Yoga É Sinônimo de Asana?

Satyaraja Dasa

Hoje em dia, todo mundo sabe o que é yoga. Será?

No Ocidente, o yoga é mais popular do que nunca. Apenas nos Estados Unidos, pesquisas mostram que a adesão a essa prática mais que dobrou nos últimos 5 anos, com mais de 40 milhões de pessoas praticando yoga em 2017, segundo a National Institutes of Health. Outros países ocidentais seguem logo atrás.

Se você perguntar a um praticante de yoga comum no Ocidente a que se destina o yoga, provavelmente ouvirá respostas como: “É uma prática que me faz me sentir bem”, “É estimulante”, “É relaxante”, “É um exercício e tanto” ou “O yoga me mantém em forma.”

Quase toda resposta se refere ao aspecto físico da prática de yoga. Alguém poderia pensar que o yoga é simplesmente outra prática de exercícios ou, na melhor das hipóteses, uma maneira de manter o corpo, a mente e a alma em algum tipo de harmonia integrada.

O fato é que esse foco centrado no corpo é algo novo. Tradicionalmente, o yoga é uma disciplina espiritual. Até a antiga autoridade Patanjali dava pouca importância às partes práticas de asana (posturas) e pranayama (controle de respiração), tão populares para os yogis de hoje. Os Yogasutras de Patanjali definem o yoga mais em um sentido espiritual do que como os exercícios físicos populares hoje em dia, como o hatha-yoga. Ele destaca e enfatiza a meditação, e não os exercícios posturais. Asana e pranayama não são fins em si mesmos, mas técnicas essenciais para acalmar a mente a fim de se alcançar a iluminação espiritual. O segundo sutra do trabalho de Patanjali define (de forma resumida) yoga como yogas citta vritti nirodhah: “Yoga é o controle dos padrões de pensamento da mente”. Em outras palavras, o yoga é a porta pela qual podemos ir além dos processos mentais mundanos; é um método para controlar as flutuações atormentadas ​​da mente. De fato, toda a prática se destina a ganhar domínio do corpo e da mente. Para qual propósito? Os grandes yogis da antiguidade queriam domínio do corpo e da mente para buscar o espírito. Essa foi a verdadeira motivação do yoga.

O yogi moderno Swami Satchidananda confirma essa questão em seu comentário sobre os Yoga-sutras de Patanjali: “Quando a palavra yoga é mencionada, a maioria das pessoas pensa imediatamente em algumas práticas físicas para alongamento e redução do estresse. Esse é um aspecto da ciência yogi, mas, na verdade, é apenas uma parte muito pequena em desenvolvimento relativamente recente. O yoga físico, ou hatha-yoga, foi projetado a princípio para facilitar a prática real do yoga, a saber, a compreensão e o domínio completo da mente… É assim que se alcança o espírito.”

Progredindo para Bhakti

A palavra yoga significa “união”, dando implicações muito além da união saudável de corpo, mente e espírito buscada por muitos praticantes modernos. Não é que o corpo esteja condenado, mas precisa ser visto como um instrumento para servir essencialmente ao divino. Portanto, é preciso afiná-lo e usá-lo como uma ferramenta preciosa para se alcançar a transcendência.

Originalmente, o yoga visava a união com Deus. E não em um sentido abstrato e frio: “Eu sou um com Deus”. Não. Significava desenvolver uma atitude de serviço para com Deus. Significava tornar-se um com Deus em propósito, o que significa que qualquer yoga deve progredir para bhaktiyoga, ou o yoga da devoção. De fato, o Senhor Krishna diz na Bhagavad-gita (6.47): “E de todos os yogis, aquele com grande fé, que sempre habita em Mim, pensa em Mim em seu coração e presta serviço amoroso transcendental a Mim, ele é o mais intimamente ligado a Mim no yoga e é o mais elevado de todos. Essa é a Minha opinião.”

