Tempo e Progresso

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Hridayananda Dasa Goswami

Para atingir o ambicioso objetivo de termos um mundo melhor, é preciso compreender a natureza do tempo e suas três divisões: passado, presente e futuro.

A iniciativa Ver para Ser (uma iniciativa de outro movimento espiritual, o Brahma Kumaris) se esforça para “esclarecer problemas sociais atuais” e “ajudar a resolvê-los”. Essa solução requer “uma visão sólida e clara para o futuro”. Para atingir esse objetivo ambicioso, é preciso compreender a natureza do tempo e suas três divisões: passado, presente e futuro. Comecemos com o presente.

Pode-se argumentar que o presente é o único momento que de fato existe. Apesar do gênero popular hollywoodiano de viagem no tempo, não há passado real para o qual possamos retornar, nem o futuro existe agora como um destino possível. Quando alcançamos o futuro, este se torna o presente, e por isso não se pode, literalmente, ir ao futuro.

Então, para esclarecer problemas sociais atuais e ajudar a resolvê-los, devemos estar de maneira firme presentes no presente, com olhos e ouvidos abertos. Se nos perdermos na nostalgia do passado ou no sonho de um futuro que talvez nunca chegue, não faremos progresso. Todavia, passado e futuro, corretamente entendidos, são vitais para o nosso progresso. Então, como deveríamos lidar com passado e futuro, mesmo enquanto permanecemos situados de forma dinâmica no presente?

Durante muitos séculos, a Europa cristã não olhou para o futuro a fim de formar uma sociedade melhor, senão que olhou para um passado remoto: o Jardim do Éden. Na Europa pré-cristã, os grandes escritores gregos da antiguidade – Homero e Hesíodo – ensinaram que a humanidade havia caído de uma Era Dourada para a qual devemos retornar. Sábios indianos ensinaram que devemos restaurar, na Terra, o antigo reino ideal do Senhor Rama, a versão hindu, ou védica, do estado edênico na Terra.

Além dos modelos antigos de sociedades ideais, pessoas também estudaram as boas e más lições da história a fim de angariar sabedoria. Afinal, a mente humana move-se a partir de princípios particulares em direção a princípios gerais por meio da observação de inúmeros exemplos. Vou explicar.

Uma pessoa que tenha visto apenas um cavalo em sua vida – uma égua marrom – pode concluir que todos os cavalos são éguas marrons de um tamanho específico. Ao ver muitos cavalos de diversas raças, no entanto, chega-se à ideia geral do que é um cavalo: a categoria que inclui todos os tamanhos, cores, gêneros e raças. O pensamento humano racional, e a própria ciência, requerem a capacidade de generalizar e categorizar.

Da mesma forma, o indivíduo não se tornará sábio mediante a experiência de uma única cultura em uma única época ou lugar. De fato, o termo “provincial” indica aqueles que conhecem apenas a sua província. Assim como alguém escala uma montanha para obter uma visão ampla do espaço, do mesmo modo, o estudo da história nos fornece a visão ampla do comportamento humano. Quando vemos seres humanos cometerem repetidamente o mesmo erro ou repetidamente alcançarem sabedoria e virtude, em infinitas variedades de épocas e lugares, aprendemos os princípios de justiça e injustiça, amor e ódio, vaidade e egoísmo, ganância e generosidade, no seu sentido universal. Esse conhecimento é sabedoria.

Assim, o passado não nos fornece apenas imagens ideais de uma Era Dourada, mas também uma compreensão profunda e universal da virtude e do vício que levam ao florescimento humano e à sua degradação, à alegria e ao sofrimento.

E quanto ao futuro? Ao aplicar princípios universais que colhemos do passado numa compreensão clara e pragmática do presente, podemos legitimamente aspirar a criar um futuro melhor. Um sonho consistente e razoável de um futuro melhor age como a causa final de Aristóteles.

Para Aristóteles, o pai da lógica moderna, o estado final de um objeto atua como uma causa, que leva esse objeto ao seu destino. Por exemplo, dentro de uma bolota (o fruto do carvalho) está a forma sutil de um carvalho maduro. A bolota não se desenvolve aleatoriamente num carvalho. Pelo contrário, o modelo, o “plano” do produto final “atrai” a bolota e a capacita para frutificar rumo a seu estado final.

Da mesma forma, a visão clara e poderosa de uma humanidade espiritualizada atua como causa final, conducente a uma Era Dourada. Quanto mais as pessoas fixarem esse futuro brilhante em suas mentes e corações, e de maneira enérgica trabalharem por ele “com os pés no chão”, mais cedo a semente dos nossos sonhos crescerá na forma madura da Era Dourada na Terra.

Assim, mesmo enquanto permanecemos pragmática e lucidamente ancorados no presente, valemo-nos do passado e do futuro para criarmos um mundo melhor. Essa é a relação natural entre tempo e progresso.

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