O Legado de Srila Prabhupada Segue Vivo

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Chaitanya-charana Dasa

Templos geridos por membros da congregação, devotos inseridos na sociedade geral, estudo sistemático das escrituras, sistemas de apoio específicos, pesquisas acadêmicas conduzidas por vaishnavas… Longe de minguar, o legado de Prabhupada amadurece, se transforma e dá frutos cada vez mais doces.

“É uma história surpreendente. Se alguém lhe contasse uma história como esta, você não acreditaria. Aqui está um homem de setenta anos de idade, indo para um país onde nunca esteve antes, onde não conhece ninguém, e ele não tem dinheiro, nem contatos. Ele não tem nenhuma das coisas que você definiria como posses de alguém bem-sucedido. Ele recrutará pessoas não de algum modo sistemático, senão que apenas pegará qualquer um com que se depare, e a essas pessoas ele dará a responsabilidade de organizar um movimento mundial. Você diria: ‘Que tipo de movimento é esse?’ Existem precedentes, talvez. Jesus de Nazaré disse: ‘Venha, siga-me. Solte as suas redes, ou deixe a sua cobrança de impostos, e venha comigo ser meu discípulo’. No caso dele, porém, ele não era um idoso em uma sociedade estranha, lidando com pessoas cujas as origens eram totalmente diferentes da sua. Ele estava lidando com sua própria comunidade. O feito de Bhaktivedanta Swami, portanto, tem que ser visto como ímpar”.

– Historiador das Religiões, Prof. Thomas Hopkins, in Hare Krishna, Hare Krishna: Five Distinguished Scholars on the Krishna Movement in the West

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Srila Prabhupada, acharya-fundador da Sociedade Internacional para a Consciência de Krishna.

Esta história surpreendente continuou por muitos décadas, mesmo após a observação perspicaz de Hopkins, embora, claro, não na mesma escala ou ritmo dramático. Neste artigo, tentarei documentar como o legado de bhakti-yoga que Srila Prabhupada trouxe ao mundo está continuando e se expandindo mesmo hoje.

Srila Prabhupada queria compartilhar seu amor por Krishna com o mundo inteiro, e, para cumprir essa aspiração divina, ele conclamou seus seguidores a distribuir mais livros, construir mais templos e iniciar mais devotos. Portanto, o movimento que ele iniciou, popularmente conhecido como Movimento Hare Krishna, muitas vezes define sucesso a partir dessas atividades. E com razão, porque essas atividades têm sido e continuarão a ser essenciais na formação, composição, alcance e trajetória do Movimento. Contudo, o Movimento frequentemente fica reduzido a essas atividades altamente visíveis apenas, e muito já foi escrito sobre elas. Por isso, irei me deter a outras formas pelas quais o legado de bhakti segue em frente. Não tentarei fazer uma análise abrangente de todo o Movimento, que é uma tarefa que prefiro deixar a um historiador. Não posso afirmar que os exemplos do legado em curso sobre os quais falarei são os mais importantes ou os mais representativos – estes são apenas os exemplos que me saltam aos olhos, da minha perspectiva limitada de indiano da segunda geração.

Surgimento de uma Congregação Vibrante

Talvez a característica mais marcante de todas da história do Movimento Hare Krishna seja a sua mudança de um movimento baseado em templos para um movimento baseado em congregação. A palavra “congregação” é utilizada convencionalmente para se referir a qualquer grupo de pessoas que se reúnem, muitas vezes para fins religiosos. No entanto, dentro da ISKCON, refere-se mais especificamente aos devotos chefes de família, em oposição aos renunciantes.

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Alguns membros da congregação tornaram-se tão dedicados que gerenciam templos inteiros sem renunciantes na comunidade.

