A Fonte de Toda Satisfação

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A.C. Bhaktivedanta Swami Prabhupada
(Capítulo da obra Em Busca do Verdadeiro Eu)

Na busca pelo verdadeiro eu, a indicação mais clara de que estamos no caminho certo é se aceitamos a posição de servos.

Neste mundo material, todos estão tentando encontrar a felicidade e aliviar-se do sofrimento. Há três tipos de misérias causadas por nossa condição material: adhyatmika, adhibhautika e adhidaivika.

Os sofrimentos adhyatmika são aqueles causados pelo próprio corpo e pela própria mente. Por exemplo, quando há algum desarranjo das diferentes funções do metabolismo dentro do corpo, ficamos com febre ou sentimos dor. Outro tipo de sofrimento adhyatmika é causado pela mente. Suponham que eu perca alguém que me é querido. Minha mente, então, ficará perturbada. Isso também é sofrimento. Então, doenças do corpo ou perturbações mentais são sofrimentos adhyatmika.

Então, há os sofrimentos adhibhautika, sofrimentos causados por outras entidades vivas. Por exemplo, os seres humanos estão enviando milhões de pobres animais para o abate todos os dias. Os animais não podem se expressar, mas estão sofrendo imensamente. E nós também sofremos por conta de outras entidades vivas.

Finalmente, há os sofrimentos adhidaivika, aqueles causados por autoridades superiores, como os semideuses. Pode haver fome, terremoto, enchente, pestilência – muitíssimas coisas. Esses são os sofrimentos adhidaivika.

Então, estamos sempre experimentando um ou mais desses sofrimentos. Esta natureza material existe de tal modo que temos que sofrer; essa é a lei de Deus. E estamos tentando nos livrar do sofrimento através de uma mixórdia de remédios. Todos estão tentando encontrar alívio do sofrimento; isso é fato. Toda a peleja pela existência tem por meta o alívio do sofrimento.

Esses são vários tipos de remédios de que nos valemos para tentarmos nos aliviar de nosso sofrimento. Um remédio é oferecido pelos cientistas modernos, um pelos filósofos, outro pelos ateístas, outro pelos teístas, outro pelos trabalhadores fruitivos. Há muitíssimas ideias. Porém, de acordo com a filosofia da consciência de Krishna, você pode se livrar de todo o seu sofrimento caso você simplesmente mude sua consciência para a consciência de Krishna. Isso é tudo.

Todos os nossos sofrimentos se devem à ignorância. Nós nos esquecemos de que somos servos eternos de Krishna. Há um ótimo verso bengali que explica esse ponto:

krishna-bahirmukha haiya bhoga-vcha kare
nikata-stha m
aya tare japatiya dhare

Tão logo nossa consciência de Krishna original se polui com a consciência de desfrute material – a ideia de que quero me assenhorear dos recursos da matéria –, nossos problemas começam. Nós imediatamente caímos em maya, ilusão. Todos no mundo material estão pensando: “Posso desfrutar deste mundo ao máximo de minha capacidade”. Desde a minúscula formiga até a criatura mais elevada, Brahma, todos estão tentando se tornar um senhor. Em todo país, muitos políticos estão solicitando votos para se tornarem o presidente. Por quê? Querem se tornar algum tipo de senhor. Isso é ilusão.

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Há muitíssimas ideias para tentar colocar fim ao sofrimento, mas isso acontecerá apenas quando você mude sua consciência.

No Movimento para a Consciência de Krishna, nossa mentalidade é precisamente contrária. Estamos tentando nos tornar servos do servo do servo do servo de Krishna, gopi-bhartuh pada-kamalayor dasa-dasanudasah (Cc. Madhya 13.80). Em vez de tentarmos nos tornar um senhor, queremos nos tornar um servo de Krishna.

Agora, as pessoas talvez digam que isso é mentalidade de escravo: “Por que eu deveria me tornar um escravo? Devo me tornar mestre”. Mas não sabem que essa consciência – “Eu me tornarei o mestre” – é a causa de todo o seu sofrimento. Isso precisa ser compreendido. Em nome de se tornar mestre deste mundo material, tornamo-nos servos de nossos sentidos.

Não podemos deixar de servir. Todos nós somos servos. Aqueles que adotaram a consciência de Krishna concordaram em se tornar servos de Krishna, motivo pelo qual seu problema está resolvido. Outros, porém, estão pensando: “Por que eu deveria me tornar servo de Deus? Devo me tornar mestre”. Na verdade, ninguém pode se tornar mestre. E se alguém tenta se tornar mestre, ele simplesmente se torna servo de seus sentidos. Isso é tudo. Ele se torna servo de sua luxúria, servo de sua avareza, servo de sua ira – servo de muitíssimas coisas.

Em um estágio superior, o indivíduo se torna servo da humanidade, servo da sociedade, servo de seu país. Contudo, o verdadeiro propósito é se tornar o mestre. Essa é a doença. Os candidatos à presidência estão apresentando suas diferentes promessas: “Servirei o país muito bem. Por favor, me deem o seu voto”. A verdadeira ideia deles, todavia, é se tornarem o mestre do país. Isso é ilusão.

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Os candidatos à presidência prometem servir o país, mas, na verdade, querem se tornar o mestre do país.

Então, devemos compreender este importante ponto filosófico: constitucionalmente, somos servos. Ninguém pode dizer: “Sou livre; sou o mestre”. Se alguém pensa dessa maneira, está em ilusão. Alguém pode dizer que não é servo de nada nem de ninguém? Não, porque nossa posição constitucional é servir.

