Pishima: Irmã, Serva, Santa

Satyaraja Dasa

Entre os três irmãos de Srila Prabhupada, sua irmã mais nova reconheceu sua elevada posição espiritual e o apoiou em sua missão.

“Srila Prabhupada dizia com frequência que ela era uma devota pura de Sri Sri Radha-Krishna, e em muitas ocasiões ela demonstrou sua fé inabalável no Senhor.” – Bhakti Caru Swami, Volta ao Supremo, vol. 15, nº 5 (1980)

Sua Divina Graça A.C. Bhaktivedanta Swami Prabhupada, reverenciado acharya-fundador da Sociedade Internacional para a Consciência de Krishna (ISKCON), nasceu em uma família profundamente devocional e, desde muito jovem, manifestou profundos sintomas de amor divino. Muito antes de seu encontro transformador com seu amado mestre espiritual, Srila Bhaktisiddhanta Sarasvati Thakura (1874–1937), a centelha da devoção já ardia dentro dele – uma centelha que seu guru mais tarde avivaria até transformá-la em um fogo intenso.

O pai de Prabhupada, Gaura Mohan De, comerciante de tecidos de renda modesta, era um devoto vaishnava, e a mãe de Prabhupada, Rajani, era igualmente uma mulher piedosa e de inclinação religiosa.¹

Criados em uma atmosfera tão impregnada de espiritualidade, o jovem Srila Prabhupada e seus irmãos foram naturalmente atraídos à vida devocional. Sob a orientação gentil, porém firme, do pai, desde cedo foram apresentados à adoração a Sri Sri Radha-Krishna – uma influência que, segundo o próprio Srila Prabhupada, deixaria uma marca indelével em sua visão de mundo e, por fim, inspiraria sua missão global de difundir a consciência de Krishna.²

Entre os irmãos de Srila Prabhupada, estavam seu irmão Krishna Charan e suas irmãs Rajeshwari e Bhavatarini Devi Dasi (1899–1980). É Bhavatarini, a irmã mais nova, quem ocupa o centro deste artigo.

Bhavatarini, irmã de Prabhupada, em foto original ladeada por versão reconstruída por inteligência artificial.

Na ISKCON, Bhavatarini era carinhosamente conhecida como Pishima, palavra bengali que designa a irmã do pai.³ Para Srila Prabhupada, contudo, ela era muito mais do que uma irmã. Era uma confidente de confiança em assuntos espirituais e uma irmã espiritual, pois recebera iniciação do mesmo guru, como veremos mais adiante. Uma devota vaishnavi, com sua pureza de coração e profundidade de caráter, deixou uma impressão indelével em todos os que tiveram a oportunidade de estar em sua presença.

Embora a história, com razão, celebre as figuras grandiosas que lideram grandes movimentos, muitas vezes deixa de notar os discretos luminares que trabalham nos bastidores, sustentando os alicerces sobre os quais esses movimentos se erguem. A irmã de Prabhupada foi uma dessas almas. Embora não fosse publicamente celebrada entre os devotos mais proeminentes, ela personificava o serviço humilde e o sacrifício silencioso. Foi um apoio constante para seu irmão, não por meio de grandes gestos ou reconhecimento público, mas pela pureza de seu exemplo – vivendo uma vida de completa dedicação a Krishna.

Unidos pelo Nascimento, Unidos pela Devoção

Nascida em 1899, em Calcutá, três anos depois de seu irmão, Pishima compartilhava com o jovem Abhay, como Srila Prabhupada era então conhecido, a devoção de seu pai por Sri Sri Radha-Krishna.

“Quando eu tinha cinco ou seis anos”, recordou Prabhupada certa vez, “pedi a meu pai: ‘Pai, dê-me esta Deidade. Eu vou adorá-lA.’ Então, meu pai comprou para mim pequenos Krishna e Radha. […] Minha irmã e eu imitávamos [os adultos]. Qualquer alimento que recebêssemos, nós o oferecíamos a Krishna e comíamos [os remanentes]. Foi assim que nossa vida se desenvolveu.”⁴

Deidades de Radha Govinda adoradas por Prabhupada e sua irmã desde a infância.

Referindo-se a um templo do bairro, Prabhupada disse aos devotos: “Ficávamos juntos por horas, contemplando a Deidade de Krishna, e essa foi a inspiração de nossa vida devocional.”

