O Karma, a Consciência e a Teoria de Tudo

o karma a consciencia e a teroria de tudoDevamrita Swami

Qualquer cientista ou leigo aceitará a lei de ação e reação na matéria. A visão védica de causalidade, entretanto, inclui a consciência.

Atualmente, o termo sânscrito karma já é praticamente de uso geral no Ocidente. Embora seja refinado lançar mão da palavra em conversas, aceitar verdadeiramente o karma como uma realidade cósmica implica grandes consequências. Com efeito, o ponto central do karma são as consequências. Isso significa reações a toda ação, e não apenas àquelas que eventualmente escolhemos mensurar e considerar. A lei védica e universal do karma regula todas as ações e reações das entidades plenamente conscientes.

Nossa atual compreensão de ação e reação permite a causalidade na estrutura e nos processos da matéria. Qualquer cientista ou leigo aceitará a lei de ação e reação na matéria. Isso parece, à nossa visão moderna, um ponto autoevidente. A visão védica de causalidade, entretanto, inclui a consciência. Para quem vê o mundo através da visão védica, a causa e o efeito da consciência são autoevidentes. O sábio védico tem conhecimento de que a consciência plena, a dádiva especial da humanidade, acarreta reações. Visto que as plantas, os animais e outras entidades vivas similarmente com pouca exibição de consciência são analisadas como carentes de livre-arbítrio, eles, no sistema védico, não produzem karma.

Por que algumas pessoas nascem em um berço de ouro enquanto outras dormem cobertas por farrapos? Por que duas pessoas crescem nas mesmas circunstâncias, trabalham com o mesmo empenho para o sucesso e, ainda assim, obtêm resultados por inteiro diferentes? Por que uma pessoa nasce feia ou com pouca inteligência, e outra nasce bela ou inventiva? Os Vedas explicam que essas desigualdades rotineiras – um atributo inerente ao cosmos – são efeitos da lei do karma. Esse regulador universal confere as reações apropriadas à atividade humana. Atos pios e virtuosos trazem efeitos aprazíveis e desejáveis. Atos ímpios e egoístas trazem efeitos problemáticos e indesejáveis. Entre os dois polos de ações e reações boas e ruins, o ser humano pode experimentar inumeráveis misturas.

Por que algumasPor que algumas pessoas nascem em um berço de ouro enquanto outras dormem cobertas por farrapos?

Basicamente, o karma dito bom resulta em circunstâncias materiais prazerosas. O nascimento em uma família rica, educação elevada, beleza pessoal, luxos e assim por diante são aceitos como os resultados comuns de uma vida passada virtuosa. O karma dito ruim se traduz em uma vida seguinte de aflições, como pobreza, doenças ou problemas legais. A aplicação da lei do karma é descrita como complexa, pois as atividades humanas, em geral, não são nem absolutamente boas nem absolutamente ruins. Por exemplo, os Vedas diriam que atividades piedosas em sua vida passada permitiram que Lady Diana se juntasse a uma família real britânica e gozasse de fama mundial e glamour. Contudo, atividades impiedosas passadas a acometeram na forma de um casamento arruinado e uma morte prematura e súbita.

A lei védica e universal do karma nos permite moldarmos nosso destino segundo queiramos. Contudo, uma vez que ajamos, temos que nos submeter às reações correspondentes. Deste modo, a predestinação existe lado a lado com o livre-arbítrio. O ser humano sempre pode escolher novas ações enquanto simultaneamente sofre ou desfruta de circunstâncias acarretadas pelo passado. Os Vedas diriam que, em razão de erros no nascimento anterior, uma pessoa nasce com um pé torto na Coreia do Norte. Não há dúvidas de que suas possibilidades materiais seriam severamente restritas, devido ao problema genético e ao regime opressivo. Todavia, a pessoa pode – e irá – escolher agir de acordo com as opções disponíveis. Talvez o karmi – sânscrito para “participante na teia do karma” – voluntariar-se-á para distribuir suprimentos de grãos durante uma escassez de alimentos.

Uma definição precisa de karma é dada na Bhagavad-gita (8.3): “A ação que resulta no desenvolvimento de corpos materiais é conhecida como karma, ou ‘trabalho reativo’”. Onde quer que haja atividade cármica, quer boa, quer ruim, há um corpo material resultante, seja superior, seja inferior.

Bhagavad-gita (8.3)Bhagavad-gita (8.3): “A ação que resulta no desenvolvimento de corpos materiais é conhecida como karma”.

