Por que Escolher a Bondade?

boindade beija florChandramukha Swami
(da obra Bondade Como Estilo de Vida)

Lançando um novo olhar sobre o mundo, pela ótica da bondade, podemos experimentar paz em meio à desordem, sensibilidade em meio às desavenças. 

Existe uma grande divisão neste mundo que podemos denominar “coisas vivas” e “coisas mortas”, e tudo se resume praticamente a uma combinação dessas duas “coisas” ou energias. Entre as coisas sem vida, podemos citar o teclado do computador que agora uso, o par de meias que esquenta meus pés, meus óculos, etc., pois nada disso apresenta consciência. Todos os seres vivos, como, por exemplo, uma simples flor, um animal, um ser humano, etc., são combinações dessas duas energias, a material e a espiritual. Somente quando a energia espiritual habita um corpo específico é que este pode apresentar algum grau de consciência, tais como uma flor viva, um animal vivo, um homem vivo. Por outro lado, quando não apresentam mais vida, isso indica claramente que o corpo não serve mais como morada da energia espiritual. Com isso, podemos observar que nós não somos meros corpos materiais, mas, sim, a consciência, ou a energia viva que agora os habita; almas espirituais. E, enquanto almas, somos seres de luz capazes de irradiar bondade inesgotável, mas, quando mergulhamos neste mundo, ganhamos um revestimento corpóreo, e ficamos sujeitos à influência da energia material, nossa luz se manifestando parcialmente. Tudo depende, portanto, da consciência que imprimimos em nossas ações. A própria energia material, por sua vez, irá reagir à sua maneira, e irá exercer sua influência sobre nós de três diferentes modos: o modo da bondade (uma influência mais branda), o modo da paixão (uma influência intermediária) e o modo da escuridão (uma influência mais densa). É sobre isto que trataremos, sobretudo enfatizando a importância de escolhermos a frequência da bondade para dirigir nossas ações e pensamentos, até porque a bondade é a própria energia original da alma, uma característica intrínseca a ela, e não uma imposição artificial ou algo que possa ser obtido de fora para dentro. Fazer da bondade o estilo de nossa vida significa, portanto, resgatar a essência da nossa própria natureza.

Portanto, embora tenhamos sempre a impressão de que estamos agindo por vontade própria e que somos os senhores de nós mesmos, devemos considerar que, ao nos envolvermos em alguma atividade física, mental ou intelectual, há uma tríade de forças da natureza operando interna e externamente sobre nós. Essas três forças são chamadas de gunas: escuridão (tamas), paixão (rajas) e bondade (sattva). (Cf. Bhagavad-gita 14.5)

Literalmente falando, guna significa “corda” ou “cordão”. Trançados entre si de diferentes maneiras e em diversas proporções, esses três cordões se agregam em infinitas combinações para impor diferentes estados de espírito, ou modos, a todos os seres.

Como efeitos do modo da bondade, podemos destacar a presença da luz, da benevolência, da pureza, do desapego ou da amabilidade de um indivíduo ou de um ambiente. As evidências ligadas ao modo da paixão são claramente presenciadas quando impulsos de grande coragem, rompantes de ambição e fortes sentimentos de ansiedade e anseio se manifestam em alguém ou em alguma atmosfera em particular. Quando obscuridade, falta de asseio, embotamento, inércia e desânimo se sobressaem em um indivíduo ou ambiente, não há dúvidas de que o modo da escuridão está exercendo seu poder e manifestando sua predominância.

presença da luz chuvaPresença da luz, benevolência, pureza, desapego e amabilidade são algumas qualidades da bondade.

Compreender como estes três modos atuam radicalmente no cotidiano do indivíduo e aprender a lidar com eles são prerrogativas especiais dos seres humanos. Essa compreensão é tão importante que, quando o indivíduo identifica a influência dessa tríade de forças invisíveis em si mesmo, percebe claramente que sua atual personalidade não é seu Eu verdadeiro, mas mero produto da combinação dessa tríade. Então, através da auto-observação, ele pode começar a tentar assumir as rédeas de sua existência, marcando, assim, o início de sua jornada de autorrealização.

