Circuito de Kirtanas: Levando a Cultura do Santo Nome pelo Brasil

Bhagavan Dasa

Iniciativa de jovens devotos prova que kirtana é algo simples e para todos.

O Circuito de Kirtanas promove o Kirtana 6 Horas, que reveza diferentes pessoas no canto (kirtana) do mantra Hare Krishna ao longo de 6 horas ininterruptas, viajando para um destino diferente a cada mês com esse intento.

E agora o Circuito de Kirtanas está em Vrajabhumi, a comunidade onde moro! Eu não poderia estar mais empolgado! Meu filho Hari Gopala, de 5 anos, está acabando de comer rápido para irmos ao templo ver o espetáculo.

Quando eu chego ao templo, o primeiro cantor tinha acabado de fazer sua contribuição. Acho estranho que não era nenhum dos artistas do grupo do Circuito de Kirtanas que tivesse feito a abertura, mas, sim, Dhira Chaitanya, um morador local. Eu penso: “Os artistas do grupo profissional mesmo devem ter se atrasado como eu, e agora, sim, deve começar o show deles.” Eu seria ainda mais surpreendido.

Para diante do microfone, se aproxima Daniele, uma jovem que conheceu o Movimento Hare Krishna há pouquíssimos meses. Ela engole seco e fica diante do microfone completamente desconfortável. Claramente, é a primeira vez que ela faz isso. A equipe do Circuito de Kirtanas pergunta se ela toca algum instrumento, e ela diz que não. Ela coça a garganta e, então, começa a cantar, com uma voz que parece o cochicho no ouvido de alguém bem próximo. Não há emoção e nenhuma qualidade musical na voz dela quando ela termina de cantar o mantra Hare Krishna. Assim que ela termina, porém, uma mágica acontece.

Há uma roda de pessoas dos mais variados caminhos da vida em torno dela, e todos repetem o mantra na melodia que ela entoou. A turma do Circuito de Kirtanas começa a tocar tambores, um harmônio começa a acompanhá-la e todos presentes fazem um emocionante coro com o mantra Hare Krishna. Daniele abandona a postura curvada que tinha inicialmente e se ergue contente. O microfone já não parece ser o seu pior inimigo. Dessa vez, ela repete o mantra bem nutrida, tendo sido alimentada pela energia de todos. Ela vai crescendo a cada canto dela e a cada repetição do coro, e o canto vai se avolumando em entusiasmo até que explode em palmas e em um cantar cheio de êxtase. A essa altura, já somos todos um diante de Krishna.

Hari Gopala parece feliz no kirtana.

Eu não podia estar mais errado quando fui para o templo para ver “o show” da “banda” que havia chegado. Não havia show, e o grupo que promove o Circuito de Kirtanas não é uma banda. A proposta deles é bem diferente. Eles viajam para mostrar na prática que o cantar dos nomes de Deus é uma atividade estritamente espiritual e que, portanto, qualquer alma espiritual que queira se entregar a essa experiência, está qualificada para isso.

Como Tudo Começou

O Circuito de Kirtanas é um projeto da ISKCON criado por Krishna-kripa, Gopa Vrinda Pala, Narada Muni e Jaya Kirtana Rasa. Desde a segunda edição, a devota Ragatmika, da Missão Vrinda, também já se juntou à formação, e é oficialmente parte da família. Tenho a alegria de entrevistar os cinco aqui no Ashram Vrajabhumi.

Ragatmika, Krishna-kripa, Jaya Kirtana, Narada e Gopa (não se esforçando por parecer muito normal).

Gopa me conta um pouco sobre o começo orgânico do Circuito. “Era janeiro de 2017 quando sugeri ao templo de São Paulo de fazermos um kirtana 6 horas. O templo topou, e aí chamei o Jaya Kirtana e o Narada, que são meus amigos, e a coisa aconteceu. Só que o resultado foi mais do que esperávamos. Foi algo tão extático que fiquei por umas duas semanas só pensando em como tinha sido incrível.”

Narada lembra desse primeiro festival em São Paulo. “É um templo tão grande, com tantos devotos, e não acontecia um festival de kirtana há muito tempo. A empolgação era como se todos estivessem esperando por isso há muito tempo.”

Com a vibração de todos, veio logo a ideia de fazer mais um, e a segunda edição aconteceu em Nova Gokula, a maior comunidade Hare Krishna na América Latina, localizada em Pindamonhangaba, interior de São Paulo. “Aí montamos um grupo no WhatsApp para organizar o segundo, e depois o terceiro… Aí logo veio a ideia de fazermos um por mês”, lembra Gopa.

Gopa, irreconhecível da outra foto.

O próximo passo foi pensar em um nome, para não ser apenas um kirtana 6 horas, mas um projeto com “cara e identidade”. O primeiro nome pensado foi Nama-kirtana, mas, por fim, decidiram pelo nome que usam hoje: Circuito de Kirtanas.