Até mesmo as brincadeiras da infância eram entretecidas pelo fio da espiritualidade.

“Minha pipa sempre voava mais alto do que a dela”, disse Prabhupada, rindo, “até que ela começava a cantar: ‘Govinda! Govinda! Ajude-me!’ Então a pipa dela voava mais alto do que a minha.”⁵

Uma das primeiras discípulas de Srila Prabhupada, Visakha Devi Dasi, escreve com admiração: “Claramente, desde seus anos de formação, Prabhupada e Pishima estavam imbuídos de piedade.”

Em 1904, quando Srila Prabhupada tinha oito anos, foi admitido na Mutty Lall Seal Free School, perto da residência da família De, em Govinda Bhavan. Três anos depois, Pishima iniciou seus estudos. Embora a seção primária – do jardim de infância à quarta série – fosse mista, a seção secundária – da quinta série em diante – era reservada aos meninos.⁶ Assim, a educação formal de Pishima terminou após esses primeiros anos, embora ela tenha continuado a estudar em casa por algum tempo.

Pishima casou-se ainda jovem, como era comum na Bengala naquela época, e pouco depois teve seu primeiro filho. Constituir uma família era importante para ela, mas, assim como para seu irmão, suas preocupações mais profundas pertenciam ao domínio da vida espiritual.

Srila Bhaktisiddhanta Sarasvati Thakura iniciou Pishima no canto do santo nome e, após deixar este mundo em 1937, ela recebeu diksha formal, ou segunda iniciação, de Srila Bhakti Saranga Goswami Maharaja, um dos irmãos espirituais de Srila Prabhupada. Isso é bastante conhecido. Uma testemunha ocular, discípula de Bhakti Saranga Goswami Maharaja, relata a história em uma entrevista publicada no livro de Mulaprakriti Devi Dasi, Our Srila Prabhupada: A Friend to All:

“Depois que Srila Bhaktisiddhanta Sarasvati […] entrou em aprakata-lila [deixou este mundo], Prabhupada perguntou à esposa e à irmã: ‘De quem vocês receberão agora diksha [iniciação]?’ Sua irmã, Pishima, já havia recebido iniciação em hari-nama de Srila Bhaktisiddhanta Sarasvati, mas sua esposa ainda não. […] Elas não sabiam o que fazer, então ele recomendou que recebessem iniciação de [Bhakti Saranga] Goswami Maharaja. Dessa forma, elas se tornaram discípulas do irmão espiritual de Srila Prabhupada, e eu me tornei irmã espiritual de Pishima e de Radharani De (a esposa de Srila Prabhupada antes de ele aceitar sannyasa).”⁷

Não se sabe muito sobre a vida conjugal de Pishima, mas sabemos que ela se casou com um membro da próspera família Dutta, tradicionalmente ligada ao ramo de ouro e joalheria na Bengala do século XX. Assim como a família De, os Duttas pertenciam a uma classe mercantil bem estabelecida e gozavam de grande consideração social, estabilidade financeira e riqueza transmitida por gerações.

Pishima casou-se com Sri Rash Behari Dutta, filho mais velho de Sri Haridasa Dutta.⁸ Rash Behari e seu irmão Gokul Behari eram empresários de destaque, e suas marcas e lojas ainda existem em Calcutá. Pishima discretamente destinava uma pequena parte dos rendimentos desses negócios para ajudar Srila Prabhupada na impressão de livros e no estabelecimento de templos, preferindo permanecer anônima por humildade.

Originalmente, a propriedade da família De ficava em Burrabazar, um dos bairros comerciais mais antigos e movimentados de Calcutá. Era um centro de comércio durante o domínio britânico e até hoje permanece vibrante, repleto de mercados e comerciantes. Posteriormente, a família mudou-se para Tollygunge, para a casa do tio materno, no sul de Calcutá, uma região mais tranquila e residencial, onde a família cresceu.

Foto histórica de Burrabazar, Calcutá, em 1895, um ano antes do nascimento de Prabhupada.

Após o casamento, porém, Pishima e o marido mudaram-se para Taltala, um bairro importante no centro de Calcutá, a certa distância dali. Mesmo vivendo em outra casa, Pishima permaneceu perto de sua família, como era típico nos arranjos familiares bengalis após o casamento.

Rash Behari e Pishima tiveram sete filhos e adotaram outros dois ainda pequenos.⁹ Além de ser uma esposa e mãe dedicada, Pishima entregava-se completamente ao seu sadhana – prática espiritual – e à sua inabalável dependência do Senhor.

