. Se eu ficar em perigo, eles me ajudarão.” Isso acontece.

O nome disso é maya. Porque ficamos loucos correndo atrás dessa dita independência, independência de Deus, estamos pensando que essas coisas nos ajudarão, nos protegerão, mas isso é maya. Tesham nidhanam: todos serão destruídos. Ninguém será capaz de dar proteção.

A ideia de ser independente de Deus se chama maya, “ilusão”.

Se precisamos de verdadeira proteção, teremos que receber a proteção de Krishna. Essa é a instrução da Bhagavad-gita (18.66):

sarva-dharman parityajya
mam ekam sharanam vraja
aham tvam sarva-papebhyo
mokshayishyami ma shucah

“Abandona toda variedade de religião e simplesmente rende-te a Mim. Eu te livrarei de todas as reações pecaminosas. Não temas.” Krishna está dizendo: “Tolo! Estás pensando que muitíssimas coisas te darão proteção. Isso não será possível. Você estará acabado, e seus ditos protetores e amigos e soldados estarão acabados. Não dependas deles. Simplesmente rende-te a Mim. Eu te protegerei.” Isso é verdadeira proteção.

Todos pensam erroneamente que são independentes, mas são dependentes. Estão sendo dependentes em uma plataforma falsa. Eis o erro da civilização material. Estão pensando em proteção a partir de uma plataforma sem estabilidade, o mundo material. Temos que nos refugiar em Krishna. Krishna é muito amigável com todos nós. Por isso, Ele desce de Vaikuntha para nos informar acerca da verdadeira situação. Essa informação é dada na Bhagavad-gita e é explicada elaboradamente no Srimad-Bhagavatam. Isso é tudo.

Palavras do Irmão Mais Velho

As pessoas são afrontadas por muitas crises e problemas. Em um aeroporto, uma repórter me perguntou: “Qual é a solução para esta crise?” A solução é a consciência de Krishna. Já está aí, mas vocês não adotarão. Se os árabes pensarem que o petróleo é de Krishna, e os outros, os compradores, também pensarem que é propriedade de Krishna, estarão de acordo. A América também tem que concordar que esta terra da América é propriedade de Krishna. Se você acha que o petróleo árabe é propriedade de Krishna, propriedade de Deus, e que você deve pegá-lo à força, então por que os árabes não deveriam ser autorizados a vir do deserto e viver na América? Eles têm as Nações Unidas, mas as Nações Unidas simplesmente cometem erros, erros, erros, erros – nada além disso. Essa é a ocupação deles.

No verso que lemos hoje, o irmão mais velho está apresentando várias hipóteses para a felicidade de Arjuna. Os cientistas tolos estão tomando a posição de nosso irmão mais velho, e estão fazendo hipóteses: “A causa é esta”, “A causa é aquela”, “A causa é esta”, “A causa disso é que…” Mas a única causa é o esquecimento de Krishna. Isso eles não sabem.

krishna bhuliya jiva bhoga vancha kare
pashate maya tare japatiya dhare

“Quando uma alma individual se esquece de sua relação eterna com Deus e tenta dominar a natureza material ou os recursos naturais, essa condição de esquecimento se chama maya, ou ilusão.” (Prema-vivarta 6.2)

Essa é a causa. Então, tentemos divulgar essa filosofia. As pessoas, então, ficarão felizes.

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