O Bom Filho a Casa Torna

Murari Gupta Dasa

Um monge do tempo de Prabhupada decide retornar.

Um dia, no ano de 1973, andando pelo campus da Universidade da Flórida, ouvi um distante tilintar de sinos. Um homem de cabeça raspada vestindo trajes açafroados, que sentado no pátio cantava algo para si mesmo, roubou minha atenção. Não sabendo nada sobre o Movimento Hare Krishna, eu pensei que ele poderia ser budista. Encantado pelo seu cantar bem-aventurado, sentei-me um pouco afastado e o observei por algum tempo. Depois fui embora sem falar nada com ele, mas a visão daquele monge não saía da minha cabeça.

No dia seguinte, retornei ali no mesmo horário, e lá estava ele novamente. Dessa vez, outros dois ou três monges, também de cabeças raspadas, cantavam com ele e distribuíam alguns pratos de comida. Eu me aproximei e fiquei muito empolgado ao ver que eram preparações vegetarianas. Um dos jovens me mostrou uma revista colorida e começou a falar comigo, mas eu continuei olhando para o monge mais velho, que tocava címbalos de mão. Ele parecia emanar tranquilidade e sabedoria. Eu precisava falar com ele.

Este é o relato de como eu conheci o Movimento Hare Krishna, abandonei-o e, por fim, voltei a ele. Talvez outros que tenham se sentido atraídos por este movimento maravilhoso e por alguma razão tenham saído dele identifiquem-se com minha história e decidam dar à ISKCON uma nova chance.

No outono de 1973, eu era calouro na Universidade da Flórida. Eu entrei jovem para a faculdade, precisamente aos dezesseis anos. Como muitos outros de minha época, eu procurava por um significado profundo para a vida. Até onde posso me lembrar, a ideia de que eu iria envelhecer, morrer – toda aquela coisa da efemeridade de nossa existência material – sempre me perturbou muito.

Criado em uma família de católicos – não muito assíduos – e educado em instituições jesuítas, eu sempre fui uma pessoa religiosa. A partir da idade de onze ou doze anos, eu li tudo quanto pude sobre teologia, filosofia, parapsicologia e misticismo. Aos dezesseis anos, eu estava convencido de que todos os padres, rabinos e yogis que eu havia conhecido estavam tão perdidos quanto eu. De todas que conheci, a filosofia de uma simples seita cristã chamada “The Christ Family” foi a que fez mais sentido para mim.

Eles acreditavam que não se deveria matar (eles pregavam o vegetarianismo), que não se deveria ambicionar posses materiais, e que todos deveriam observar o celibato. Mas eles não tinham opiniões profundas sobre nenhum outro tema, e eram basicamente hippies sem casa, perambulando por aí. Depois de um tempo, comecei a achar que aquele grupo não tinha um objetivo muito bem traçado para a vida.

Interrompendo o cantar do monge sênior, comecei a bombardeá-lo com inúmeras perguntas. Sua resposta inicial foi um sorriso. Ele me pediu para que eu falasse mais devagar e fizesse uma pergunta de cada vez, assim ele faria o que pudesse para satisfazer minhas questões.

O tempo parecia voar, e, antes que eu me desse conta, eu já estava conversando com aquele homem por horas. Suas explicações sobre a filosofia da consciência de Krishna tocaram-me profundamente. Os outros monges já haviam até ido embora, mas eu faltei todas as minhas aulas daquele dia. O monge sênior me convidou para conhecer o templo deles e para cantar e comer. Eu não fui naquele dia, mas, nos dias seguintes, eu não conseguia prestar atenção na aula ou conversar com ninguém. Eu estava muito confuso quanto ao que fazer em seguida. A filosofia da consciência de Krishna me convidava insistentemente a conhecê-la. Mas eu sabia que, se eu fosse para o templo, seria muito difícil eu ir embora. E eu não estava preparado para tamanha mudança. Minha vida era uma moeda girando no ar por cara ou coroa.

Uma semana mais tarde, eu me aproximei de um grupo de devotos e perguntei sobre aquele monge. Eles me disseram que seu nome era Tamal Krishna Goswami. Naquela tarde, eu fui ao templo da rua Depot. De repente, um ônibus personalizado parou ali. Quinze jovens, todos com suas cabeças raspadas, começaram a descarregar do ônibus vários instrumentos exóticos. Um devoto, muito bonito e alto, percebendo como eu olhava impressionado aqueles instrumentos, convidou-me a entrar no ônibus, onde tocaria um deles para que eu ouvisse. Lá estava Tamal Krishna Goswami.