Explícita na ciência védica do karma está a impossibilidade de alterarmos fundamentalmente a atual cota de sucessos e desastres através de medidas sociais, políticas ou econômicas. A atual parcela de felicidade e aflição vem anexada ao corpo no momento da concepção. Conforme o corpo atravessa seus estágios de crescimento e declínio, as reações cármicas apropriadas acontecem.

Lidarmos com os aspectos práticas de nossa vida pode ser possível, mas a estrutura básica permanece inalterada. Colheremos o que plantamos. O futuro, entretanto, continua em nossas mãos. O karma pode ser mudado, ou até mesmo dissipado, mas não através de medidas materiais ordinárias.

Os Vedas revelam a alma como eterna e irrevogavelmente ativa. Tanto em seu estado puro quanto em sua vida material corporificada, a entidade viva está sempre agindo. Os textos védicos não proferem a inatividade como uma solução permanente para o emaranhamento cármico. Sejam nossas algemas celestes ou infernais, a meta última é evitar todo condicionamento do karma através do trabalho não reativo. Em especial no terceiro capítulo da Bhagavad-gita, Krishna explica esta arte: a atividade não reativa através de dedicar todos os resultados ao Supremo. Esse processo se chama karma-yoga. Resumidamente, karma-yoga significa utilizarmos os nossos sentidos a serviço do Senhor dos sentidos. Uma pessoa totalmente imersa no estilo de vida não cármico é classificada como um transcendentalista muito embora viva dentro do mundo material.

A visão védica afirma que as condições em que nascemos decorrem das atividades realizadas em uma vida pretérita. Se rejeitarmos o karma e seu corolário, a reencarnação, o que nos resta para explicarmos as descomunais desigualdades da vida?

Consideremos este triste caso: o pequeno Ben de Knegt entrou para a história da medicina, na pequena nação da Nova Zelândia, como o primeiro paciente a receber um transplante de medula óssea. Em 1998, após várias recuperações inesperadas de situações de quase morte, Ben morreu nos braços de sua mãe duas semanas depois de seu terceiro aniversário. Seu corpo foi cremado em um pequeno caixão amarelo com seu dinossauro de brinquedo favorito. A mãe disse: “Apesar de estarmos felizes de que não esteja sofrendo mais, sentiremos imensamente sua falta.” Filho único, enquanto batalhava contra a intensa dor e a imensa angústia que o câncer forçaram sobre sua curta vida, Ben frequentemente lamentava: “Isto não é justo.”

As religiões semíticas parecem exigir de seus seguidores um senso de acaso. Como explicamos os “pequenos Bens” deste mundo? Por que coisas ruins acontecem a pessoas que consideramos serem boas? Submeteremos aos arranjos insondáveis de um Deus onipotente? Embora nenhum crente verdadeiro vá dizer isso em algum momento antes de perder sua fé, os desígnios do Todo-Poderoso nos assuntos humanos podem parecer quase monstruosamente insensíveis e arbitrários.

Em oposição ao sistema védico de ações cármicas e apropriadas reações após a morte, os cristãos falam em ressurreição dos justos. A crença diz que o espírito vem a existir apenas quando acontece o nascimento, e apenas nos humanos. Então, após seu curto período de tempo apenas na Terra, essas almas são rotuladas como boas ou ruins. Quando se faz chegado o grand finale do mundo, quando ocorre a ressurreição, apenas os bons se levantarão para a vitória eterna sobre o mal.

Além de tolerar a vontade absolutamente inescrutável da Providência, os cristãos têm que se ajustar à doutrina da tortura eterna no inferno – uma punição impossível de ser mitigada em virtude da má utilização de uma breve vida. Em igrejas que buscam terem apelo aos mais instruídos e intelectuais, o fogo infernal e o enxofre foram deixados em segundo plano ou até mesmo discretamente aposentados. Não obstante, independente de a igreja ser fundamentalista ou liberal, o problema central permanece: por um lado, o cristianismo enfatiza a esperança de uma vida após a morte – um princípio essencial da fé cristã; por outro lado, a natureza dessa vida após a morte é indefinida. Apesar do desejo popular de conhecer sobre isso, em nenhum lugar é explicada. Apesar da glória da vida e dos ensinamentos de Cristo, alguém que pense que a Igreja Católica ou a Igreja Protestante oferecerá instruções claras sobre imortalidade e ressurreição terá uma surpresa desagradável. Tentativas sinceras de retratar e contemplar o céu, o inferno e o purgatório nutrem tanta confusão que teólogos argutos evitam diplomaticamente discuti-los.