A ISKCON começou nos Estados Unidos e se espalhou para outros lugares do mundo ocidental. Nesses lugares, sua cultura devocional era tão completamente diferente da cultura ocidental dominante que os devotos sentiram a necessidade de praticarem a cultura espiritual que adotaram mudando-se para o templo, que oferecia um abrigo seguro em relação ao mundo exterior materialista. Previsivelmente, muitos dos primeiros membros do movimento eram renunciantes. Todavia, com o passar dos anos, a maioria dos devotos viu esfriar sua empolgação quanto a ter ingressado em um movimento exótico. E mais e mais devotos deram vazão a seu desejo natural de se casar e ter famílias e carreiras. Na primeira década, a ISKCON tinha mais de noventa por cento dos membros residentes no templo. Agora, ela tem mais de noventa por cento dos membros residindo fora do templo. Essa mudança dramática na demografia causou inicialmente alguma preocupação entre alguns dos líderes do Movimento, pensando que os padrões espirituais se diluiriam. Contudo, o que aconteceu não foi uma diluição, como a consolidação – devotos ajustados a um nível de prática que eles poderiam sustentar ao longo de suas vidas. De fato, alguns membros da congregação tornaram-se gradualmente tão dedicados que gerenciam templos inteiros sem renunciantes na comunidade. Mesmos em muitos dos templos onde renunciantes estão presentes em posição de liderança, a congregação ainda toma a iniciativa gerencial, e os renunciantes, muitas vezes, desempenham apenas funções pastorais e de aconselhamento. Os membros da congregação também ocupam posições eclesiásticos no Movimento, incluindo a posição de guru e de membros do GBC.

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A “nerdizona de informática” sentado ao seu lado em seu escritório pode muito bem ser uma Hare Krishna.

Como a composição do movimento mudou de renunciantes para chefes de família, seu modo de interação com o mundo mudou de renúncia para penetração. Em suas primeiras décadas, os monges de cabeça raspada, vestidos em roupas sem costura e dançando e distribuindo livros nas ruas era a imagem do Movimento. Eles ainda existem, mas eles já não representam mais o perfil geral do Movimento. Uma família bem educada com membros em cargos profissionais influentes na sociedade mainstream é um membro integrante do Movimento tanto quanto um homem ou uma mulher residente no templo. A “nerdizona de informática” sentado ao seu lado em seu escritório pode muito bem ser uma Hare Krishna, uma moderna praticante de bhakti-yoga que tanto penetrou a cultura dominante quanto se integrou a ela. Cada membro executa, de acordo com sua natureza individual e compromisso, uma dança elegante de equilíbrio entre tradição e modernidade.

Estabelecimento de Magníficos Sistemas de Ensino

Srila Prabhupada enfatizou que os devotos estudassem sistematicamente as escrituras védicas que ele traduziu e comentou. Tal estudo aprofundaria nossa convicção filosófica e afinaria nossas práticas espirituais. Assim, os templos da ISKCON realizam aulas diariamente pela manhã do sagrado Srimad-Bhagavatam, um clássico devocional e um dos principais livros do Movimento.

Além disso, a ISKCON desenvolveu programas para estudo escritural sistemático, abarcando desde membros recém-chegados até praticantes experientes. A maioria dos centros realiza periodicamente cursos introdutórios do Bhagavad-gita ou do caminho do yoga para os recém-chegados, que obtêm uma percepção global da coerência e da relevância dessas fontes de sabedoria.

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O desenvolvimento de programas para estudo escritural sistemático é outra conquista da ISKCON.

Para os praticantes regulares, muitos templos, bem como centros educacionais especialmente projetados para isso, oferecem cursos bhakti-shastri que fornecem estudos progressivos da literatura canônica básica do Movimento. Com uma Secretaria de Educação na ISKCON para supervisionar padrões pedagógicos, milhares de estudantes de todo o mundo já se beneficiaram com o curso.

Ademais, muitas comunidades de devotos abriram escolas para proporcionar aos seus filhos uma educação holística – uma educação que não ensina apenas as habilidades e os conhecimentos materiais que as escolas seculares oferecem, mas também a sabedoria espiritual e os valores que a tradição oferece. Além disso, para a juventude estudando nas universidades, vários templos começaram a ter centros personalizados para jovens perto de faculdades. Esses centros oferecem aos estudantes portos para confraternização e espiritualidade – são lugares onde eles podem se aliviar da tensão acadêmica de suas carreiras competitivas.