Embora só se tenha passado uma semana, ele imediatamente perguntou: “Por que você demorou tanto a voltar?”

A Vida de Brahmacari

Aquele devoto alto – Vishnujana Swami – começou, então, a cantar Hare Krishna em uma melodia tão doce que meus olhos se encheram de lágrimas. Eu sabia que aquelas pessoas haviam experimentado o que eu estava procurando: verdadeiro amor por Deus. Eu logo abandonei a faculdade e me mudei para o templo de Gainesville, onde o presidente do templo, Amarendra Dasa, treinou-me como brahmachari, um estudante celibatário vivendo no ashram. Mais tarde, eu passei a viajar com o grupo de sankirtana viajeiro Radha-Damodara, liderado por Tamal Krishna Goswami e Vishnujana Swami. O Bus Party [Grupo do Ônibus], como era conhecido, era composto de dezenas de jovens que viajavam por todos os Estados Unidos em vans e ônibus adaptados pregando a consciência de Krishna.

Embora a vida de brahmachari fosse austera e completamente diferente de qualquer coisa com que eu estivesse acostumado, minha transição para aquela nova vida foi natural e, de forma surpreendente, muito prazerosa. Para explicar o porquê, eu tenho que falar um pouco mais sobre mim. Até onde posso me lembrar, eu nunca me senti como pertencendo a este mundo. Eu sempre tive vida social, nunca fui sozinho, mas, na verdade, eu sempre me senti meio sozinho, mesmo com vários amigos e uma família unida. Para mim, conversas sociais e conhecimentos mundanos eram tão tediosos quanto discussões filosóficas com várias perguntas e poucas respostas.

O ashram de brahmachari, todavia, era cheio de personalidades marcantes, as pessoas mais inteligentes e talentosas de que já tive companhia. Havia músicos, artistas, poetas, cozinheiros, filósofos, mecânicos – todos unidos pela devoção a Srila prabhupada. Aquela união de pessoas tão diversificadas emanava entusiasmo, amor e devoção. A associação com eles mudou de o que, a princípio, parecia uma austeridade insuportável, para empolgantes aventuras vividas como se acontecessem em um mundo paralelo. Uma radical mudança na minha existência. Todos os dias eu dançava e cantava, em seguida meditava seriamente e, então, estudava profundos livros espirituais. Onde mais, eu perguntava a mim mesmo, eu poderia ter tudo isso?

Minha vida fazia sentido pela primeira vez. Vishnujana Swami, Tamal Krishna Goswami e seus associados transformaram a vida austera do princípio em uma existência dinâmica, repleta de significados e, ao mesmo tempo, muito divertida. Eu sentia que os devotos realmente se importavam comigo e com meu avanço espiritual, e que estavam felizes por estarem me conduzindo no caminho de volta ao Supremo. Os livros de Srila Prabhupada – combinados com um inesperado desejo de sempre cantar – solidificavam meu comprometimento.

Meu princípio de queda veio com o sentimento de que eu estava perdendo alguma coisa. Eu havia abandonado minha família e meu sonho de me tornar médico. Quando eu levava meu problema para os jovens devotos, que não eram muito maduros naquele tempo, eles eram bem incompreensíveis. Era difícil entender aquilo.

Outro problema: eu sempre gostei da vida no templo. Mesmo hoje eu sempre fico empolgado cada vez que as cortinas se abrem e o aratik começa. Viajar para longe do templo era difícil para mim. Eu sentia falta do templo, mas, como eu era bom em distribuir livros, meus supervisores naturalmente me colocavam sempre para viajar.

Em fevereiro de 1975, eu visitei minha família. Depois voltei para a companhia dos devotos em Atlanta. Srila Prabhupada estava no templo. O clima era transcendental. Srila Prabhupada liderou alguns kirtanas incríveis e deu aulas inesquecíveis. Sentindo-me indigno e não suficientemente comprometido, eu adiava há mais de um ano minha iniciação. Eu iria, supostamente, aceitar iniciação naquele final de semana. A iniciação era um compromisso muito sério, e, por causa de meu conflito pessoal, eu decidi que eu não estava pronto. Ao invés de aceitar a iniciação, eu deixei o movimento. Na verdade, eu tentei deixá-lo, mas a vida da consciência de Krishna já havia se tornado parte de mim.