O inferno eternoO inferno eterno e o senso de acaso são pontos fracos da teologia cristã.

Em vez de condenarem os princípios gêmeos de reencarnação e karma, alguns pensadores cristãos de mente aberta recomendam a cuidadosa consideração acerca desses elementos doutrinários védicos. Certamente, os cristãos nunca sancionaram oficialmente esses fundamentos dos Vedas, e frequentemente lançaram olhares de censura para os mesmos. Apesar disso, é possível um cristão alistar-se no exército da reencarnação e do karma sem trair sua devoção ao Senhor Jesus Cristo? Os primeiros Pais da Igreja utilizaram a filosofia grega como um veículo para transmitirem suas doutrinas. Talvez a metafísica védica seria de melhor auxílio para os pensadores cristãos modernos. O estudioso de filosofia e cristianismo Geddes McGregor, após pesquisar a história da reencarnação no cristianismo, opinou da seguinte forma:

Muito certamente, até mesmo incontáveis nascimentos como um mendigo deitado em miséria e sujeira pelas ruas de Calcutá seria uma situação infinitamente mais conciliável com o conceito cristão de Deus do que a doutrina tradicional de tortura eterna no inferno. O apelo do reencarnacionismo a qualquer um que cresceu ouvindo e lendo sermões e panfletos sobre o fogo do inferno não é de modo algum difícil de ser entendido. Com efeito, até mesmo à parte da noção de punição eterna, a doutrina tradicional cristã sobre “coisas derradeiras” (o destino da humanidade) é tão notoriamente confusa que um vasto número de pessoas, inclusive frequentadores habituais da igreja, desistiram de acreditar em algo sobre isso. A escatologia cristã, como é chamado esse ramo da teologia, é, sob qualquer forma de juízo, a área mais insatisfatória com atenção da Igreja. Além de ser um ponto fraco explorado pelos adversários da Igreja, é uma fonte de constrangimento a cristãos reflexivos. Não é de surpreender, portanto, que os teólogos cristãos mais sábios tenham desencorajado “especulações inúteis” sobre a natureza da vida após a morte.2

Consciência: Causal e Responsável

 A exatidão dos arranjos físicos no universo causa espanto nos pensadores contemporâneos. Para olhos sem formação, as propriedades do universo e suas interações podem parecer arbitrárias. Os cientistas, no entanto, sabem que as constantes do cosmos revelam uma precisão deveras embasbacante. O que tomamos como condições incidentais acontece de ser precisamente correto para a vida. Apenas consideremos o que se considera serem as quatro forças fundamentais da natureza: eletromagnetismo, gravidade e as forças forte e fraca no átomo. Os cientistas estão certos de que qualquer pequena variação neles tornaria impossível o universo como nós o conhecemos. Alguns exemplos de coincidências fantásticas:

  • Se o eletromagnetismo fosse apenas 1033 vezes mais forte do que a gravidade, em vez de 1039, as estrelas teriam uma massa um bilhão de vezes menor e queimariam um bilhão de vezes mais rápido.
  • Se a força fraca no átomo fosse um pouco menos do que 1028 vezes a gravidade, todo o hidrogênio no universo se tornaria hélio. Isso significa que não existiria água no universo.
  • Eleve a força forte nesse átomo em uma fração tão pequena quanto 2 por cento e nenhum próton se formaria. Isso significa um universo sem átomos. Reduza essa mesma força em 5 por cento e o universo perde todas as suas estrelas.
  • Altere, mesmo que infimamente, a diferença de massa entre um próton e um nêutron e torna-se impossível (como conhecida atualmente) alguma química, ou vida.3

Além de deliberar sobre a inacreditável “precisão” de como a matéria é arranjada no cosmos, devemos também ponderar acerca do princípio cósmico de que todo aspecto da existência é 100 por cento equitativo. Para as entidades vivas, a justiça cósmica se impõe com uma precisão da qual nossos melhores sistemas de aplicação da lei jamais poderiam se aproximar.

No universo védico, assim como variáveis de matéria são microajustadas a uma precisão incrível, as reações à consciência também são diminutamente calibradas. A visão védica reconhece uma lei universal, balanceando com exatidão as ações da consciência com suas consequências. Estabelecer-se no universo védico significa observar uma realidade onde a matéria e a consciência coexistem.