Evolução dos Sistemas de Apoio a Comunidades Variadas

As escolas e outros centros educativos são apenas um dos sistemas de apoio à comunidade que o Movimento desenvolveu. A ISKCON está na vanguarda no que diz respeito a alcançar a comunidade em geral através dos seus amplos programas de ajuda alimentar. O Alimentos para a Vida, do Movimento Hare Krishna, é a maior organização de ajuda alimentar vegetariana do mundo. Com projetos em mais de 60 países, fornece mais de 1,5 milhão de refeições gratuitas diariamente, inclusive em áreas atingidas por catástrofes em diversas partes do mundo. O braço indiano dessa iniciativa, o Food Relief Foundation, conduz um programa de “Refeição do Meio Dia” a crianças em idade escolar, o qual alimenta mais de 1,2 milhão de estudantes de diversas classes sociais com alimentos nutritivos e deliciosos.

Para fornecer orientação filosófica e prática a membros, comunidades de devotos em várias partes do mundo têm desenvolvido sistemas de cuidados aos devotos, como o sistema de conselheiro. Para ajudar os devotos a encontrar cônjuges compatíveis, páginas de casamento e outros portais matrimoniais, físicos e digitais, têm sido criados. Para ajudar a formar jovens devotos talentosos e dedicados para assumirem a liderança do movimento e, portanto, facilitar uma sucessão harmoniosa de uma geração de líderes para a próxima, vários fóruns de treinamento de liderança foram estabelecidos.

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Comunidades de devotos em várias partes do mundo têm desenvolvido sistemas de cuidados aos devotos.

Devotos profissionais também criaram outros centros de serviços comunitários, tais como hospitais e unidades de cuidados paliativos. A tradição de bhakti dá grande importância a ir-se deste mundo em circunstâncias e em uma consciência espiritualmente favoráveis. Assim, os devotos criaram uma unidade de cuidados paliativos na terra santa de Vrindavana, onde os devotos comprometidos podem se preparar para o exame final da vida – a morte – em um ambiente medicamente competente e espiritualmente estimulante. Conforme o corpo segue seu curso inevitável para a destruição, a alma carrega a consciência para a elevação espiritual, se não para a libertação. Estabelecimentos semelhantes estão sendo construídos em Mayapur e também em outros lugares.

Difusão de uma Cultura Amigável ao Meio Ambiente

Srila Prabhupada enfatizou repetidamente o princípio de “vida simples e pensamento elevado” – ele queria demonstrá-lo através de comunidades autossuficientes, centradas em Deus e amigas do meio-ambiente. De fato, em sua forte crítica à civilização materialista invadindo de forma imprudente a natureza, Srila Prabhupada foi notoriamente presciente. Ao longo das últimas quatro décadas desde a crítica de Prabhupada, muitos estudos têm demonstrado como a exploração indiscriminada do meio ambiente tem comprometido o futuro da humanidade – na verdade, o futuro da própria Terra.

À medida que o mundo está cada vez mais consciente dos custos ecológicos e econômicos desconcertantes dos nossos séculos passados de exploração ambiental, a consciência ecológica está aumentando. Bhakti-yoga leva essa ascensão da consciência humana em direção a seu apogeu na consciência de Krishna, que revê o universo como uma grande família cósmica, com Deus como o pai, a natureza como a mãe e todos os seres vivos – e não apenas os seres humanos – como crianças.

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A ISKCON possui alguns dos maiores programas de distribuição de alimento vegetariano de todo o mundo.

Essa visão inclusiva proporciona um impulso adicional para aumentar a consciência ecológica na forma do vegetarianismo. (Estudos demonstram que a produção e o consumo de alimentos não-vegetarianos provocam alterações climáticas, muito mais do que a poluição proveniente de todos os veículos do mundo). A ISKCON é pioneira mundial na divulgação do vegetarianismo, especialmente no mundo ocidental. Esse pioneirismo não é apenas filosófico em termos de oferecer uma concepção mais espiritual e digna de nossos irmãos e irmãs não-humanos, mas também prático – a ISKCON, através de várias iniciativas de distribuição de alimentos, forneceu abundantemente uma grande variedade de preparações vegetarianas deliciosas de krishna-prasada a um mundo que equivocadamente igualara vegetarianismo a uma dieta constituída apenas de salada.

Além de contribuir para tirar o vegetarianismo da cultura underground, a ISKCON também desenvolveu, em várias partes do mundo, comunidades eco-friendly que subsistem “da terra, da vaca e de Krishna”. Inicialmente, essas comunidades tentaram evitar todas as coisas modernas, mas, com o tempo, cada uma delas chegou a seu próprio equilíbrio sobre a utilização de recursos naturais e comodidades modernas. Hoje, muitas dessas comunidades servem não apenas como serenos santuários espirituais, mas também como exemplares para pesquisas ecológicas, demonstrando a prosperidade através da vida em harmonia com a natureza como uma alternativa viável, até mesmo preferível, à prosperidade através da exploração da natureza.