Chega um momento em que a alma corporificada não se conforma com o papel de mero figurante de sua própria vida. Ela aspira recuperar sua função de ator principal, que é o que definitivamente lhe cabe. Para tal, ela terá que “exorcizar” a personalidade mundana que por ora se apossa do seu corpo e, como falsa protagonista, insiste em conduzir sua vida. Na verdade, a vitória final da batalha entre a alma (o Eu superior) e o ego falso (o eu inferior) irá se consolidar quando o indivíduo atingir a bondade imaculada – uma condição extremamente rara e totalmente isenta da influência dos três gunas (livre, inclusive, da bondade material). Mas, enquanto essa vitória completa não acontece, o indivíduo se vale da máxima de “fazer um bom uso de um mau negócio”, pois entende que, embora os gunas tenham seus aspectos indesejáveis, cada um deles pode ser útil quando bem utilizados. O que significa isso?

Fazendo um Bom Uso de um Mau Negócio

A bondade, por si só, já é um bom negócio, já que a consciência daquele que está sob sua influência naturalmente se expande, e as portas do seu corpo, a saber, os sentidos e a mente, se abrem. Assim, a luz da bondade penetra suavemente em sua consciência e resplandece através de suas atitudes, aumentando sua capacidade de percepção e facilitando seu discernimento e entendimento das questões mais profundas da vida. Ao se tornar idêntico a si mesmo, o indivíduo – agora, autêntico – recebe mais liberdade para atuar sem ser influenciado pelas reações cármicas indesejáveis. Dessa sua nova postura, emana uma vibração amável e generosa, uma vez que seus atos e falas estão alinhados com sua vida prática. Porém, tão logo a bondade é afetada por algum grau de influência da paixão, o indivíduo começa a se julgar superior em relação aos outros. Somente ao superar a própria bondade material maculada e alcançar a bondade pura (sem influência da paixão ou escuridão), ele será capaz de desenvolver uma visão perfeita, baseada na igualdade espiritual de todos os seres. Então, com um só golpe, se livrará da influência do ego falso e do sentimento de superioridade.

De qualquer modo, mesmo que ainda esteja na plataforma material, a bondade é mais pura e superior aos outros gunas e, portanto, deve ser fortemente almejada. Um bom exemplo disso é a relação entre um cidadão e as leis que o governam. Como sabemos, quem desconhece e desacata as leis acaba aprisionado por elas, ao passo que quem as cumpre vive em liberdade. De forma semelhante, quem não considera as “leis” que regem a bondade acaba aprisionado pelo orgulho falso, enquanto quem as compreende e as obedece consegue superá-lo.

No que se refere às qualidades da paixão, podemos citar o crescimento da energia, poder, coragem e determinação no indivíduo. Por outro lado, se ele for incapaz de equilibrar e canalizar tais qualidades, terá que conviver com a cobiça, egoísmo e ansiedade e, fatalmente, se deparar com situações conflituosas que poderão levá-lo à ira e à frustração.

O elemento escuridão é, em geral, entendido como negativo, pois vela a consciência de sua vítima. Conduzindo-a à indolência, preguiça e má vontade, o modo da escuridão (tamas) faz dela uma pessoa indigna de confiança, negligente com seus deveres e compromissos. Entretanto, assim como a visão de certas pessoas fica comprometida pela falta da luz da bondade, ou se tornam acomodadas e letárgicas pela ausência da energia da paixão, existem aquelas que, desconhecendo a maneira de lidar com o lado positivo de tamas, acabam voando alto demais com as longas asas de sua intelectualidade, por isso se encontrando em dificuldades para pisar em terra firme e não conseguindo lidar com as coisas práticas da vida. De qualquer modo, não há como negar que a escuridão é predominantemente uma força que puxa a pessoa para baixo, vela o conhecimento do indivíduo e diminui suas virtudes, assim como a bondade é uma força que predominantemente impulsiona a pessoa para cima e a faz crescer em valores.

cubos emocionadosAs incontáveis combinações dos três modos da natureza explicam os diferentes estados de espírito e definem o rumo dos relacionamentos.

As incontáveis combinações dos três modos da natureza explicam os diferentes estados de espírito dos amigos, parentes, casais, etc., e definem o rumo que os diferentes relacionamentos irão tomar. E como as misturas dos três modos são praticamente infinitas, há grande multiplicidade de tipos de relacionamentos. De qualquer modo, todo ser corporificado tem que compreender muito bem estas três forças, pois, enquanto estiver neste mundo, será inevitável lidar com elas, já que todos precisam da luz da bondade, da energia da paixão e, ao mesmo tempo, das boas qualidades que provêm de tamas, que podem ajudar o indivíduo a criar bases sólidas.