Em nossa aclimatação à ordem cósmica védica, talvez façamos bem em nos recordarmos de um preceito que qualquer cientista atual aceita: “Onde existe uma propriedade fundamental, existem leis fundamentais”. Os hesitantes talvez se lembrem de que, no século XIX, o fenômeno do eletromagnetismo não se submetia a nenhuma lei da natureza previamente reconhecida. De maneira a remediar a situação, os cientistas deram à energia eletromagnética o status de “componente básico do universo”, e atribuíram a ela leis fundamentais apropriadas. Uma vez que é deveras óbvio que a consciência se recusa a se curvar às explicações científicas de estrutura e processo, talvez devamos dar atenção ao chamado védico e considerar a possibilidade de outro conjunto de leis universais – gerências específicas para a consciência e para sua interação com a matéria.

Os eruditos de hoje aceitam “leis da natureza”. Deste modo, reconhecem a realidade de algo último ordenando os fenômenos cósmicos. Todavia, se nós homens modernos não conseguirmos saltar por sobre o abismo que separa o processo físico e a consciência, veremos que essa depressão insuperável continua a frustrar nossas versões de “leis da natureza”. Esquivando-se de nossas tentativas de identificar as leis globais que regulam tudo no universo, a consciência perambula à sua própria maneira inexplicada, sem prestar contas a ninguém.

Os Vedas atam firmemente a consciência a uma energia espiritual que emana do Supremo. Traçar deste modo a consciência até sua fonte abre um empolgante reino de conhecimento e experiência transcendentais. O princípio causativo derradeiro que é a base da realidade é apresentado como um ser singular, porém infinito e autoconsciente, Krishna. Pleno de conhecimento ilimitado, prazer e potência, Krishna emana tanto matéria quanto os eus subjetivos e minúsculos. Esses eus finitos e infinitesimais possuem, em quantidade diminuta, a mesma natureza espiritual e autoconsciente que o ilimitado Krishna possui.

Décadas atrás, Niels Bohr, Nobel e patriarca da física moderna, concluiu:

Temos que admitir que não nos é possível encontrar nada na física ou na química que tenha alguma relação, ainda que remota, com a consciência. Apesar disso, todos nós sabemos que existe tal coisa chamada “consciência”, simplesmente porque nós mesmos a temos. A consciência, destarte, tem que ser parte da natureza ou, mais genericamente, da realidade, o que significa que, muito à parte das leis da física e da química, como estabelecidas pela teoria quântica, também temos que considerar leis de um tipo muito diferente.

A essa ótima conclusão, podemos adicionar: “Também temos que considerar uma fonte última de um tipo muito diferente.”

Os Três Modos da Natureza

Entrelaçados às operações da lei universal do karma estão os modos da natureza material, descritos nos Vedas. Embora noções populares de karma sejam comuns na atualidade, os três modos védicos continuam um princípio underground da sabedoria antiga. Conhecidos em sânscrito como gunas – literalmente, “cordas” –, os três modos afetam todas as interações entre matéria e consciência. Porque é dito que os gunas prendem todas as entidades vivas condicionadas como fortes cordas, o cosmos material, o reino de maya, é por vezes chamado de tri-guna-mayi: o ambiente ilusório dos três modos.

As leis dos gunas operam em congruência com a lei do karma. Segundo o modo da natureza predominantemente cultivado na vida passada, o indivíduo obtém um novo corpo com preponderância desse modo em particular. Os três gunas são bondade (sattva), paixão (rajas) e ignorância (tamas). Valendo-nos das informações psicofísicas precisas nos textos védicos, podemos facilmente identificar a vida de diferentes pessoas em cada modo.

Os sintomas do modo da bondade são uma inclinação à virtude, integridade, autodisciplina, abstinência, limpeza e, o mais importante, uma postura pacífica e deleite em adentrar sabedorias profundas. “Os efeitos do modo da bondade são experienciados quando o conhecimento ilumina todos os portões do corpo.” Para nos ensinar sobre o modo da bondade, esse verso da Bhagavad-gita (14.11) utiliza a analogia védica do corpo como uma cidade de nove portões: dois olhos, dois ouvidos, duas narinas, a boca, os genitais e o ânus. Através de cada um dos portões, assimilamos experiências de objetos sensoriais e expulsamos algo. Quando os sintomas da bondade iluminam todos os portões, entende-se que o proprietário do corpo desenvolveu sattva-guna. Nesse modo da bondade, podemos ver tudo de uma perspectiva correta, ouvimos o que devemos ouvir, e nossas papilas gustativas funcionam apropriadamente. Limpos por dentro e por fora, nossa vida irradia contentamento interior.