Seus amigos comentavam com frequência que, independentemente do que estivesse fazendo, o nome do Senhor jamais deixava seus lábios. Ela também era conhecida por carregar consigo uma garrafa plástica cheia de ganga-jala, a água sagrada do Ganges, que aspergia sobre outras pessoas e sobre os assentos depois de utilizá-los.

Com o estabelecimento da ISKCON, tornou-se uma presença familiar nos principais templos de Srila Prabhupada na Índia, especialmente em Mayapur, Vrindavan e Calcutá. Ali, dedicava-se a cozinhar para os devotos, ensinando-lhes métodos tradicionais de preparo dos alimentos e oferecendo orientação de todas as maneiras que pudesse. Embora falasse apenas bengali, comunicava muito por meio de suas ações e gestos, ensinando mais pelo exemplo do que pelas palavras.

A Tia dos Devotos

Em Srila Prabhupada Is Coming!, Mahamaya Devi Dasi, que conviveu regularmente com Pishima na década de 1970, retrata-a com carinho como uma figura de profunda devoção e humildade, que honrava plenamente seu irmão como jagat-guru, o guru universal, assim como faziam os discípulos dele. Entre os membros da família, somente ela reconheceu a elevada posição espiritual de Prabhupada e apoiou sua missão com uma fé singular.

Muitos dizem que a oferenda mais querida de Pishima a Srila Prabhupada e seus discípulos era sua incomparável culinária, uma arte vaishnava que praticava com profundo afeto e devoção. Entre as muitas iguarias que preparava, era especialmente famosa por seu shukta – um característico prato bengali agridoce e amargo, tradicionalmente preparado com uma variedade de legumes da estação, temperos fortes e um toque de melão-amargo. Prabhupada apreciava especialmente o uso que ela fazia do óleo de semente de mostarda no shukta.¹⁰

Sempre que Pishima estava por perto, Srila Prabhupada pedia seu shukta, e todos os dias ela o preparava novamente, sem jamais repetir a mesma composição. Não havia dois shuktas iguais, pois ela possuía um domínio intuitivo do intrincado equilíbrio de sabores – amargo, salgado e sutilmente condimentado. Prabhupada dizia com frequência que nenhum shukta no mundo inteiro podia se comparar ao dela. Na cozinha, a mão de Pishima era guiada tanto pela tradição quanto pela inspiração divina. Mas era sobretudo ao óleo de semente de mostarda que Srila Prabhupada reagia com especial apreço.

O uso do óleo de mostarda não se devia apenas ao sabor. Na tradição culinária bengali, ele também era considerado dotado de qualidades medicinais e purificadoras, acreditando-se que ajudasse a limpar o organismo e estimular a digestão, especialmente quando combinado aos sabores amargos do shukta. Para Srila Prabhupada, cujo paladar havia sido refinado tanto pela sabedoria ayurvédica quanto pelo carinho por sua irmã mais nova, o shukta de Pishima – preparado com óleo de semente de mostarda e o cuidado da devoção de uma irmã – deve ter personificado o próprio sabor do lar: tanto o lar de seus pais em Calcutá quanto seu lar primordial no mundo espiritual.

Sua habilidade culinária, naturalmente, começou em casa. Ela preparava regularmente as refeições do marido e dos filhos, aperfeiçoando seus talentos para o dia em que se juntaria ao irmão e à missão dele. De fato, seu casamento começou com dificuldades, mas, graças à sua atitude de serviço, a harmonia foi sendo restabelecida com o passar do tempo.

“Srila Prabhupada certa vez nos contou”, recorda Bhavananda Dasa, “que, quando ela se casou, seu marido inicialmente levava uma vida que não estava de acordo com valores espirituais – envolvia-se em comportamentos que lhe causavam certa preocupação. Durante esse período, ela procurava Prabhupada com frequência e pedia orientação, perguntando-se como poderia ajudar o marido a mudar. Prabhupada lembrou-lhe das pequenas Deidades de Radha-Govinda que eles haviam adorado quando crianças e disse que ainda as possuía. Ele as entregou a ela e a encorajou a adorá-lAs sinceramente e a orar pelo bem-estar do marido.”