Presença na Academia

Nenhum movimento pode existir em um vácuo social, alheio às tendências intelectuais e culturais da sociedade mais ampla da qual faz parte. Um lugar destacado onde essas tendências são entendidas é o meio acadêmico, com seu estudo das religiões sendo especialmente relevante para as organizações religiosas. A academia forma significativamente as percepções do público, especialmente em lugares onde a religião é uma religião minoritária e, portanto, é mais apresentada em estudos do que vivida pela sociedade em geral. Isso se aplica à ISKCON no mundo ocidental, onde a cultura de bhakti, onipresente na cultura tradicional da Índia, era vista como completamente exótica, senão incompreensivelmente estranha.

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Devotos envolvidos com pesquisas universitárias fazem um trabalho pioneiro em garantir que a a tradição de bhakti tenha seu devido lugar nos estudos acadêmicos do hinduísmo.

Para ajudar a corrigir tais percepções, alguns devotos intelectuais se sentiram inspirados a entrar na academia para receber treinamento formal e apresentar de maneira respeitável a voz da tradição no ambiente multicultural de hoje. Semelhante extensão da tradição para a academia tem precedentes importantes – Srila Bhaktisiddhanta Sarasvati Thakura, mestre espiritual de Srila Prabhupada, enviou um de seus discípulos acadêmicos, Sambidananda Dasa, para Londres, para fazer sua tese de doutorado sobre a história e a literatura gaudiya-vaishnava. Tradicionalistas consideram muitas vezes a abordagem da academia para estudo da religião como angustiante, antipática às perspectivas dos adeptos – o resultado dos estudos acadêmicos às vezes pode ser resumido no epitáfio: “A operação foi um sucesso, mas o paciente morreu”. No entanto, os tradicionalistas de bom discernimento sabem que a academia continuará a moldar a percepção pública da tradição, e se essa percepção tem que refletir razoavelmente a realidade das contribuições da tradição, o ônus recai não tanto sobre os estudiosos acadêmicos – que, em geral, não estão interessados nas perspectivas dos adeptos –, mas recai sobretudo sobre os adeptos, que precisam se qualificar academicamente para apresentar a perspectiva interna de uma maneira inteligível para quem está fora.

O falecido Tamal Krishna Goswami, um dos mais destacados líderes do Movimento e guru-sannyasi, propiciou um grande auxílio ao bom crédito da tradição, no tocante à penetração acadêmica, ao entrar pessoalmente na academia e escrever uma tese seminal sobre as contribuições teológicas de Srila Prabhupada. Outros devotos acadêmicos escrevem livros precisos sobre outros importantes líderes da tradição – como Bhaktisiddhanta Sarasvati Thakura e Bhaktivinoda Thakura –, bem como sobre livros fundacionais da tradição, como o Bhagavad-gita e o Srimad-Bhagavatam. Satyaraja Dasa, junto de outros acadêmicos, fundou o “Journal for Vaishnava Studies”, que se tornou uma grande voz no estudo profundo da tradição vaishnava. Devotos acadêmicos uniram as mãos com a comunidade hindu maior para estabelecer o Oxford Center for Hindu Studies (OCHS) em Oxford e criar um exemplo vibrante de estudos acadêmicos contemporâneos. Em uma academia moldada pelos estereótipos abraâmicos de religião e dominada pela percepção não-dualista do hinduísmo, os devotos acadêmicos fazem um trabalho pioneiro no esforço de garantir que as perspectivas internas e a tradição de bhakti tenham seu devido lugar nos estudos acadêmicos do hinduísmo.

Mas, é claro, o legado de amor que é a tradição de bhakti continua da maneira mais vibrante não nas estruturas e nos sistemas externos, mas no coração dos milhares de praticantes, para os quais, mediante suas práticas de devoção e meditação diárias, Krishna Se torna uma realidade cada vez mais íntima – uma realidade que, com criatividade, compartilham com outros, levando, deste modo, paz em meio à ansiedade, espiritualidade em meio ao materialismo e sentido em meio à falta de propósito.

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