Os Demônios nos Épicos Indianos: Como Lidamos com o Desconhecido?

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Chaitanya-charana Dasa

Como podemos compreender o universo retratado no Ramayana e Mahabharata, repleto de seres aparentemente impossíveis de existir?

A mente humana possui sua própria forma de estruturar nossas percepções para que possamos funcionar adequadamente. Fantasmas e outros seres sobrenaturais nos perturbam não apenas porque nos ameaçam diretamente, mas também porque sua existência, por si só, ameaça a ordem fundamental da nossa vida. Suponhamos que encontremos portas que parecem se abrir sem que haja ninguém por perto ou que objetos caiam sem nenhuma causa aparente. Tais ocorrências misteriosas nos alarmam não apenas porque indicam a presença de algo invisível que pode ser malévolo, mas também porque ameaçam nossa própria concepção do que precisamos levar em consideração enquanto funcionamos em nossa vida diária. Se estivermos caminhando em uma estrada rural, possivelmente teremos o cuidado de estarmos atentos a cobras e outras criaturas perigosas. Mas se uma pedra da estrada subitamente saltar e atingir nosso rosto, o resultado não é apenas um ferimento ao nosso corpo, mas também uma ameaça à nossa concepção de como as coisas são e de quais coisas precisamos estar atentos. Não é de admirar que não fiquemos confortáveis com o que nos parece completamente desconhecido. E, para muitos de nós, seres sobrenaturais, como demônios, podem ser totalmente desconhecidos.

Enquanto alguns de nós podem ficar curiosos ao encontrar o desconhecido, essa curiosidade é mais comum quando não está dentro do contexto da segurança – podemos querer assumir alguns riscos calculados para aumentar nosso conhecimento, mas não iremos querer nos precipitar imprudentemente à incerteza total. Exploradores intrépidos podem ser levados pela curiosidade às profundezas incomensuráveis do oceano, às alturas insondáveis do espaço, ou até mesmo às terras nunca antes alcançadas pela humanidade. Mas se tais exploradores forem tão imprudentes a ponto de se precipitarem cegamente ao desconhecido, eles poderão não viver tempo suficiente para explorar muito.

Portanto, a estruturação das nossas percepções é necessária para a nossa sobrevivência e funcionamento, e requer que, ao menos inicialmente, não aceitemos de imediato as coisas que nos parecem estranhas. Somente quando podemos perceber pelo menos um contexto geral que nos pareça familiar é que podemos colocar as coisas ou seres desconhecidos dentro da nossa estrutura pré-existente de percepções. Quando temos alguma noção de quem ou do que são, o que fazem e, especialmente, como eles possivelmente afetam nosso mundo, então gradualmente a familiarização conduz à aceitação.

Em função das nossas reservas predefinidas sobre o desconhecido, naturalmente questionamos a presença nos épicos de seres como demônios, que não observamos em nossa vida cotidiana. Certamente vemos nos dias atuais uma crescente variedade de seres nos mundos fictícios do Universo Marvel e similares. De fato, seres com poderes sobrenaturais, como encontramos em quadrinhos e filmes, preenchem nosso cardápio de entretenimento, e até mesmo nosso panorama mental. Sabemos que tais seres são fictícios. Os personagens nos épicos são igualmente fictícios?

Humildade É a Chave para a Descoberta

Antes de condenar os seres estranhos dos épicos como fictícios, podemos considerar como coisas que certa vez descartamos como fictícias se revelaram fatuais no próprio mundo científico. Nosso estudo do mundo de matéria revelou que a matéria é muito mais complexa do que havia sido previamente concebida pelas mentes dos cientistas pioneiros do passado. No fim do século XIX, Lord Kelvin ilustremente disse que o estudo da física, que é essencialmente o estudo da matéria, havia mais ou menos chegado ao seu fim; as gerações futuras de físicos não teriam mais nada a fazer a não ser preencher os detalhes.

Em uma reviravolta irônica, que é uma lição de humildade, o desenvolvimento da física atômica, especialmente no domínio quântico, abriu um universo incompreendido, e possivelmente incompreensível, dentro do átomo. Se a ciência com seu foco no estudo da matéria pode descobrir o quanto a matéria é muito mais complicada do que nossas percepções, por que não poderíamos ter a mesma humildade no ramo da consciência? Será que os pesquisadores espirituais do passado que adotaram uma abordagem da realidade mais centrada na consciência experimentaram níveis de realidade diferentes dos níveis que experimentamos atualmente? Será que eles encontraram seres conscientes diferentes dos que encontramos hoje? A Bhagavad-gita explica que a consciência vem essencialmente de uma centelha não-material de espírito. E essa centelha, sendo transcendental à matéria, pode se manifestar em qualquer meio material conveniente (Bhagavad-gita 2.24-25). Assim, seres conscientes podem assumir formas radicalmente diferentes das formas que encontramos na nossa experiência, que podem incluir formas como as dos demônios.