Dessa maneira, surge uma imagem clara dos métodos e objetivos da prática do yoga: começa-se controlando o corpo e a mente, tornando-os um instrumento afinado. Mas esse é apenas o passo inicial. Depois disso, usa-se esse instrumento no serviço ao Senhor. Essa é a perfeição do yoga, tecnicamente chamada bhaktiyoga. No final, então, é melhor usar um instrumento mal afinado (um corpo sem a melhora proporcionada pelo hatha-yoga) no serviço de Krishna do que usar um instrumento perfeitamente afinado (corpo de um yogi) para outras coisas.

Uma das grandes desgraças da prática moderna de yoga é que, desenvolvendo demais o corpo, é provável que se caia do caminho espiritual, apaixonando-se pelas recompensas físicas da disciplina regular, que são muitas. Patanjali adverte contra tais valores do yoga e outros mais metafísicos, porque eles podem distrair uma pessoa do caminho espiritual. “É preciso estar desapegado desses poderes sobrenaturais, ou não poderemos assimilar o Supremo. De fato, esses mesmos poderes podem se tornar sementes de escravidão e fracasso.” (Yoga-sutras 3.51)

Cuidado com o Bom

O yoga tende a elevar seus praticantes a um estado de sattva-guna (bondade), que pode ser vantajoso – mas também prejudicial. As vantagens são óbvias: consciência aprimorada, inclinação a atividades piedosas, um ambiente adequado para maiores avanços no caminho. Mas o yoga também pode atrapalhar os praticantes, porque sattva-guna pode causar apego à visão e ao estilo de vida do yogi. Confortáveis ​​com suas concepções de espiritualidade, os yogis podem sentir que já têm conhecimento e não precisam de mais progresso. Se eles se consideram felizes, têm dificuldade em acreditar que poderiam estar ainda mais felizes.

Mas existem os reinos mais elevados. Os textos antigos de yoga descrevem a felicidade derivada da prática comum de yoga como sendo a água na pegada de um bezerro quando comparada com o oceano de felicidade encontrado na prática de bhaktiyoga. Ou seja, se alguém pratica ou não hatha-yoga, é bom caminhar gradualmente para o reino de bhakti e, num clima de amor, prestar serviço espiritual, desenvolvendo uma atitude altruísta sob a direção de um mestre espiritual idôneo.

Como Começar

Como funciona bhaktiyoga? E como alguém pode se envolver em suas práticas de maneira simples e direta, mesmo estando envolvido no yoga comum? Primeiro, aprenda a meditação dos mantras, a prática de cantar os nomes sagrados de Krishna, de alguém que conhece alguém que recebeu esses nomes transcendentais de um mestre cuja linhagem é respeitada por conferir o som sagrado. Cantar rega a planta de bhakti, que cresce a partir da semente dada pelo mestre espiritual.

O kirtana, ou canto em que alguém lidera e outros repetem, é agora algo cada vez mais popular nos estúdios de yoga em todo o mundo, mas é preciso aprender a cantar corretamente para que se alcance a força total e se produzam os verdadeiros frutos de bhaktiyoga. Ao cantar adequadamente, a pessoa se torna capaz de estabelecer o sentido da autorrealização na era atual, conhecida como Kali-yuga. Como diz o Srimad-Bhagavatam (12.3.52), “qualquer resultado obtido em Satya-yuga meditando em Vishnu, em Treta-yuga realizando sacrifícios, e em Dvapara-yuga servindo os pés de lótus do Senhor podem ser obtidos em Kali-yuga simplesmente cantando o maha-mantra Hare Krishna.”

Esse canto é a essência de bhaktiyoga, que é a essência do yoga em geral. Assim, cantar é a essência da essência. Isso é assim porque, cantando, aprendemos a dar o coração a Krishna, a alma de todas as almas. Aprende-se como realmente se unir ao divino. Patanjali também recomenda isvara-pranidhana, ou dar a vida a Deus com uma postura de total devoção. Embora muitos yogis hoje em dia não saibam, é disso que se trata o yoga.

Tradução de Simone Queiroga. Revisão de Bhagavan Dasa.

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