De Volta à Faculdade

Ao voltar para casa, achei um tanto difícil me adequar novamente. A vida comum não se compara com a consciência de Krishna. Minha família e amigos pareciam desconhecidos para mim, e eles olhavam para mim como se eu tivesse chegado de outro planeta, pois eu ainda trazia remanescentes do estilo de vida brahmachari.

Na primeira semana que deixei o templo, retomei meus estudos na Universidade Loyola, de Chicago. Embora minhas disciplinas obrigatórias fossem da área de medicina, todas as minhas disciplinas opcionais eram de filosofia e teologia orientais. Eu decidi procurar um emprego e tentar conseguir bolsas de estudo para não depender financeiramente da minha família.

Após colocar no mural de recados da faculdade um anúncio procurando por “vegetarianos que queiram compartilhar uma república”, eu comecei a transformar um apartamento próximo ao campus em um “quase templo”. Uma loja de artigos indianos perto dali demonstrou-se um ótimo local para se comprar instrumentos musicais indianos – harmônio, tampura, mridanga e karatalas. Eu pintei as paredes com um amarelo bem vivo e escrevi versos da Bhagavad-gita em sânscrito por toda a parede. Em pouco tempo, meu espaço ficou conhecido como um local de encontro para vegetarianos, hippies e mesmo para devotos “queimados” do templo local da rua Evanston. Minha família se convenceu de que eu havia esquecido meu coração em algum distante templo Hare Krishna.

Eu frequentemente visitava o templo de Chicago, mas o grupo de sankirtana Radha-Damodara, às vezes, passava por lá e não me eram muito acolhedores. Isso não me impediu de ir aos aratiks regularmente, mas eu comecei a entrar e a sair do templo de forma que ninguém pudesse falar comigo.

Meus estudos avançaram rapidamente, porque eu nunca tirava férias no verão. Eu fiz toda a minha graduação e pós-graduação no mesmo ritmo intenso. Porque eu às vezes ia às aulas com os trajes devocionais e a cabeça raspada, meus colegas e professores me achavam excêntrico. De qualquer maneira, porque eu era um dos melhores alunos da sala, eles me respeitavam. Eu tinha como instrumento o que os devotos haviam me ensinado. Acordando às três e trinta da manhã, eu cantava minhas voltas e, antes de qualquer outro estudante de medicina estar acordado, eu já estudava para minhas disciplinas.

Eu tinha muita saudade de meus amigos devotos. Orar para Srila Prabhupada e Chaitanya Mahaprabhu (e o desejo contínuo de cantar os santos nomes) me faziam superar os momentos difíceis. Mas a energia material é forte demais para se confrontar sozinho. Gradualmente, eu parei de cantar e cedi a uma vida ilusória, embora eu ainda encontrasse conforto na ideia de que eu poderia dedicar minha carreira a Krishna.

Por muitos anos, eu atuei como médico na Europa, África, Caribe e Estados Unidos. Durante esse tempo, eu visitei quase todos os templos da Terra. Eu entrava nos templos como um gatuno à noite e fugia pela manhã um pouco antes do final do mangala-aratik, de forma que ninguém pudesse se aproximar para falar algo comigo.

Meu Recorde de Detenções: Uma Descoberta Auspiciosa

Minha atuação como médico, nos últimos dezesseis anos, foi em Miami. Um dia, na primavera de 2002, eu recebi na Flórida uma notificação oficial de que todos os médicos teriam de dar suas impressões digitais e teriam sua ficha criminal e outros dados levantados. Uma vez que eu não ligava muito para essas coisas do sistema, eu dei logo minha impressão, meu nome e fui embora.

Uma manhã, o administrador do hospital onde eu trabalhava me chamou à sua sala. Ele pediu uma explicação quanto ao meu recorde de detenções. Eu não fazia a menor ideia do que ele estava falando. De repente, eu me lembrei e ri da situação.

O administrador, perplexo, disse sério: “Você tem que me explicar por que você foi preso quinze vezes em doze estados diferentes entre os anos de 1973 e 1975!”