O próximo guna, o modo da paixão, deixa nossa pessoa, o homem moderno, em um ambiente mais familiar. Os sintomas de rajo-guna são esforço exagerado para ficar à frente, orgulho das próprias habilidades e posses, um forte apetite por gratificação dos sentidos e, apesar disso, insatisfação mesmo no ganho e na sensualidade. Resumidamente, um estilo de vida de trabalhe, compre, consuma e morra. Nossa pessoa quintessencialmente no modo da paixão adora viver onde tudo está acontecendo. Quanto mais perto do comércio, dos shoppings, dos cinemas e dos estádios esportivos, melhor. Um urbanita veterano ou suburbano que se locomove sempre para o centro da cidade, tem disposição para trabalhar duro em escritórios ou fábricas para ganhar dinheiro e, assim, poder obter as mais novas conveniências e produtos e serviços de entretenimento. Prestígio e reputação social são altamente apreciados. A principal recompensa, entretanto, é o sexo. Dê um passeio pela casa dele e dê uma olhada em seus livros, revistas, vídeos, CDs e obras de arte. Você verá que todos eles dizem respeito, sobretudo, ao corpo e aos assuntos imediatos e sociais do mesmo. Caso tenha religião, será de chavões devocionais que acompanham a repetida busca por desfrute material.

E o terceiro modo, tamo-guna, o modo da ignorância, é considerado o mais perverso e letal. Seus devotos se enterram em preguiça, sono excessivo, depressão e intoxicação. O grand finale é ira mortal, violência descabida e desarranjo mental. Infelizmente, talvez tenhamos que concordar que esse modo exerce um papel significativo na sociedade atual. A pessoa em tamo-guna odeia trabalhar. Inerte e letárgica, essa pessoa carece até mesmo de metas e ambições materialistas. Feliz em viver como um parasita, passa os dias e as noites em um mundo imaginário de álcool e outras drogas, sonhos e melancolia. O modo da ignorância favorece toda sorte de habitat degradado, bem como corpos e roupas não higienizados. Seus baluartes são os templos noturnos da ilusão: pubs, cassinos, prostíbulos, festas com drogas e clubes noturnos – quanto mais madrugada adentro, melhor.

Os Três Modos e a Física Quântica

A lei védica dos três modos parece fazer paralelo com a coroa da maior tendência do conhecimento moderno. A ferramenta mais precisamente profética hoje é a física quântica – em poucas palavras, um esquema brilhante para mapear as atividades subatômicas sem nunca entender os porquês dessas atividades. Um preceito cardeal dessa física é que o observador está atrelado ao que ele observa. Os dois são inseparáveis. Como você olha determina o que você verá.

O pai do princípio quântico da incerteza, o Nobel alemão Werner Heisenberg, disse: “O que observamos não é a natureza em si, mas a natureza exposta ao nosso método de questionar”.7 Uma cuidadosa consideração da lei védica de tri-guna demonstrará que os Vedas, à sua própria maneira, já aceitaram esse fundamento em sua aplicação mais fecunda, isto é, a observação depender do observador não se aplica apenas ao micromundo da física subatômica, mas aos assuntos humanos do macromundo. Em vez de apenas declarar esse axioma geral, os Vedas também delineiam as características específicas de todos os pontos de vista básicos possíveis na existência material. De acordo com a nossa situação em bondade, paixão ou ignorância, vemos tanto o micromundo quanto o macromundo. Todas as experiências com ideias, conhecimentos, crenças, moralidade e ética – qualquer sistema de pensamento – deriva-se de permutações dessas modalidades básicas.

Nas mãos dos antigos Vedas, o axioma “como você olha determina o que você vê” torna-se um princípio holístico pleno: “quem você é determina o que você vê”. Porque é dito que todos os seres vivos são tricoloridos pelos três modos, “o que você vê é o que você obtém”, e “o que você obtém é o que você vê”. O conhecimento do mundo disponível a você depende de quem é você – o observador, o conhecedor. E sua identidade material decorre de sua situação no tri-guna.