“Segundo Prabhupada”, continua Bhavananda, “foi exatamente isso que ela fez. Além disso, continuou servindo ao marido e orando constantemente a Radha-Govinda pela transformação dele. Ao longo dos anos, sua dedicação exerceu um impacto profundo. Por fim, seu marido mudou completamente, adotou uma prática espiritual e passou a respeitá-la profundamente. Prabhupada disse que ele chegou até mesmo a reverenciá-la, reconhecendo sua devoção e abnegação ao desejar apenas o melhor para ele por meio de suas orações e de seu serviço.”¹¹

Vários discípulos de Prabhupada foram encarregados de cuidar de Pishima, especialmente quando ela se hospedava nos centros da ISKCON. Entre esses devotos estavam Ananga-manjari Devi Dasi, Daivi-shakti Devi Dasi e Mahamaya Devi Dasi. Tive a fortuna de entrevistar todas elas, e foram unânimes em expressar profundo respeito por Pishima.

“Ela não tinha medo”, recordou Ananga-manjari Devi Dasi. “Frequentemente convidava familiares para sua casa, onde me pedia que conduzisse kirtana e tocasse mridanga. Depois disso, pregava vigorosamente a consciência de Krishna aos membros de sua família.”

Um exemplo marcante de sua destemida determinação ocorreu durante os conflitos entre hindus e muçulmanos em Calcutá, em 1948. Numa época em que a maioria dos moradores permanecia dentro de casa – sobretudo após o anoitecer – por medo da violência, ela continuou resolutamente suas visitas diárias ao templo local de Radha-Krishna. Sua devoção constante e seu corajoso compromisso com a fé aparecem vividamente nos relatos de seus incansáveis esforços para contemplar as Deidades, sem se deixar deter pela agitação ao redor.

Srutirupa Devi Dasi recorda a elevada consideração que Prabhupada tinha pelo vasto conhecimento de Pishima: “Srila Prabhupada disse a Bhakti Caru Maharaja [que já era bastante erudito] que, se quisesse compreender o Chaitanya-charitamrita, deveria perguntar a Pishima, pois ela o conhecia muito bem.”

O carinho e o senso de humor de Pishima conquistavam os devotos. Em Vrindaban Days, Hayagriva Dasa a descreve como “o tipo de avó favorita de todos […], expressiva e amorosa”. Ela cozinhava incansavelmente, transmitia receitas tradicionais e brincava carinhosamente com o irmão.

“Você consegue digerir até pregos, se quiser!”, provocou-o certa vez, quando ele comentou sobre o forte óleo de mostarda presente em seus pratos bengalis – apesar do conhecido apreço dele pela culinária da irmã.

Em I’ll Build You a Temple: The Juhu Story, Giriraja Swami relata que, três dias depois de um acontecimento importante, “a irmã mais nova e irmã espiritual de Srila Prabhupada, Bhavatarini Devi Dasi, chegou da Bengala para ficar com ele. Prabhupada a havia descrito como uma devota pura, e ela era de fato reconhecida como tal. Os devotos foram instruídos a chamá-la de ‘Pishima’, termo bengali para ‘irmã do pai’. Ela era profundamente respeitada por sua devoção sincera e simples ao Senhor Krishna e a Seus devotos, e sua semelhança com Prabhupada tornava sua presença ainda mais querida.”¹²

Yamuna Devi, uma das primeiras discípulas de Srila Prabhupada, recorda como, em 1967, em São Francisco, Prabhupada traduzia em voz alta as cartas manuscritas em bengali enviadas por Pishima, relembrando com carinho a infância que compartilharam. Yamuna viu Pishima pela primeira vez em uma fotografia: “Quando certo dia chegou uma foto de grupo granulada, em preto e branco, foi fácil identificá-la. Seu rosto tinha uma impressionante semelhança com o de Srila Prabhupada.”¹³

Em mais de uma ocasião, recorda Yamuna, Prabhupada falou sobre as habilidades culinárias de Pishima. Yamuna, ela própria uma cozinheira renomada, tomou mentalmente uma decisão: “Preciso aprender com ela tudo o que puder!”

Com o passar dos anos, Pishima compartilhou suas receitas e conhecimentos com Yamuna, e muitas dessas preciosidades culinárias tornaram-se conhecidas em toda a ISKCON, em grande parte graças ao aclamado e premiado livro de receitas de Yamuna, Lord Krishna’s Cuisine: The Art of Indian Vegetarian Cooking.