Podemos destacar o valor de uma simples vela e sua capacidade de iluminar um determinado recinto. Seu corpo de cera, consistente, representa a escuridão; o fogo ateado em seu pavio representa a paixão; enquanto seu produto final, a luz, capaz de iluminar o recinto, representa a bondade. Não se deve, portanto, pensar que a escuridão e a paixão desaparecerão por completo da vida de um indivíduo governado pela bondade. Ao contrário, orientado pelas diretrizes ajuizadas da bondade, o indivíduo saberá fazer uso correto da escuridão e da paixão.

Como Alcançar a Bondade

O indivíduo sem ética ou moral leva uma vida incivilizada, pois quem se entrega irrestritamente ao gozo dos sentidos está certamente sob o controle da escuridão. Aquele que leva uma vida civilizada, com disciplina e honestidade, mas sem almejar o despertar da sua consciência, está na paixão. Embora este estágio se caracterize pelo apego aos benefícios materiais efêmeros, o indivíduo pode fazer algum avanço no campo de autoconhecimento e autorrealização caso refine seus sentimentos através da arte, da cultura e da filosofia. A verdadeira compreensão, no entanto, só é possível na bondade, o estágio mais elevado da vida humana, onde o foco não está em se obter ganhos materiais ou em simplesmente discernir a matéria do espírito, mas em se livrar dos condicionamentos materiais para vincular-se com o Absoluto. De qualquer modo, mesmo indivíduos em paixão ou escuridão poderão se elevar de posição caso busquem a associação de pessoas na bondade, pois quem aceita ser orientado por uma grande alma que esteja no modo da bondade não terá dificuldades em avançar em seu caminho de autorrealização. Independentemente do seu estágio de vida, ao seguir a orientação de alguém situado em bondade – e, portanto, competente para promovê-lo à mesma condição – ele progredirá certamente no caminho do autoconhecimento e da autorrealização.

A Condição Ideal para a Autorrealização

Para nos ajudar a entender a importância vital da bondade para a autorrealização, vamos observar o significado etimológico da palavra sânscrita sattva. Sat significa “verdade”, e tva, “condição de”. Em outras palavras, quem consegue se situar na bondade alcança a condição ideal para se livrar de maya, ou ilusão, e acessar sat, a verdade. Na realidade, as práticas de austeridade, os estudos espirituais, a caridade, etc., executados na bondade são sempre direcionados ao serviço desinteressado da humanidade e visam, acima de tudo, a satisfação de Deus e, portanto, despertam a autorrealização no executor e podem livrá-lo das garras da energia ilusória, harmonizando-o com a natureza absoluta e divina. Contudo, quando estas mesmas práticas não visam a autorrealização ou a satisfação de Deus, tendo outra finalidade, elas estão sob a influência da paixão ou da escuridão e, portanto, não concedem benefícios permanentes e completos para o executor.

É interessante mencionarmos que a palavra sat não significa apenas “verdade”, mas também quer dizer “eternidade” (Cf. Bhagavad-gita 2.16). Nesse contexto, as escrituras sagradas védicas mencionam que os verdadeiros conhecedores do espírito, brahman, executam austeridades, penitências e caridades sob a guia da bondade. Com isso, eles conseguem obter benefícios permanentes (sat) e são conduzidos firmemente para a autorrealização.

A Característica Marcante do Ser Humano

A paixão é a característica mais marcante dos seres humanos. Sob o seu jugo, o indivíduo se torna excessivamente ativo; embora, muitas vezes, sem a menor direção. Para preencher o vazio do seu cotidiano, ele costuma girar estonteantemente em torno de mil e uma de suas invenções mentais, as quais geralmente se traduzem em um grande nada. São tantas idas e vindas, tantas visitas a fazer, tantas reuniões a participar, tantos telefonemas a atender, tantos e-mails a responder (ufa!) que, de tanto correr, o pobre indivíduo é carcomido aos pedacinhos e fica sem tempo para viver. Mas dá para ser feliz sem viver?