Em outras palavras, os Vedas desafiam: todo conhecimento é especificado pelo estado do observador. O status de alguém nos três modos determina o que a pessoa pode conhecer e perceber. Somos instruídos a não esperar que uma pessoa imersa em paixão e ignorância perceba e compreenda as realidades disponíveis a alguém no modo da bondade. Assim, na contaminação de nosso mundo privado de percepções e concepções, podemos detectar as consequências mais sinistras dos modos. Segundo nossa infecção, veremos e pensaremos. A especificidade do conhecimento revela o significado completo do guna: a corda que prende. Os Vedas exortam: ajuste sua saúde, ou seja, mude seu estilo de vida. Você, então, verá e perceberá de maneira diferente.

Frequentemente, acadêmicos esforçando-se por penetrar nos Vedas rebaixam “tabus antiquados” alertando que apenas aqueles com uma consciência adequada e um estilo de vida igualmente apropriado podem compreender o conteúdo dos textos. A Bhagavad-gita, por exemplo, alerta que seus temas é um mistério acessível apenas àqueles que harmonizaram sua consciência com Krishna. Apesar disso, em todo lugar, tanto na Índia moderna como fora dela, na Europa e nas Américas, por exemplo, encontraremos tentativas de comentar a Bhagavad-gita por parte de não adeptos.

Com esperança, um entendimento de tri-guna dispersará a noção de que “superstições irracionais barram tolamente a entrada ao reino hindu de saga e lenda”. Sendo justos com a perspectiva védica, devemos notar que todo campo de indagação tem suas exigências para ingresso e sua curva de aprendizagem. Como apontado anteriormente neste livro, professores de física quântica dizem que são necessários pelo menos oito anos para treinar estudantes a ajustarem seus pensamentos de modo a poderem começar a compreender o estranho mundo dos paradoxos subatômicos. Podemos dizer que o equivalente védico é a injunção de que “se alguém quer compreender o Brahman, a energia espiritual inconcebível, tem que se tornar um brahmana”. Na aplicação védica correta, tornar-se um brahmana significa assumir algumas qualificações, e não ter nascido em determinada família. O brahmana é aquele completamente fixo no modo da bondade.

Albert Einstein aponta: “O universo de ideias é tão pouco independente da natureza de nossa própria experiência quanto as roupas são da forma de nosso corpo”.8 O pressuposto comum, que espreita imensamente nossa enculturação social, é que podemos tirar nossos óculos de lentes de cor de rosa a qualquer momento que queiramos e falarmos sabiamente sobre o mundo como ele realmente é. O triunfo de Arquimedes, talvez o melhor dos cientistas da Grécia antiga, propicia-nos um lembrete espirituoso. Empolgado com sua descoberta do conceito matemático da alavanca, é dito que exclamou: “Se me for dado um lugar para ficar, moverei a Terra”.

De maneira a irem além das limitações da física clássica, os cientistas teriam que abandonar o conceito de um observador desapegado e de uma realidade independente. A ideia de um ponto de vista neutro, fora do mundo, a partir do qual observadores desapegados podem ver com clareza e comentar sobre os fenômenos é um mito – tanto para a visão atual quanto para a visão científica védica.

Iludido pelos três modos, o mundo inteiro não tem conhecimento de Mim, que estou acima dos modos e sou inesgotável. (Bhagavad-gita 7.13)

O modo da bondade pode focar distintamente as dimensões externas e impessoais do Absoluto Supremo. A paixão e a ignorância permitem apenas as sombras da substância. Em última instância, entretanto, os Vedas não negam uma realidade independente. Eles reservam a transcendência, todavia, aos transcendentalistas. Quem entrou no laboratório da consciência pura e dominou as técnicas pode ir além das garras de tri-guna. São qualificados para pesquisar e experienciar todos os aspectos da Verdade Absoluta, até mesmo Seu aspecto como Krishna, a Pessoa Suprema e acima dos modos.

As Grandes Teorias de Tudo

O físico teorético John Wheeler é renomado por reconstruir a base de muito da teoria gravitacional moderna. Também famoso entre seus colegas por piadas inapropriadas, gracejou certa vez: “Nunca corra atrás de uma mulher ou de uma teoria cosmológica, pois, em poucos minutos, virá outra”.9 O público em geral acredita cada vez menos que, entre os físicos e os astrofísicos, todos os atributos e leis fundamentais do universo estão catalogados e explicados. A cosmologia teve seus dias impetuosos na década de 1980, quando nomes marcantes, como Stephen Hawking e Steven Weinberg, fizeram o mundo vibrar com expectativas descomunais. Os profetas predisseram o nascimento do cristo, conhecido como a Grande Teoria Unificada. O messias também foi chamado de A Teoria de Tudo.