A resposta básica foi distribuição de livros Hare Krishna, mas eu sabia que uma explicação mais detalhada seria necessária. Eu disse que eu fui do Movimento Hare Krishna quando eu era bem novo e que, porque vendíamos livros em locais proibidos, muitas vezes os policiais nos pegavam.

Para expiar meu recorde, eu descobri que eu teria que fazer cem horas de serviço comunitário. Como trabalhar para igrejas era uma das opções, eu decidi pagar meu débito com a sociedade visitando o templo da ISKCON de Miami.

Voltando ao templo, eu senti como se estivesse em casa. O movimento está diferente em vários aspectos, mas eu logo me dei conta de que Srila Prabhupada ainda é a força que mantém tudo.

Várias grandes almas, mais uma vez, abençoaram-me com instrução e associação devocional. Trivikrama Swami, Dakshina Dasa, Dharma Dasa, Lakshmimoni Devi Dasi, Malati Devi Dasi – a lista poderia ocupar toda uma página. Eu me senti renovado e pronto para um comprometimento mais maduro com a vida espiritual.

Eu voltei a cantar dezesseis voltas diariamente e a seguir os princípios reguladores com convicção. Eu logo concluí que eu tinha que continuar de onde eu havia parado, então eu procurei por um mestre espiritual que pudesse mostrar misericórdia para com um “mané” chamado Dr. Hugo Romeu. Em maio de 2004, em um festival anual de New Vrindavana, o Festival of Inspiration, eu me atraí pela palestra e pregação de um devoto muito amável e dedicado chamado Bhakti-marga Maharaja. Ele ouviu minha história e, algum tempo depois, aceitou-me como seu discípulo e me orienta em meu serviço a Srila Prabhupada. Mais tarde, naquele mesmo ano, sentindo-me como um noivo ansioso, eu cedi. Depois de vinte e dois anos cantando Hare Krishna, eu finalmente aceitei a iniciação formal da consciência de Krishna.

Um Compromisso Renovado

Eu escuto relatos muito tristes de devotos que se afastaram da ISKCON, mas até onde estou envolvido, meus dias na ISKCON foram de longe os melhores dias da minha vida. Eu vivi uma experiência espiritual que muitos religiosos sonham. Eu tive a oportunidade de conhecer Srila Prabhupada, o acharya-fundador da ISKCON. Eu tive a associação de Tamal Krishna Goswami e de outras grandes almas. Naqueles dias, eu não fazia ideia de o quanto eu era afortunado.

Existir no mundo material e simular felicidade é algo impossível depois que você provou o gosto de viver a serviço de Krishna. Eu descobri que você pode correr de Krishna, mas não pode se esconder.

Eu me tornei um médico bem-sucedido, mas eu sinto que meu maior sucesso foi ter retomado a vida consciente de Krishna. Cantar dezesseis voltas é mais difícil e mais gratificante do que qualquer conquista material.

Murari Gupta Dasa na atualidade.

Eu levei uma vida inteira para entender que a verdadeira medicina, capaz de curar plenamente o sofrimento humano, foi trazida a este mundo por Srila Prabhupada.

Eu estou muito bem casado e tenho três filhos com minha esposa. Todos são vegetarianos. Embora meus familiares tenham sempre sabido do meu amor por Srila Prabhupada, eles ficaram surpresos com meu novo comprometimento com a ISKCON. Quando eles perguntam se eu vou fugir novamente como fiz aos dezesseis anos, eu asseguro a eles que a ISKCON amadureceu e agora dá grande ênfase à vida familiar como uma fundação sólida para a prática da consciência de Krishna.

Hoje, sinto que minha vida está completa. Eu espero poder retribuir de alguma forma por tudo o que o Senhor Krishna me dá. Eu me tornei membro do comitê administrativo do templo de Miami e tento ajudar os devotos tanto quanto posso. Eu espero comprazer a Srila prabhupada, que sempre esteve em meu coração, comprazendo ao seu mais querido servo Bhakti-marga Swami, meu mestre espiritual.

Caro leitor, após minha experiência, tenho um único pedido a fazer: Por favor, reafirme seu compromisso em manter, por mais essa geração, o sonho de Srila Prabhupada de ter uma sociedade de pessoas mais e mais conscientes de Krishna.

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