Me Chama que Eu Vou

Templo de São Paulo, Nova Gokula, Vrajabhumi… Mas não: não é um projeto para templos. Um evento do Circuito de Kirtanas pode ser organizado em qualquer lugar: na casa de um devoto, em um espaço comercial ou mesmo em ambientes públicos. “Uma vez simplesmente escrevi em um grupo de que participo falando do projeto e perguntando se alguém teria um lugar que pudesse receber cerca de 40 pessoas para cantarmos mantras”, conta Narada. “Eu expliquei que não cobrávamos nada, mostrei fotos de outras edições, e logo apareceu uma dona de uma clínica holística oferecendo o espaço dela. O local sendo legal, não sendo contra os nossos propósitos, nós vamos.”

Cada lugar proporciona uma experiência singular. Embora algumas constantes sejam a alegria das pessoas durante o canto, depoimentos contentes ao final e pedidos de que voltem, em cada edição os envolvidos dão sua contribuição específica. “Em Franco da Rocha, um devoto levou uma máquina que cuspia confetes e soltava fumaça, e foi uma grande festa. As crianças ficavam pegando os confetes do chão para jogar de novo”, lembra Gopa. “Em outro lugar, havia uma mesa cheia de opções vegetarianas, preparada pela anfitriã, que ficava disponível durante todo o festival.”

Ragatmika considerou a beleza de Krishna-Balarama a principal inspiração oferecida por Vraja.

“As pessoas acham que estamos indo até elas para dar, mas, no final, na verdade, somos nós quem mais recebemos, na forma do que preparam para nossa chegada, como se entregam à experiência e como criamos laços interessantes com todos”, complementa Narada.

Uma Vida Inteira de Preparação

Assim como os anfitriões se mobilizam e se organizam para a chegada do Circuito de Kirtanas, seus membros também estão sempre se afiando entre uma edição e outra: aprendendo novas melodias para os mantras, divulgando nas redes sociais e, o mais importante, buscando pureza através de suas práticas espirituais pessoais.

“Não dá para fazer um kirtana em que você não está cultivando a energia que você está tentando passar. Onde estaria a potência disso?”, coloca Ragatmika, arregalando os olhos e abrindo os braços para enfatizar seu ponto.

Presidente do Ashram Vrajabhumi acompanha o kirtana com seu filho.

“Sim, kirtana não tem relação com técnica musical”, complementa Jaya Kirtana, o mais falante do grupo. “Tem a ver com entrega do coração, sentimento. Então, para você entregar seu coração, você tem que estar limpando o coração das sujeiras frequentemente. Quanto mais serviço devocional você faz, mais apto a cantar com o coração você está, e assim você realmente consegue tocar o coração das outras pessoas. Não por mérito seu, mas por misericórdia de Krishna, porque você se torna um bom instrumento.”

Você Colhe o que Planta

Com anfitriões entusiasmados e a equipe do Circuito querendo realmente levar algo com pureza, é claro que vêm bons resultados. Um deles, aponta Jaya Kirtana, é a aproximação de devotos de gerações diferentes. Enquanto a geração antiga tinha um kirtana “raiz”, onde aprenderam como puderam alguns toques de mridanga, a geração atual tem acesso a aulas de instrumentos no Youtube e aprendem várias técnicas e melodias que ouvem na internet. “Isso sempre proporciona momentos legais”, comenta Jaya Kirtana. “Os antigos comentam sobre nossas técnicas e como eles aprenderam na época deles. Acaba sendo um momento de apreciação entre as gerações. E quando um devoto antigo vem e diz que quer cantar também, a gente fica feliz e é sempre muito legal!”

Horários e nomes dos kirtaniyas programados no evento.

Outro bom resultado, lembrado por Krishna-kripa, é dos devotos “sumidos” que “reaparecem”. “Tinha um devoto que não aparecia há anos em um templo onde fomos, mas, quando soube que ia ter um kirtana diferente, ele veio e se animou novamente para a vida espiritual. Foi algo bem legal de se ver.”

Para Ragatmika, cada edição do circuito lhe ajuda a se manter firme e se fortalecer pessoalmente. Nas palavras dela, o Kirtana 6 Horas “resolve questões internas.” Ela revela seu coração com muita sinceridade nessa hora: “Tive questões internas muito fortes sobre espiritualidade em determinada época, e o que resolveu para mim foi o Circuito. Me tirou da cova onde eu estava me enterrando. E não adianta ficar sozinha com o cantar; eu ficar em casa tocando harmônio. Tem que ser o kirtana mesmo, com todos os devotos fazendo juntos. Foi isso que me segurou na vida espiritual e que vem me segurando.”

Jaya Kirtana resume o que é o bom fruto que colhem: “A gente atingiu o objetivo quando todos estão participando, e quando todos ficam mais felizes e nutridos.”

O fofíssimo Murari Krishna acompanhou toda a cantoria.