Stephen HawkingStephen Hawking.

Na mente de cientistas escritores talentosos, o auspicioso cenário de natal já se formara. Todas as leis universais conhecidas estavam prontas para amalgamarem-se em uma só teoria, uma declaração matemática solitária que abrangeria tudo no cosmos. Stephen Hawking, ao aceitar a cadeira de matemática na Universidade Cambridge, concluiu seu discurso inaugural sugerindo que computadores poderiam em breve superar seus criadores humanos e chegar à teoria todo-poderosa sozinhos. Alguns anos mais tarde, Hawking ditou o celebrado final de seu fabuloso livro de sucesso Uma Breve História do Tempo:

Se de fato descobrirmos uma teoria completa, deve, com o tempo, ser compreensível em princípios amplos por todos, e não apenas por poucos cientistas. Então, todos nós – filósofos, cientistas e pessoas comuns – seremos capazes de participar da discussão de por que nós e o universo existimos. Caso encontremos a resposta para isso, será o triunfo derradeiro da razão humana, pois, deste modo, conheceremos de fato a mente de Deus.

Os livros mais vendidos de ciência raramente passam de 100.000 cópias. Uma Breve História do Tempo, entretanto, revelou-se um Big Bang. Ele vendeu mais de 10 milhões de cópias em vinte anos. Não tenha dúvidas de que “a mente de Deus” na última sentença do livro foi um golpe sorrateiro. Hawking, conhecido pelo seu ateísmo, previa que o advento da teoria última finalmente livraria o mundo do teísmo e de todo mistério de uma vez por todas.

O Nobel Steven Weinberg entrou nos anos 1980 com um best-seller: Os Três Primeiros Minutos. Ali, enquanto retratando os momentos iniciais do universo, apresentou sua declaração amplamente divulgada: “Quanto mais o universo parece compreensível, mais parece destituído de propósito.” Deu à década de 1990 uma encíclica intitulada Sonhos de uma Teoria Final, grifando a corrida por A Grande Teoria de Tudo. No mesmo livro, o físico erudito disparou uma flecha afiada contra a providência, independente de como concebida. “Que tipo de plano divino permite o holocausto e outros sofrimentos humanos em massa?”, protestou. “Que tipo de supervisor responsável permite essa miséria?”

Contudo, Weinberg admitiu, sim, que os cientistas têm seu próprio problema, que insiste em permanecer insolúvel: a consciência. Como seria possível haver uma teoria de tudo – completa e incluindo realmente tudo –, ele reconheceu, quando a existência da consciência continua escarnecendo o poder das leis físicas e a onipotência da derivação física? No fim do século XX, Weinberg apontou que nuvens densas de pessimismo encobriam A Grande Teoria Unificada e A Teoria de Tudo: “Conforme progredimos na compreensão do universo em expansão, expande-se o problema em si, em consequência do que a solução parece sempre se afastar de nós.”10

Mesmo o exitoso Stephen Hawking está mais comedido. Na década de 1980, predisse 50 por cento de chance para A Teoria de Tudo surgir antes de 1999. Agora, como Weinberg, admite mais ou menos estagnado: “Embora tenhamos feito grande progresso nos últimos 20 anos, não parecemos muito mais perto de nossa meta.”11 Parece que A Teoria de Tudo se tornou A Teoria de Nada.

Seria muita ousadia pensarmos que os investigadores metafísicos podem superar os cientistas materiais no comprometimento de buscar uma explicação que inclua genuinamente tudo no cosmos? Os adeptos dos Vedas não acham ousado. Um filósofo na Universidade Rutgers, René Weber, levanta a possibilidade:

É o misticismo, e não a ciência, que busca pela Grande Teoria Unificada com lógica implacável – a lógica que inclui o questionador dentro de sua questão. Embora o cientista queira unificar tudo em uma equação derradeira, ele não quer unificar consistentemente, visto que quer deixar-se de fora da equação. É claro que, com o advento da física quântica, isso se torna muito menos possível do que era na física clássica. Agora, admite-se que o observador e o observado constituem uma unidade. Contudo, o significado completo disso ainda não alcançou a maior parte da comunidade científica, que, apesar da física quântica, acredita que pode permanecer à parte daquilo com o que trabalham.12

O conhecimento védico é um lembrete oportuno do passado impenetrável: fazemos bem em começar pelo começo. O processo védico tem início pela examinação do que é mais próximo e mais querido a nós, isto é, a realidade da consciência. Em seguida, enquanto tentamos discernir as leis que governam a matéria, beneficiamo-nos ao admitir a consciência como um aspecto irredutível do universo. Esse reconhecimento nos coloca nos trilhos das leis singulares que regulam a consciência. Nós, então, talvez passemos a querer investigar a consciência suprema e os processos de verificação.

