Um Caminho sem Volta

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Nrisimha Devi Dasi

“Esta é minha história. Uma história de busca em que encontrei o que realmente queria, e de luta, porque todos que faziam parte da minha vida na época não me aceitaram mais e se afastaram. Mas sou feliz com minha escolha até hoje.”

Por volta de 1980, eu tinha 15 anos, terminando o que naquela época se chamava de “ginásio” e prestes a entrar para o segundo grau. Internamente, eu tinha muitas perguntas sobre Deus, sobre a vida, sobre o mundo, a morte, enfim, sobre tudo. Questionava tudo e todos, valores e sociedade. Lia muito, tentando obter respostas que nunca encontrava. Mas continuava a busca intensa, quase que diariamente, lendo, indagando e principalmente indo a igrejas e perguntando. Porém, nada me parecia convincente.

Na época, minha melhor amiga, na verdade amiga desde a infância, era espírita kardecista, e juntas íamos ao centro espírita. Lá, realmente muitas de minhas perguntas foram respondidas, e fiquei por um tempo até satisfeita. Como toda adolescente, viajávamos e curtíamos a vida, festas, namoro etc., mas nada disso era suficiente pra mim. Sempre ficava aquela nuvem no ar, e, mesmo no meio da bagunça toda de uma adolescente, eu dava um jeito de me voltar para o lado da minha busca interna. Já nem sentia muito mais felicidade em coisas materiais, das quais todo mundo estava atrás.

Costumava assistir a entrevistas com os devotos na tevê. Algumas eram boas; outras, ruins. Mas sempre me chamavam atenção. Um dia, minha irmã chegou da faculdade toda feliz, quase gritando em casa, dizendo: “Olha o que comprei!” Era um livro, Iluminação pelo Caminho Natural, de Hridayananda Dasa Gosvami, e um incenso. Aí eu vim correndo, também no mesmo humor, e falei: “Eu quero! Eu quero!” Então, ela disse: “Você fica com o livro, e eu, com o incenso.” Na mesma hora, comecei a lê-lo. Acho que fiquei com o melhor, sem dúvida, embora realmente nada tenha entendido do que li. Mas, na última página do livro, vi um convite para visitar o templo, e pensei que algum dia iria lá.

No domingo seguinte, umas primas meio chatas de quem eu não gostava muito me ligaram dizendo que iriam à minha casa. Bem, aí resolvi que, naquele mesmo dia, daria uma fugida, e era ótima a opção de ir ao templo. Passei primeiro na casa daquela minha amiga de infância, de toda bagunça e farra juntas… Ela, de toda forma e maneira, tentou me impedir de ir ao templo Hare Krishna. Ainda falou que teria uma ótima festa para irmos à noite, mas eu realmente estava determinada a ir, mesmo sem ela, e fui. Na verdade, eu estava com muito medo de ir sozinha, mas fui mesmo assim, morrendo de medo.

Cheguei lá e toquei a campainha. Um jovem abriu a porta e me falou o seguinte: “Peregrino, sua busca acabou aqui.” E foi assim mesmo. A partir daquele dia, minhas respostas foram respondidas, minha ansiedade foi satisfeita, e eu encontrei Deus. Tanto me fascinava a ideia de algum dia poder conhecê-lO. Convidaram-me a entrar, mas antes perguntaram minha idade. Na época, menores não podiam frequentar o templo. Deram-me maha-prasada (alimento santificado), umas frutas. Comi e nem entrei na sala do templo. Naquele momento, não era permitido. Também me informaram o endereço de um restaurante que eu poderia frequentar.

Saí completamente feliz, nas nuvens, mesmo sem ter entrado. Era como se tudo tivesse se encaixado perfeitamente, como peças de um quebra-cabeça. Aquela ansiedade interna tinha acabado. Queria contar para todo mundo, mas ninguém queria saber. Os pais, a amiga, o namorado, a irmã – ninguém queria saber.

Passei a frequentar o restaurante. Davam-me muita prasada (alimento santificado). Eu lavava louças, ajudava nas compras, ria muito com os devotos de Krishna. Eles me ensinavam tantas coisas novas, e contavam histórias de Krishna. Eu ria e era completamente feliz com essa amizade brincalhona e divertida.

O líder, Lokasaksi Dasa, sugeriu-me cursar Magistério para ser professora no Gurukula, uma escola fundamentada nos princípios védicos. Aceitei a sugestão e me colocaram em contato com Dhanvantari Swami, o então diretor da escola que estava começando.

Meus pais foram muito contrários ao meu novo estilo de vida. Eu não podia ser vegetariana, nem ter japa-mala (cordão de contas para recitar mantras), nem ler livros sobre a filosofia védica em casa. Tinha que fazer tudo escondido, de forma discreta. Mas como era a época da guerra fria, era tudo no estilo alta espionagem. Minha amiga afastou-se de mim, meu namorado desapareceu, e minha fama de devota perseguida pelos pais foi crescendo. Cada vez mais, eu me dedicava à minha vida devocional. Sempre ganhava muita maha-prasada quando entrava no templo. Isso era maravilhoso.

Um dia, o mestre Hridayananda Dasa Gosvami veio ao Brasil e visitou o Rio de Janeiro. Apresentaram-me a ele, que me iniciou quando eu tinha 19 anos. Foi uma sensação muito emocionante e maravilhosa. Hridayananda Dasa Gosvami repetiu por várias vezes que eu estava muito preparada. Lembro-me de que meu coração batia mais forte que um tambor mridanga. Eu quase podia ouvi-lo de tanta emoção.

Aos 21 anos, saí de casa e fui morar na Fazenda Nova Gokula, em Pindamonhangaba, no estado de São Paulo, para trabalhar no Gurukula, com a bênção dos devotos de Krishna e de Hridayananda Dasa Gosvami. Claro, tentei minimizar a ansiedade de meus pais deixando-lhes uma carta que explicava toda a situação e para onde iria. Trabalhei na escola Gurukula. Foi maravilhoso. Uma experiência diferente para mim. Minha vida espiritual se tornou intensa. Hridayananda Dasa Gosvami estava muito feliz comigo também.

Bem, resumidamente, esta é minha história. Uma história de busca em que encontrei o que realmente queria, e de luta, porque todos que faziam parte da minha vida na época não me aceitaram mais e se afastaram. Mas sou feliz com minha escolha até hoje.

Casei-me depois com Gunesvara Dasa e construímos nossa família. Hoje, estudo Enfermagem e pretendo continuar estudando. Temos alguns planos de viver na Índia. Já tenho uma netinha que se chama Narayani. Fico feliz ao olhar para trás e ver que, daquele dia quando visitei o templo Hare Krishna pela primeira vez em diante, tudo mudou na minha vida. Espero que todos os meus descendentes sejam devotos de Krishna também, fazendo valer mais ainda todo meu esforço para me tornar uma serva dos devotos de Krishna, que muito amo e considero minha família.

Haribole!

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