Por outro lado, é essa mesma paixão que rejunta e submete as pessoas a sentimentos variados, gerando uma enorme gama de relacionamentos; alguns amigáveis, outros nem tanto. Como uma das suas “marcas registradas” é a ansiedade, a paixão fermenta no coração do indivíduo a sensação de que sempre lhe falta algo. E porque tira sua capacidade de compreender quais são suas carências verdadeiras, a paixão o induz a buscar no outro a parte que lhe falta. A pessoa é incapaz de entender que a amargura de sua própria solidão será interrompida somente através da conexão plena com o Absoluto. Nesse momento, ela não sentirá mais a necessidade de se buscar em outras metades. De qualquer modo, quando a paixão une pessoas que tiveram a sorte de crescer dentro de um núcleo familiar saudável e foram devidamente nutridas com valores humanos, tais como veracidade, respeito, gentileza e carinho, a paixão rapidamente migra para o modo da bondade e cria harmonia e consonância entre as pessoas, seja na esfera profissional, amistosa ou conjugal.

A Mais Elevada das Virtudes

Talvez não sejamos capazes de nos dar conta disso, mas desejamos profundamente a energia da bondade, sentimos fortemente sua falta, pois, sem sua presença, nosso coração não pode experimentar verdadeira felicidade e nossa consciência se expandir.

A bondade é tão essencial que até para entendê-la precisamos dela. Ao fluir divinamente em nossas vidas, ela nos ajuda a encontrar e a seguir o roteiro maravilhoso que o Criador preparou para nós. Como um beija-flor, a bondade precisa ser atraída. Como fazê-lo? Basta cultivarmos um jardim florido de virtudes dentro de nós para que ela se aproxime, nos envolva e nos fecunde com sua energia construtiva. É claro que as circunstâncias externas podem ajudar, mas, para que se estabeleça em nossos corações, no âmago do nosso centro divino, a bondade tem que ser cultivada internamente. Por outro lado, se nos deixarmos levar pelas queixas, lamentações, mágoas e acreditarmos em injustiças alheias, simplesmente iremos repeli-la e daremos as costas a ela.

boindade beija florComo um beija-flor, a bondade precisa ser atraída.

A bondade só permanece na companhia do indivíduo que entendeu definitivamente que ninguém ou nada pode lhe prejudicar, a não ser o mau uso do seu próprio livre-arbítrio; este, sim, é o responsável pela sua própria cegueira e escuridão. Desse modo, a chave para o “ser feliz” ou o “ser infeliz” ou a dita passagem para o “céu” ou o “inferno” está nas mãos de cada um de nós! Tudo depende, antes de mais nada, do nosso próprio livre-arbítrio. No entanto, o que significa “livre-arbítrio”? O que há por trás desse componente tão misterioso, místico e emblemático?

Trata-se do maior presente de Deus a cada um de nós. O livre-arbítrio é a partícula de independência divinal que nos cabe, é uma espécie de onipotência minúscula, sublime e sagrada. Acima de tudo, é uma amostra da natureza generosa e liberal de Deus, uma prova cabal de que podemos confiar nEle; que, apesar de todo-poderoso, entrega em nossas mãos a decisão de aceitarmos ter ou não um caso de amor espontâneo com Ele.

A Fonte Secreta da Bondade

Dizer que uma vida está sendo governada pela bondade é dizer que ela está sendo conduzida pelo amor, cuja fonte secreta é o cultivo de pureza, autossatisfação, desapego, beleza, harmonia, etc. Por outro lado, uma existência sem cultivo de bondade e de amor está sob a perigosa influência da mistura de paixão e escuridão. É uma existência gerida por uma mistura desarmônica de egoísmo, cobiça e competição. Se não fosse assim, como haveria tanta injustiça social no mundo em que vivemos, como haveria tanto desequilíbrio do meio-ambiente, conflitos e buscas insanas por poder, prestígio e lucro?

É claro que muitos apontarão um conjunto complexo de eventos históricos como a causa disso tudo, o que, até certo ponto, é verdade; mas, por trás desses eventos, podemos perceber a predominância dos modos inferiores da escuridão e da paixão. Uma sociedade carente da energia da bondade não se preocupa em formar cidadãos com valores e virtudes, mas em gerar indivíduos consumistas. É só por isso que a luxúria, a cobiça e a ira prevalecem no mundo. Como poderia ser diferente se a identidade dos indivíduos está meramente baseada no corpo? Ora, um indivíduo comum que acredita que a vida é uma banalidade biológica e que sabe que, em pouco tempo, seu corpo irá se decompor, terá muita dificuldade de fugir das propostas de desfrute material. Apesar das suas melhores intenções, ele acabará sendo engolido pela paixão e pela escuridão. Como seria diferente numa sociedade que, no alto de sua maldade, apela intensamente com propagandas que só visam encorajar os indivíduos a explorarem interminavelmente os recursos da Terra? Como, vivendo embalado pelos refrãos repetitivos que insistem em afirmar que “é melhor viver o mais intensamente seus breves dias”, o indivíduo conseguirá evitar ser empurrado para uma vida egocêntrica e competitiva? Portanto, quanto maior for a mentalidade de que o ser vivo é unicamente matéria e, portanto, tem uma vida extremamente breve, mais difícil será estabelecer uma meta interessante para a sua existência.

