IBEV Forma Primeira Turma do Curso de Estudos e Práticas de Bhakti-Yoga

forma primeira turma do cursoBhagavan Dasa
27 de novembro de 2017

Viagens, teoria e prática musical, plantação, distribuição de alimentos, debates, produção de entrevistas, partidas de RPG… Conheça tudo de que desfrutaram os alunos da primeira turma do IBEV.

Desde muito tempo em sua história, Teresópolis foi tratada como um bom local para descanso. Seu próprio nome, “Cidade de Teresa”, se deve ao fato de que a imperatriz Dona Teresa Cristina, esposa do imperador D. Pedro II, tinha a cidade como uma de suas localidades favoritas para passeio e férias. Entre comerciantes das Minas Gerais, Teresópolis também representou um local de pouso, porém mais breve: em seu caminho para fazer negócios no porto do Rio de Janeiro, paravam um dia em Teresópolis e se renovavam com suas belezas serranas antes de seguirem viagem.

Hoje a relação de muitos com a cidade continua essa. Quando a intensidade do Rio de Janeiro se transforma em estresse, famílias ou indivíduos da capital carioca buscam Teresópolis como refúgio. Hospedando-se em uma segunda casa própria ou buscando uma das muitas pousadas da cidade, é possível dar uma “fugida” do Rio.

serra.jpgSerra dos Órgãos, um dos cartões postais de Teresópolis.

Neste ano de 2017, porém, Teresópolis se tornou refúgio para viajantes diferentes. Oito pessoas – entre homens e mulheres, adolescentes e adultos, indivíduos de formação básica e com doutorado – decidiram descansar da linearidade da vida baseada em estudar, trabalhar e obter prestígio. Inspirados pelos livros de Srila Prabhupada, tomaram a decisão radical (no melhor sentido da palavra) de interromperem todos os seus demais afazeres e dedicarem alguns meses de sua vida exclusivamente ao estudo e à prática da consciência de Krishna no paradisíaco Ashram Vrajabhumi.

Marcela Antunes, uma das devotas formadas nesta primeira turma, lembra como se deu sua decisão pela matrícula: “Em geral, ficamos muito presos aos conceitos e preconceitos da sociedade, muito absortos em desfrutar os prazeres do mundo, em seguir o padrão de fazer uma faculdade, ter um bom emprego, ter uma casa etc., mas para onde isso nos leva? Queremos tanto que nos sirvam, temos o ego tão inflado que não nos damos conta de que o real sentido da vida não é esse. Foi pensando nisso tudo que decidi me inscrever no curso, pela oportunidade de aprender na prática como servir seguindo os ensinamentos de Srila Prabhupada.”

Ao longo dos 6 meses de curso, Marcela e seus colegas tiveram realmente a oportunidade de “aprender na prática”. A cada oficina de guirlandas, práticas de puja ou aulas de canto e instrumentos musicais, a postura de serviço a Krishna, a qualidade essencial buscada por um praticante de bhakti-yoga, se aflorava. “Hoje me sinto alguém mais disposta a sempre servir”, disse Gopi-bharta Devi Dasi, outra aluna da turma piloto, no dia da formatura.

Devotas na aula de guirlandasDevotas na aula de guirlandas.

Sobre a importância da imersão em residência em uma comunidade, Chandramukha Swami, fundador do IBEV, comenta com franqueza: “O que a gente tem visto é que poucas pessoas estão conseguindo um bom padrão espiritual sem viverem no templo. Não digo que é impossível, mas poucos conseguem. A pessoa acaba ficando demais na internet, e se envolve em assuntos de política… Então, com o tempo, a consciência de Krishna é só mais uma coisa no meio de outras, e surge a mentalidade: ‘Prabhupada é legal, mas faltou alguma coisa’, ou ‘A consciência de Krishna é legal, mas o mundo mudou’. E a pessoa para de cantar os santos nomes e desperdiça a vida humana. Então, o estudo imersivo do IBEV tem o objetivo de ser algo que convença os alunos a se dedicarem por inteiro.”

Nessa direção, os alunos receberam de professores bastante competentes toda a base escritural deixada por Srila Prabhupada e mestres anteriores, respaldando o convite de Krishna de vê-lO em tudo e fazer de tudo uma oferenda a Ele. Conteúdos bastante sistemáticos, como os seis sintomas de bhakti descritos em O Néctar da Devoção, ou as nove fases do serviço devocional descritas no Madhurya Kadambini, revelaram aos entusiasmados estudantes o porquê de nossa tradição devocional ser frequentemente referida como “científica” por Srila Prabhupada.