O poder explicativo da lei universal do karma lida muito elegantemente com as glórias e os horrores temporários da vida. De acordo com a versão védica, a eminência de um cientista em particular é uma reação a bom karma passado. Carente das ações passadas necessárias para sucesso no presente, outro cientista, igualmente inteligente, talvez labute no anonimato e tenha que suportar ver outros obtendo o crédito pelo trabalho a que se dedicou por toda a vida. Ele talvez se case com uma cientista brilhante, e ambos recebam abundantes patrocínios e outras facilidades. O esposo e a esposa, então, talvez sejam condenados por compartilhamento de informações nucleares com o inimigo e sejam executados em uma cadeira elétrica, deixando órfãos os seus filhos. Anos mais tarde, o antigo inimigo da nação se torna amigo.

A consciência é causal e responsável: esse é o mantra secreto para começarmos nossa aventura védica. Assim como a matéria tem suas ações e reações, o mesmo se dá com a consciência. Como a principal característica que distingue vida e matéria, a consciência nos conduz diretamente à atma, a partícula espiritual fundamental também conhecida como “alma”. Os Vedas veem a vida como a presença da atma, que é não física e não química. Portanto, os sábios da antiguidade não se surpreenderiam com o fato de as leis matemáticas modernas que os cientistas dizem governar a matéria não serem extensíveis à vida. Consequentemente, não seria razoável propor que existem leis naturais de uma ordem superior que regem os fenômenos da vida? Dado que a vida esquiva-se efetivamente da química e da física da célula vivente, suas leis também não transcenderiam o alcance de nossos paradigmas científicos e de nossas ferramentas conceituais existentes?

A lei védica dos três modos descreve amplamente as interações entre o sintoma da consciência da alma e a matéria. Certamente pode ser revolucionário postular uma correlação direta entre nosso estilo de vida e nossos poderes de compreensão. “Faça o que eu digo, não o que eu faço” não tem espaço na cultura védica. Os melhores cérebros são os que melhor se comportam e vice-versa. Conquanto os efeitos de nosso comportamento na obtenção de conhecimento tecnológico possam ser inaparentes; tão logo você entrona a consciência – o primeiro passo para o verdadeiro conhecimento –, a ligação com o estilo de vida se torna mais clara.

O conhecimento védico dos três modos fomenta, com efeito, a humildade. Constrangidos pelas algemas da paixão e da ignorância, somos aconselhados a pelo menos qualificarmos nossa consciência no modo da bondade. Nós, então, podemos ousar começar a falar sobre “a mente de Deus”.

Notas

  1. Esse incidente real se encontra em Sherwin B. Nuland, How We Die: Reflections on Life’s Final Chapter (Nova Iorque: Vintage Books, 1995).
  2. Geddes MacGregor, Reincarnation and Christianity (Illinois: Quest Books, 1978), p. 12.
  3. Uma lista completa de coincidências cósmicas está disponível em John Leslie, Universes (Londres: Routledge, 1989), p. 37–38.
  4. Transcrição da entrevista em New Dimensions Radio, http://www.newdimensions.org.
  5. Piet Hut e Bas van Fraassen, “Elements of Reality: A Dialogue”, em Journal of Consciousness Studies 4, n. 2 (1997): 167–80.
  6. David B. Wolf, Psychological Reports 84 (junho de 1999): 1379–90.
  7. Werner Heisenberg, Physics and Philosophy: The Revelation in Modern Science (Nova Iorque: Harper and Row, 1958), p. 58.
  8. Albert Einstein, The Meaning of Relativity, 4ª ed. (Princeton: Princeton University Press, 1953), p. 2.
  9. John Horgan, The End of Science (Nova Iorque: Broadway Books, 1997), p. 79.
  10. Steven Weinberg, “Before the Big Bang”, The New York Review of Books, 12 de junho de 1997, p. 20.
  11. Burt Herman, “Hawking Awaits Unified Theory Proof”, Associated Press, 21 de julho de 1999.
  12. René Weber, Dialogues with Scientists and Sages: The Search for Unity (Nova Iorque: Routledge, 1986), p. 10.

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