Vamos criar uma situação imaginária: cansado de tanto viajar, sou informado de que uma nova empresa aérea está no mercado e, por preços imbatíveis, oferece aeronaves diferenciadas, com poltronas de última geração, serviço de bordo com impressionante variedade de iguarias, sistema multimídia avançado; enfim, conforto completo. Entusiasmado com a propaganda, me descuido e compro precipitadamente um bilhete para o próximo voo. Depois de embarcar e me acomodar estou devidamente em uma poltrona luxuosa, ouço a saudação do comissário de bordo aos tripulantes: “Obrigado por escolher nossa empresa. Esperamos que aproveite bem seu voo com destino ao Inferno.” “Meu Deus! Que destino cruel!”, penso eu. “Bem, ao menos tenho o consolo de ir para o Inferno em alto estilo…”.

Calma, caro leitor! Estamos apenas brincando. É claro que não temos nada contra apreciar os prazeres e as comodidades que esta vida pode nos proporcionar. O problema é priorizarmos os prazeres superficiais da vida em detrimento das questões mais importantes, como a meta de nossa própria vida. Como disse Jesus: “De que adianta o homem ganhar o mundo, mas perder a sua alma?”. Não se trata de desvalorizar as ideias de progresso no campo dos confortos físicos, mas não há como concordar com a abordagem mundana da sociedade moderna, que bombardeia os cidadãos inocentes com intermináveis propagandas que estimulam o gozo dos sentidos e tentam convencê-los de que somente o desfrute mundano os fará felizes.

E o que dizer da influência dos meios de comunicação e das redes sociais? Se a pessoa não tiver um profundo senso seletivo, depois de algumas horas de contato com a TV e com a internet, não conseguirá evitar a turbulência dos sentidos; sobretudo a cobiça e a agitação sexual – isso para não falar que as telas de TV e de computadores colocam seus expectadores em ondas cerebrais alfas, os hipnotizando e os tornando mais suscetíveis e receptivos às suas sugestões. É por isso que as imagens se alojam nas mentes das pessoas com contundência impressionante, onde geralmente perduram por meses e anos; a maioria se tornando presa fácil nas mãos de pessoas que, por conta de suas fraquezas, lucram impiamente. Quem duvida disso deve se lembrar de que os maiores ramos de negócios mundiais estão ligados ao comércio de drogas lícitas e ilícitas, remédios e promiscuidade.

Se queremos, portanto, provocar uma verdadeira mudança no mundo, individual e coletiva, temos que nos livrar da paixão e da escuridão e fazer da bondade o nosso estilo de vida. O futuro do mundo e o nosso próprio futuro dependem disso. Definitivamente, o nosso mundo será bem melhor quando a sociedade humana se tornar austera e parar de se entregar às ideias consumistas exageradas, que deixam atrás de nós um rastro de danos irreparáveis. É urgente, portanto, que as pessoas mais sensíveis cultivem a bondade, até porque, somente preenchendo seus corações de bondade, elas terão a capacidade de causar impacto positivo nos corações de outros.

O Poder Transformador da Bondade

Quando se aloja no coração, a bondade produz verdadeira satisfação e torna qualquer atividade prazerosa, pois mesmo enquanto executa atividades corriqueiras, tais como cozinhar, limpar a casa, caminhar, cuidar da saúde, etc., o indivíduo sente-se feliz. Então, o que dizer da felicidade que ele saboreia ao dedicar-se às práticas pertinentes ao autoconhecimento e à autorrealização, tais como orações, meditações, leituras, louvores ou qualquer outra atividade que possa ajudá-lo a dar manutenção, refinar e intensificar sua bondade?