Alunos em estudo do Madhurya Kadambini. Todas as disciplinas do IBEV contam com recurso multimídiaAlunos em estudo do Madhurya Kadambini. Todas as disciplinas do IBEV contam com recurso multimídia.

“Os alunos demonstravam realmente grande interesse em praticamente todos os assuntos”, aponta Nrisimhananda, professor do curso e presidente do Ashram Vrajabhumi, “mas alguns estudos brilharam especialmente aos olhos deles. Foi o caso do estudo completo da Brahma-samhita. Eles ficaram realmente impressionados em como a obra consegue resumir todos os nossos ensinamentos em menos de uma centena de versos, e de maneira muito poética, ao mesmo tempo.”

A rotina de estudos e práticas é intensa. Um dos alunos relembra: “No meu imaginário, retiro e monge tinham ligação com tempo livre. Eu estava errado!” Pela manhã, os devotos acordam bem cedo para as cerimônias no templo de Krishna-Balarama, às 4h30. Após as primeiras celebrações, dedicam-se ao canto de japa por 2 horas. Bem! Na verdade, precisam ver a escala de serviços do dia. Alguns são auxiliares do sacerdote, enquanto outros preparam o desjejum comunitário. 7h30 há mais atividade no templo: canto de mantras e estudo do Srimad-Bhagavatam. Pelo restante da manhã, se concentram as disciplinas chamadas “práticas monásticas”, que incluem atividades como estudo das canções cantadas diariamente, etiqueta vaishnava, teoria de sankirtana, prática de tambor mridanga e atividades na horta orgânica. Pela tarde, há os estudos mais densos da filosofia, alongando-se até perto da programação noturna no templo, com mais mantras e estudo da Bhagavad-gita.

Alunos auxiliando na cozinhaAlunos auxiliando na cozinha.

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Estudo do significado das canções, na sala do templo.

Tudo isso que falamos tem a ver com o investimento que os alunos vieram fazer em si mesmos: aprenderem e praticarem bhakti-yoga para sua própria elevação. Mas, é claro, seria contraditório praticar bhakti-yoga sem querer beneficiar outros; afinal, dedicar-se ao bem dos outros é a própria essência do caminho espiritual. Por isso, durante o curso, os alunos são direcionados a atividades de propagação da consciência de Krishna. Todos os meses, por exemplo, duas semanas são dedicadas à prática de sankirtana, a distribuição dos livros de Srila Prabhupada nas ruas.

A aluna Marcela em foto após ter vendido Karma e O Rei Avatara para duas policiais.jpgA aluna Marcela em foto após ter vendido Karma e O Rei Avatara para duas policiais.

Nanda Kumara, presidente da BBT Brasil, editora que apoia oficialmente o IBEV, comenta sobre a importância do sankirtana: “Trata-se de algo vital para todas as gerações, uma vez que é uma ferramenta que engloba oportunidades práticas de pregação, desenvolvimento de austeridade, veracidade, pureza e misericórdia, habilidade em resolução de conflitos e dependência de Krishna, além, é claro, do espírito missionário”. Dhira Chaitanya, que treinou os devotos do IBEV para as práticas de sankirtana e os acompanhou nas viagens, faz coro a Nanda Kumara: “De acordo com os ensinamentos da Bhagavad-gita, o devoto de Krishna tem o dever de contribuir com a propagação dessa sublime mensagem. De fato, o espírito missionário é o maior legado de Srila Prabhupada.”

Outras atividades de expansão em que os alunos participaram incluíram distribuição de prasada no projeto Alimentos para a Vida na UFRJ, auxílio na organização do Ratha-yatra de Belo Horizonte, diálogo inter-religioso e produção de entrevistas para a Volta ao Supremo.

Staff e alunos do IBEV no Alimentos para a Vida na UFRJStaff e alunos do IBEV no Alimentos para a Vida na UFRJ.

Alunos produzem entrevista com Chandramukha SwamiAlunos produzem entrevista com Chandramukha Swami.

“Em nossas reuniões antes do começo do curso, decidimos que era muito importante os alunos produzirem coisas reais, e não apenas redações e trabalhos para apresentação interna. Queríamos que se sentissem úteis na missão de Srila Prabhupada desde o começo, com contribuições sólidas, como a distribuição de livros”, comenta Nrisimhananda.