Uma Partida Serena

Nos dias em que sua saúde declinava, Pishima residia em Sridhama Mayapur com uma simplicidade que a tornava ainda mais querida pelos outros devotos. Suas noites eram repletas de calor devocional enquanto conduzia bhajanas na varanda, e sua voz doce e melodiosa levava os demais a profunda absorção.

Sua canção favorita, “Manasa Deha Geha”, composta por Srila Bhaktivinoda Thakura, muitas vezes levava os devotos reunidos às lágrimas. Em determinada noite, emocionou-os tão profundamente que eles perderam o arati vespertino regular no templo, pois estavam completamente absortos em sua expressão devocional. Embora Srila Prabhupada os tenha repreendido levemente por terem perdido o serviço, era evidente que apreciava a devoção sincera de sua irmã.

O livro de Mahamaya relata ainda o estilo de vida austero e tradicional de Pishima, marcado pela limpeza como uma forma de adoração. Ela se banhava com ganga-jala e purificava sua consciência com o santo nome. Depois de assistir às aulas no templo, lavava com ganga-jala o local onde havia se sentado, refletindo sua profunda humildade e etiqueta vaishnava.¹⁴

Um dos relatos mais comoventes da partida de Pishima, em 13 de março de 1980, vem de Ananga-manjari Devi Dasi, que cuidou dela durante seus últimos dias em Mayapur.

“Pishima havia piorado tanto”, diz Ananga, “que certa manhã fui ao samadhi [túmulo memorial] de Prabhupada e orei: ‘O que posso fazer por ela? Leve-a… ela só quer estar com você.’”

Ao retornar ao quarto, Ananga encontrou Pishima quase inconsciente. Ninguém parecia conseguir qualquer reação da parte dela.

“Quando entrei no quarto”, recorda Ananga, “os outros que estavam ali apenas balançaram a cabeça e saíram chorando, deixando-me sozinha com ela. Ela estava sentada na beirada da cama, curvada para a frente, e eu massageava suas costas enquanto cantava japa com a outra mão, tentando descobrir o que fazer.”

“Quando comecei a cantar”, continua Ananga, “percebi que os dedos dela se moviam como se também estivesse cantando japa. Foi assim que soube que ela conseguia me ouvir. Perguntei-lhe, em meu bengali precário: ‘Pishima, você precisa ir ao banheiro? Precisa de água ou leite? Posso fazer alguma coisa por você?’ Nenhuma resposta. Mas eu sabia que ela podia me ouvir, então coloquei uma gravação de Prabhupada cantando Nitai-pada-kamala, uma das favoritas dos devotos. Quando lhe perguntaram se conseguia ouvir, Pishima respondeu fracamente: ‘Ha’, que significa ‘Sim’.”

À medida que o dia avançava, a atmosfera no quarto começou a mudar. Um kirtana alto e exuberante ganhou força, e o canto tornou-se cada vez mais fervoroso. Ananga, porém, sentiu surgir dentro de si uma convicção serena: “Isso não agradaria a Pishima.”

Ananga saiu depressa e procurou o devoto sênior Nitai Chanda Swami, pedindo-lhe que acalmasse a multidão. Ele assim o fez e, ao trazer uma suave tranquilidade à reunião, seguiu-se um kirtana sereno e contemplativo.

Foi nessa atmosfera doce e suave que ela abandonou sua forma corpórea.

“Os olhos de Pishima estremeceram”, conta Ananga, “e sua boca começou a se mover. Aproximei-me de seus lábios. Ela sussurrou: ‘Hare, Hare, Hare, Ha…’, e esse foi seu último suspiro.” Naquele momento, Ananga estava ali, segurando delicadamente sua mão e observando atentamente enquanto aquela grande alma retornava a Krishna.

Depois, recorda Ananga: “Seu corpo irradiava luz. Antes, ela parecia um tanto definhada, como frequentemente acontece com os idosos. Mas agora parecia emanar dela um brilho luminoso – inegável e vívido. Perguntei-me se não estaria imaginando aquilo, até que dois pujaris entraram no quarto e, sem que eu dissesse uma palavra, comentaram: ‘Ela está brilhando.’”

Uma Vida Exemplar

A vida de Pishima personificou a síntese ideal entre tradição e transcendência. Ela foi esposa, mãe, erudita, pregadora e uma vaishnavi de extraordinária coragem. Assumiu o papel de uma “tia” acolhedora para a crescente família da ISKCON, enquanto discretamente mantinha elevados padrões de excelência devocional.