Não há como negar que, quanto mais impregnada de bondade, mais pacífica a mente de uma pessoa se torna, mais doces as músicas, mais saborosos os alimentos e mais vívidas as formas são percebidas. Por outro lado, o indivíduo que não está aberto para cultivar e compartilhar a bondade não consegue aproveitar as diferentes chances de entender melhor as coisas, de se conhecer melhor, de se amar mais. Neste caso, por mais básicos que sejam, alguns deveres podem se tornar dolorosos e insuportáveis. A conclusão é que a bondade transforma todo evento em um catalizador incondicional de coisas boas, e mostra ao indivíduo que qualquer experiência do cotidiano pode nutri-lo positivamente.

A bondade não apenas refina os dons e os talentos do indivíduo, mas inspira-o a oferecê-los aos outros (o que é chamado de karma-yoga, ou transformar as ações em serviço desinteressado). No começo, isso pode ocorrer na plataforma racional, mas, quando essa entrega amadurece e se torna parte da própria identidade do indivíduo, ele é promovido à fase na qual pode perceber a presença do Absoluto em tudo (isso é conhecido como bhakti-yoga, a conexão amorosa com o Absoluto). Esse despertar é fonte de tanta bem-aventurança e preenchimento que, ao transbordar, leva-o a trabalhar no despertar do outro. E uma vez que a bondade esteja desperta nele, ele entende que servir o mundo não é diferente de servir ao Senhor. Então, seu viver ganha um significado imenso, pois ele se torna um canal divino, um retransmissor da mesma luz que foi responsável por despertá-lo. Ao manter-se conectado com a Fonte de toda a bondade, ele desperta cada vez mais sua consciência divina, e por sentir cada vez mais conforto interior, cresce em gratidão. Sob o amparo da bondade, ele percebe a proteção divina em sua vida, reconhece os cuidados que o bondoso Senhor tem para com ele e, assim, sente-se plenamente seguro. Com essa consciência, ele não tem dúvidas de que está exatamente onde deveria estar e vê as circunstâncias que o rodeiam como ideais e perfeitas para trabalhar seu crescimento pessoal. Honrando a sua existência, ele vê tudo como oportunidade de receber e compartilhar coisas boas e positivas.

Aguando a Raiz da Árvore

“Amar a Deus sobre todas as coisas.” Quão arrebatadoras e primorosas são estas poucas palavras! Quem se dedica a compreendê-las de fato, vê infinitas possibilidades descortinarem-se. E quanto mais profundamente mergulha nelas, mais entende que tudo está nesta maravilhosa síntese dos dez mandamentos. Outros, no entanto, preferem argumentar que Deus é exclusivista demais ao exigir que nosso amor seja, acima de tudo, dedicado a Ele. A esses irmãos, eu pergunto: “Será que as folhas de uma árvore consideram a raiz exclusivista ao pedir que a água seja direcionada a ela?”, “Será que os diferentes órgãos do corpo consideram o estômago exclusivista quando ele reivindica a comida para ele?”.

As folhas de uma árvore sabem que, mesmo sendo endereçada primeiramente à raiz, a água chegará a elas, assim como os diferentes órgãos sabem que o alimento recebido pelo estômago se converterá em preciosa e necessária energia. De forma semelhante, Deus é a raiz da nossa existência! E, portanto, Ele quer prioridade no nosso amor, mas não exclusividade, pois deseja também que dediquemos amor ao próximo e a nós mesmos. Contudo, para não perdermos o foco, a essência dos mandamentos é amá-lO sobre todas as coisas.

“Manda quem pode e obedece quem tem juízo”. Entender a importância de amá-lO não nos parece tão difícil. A dificuldade consiste em amá-lO sobre todas as coisas, e não sob todas as coisas. Nota-se que, quando dedicamos acima de todas as coisas o nosso amor a Ele, estamos priorizando o Seu interesse, e não o nosso ou de qualquer outra pessoa ou objeto. Nesse caso, entendemos que dar a prioridade do nosso amor a Ele é mais importante para nós do que oferecermos o nosso amor a nós próprios ou a qualquer outra pessoa ou causa em primeiro lugar. Entretanto, se consideramos que nós, ou qualquer outra pessoa, somos algo totalmente separado dEle, não iremos entender a importância de colocar o nosso amor a Ele acima de qualquer outro objeto. Somente quando nos entendemos como parte dEle, assim como as folhas de uma árvore ou os diferentes órgãos de um corpo, o mandamento único começa a fazer sentido e entendemos que, sem amá-lO, não podemos amar verdadeiramente nem a nós mesmos e nem o próximo.

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