Na verdade, não era preciso ir muito longe para pregarem. Afinal, sendo o IBEV inserido em Vrajabhumi, pessoas interessadas e inteligentes sempre estavam por perto. Na comunidade, são realizados cerca de trinta retiros por ano, com os mais variados temas e propostas, desde culinária a imersão na Bhagavad-gita, e os alunos participam como ouvintes e também contribuem ativamente.

Vrajabhumi realiza cerca de trinta retiros por anoVrajabhumi realiza cerca de trinta retiros por ano.

O belíssimo altar do Ashram VrajabhumiO belíssimo altar do Ashram Vrajabhumi.

Também é digno de menção que o IBEV se tornou pioneiro ao ser possivelmente o primeiro curso de bhakti-yoga a usar elementos de gamificação em seu currículo. Esse conceito novo, aplicável a diferentes contextos, vem ganhando bastante espaço na educação entre escolas inovadoras e atentas às características das novas gerações, e consiste em motivar os estudos com elementos típicos de jogos.

Em vez de terem uma prova ao fim de cada módulo, por exemplo, os alunos do IBEV participavam do empolgante Vraja Game Show. Os alunos foram avaliados com perguntas de múltipla escolha, verdadeiro ou falso etc., como seriam em uma prova, mas isso acontecia como se estivessem participando de um programa de auditório. O Vraja Game Show inclui blocos que se assemelham ao programa Roda a Roda, do comunicador Silvio Santos, entre outros. Radesh Dasa, um dos alunos, comenta com alegria sua experiência com o jogo: “Foi uma forma muito dinâmica e divertida de aprender. A competição me estimulou a gravar mais o conteúdo. Até hoje me lembro das perguntas sobre a Bhagavad-gita!”

Outra gamificação girou em torno do Expedição Rajasuya, um cardgame em que os alunos fazem o papel de cobradores de impostos a serviço do rei Yudhisthira. “Atividades reais davam benefícios no jogo, o que nos mostrava sutilmente a importância de acordar cedo, estudar e fazer vários serviços. Para ganharmos cards, tínhamos de ser pontuais no mangala-arati, por exemplo”, recorda um dos alunos, Mateus Jonas. “Vi o jogo como uma excelente forma de nos ajudar a melhorar como pessoas, visto que é um método descontraído e jovial. Já estávamos acostumados com esse tipo de jogo antes da vida devocional, mas agora, conectado com Krishna, ficou muito melhor.”

Três dos 108 cards do jogo Expedição Rajasuya, criado exclusivamente para uso no IBEV.pngTrês dos 108 cards do jogo Expedição Rajasuya, criado exclusivamente para uso no IBEV.

E o que fazem os alunos do IBEV uma vez formados? “A ideia não é ficar no barco por seis meses e depois pular no oceano”, comenta Chandramukha Swami. “A proposta de entender a filosofia e viver as escrituras tem que ser uma coisa permanente. O mundo material não está oferecendo nada incrível. Tudo o que alguém possa pensar em fazer, já fez em outra vida – já foi famoso, infame, rico, pobre… A única coisa que não fizemos foi estudar os Vedas, cantar os santos nomes, acordar cedo e nos dedicarmos seriamente à vida espiritual. Isso não fizemos, porque, se tivéssemos feito, não teríamos nascido de novo, não é?”

Felizmente, todos os alunos saem do IBEV melhor do que entraram. Alguns deles decidiram morar em Vrajabhumi e auxiliar em sua proposta de pregação ao mesmo tempo em que investem em sua própria formação, como cursando ensino superior à distância e tirando carteira de motorista. Outros alunos moram agora em Nova Gokula e no templo de Belo Horizonte, e auxiliam suas comunidades em diferentes capacidades. Os demais se reinseriram na sociedade, retornando aos seus familiares, e buscam aplicar o que aprenderam em seus contextos próprios de vida.

A Turma Ano II já tem matrículas abertas. Todas as informações e a ficha de solicitação de pré-matrícula podem ser acessadas através do link www.ibev.com.br/curso-de-estudos-e-praticas-de-bhakti-yoga. Nrisimhananda encerra nossa entrevista com um convite de poucas palavras: “Quem quiser participar de um projeto de educação sério, tem o nosso convite”.

Bhagavan Dasa é editor-chefe da BBT Brasil e coordenador pedagógico do IBEV. Em 2005, cursou o Bhakti-shastri no Instituto Jaladuta. Hoje reside no Ashram Vrajabhumi com esposa e filho.

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