Mesmo que admitamos a possibilidade da existência de tais seres, surge a pergunta: Por que eles não são visíveis agora se eles eram visíveis antes? Uma razão é que, como os épicos indicam, no passado o universo era mais bem conectado – havia mais interação entre vários tipos de seres conscientes que existiam em diferentes níveis de realidade. Na era cósmica atual, conhecida como Kali-yuga, com a redução da consciência humana devido à sua obsessão pela matéria, nossa conexão com outras esferas de realidade e com os seres que normalmente habitam tais esferas também diminuiu. Embora esse raciocínio não comprove a existência de demônios, ele nos dá alguma base lógica para adotarmos uma abordagem mais humilde quando nos depararmos com o desconhecido nos épicos.

Além disso, precisamos manter em mente as limitações do método indutivo em extrapolar a partir da nossa experiência finita no nosso tempo e espaço para um período amplamente diferente do nosso e para um espaço que compreende níveis de realidade muito diferentes do nosso. Se focarmos no que as ações dos demônios transmitem – não apenas a racionalidade da existência deles –, nosso estudo estará mais alinhado com o propósito dos próprios épicos. Eles não estão obcecados em estabelecer a existência dos demônios; eles focam em demonstrar, através dos demônios, as consequências das falhas de caráter e escolhas pouco deliberadas. Assim, eles nos fornecem narrativas vívidas que podem nos inspirar a fazer escolhas sábias. Alinhando nosso foco com o foco do épico, podemos evitar a armadilha da arrogância intelectual e encontrar nos épicos muitos insights para o nosso empoderamento ético.

Encontrando o Familiar no Desconhecido

Uma vez ultrapassado este bloqueio mental de ceticismo visceral, podemos apreciar que os demônios frequentemente compartilham os nossos desejos, emoções, aspirações e apreensões humanas; eles apenas possuem um conjunto diferente de ferramentas e habilidades para satisfazer seus desejos. Assim, um rei demoníaco com dez braços pode inicialmente parecer estranhos para nós, mas, ao invés de ficarmos obcecados pela estranheza da sua forma, podemos focar em como seus desejos não são tão diferentes dos nossos. No Ramayana, Ravana, que possui dez cabeças, almeja poder político, prazer sensual e vida eterna – desejos que facilmente identificamos em nós. Ele possui poderes extraordinários, como a capacidade de regenerar suas cabeças ou mãos quando elas são cortadas. Com tais poderes, ele procura satisfazer seus desejos naturais, comuns a qualquer criatura, com uma brutalidade excessiva. Ele frequentemente transgride, ostensiva e descaradamente, os limites da conduta civilizada que mantêm a sociedade humana em ordem.

Através de tais narrativas, os épicos nos estimulam a questionar se seus poderes extraordinários eram bênçãos ou maldições. Se Ravana não possuísse as bênçãos que ele havia solicitado e recebido dos semideuses, ele não teria aterrorizado tanto o universo. A falta de poderes extraordinários não apenas o teria impedido de cometer tantos crimes, como também o teria tornado incapaz de infligir tanto sofrimento em suas incontáveis vítimas.

Nós frequentemente desejamos habilidades maiores do que as que temos atualmente porque nos sentimos inadequados e inseguros quando nos comparamos com outros que possuem habilidades superiores. Embora uma habilidade maior possa ser útil caso seja utilizada de maneira apropriada, ela também pode ser prejudicial se usada indevidamente, como demonstram histórias como a de Ravana. Mais importante do que aumentar nossas habilidades é elevar nossa consciência. Uma habilidade extraordinária com uma consciência ordinária, que anseia por poder e prazer, pode muito bem levar a uma perversão extraordinária. Por quê? Porque isso que chamamos de mentalidade ordinária não é tão inofensivo assim. Tal mentalidade típica possui uma boa parcela de vícios humanos. Apesar da presença de vícios, hesitamos em agir de forma nociva porque tememos as consequências; sabemos que não podemos sair impunes de tais ações.

O mesmo princípio se aplica aos momentos em que cedemos às tentações. A maioria de nós hesita em ceder à tentação, especialmente se for algo facilmente acessível, não porque temos a força moral para nos desviarmos das tentações, mas porque possuímos o bom senso de que não estamos imunes às consequências da nossa gratificação. Mas se adquiríssemos poderes extraordinários, através dos quais pensaríamos não sermos responsáveis por nossa gratificação, a maioria de nós cederia às suas vontades muito mais do que cedemos atualmente. Assim, quando Ravana pensou que ele poderia sair impune de qualquer ato seu, ele começou a saquear reinos, assassinar sábios e sequestrar donzelas – despreocupadamente. Ele até mesmo se orgulhava da sua habilidade de fazer coisas que outros não podiam fazer sem serem punidos por elas.

Portanto, se olharmos os personagens dos épicos para além de suas formas e habilidades estranhas, encontramos mentalidades que estranhamente, ou assustadoramente, parecem-se com as nossas. Quando nos familiarizamos com o mundo dos épicos, nos quais a presença dos demônios é normal, tal familiarização fará com que a existência de demônios seja algo não apenas possível, mas também valioso para aprendermos lições vitais para o nosso autoaprimoramento. Os épicos auxiliaram muitas gerações de seres humanos por milênios devido às lições éticas valiosas e indispensáveis que podem ser extraídas de seus personagens, e continuam prontos a empoderar cada um de nós na atualidade.

 

Tradução de Lilesvari Devi Dasi

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