Os Dois Pássaros na Árvore do Corpo

DOIS PASSAROSA.C. Bhaktivedanta Swami Prabhupada

Uma analogia singela das Upanishads revela a relação íntima e de liberdade entre a alma e a Superalma.

O corpo se sujeita a seis tipos de transformações: ele nasce do ventre da mãe, permanece por algum tempo, cresce, produz alguns efeitos, definha gradualmente e acaba caindo no esquecimento. A alma, em contraste, não sofre mudanças. Por isso, às vezes a alma é chamada de “estável”, ou kuta-stha. A alma não nasce na ocasião do nascimento do corpo, e a alma não morre quando o corpo morre. E, ao contrário do corpo, a alma jamais fica velha, tampouco tem a alma algum subproduto. Os subprodutos do corpo, a saber, os filhos, são também almas individuais diferentes, que, devido ao corpo, aparecem como filhos de um homem em particular. O corpo se desenvolve devido à presença da alma, mas a alma não tem ramificações nem sofre mudanças.

Na Katha Upanishad (1.2.18), há uma palavra especial a descrever a alma: vipascit, que significa “erudito”, ou “conhecedor”. A alma é cheia de conhecimento, ou sempre cheia de consciência. Logo, a consciência é o sintoma da alma. Mesmo que alguém não encontre a alma dentro do coração, onde ela está situada, ainda assim é possível se dar conta da presença da alma pela simples presença da consciência. Às vezes, devido às nuvens ou por alguma outra razão, não vemos o Sol no céu, mas sempre há alguma claridade, motivo pelo qual temos a convicção de que é dia. Logo que há uma réstia de luz no céu de manhã cedo, podemos compreender que o Sol está no céu. Similarmente, encontramos consciência em todos os corpos — seja de homem, seja de animal — e assim podemos entender a presença da alma.

Essa consciência da alma, porém, é diferente da consciência do Supremo porque a consciência suprema conhece tudo – passado, presente e futuro. A alma individual tende a esquecer-se da sua situação espiritual. Ao esquecer-se de sua verdadeira natureza, ela obtém instrução e iluminação nas lições superiores de Krishna. Krishna não é como a alma que vive no esquecimento. Se Ele fosse assim, os ensinamentos que Krishna transmitiu na Bhagavad-gita seriam inúteis.

Há duas espécies de almas — a saber, a alma sob a forma de partícula diminuta (anu-atma) e a Superalma (vibhu-atma). A Katha Upanishad (1.2.20) também confirma isso da seguinte maneira:

anor aniyan mahato mahiyan
atmasya jantor nihito guhayam
tam akratuh pa
shyati vita-shoko
dh
atuh prasadan mahimanam atmanah

“Tanto a Superalma [Paramatma] quanto a alma atômica [jivatma], situadas na mesma árvore do corpo, estão dentro do mesmo coração da entidade viva, e somente alguém que esteja livre de todos os desejos e lamentações materiais pode, pela graça do Supremo, compreender as glórias da alma.”

Um desses dois pássaros é Deus, Krishna, Paramatma, e o outro é a alma, jivatma. A jivatma está comendo os frutos da árvore, e Paramatma está atuando simplesmente como a testemunha. Nós talvez tenhamos esquecido os transtornos que causamos em nossa vida passada, mas Paramatma está presente como a testemunha, e nós recebemos um corpo de acordo com nossos atos. Karmana daiva-netrena. Ele dá a ordem para maya, a energia externa também conhecida como prakriti: “Essa pessoa necessita de um corpo assim”, e a natureza material confere à entidade viva um tipo específico de corpo. Os corpos existem em número de 8.400.000, de modo que não há dúvidas de que existe disponível o tipo de corpo que você obterá na próxima vida.

O esquecimento por parte da alma atômica de sua relação com a Alma Suprema é a razão de ela ter de mudar sua posição constantemente de uma árvore a outra, ou de um corpo a outro. A alma está pelejando muito duramente na árvore do corpo material, mas tão logo concorde em aceitar o outro passarinho como o mestre espiritual supremo, o passarinho subordinado imediatamente se livrará de todas as lamentações.

Tanto a Mundaka Upanishad (3.1.2) quanto a Svetasvatara Upanishad (4.7) trazem essa conclusão:

samane vrikshe purusho nimagno
‘nishaya shochati muhyamana
h
ju
shtam yada pashyaty anyam isham
asya mahimanam iti vita-shoka
h

“Embora os dois passarinhos estejam na mesma árvore, o passarinho que come está completamente tomado de ansiedade e melancolia como o desfrutador dos frutos da árvore. Contudo, se ele, de uma maneira ou outra, voltar-se para seu amigo, que é o Senhor, e conhecer Suas glórias – de imediato, o passarinho em sofrimento se livrará de toda ansiedade.”

Paramatma testemunha tudo, e também está aconselhando. Então, quando tentamos nos conectar com o Supremo, podemos entender que eu e Deus estamos ali, podemos entender que temos uma relação íntima.

Então, se quero, posso utilizar este corpo para um padrão de vida superior. Krishna me dará todas as facilidades para isso. E, se eu preferir, posso utilizar este corpo para um padrão de vida inferior. Krishna me dará todas as facilidades para isso. Assim, Ele é sempre amigável. E Ele também nos dá um conselho de amigo: “Não aja de maneira independente. Simplesmente aja em consciência de Krishna, subordinado a Mim. Você, então, será feliz.” Essa é a verdadeira instrução que Ele nos dá.

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