A vida de Pishima é um testemunho do poder da devoção feminina expressa dentro dos princípios do dharma. Ela amava seu irmão, servia suas Deidades, educava a geração seguinte, era uma esposa e mãe dedicada e jamais comprometia seus padrões. Exemplificava humildade, força, doçura e profundidade no conhecimento dos shastras – uma combinação raramente encontrada e ainda mais raramente reconhecida.

Recordar Pishima é recordar que as raízes do movimento da consciência de Krishna se estendem profundamente pelo solo da família sagrada, do serviço amoroso e de uma profunda convicção interior.

Ao honrarmos Pishima, recordamos que as glórias do movimento de Srila Prabhupada não se manifestam apenas por meio da imponente figura do próprio acharya, nem somente pela dedicação de seus discípulos mais proeminentes, mas também por uma constelação de almas firmes como Pishima – discretas, não celebradas, mas absolutamente essenciais.

Concluímos honrando sua profunda devoção, exemplificada em 14 de novembro de 1977, o dia da partida transcendental de Srila Prabhupada, quando ela humildemente serviu a seus pés em Vrindavan, cuidando dele de maneira abnegada, sem pensar nas próprias necessidades ou desejos.

“O quarto estava tomado por choros e lamentações”, recorda Giriraja Swami. “O kirtana estava muito intenso, com os devotos cantando Hare Krishna e ‘Jaya Prabhupada!’. Pishima, chorando copiosamente, foi até os pés da cama de Prabhupada, levantou o chaddar e colocou os pés dele sobre a própria cabeça. Depois, tomou a poeira dos pés dele e passou-a sobre a cabeça e os olhos. Outros devotos fizeram o mesmo, agarrando-se aos pés de lótus de Prabhupada.”¹⁵

Foi Pishima quem se colocou diretamente aos pés de lótus de Srila Prabhupada quando ele deixou este mundo mortal. Que devoto não ansiaria por semelhante bênção?

Durante toda a vida, ela permaneceu firme em sua devoção, não apenas como irmã dele, mas como humilde serva do grande acharya cujo próprio nome, Prabhupada, significa “aquele a cujos pés se sentam os mestres”. Foi ali que ela tomou seu lugar – de fato, literalmente – com o coração repleto de amor.

Dessa forma, a vida de Pishima completou um círculo: desde o apoio e o serviço oferecidos nos primeiros dias de Prabhupada até sua permanência ao lado dele nos momentos finais, ela personificou o espírito da devoção rendida. Estar a seus pés – figurativamente durante a vida e literalmente no momento de sua partida – é o sinal de uma alma que verdadeiramente compreendeu sua missão e a honrou com amor incondicional.