Lugar de Mulher

O Circuito de Kirtanas tem uma proposta expressamente inclusivista. Deste modo, colocam à prova a declaração das escrituras de que o canto dos santos nomes é a prática espiritual mais democrática de todas, acessível a todas as pessoas do nosso tempo. Parte dos esforços de inclusão está em motivar especialmente as mulheres a liderarem os kirtanas, já que, comumente, elas têm menor expressão nisso nos templos.

“Queremos que as mulheres que estão cantando sozinhas no quarto cheguem para cantar para Krishna diante dos visitantes e da congregação. Ouvimos o tempo todo que nós não somos o corpo, que nós somos a alma, mas, em seguida, fica: ‘Mas você é mulher, e eu sou homem’”, comenta Jaya Kirtana, fazendo todos rirem da cena que descreve.

Krishna-kripa tocando mridanga.

Ragatmika tocando violino.

Krishna-kripa fala sobre sua experiência como “influencer”. Ela conta: “Outras mulheres vêm falar comigo que acharam legal ver uma mulher liderando o kirtana e tocando mridanga. Até você ver alguém fazendo, você não sabe dizer se aquilo é para você ou se você é capaz, ou fica com medo de ser a única mulher fazendo e ser estranho.” Jaya Kirtana confirma que ouve pelos corredores as pessoas comentarem como foi legal ver Krishna-kripa e Ragatmika cantando e tocando.

Boca Seca, Mão Suada

Outro muro que querem derrubar é dos tímidos e daqueles que não se sentem “músicos o bastante” para liderar um kirtana.

“Todos têm a capacidade de liderar um kirtana”, diz Ragatmika com ênfase. “Só é preciso, primeiro, entender o que é, e ter gosto por isso. Técnica pela técnica, a pessoa desenvolve pelo interesse por fazer esse serviço.”

“Existe também um tabu de que só pode cantar quem toca harmônio”, contribui Jaya Kirtana. “As pessoas falam muito isso: ‘Não posso cantar porque eu não sei tocar harmônio’. E Prabhupada começou como? O primeiro kirtana que ele fez na praça tinha harmônio? Ele apenas cantava com címbalos de mão. A ideia não é: ‘Ah! Não sei!’ É simples. Você canta as melodias no chuveiro para praticar, e imagina com que melodia vai começar e com qual vai terminar. Só isso.”

Jaya Kirtana cantando uma melodia que provavelmente ensaiou no chuveiro.

Ragatmika simplifica o assunto: “O foco é o santo nome. O resto é ambientação.”

Talvez neste ponto você esteja pensando que para eles é fácil falarem, porque são todos artistas seguros de si, com ampla experiência, desenvoltura… Não é bem assim. Krishna-kripa admite: “Não é que a gente é extrovertido e chega lá e canta. Eu sou muito tímida. Até na décima vez que vou fazer isso eu fico nervosa. Assim que está começando o kirtana, minha mão sua, a boca seca, fico muito desconfortável. Depois vai melhorando.”

Narada literalmente “veste a camisa” do santo nome.

“O que as pessoas passam, nós já passamos e ainda passamos hoje em algum grau, então entendemos e sabemos como motivar e ajudar”, diz Narada, complementando a fala da esposa.

6 Horas Depois…

Nessa edição memorável em Vrajabhumi, 6 horas ininterruptas de canto se seguem na sala do templo. Para prestigiar a variedade, quem canta ao final é um devoto “velho de guerra”. Neste momento, o canto dele se mistura aos búzios que anunciam que o altar vai se abrir. As belíssimas esculturas de Krishna-Balarama Se revelam de trás das cortinas e sorriem para todos. Eu sinto um arrepio. Parece que estamos fazendo o que devíamos fazer. Deus nos uniu.

Adeus, ou Até Logo

No dia seguinte, é hora de despedida. Sementes sempre ficam por onde passam, é claro. Como em outros lugares onde foram, Vrajabhumi pede que voltem. Devotos locais compartilham que estão mais entusiasmados a praticarem instrumentos e canto, e a estreitarem sua relação com o santo nome.

Selfie da despedida!

Quando pergunto dos planos para o futuro, falam sobre manter o que já estão fazendo, que já é muito especial. Porém, crescer é sempre preciso. “Alguns dos planos incluem termos alguns produtos ligados ao Circuito, como camisas e souvenires em geral, e também melhorar nossos equipamentos para fazermos vídeos e gravações em áudio”, revela Narada. Outra ideia, ainda sem previsão de acontecer ou de como exatamente acontecer, é a realização de diferentes tipos de workshops ligados a kirtanas, que é uma demanda do próprio público.

Aqueles interessados em conhecer mais e contatar o Circuito de Kirtanas, podem fazê-lo através da página no Facebook: fb.com/circuitodekirtans. O Circuito já realizou quase 200 horas de kirtana, e que muitas mais venham, e que o canto dos santos nomes chegue a cada vez mais corações.

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