Notas

  1. A família pertencia à distinta linhagem De de Calcutá, conhecida por sua devotada adesão à tradição vaishnava de Chaitanya. Como membros da classe mercantil suvarna-vanik, dedicavam-se ao comércio de ouro e prata e mantinham antigos laços com a eminente família Mullik, nome célebre entre a aristocracia da Bengala. Sua linhagem ancestral pode ser traçada até Sri Uddharana Datta Thakura, um reverenciado associado do próprio Sri Chaitanya.
  1. “Srila Prabhupada: De modo geral, sim. Eles têm a oportunidade de ser treinados pela mãe e pelo pai. Felizmente, meu pai era um grande devoto, então recebi esse treinamento desde o início. De uma maneira ou de outra, eu tinha essa centelha da consciência de Krishna, e meu pai a percebeu.” Ver outubro de 1973, Dr. Gregory Benford, professor associado de física da Universidade da Califórnia em Irvine. Ver também Palestra de Chegada – Dallas, 3 de março de 1975: “Meu pai era vaishnava. Ele era vaishnava e queria que eu me tornasse vaishnava. Sempre que vinha alguma pessoa santa, ele lhe pedia: ‘Por favor, abençoe meu filho para que ele possa se tornar um servo de Radharani.’” E também Conversa nos Aposentos – 21 de agosto de 1976, Hyderabad: “Porque ele era um vaishnava puro. E queria que eu me tornasse um vaishnava puro. Ele orava a Radharani. Ele orava a Radharani. E sempre que vinha alguma pessoa santa, ele simplesmente dizia: ‘Dê bênçãos a meu filho para que ele possa se tornar servo de Radharani.’ Essa era a oração de meu pai.”
  1. Em bengali, termos específicos distinguem tias e tios dos diferentes lados da família. Por exemplo, pishima refere-se à irmã do pai, enquanto kaka e jetha são, respectivamente, os irmãos mais novo e mais velho do pai. Do lado materno, mama significa irmão da mãe, e mashi, irmã da mãe. Os cônjuges desses parentes também possuem termos específicos, como kakima (a esposa de kaka, o irmão mais novo do pai) e mamima (a esposa de mama, o irmão da mãe). Esses termos de parentesco refletem tanto os papéis familiares quanto nuances culturais.
  1. Ver Visakha Devi Dasi, Five Years, Eleven Months and a Lifetime of Unexpected Love.
  1. Ibid.
  1. A Mutty Lall Seal Free School and College foi fundada em 1842 por Motilal Seal, filantropo e reformador da educação comprometido em proporcionar educação acessível às crianças da comunidade local.
  1. Ver Mulaprakriti Devi Dasi, Our Srila Prabhupada: A Friend to All (Delhi: Brij Books, 2004), p. 105. A primeira e a segunda iniciações também são confirmadas em Mahamaya Devi Dasi, Srila Prabhupada Is Coming! (Alachua, Flórida: Holy Cow Books, 2000), p. 143. A segunda iniciação, sob os auspícios de Bhakti Saranga Goswami Maharaja, ocorreu no centro local da Gaudiya Matha em Taltala, situado no subdistrito de Maula Ali, área residencial que reunia comunidades tradicionais bengalis e muçulmanas de língua urdu.
  1. Sri Haridasa Dutta teve cinco filhos, sendo Rash Behari Dutta o mais velho. Assim, Bhavatarini Devi (Pishima) tornou-se a nora mais velha e a matriarca da família. Os nomes dos cinco filhos de Haridasa Dutta, em ordem de idade, são Rash Behari, Gokul Behari, Banku Behari, Krishna Chandra e Manik Chandra. Agradecimentos especiais a Kedarnath Dutta e Subrata Dutta, ambos abençoados como netos de Pishima, e a Radharamana Dasa, de Calcutá, que se comunicou com eles em meu nome. Foi graças à diligência e atenção deles que pude descobrir informações sobre a família de Pishima.
  1. A esposa de Gokul Behari faleceu apenas quatro anos depois do casamento, deixando dois filhos: Jugal Kishore, de dois anos, e Nanda Kumar, de três. Rash Behari e Pishima os adotaram como filhos, e criaram, ao todo, nove crianças. Os nomes de seus filhos biológicos eram Santosh Kumar, Sudhir Kumar, Surjya Kumar, Vishwanath, Govind Chandra, Chandra Kumar e Madan Dutta.
  1. Nartaka Gopala Dasi, em “Pishima”, ensaio não publicado. Tradicionalmente, o shukta é preparado com óleo de semente de mostarda, uma marca característica da culinária bengali. O aroma intenso e picante do óleo e sua profundidade peculiar de sabor são essenciais ao caráter do prato. Na cozinha de Pishima, o óleo de mostarda era primeiro aquecido até atingir o ponto de fumaça, suavizando sua pungência, antes de receber especiarias como sementes de nigela (kalo jeere), erva-doce, feno-grego e, às vezes, um toque de assafétida (hing). Em seguida, vinham o melão-amargo (karela) e outros legumes da estação, cuidadosamente combinados para produzir aquela mistura característica de amargor e picância.
  1. Correspondência pessoal, 10 de maio de 2025.
  1. Ver Giriraj Swami, I’ll Build You a Temple: The Juhu Story (Los Angeles: Bhaktivedanta Book Trust, 2021), p. 575.
  1. Ver Yamuna Devi, “Pishima, My Bengali ‘Aunt’”, em Volta ao Supremo (vol. 25, nº 2), março/abril de 1991.
  1. Todas as histórias de Mahamaya Devi Dasi sobre Pishima podem ser encontradas em seu livro Srila Prabhupada Is Coming!, op. cit.
  1. Ver Giriraj Swami, I’ll Build You a Temple: The Juhu Story, op. cit., p. 632.

Satyaraja Dasa, discípulo de Srila Prabhupada, é editor associado da Volta ao Supremo e editor fundador do Journal of Vaishnava Studies. É autor de mais de trinta livros sobre a consciência de Krishna e vive nas proximidades da cidade de Nova York.