Podemos servir Krishna ou podemos servir nossos sentidos. Contudo, a dificuldade é que, por servirmos nossos sentidos, nós simplesmente ampliamos o nosso sofrimento. Por ora, você talvez fique satisfeito por usar alguma droga. E, sob seu efeito, você pode pensar que não é servo de ninguém, que é livre. Essa ideia, todavia, é artificial. Tão logo a alucinação se vai, novamente você vê que é servo.

Então, estamos sendo forçados a servir, mas não queremos servir. Qual é o ajuste a ser feito? A consciência de Krishna. Se você se torna servo de Krishna, sua aspiração a se tornar mestre é imediatamente atingida. Tomemos por exemplo as pinturas em que vemos Krishna e Arjuna. Krishna é o Senhor Supremo; Arjuna é um ser humano. Contudo, Arjuna ama Krishna como amigo, e, em resposta ao amor amical de Arjuna, Krishna Se tornou seu quadrigário, seu servo. Similarmente, se nos restabelecermos em nosso relacionamento amoroso transcendental com Krishna, nossa aspiração a mestre será atendida. Se você concordar em servir Krishna, você gradualmente verá que Krishna também está servindo você. Isso é uma questão de perfeição.

Então, se queremos nos livrar do serviço a este mundo material, o serviço aos nossos sentidos, temos que direcionar nosso serviço para Krishna. Isso é a consciência de Krishna.

Srila Rupa Gosvami cita um ótimo verso em seu Bhakti-rasamrita-sindhu quanto ao serviço aos sentidos: kamadinam kati na katidha palita durnidesa. No verso, um devoto está dizendo a Krishna que serviu seus sentidos por um longo tempo (kamadinam kati na katidha). Kama significa “luxúria”. Ele diz: “Pelos ditames de minha luxúria, fiz o que eu não deveria ter feito”. Quando alguém é escravo, é forçado a fazer coisas que ele não quer fazer. É forçado. Então, aqui o devoto está admitindo que, sob o ditame de sua luxúria, fez coisas pecaminosas.

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Quando alguém é escravo de seus sentidos, é obrigado a fazer coisas que não gostaria.

Então, alguém talvez diga ao devoto: “Tudo bem, você serviu seus sentidos. Agora, entretanto, você parou de servi-los. Agora, está tudo bem”. Mas a dificuldade é esta: tesham jata mayi na karuna na trapa nopasantih. O devoto diz: “Servi demais os meus sentidos, mas vejo que não estão satisfeitos. Essa é a minha dificuldade. Nem meus sentidos estão satisfeitos nem eu estou satisfeito, tampouco meus sentidos são gentis o bastante para me darem algum alívio, algum pagamento pelo serviço que prestei. Essa é a minha posição. Pensei que, por ter servido meus sentidos por tantos anos, eles estariam satisfeitos. Mas não: não estão. Continuam sua tirania sobre mim”.

Aqui posso revelar algo que um de meus alunos me disse: já na velhice, sua mãe se casará. E outra pessoa se queixou que sua avó também se casou. Vejam só: cinquenta anos, setenta e cinco anos, e os sentidos ainda são tão fortes que estão ditando: “Sim, você tem que se casar”. Tentem compreender quão fortes são os sentidos. Não são apenas os jovens que são servos de seus sentidos. A pessoa pode ter setenta e cinco anos, oitenta anos ou até mesmo estar à beira da morte – ainda assim, é serva dos sentidos. Os sentidos jamais estão satisfeitos.

Então, esta é a situação material. Somos servos de nossos sentidos, mas, servindo os nossos sentidos, nem nós nem nossos sentidos estão satisfeitos, tampouco nossos sentidos são misericordiosos conosco. Há caos!

O melhor, portanto, é se tornar servo de Krishna. Na Bhagavad-gita (18.66), Krishna diz:

sarva-dharman parityajya
mam ekam sarana
vraja
aham tv
am sarva-papebhyo
mokshayishy
ami ma sucah

Você tem servido seus sentidos há muitíssimas vidas, nascimento após nascimento, em 8.400.000 espécies. Os pássaros estão servindo seus sentidos, as bestas estão servindo seus sentidos, os seres humanos, os semideuses – todos dentro deste mundo material estão buscando a gratificação sensorial. “Então”, Krishna diz, “simplesmente rende-te a Mim. Simplesmente concorda em servir-Me e Me encarregarei de ti. Ficarás livre dos ditames de teus sentidos”.

Por causa dos ditames dos sentidos, estamos cometendo atividades pecaminosas vida após vida. Por conseguinte, estamos em diferentes graus de corpos. Não pensem que todos vocês estão no mesmo padrão. Não. De acordo com as próprias atividades, o sujeito obtém determinado tipo de corpo. E esses diferentes tipos de corpos conferem ao sujeito diferentes graus de gratificação sensória. Há gratificação dos sentidos na vida do porco também, mas é de um nível baixíssimo. O porco é tão sensual que não hesita em fazer sexo com sua mãe, com sua irmã ou com sua filha. Mesmo na sociedade humana, há pessoas que não se importam em fazer sexo com sua mãe ou irmã. Os sentidos são fortíssimos.

Então, devemos tentar compreender que servir os ditames de nossos sentidos é a causa de todas as nossas misérias. As misérias tríplices a que estamos submetidos – as misérias das quais estamos tentando nos livrar – se devem a esse ditame dos sentidos. Porém, se nos atraímos ao serviço a Krishna, não mais seremos forçados a seguir o ditame de nossos sentidos. Um nome de Krishna é Madana-mohana: “Aquele que conquista o Cupido, ou a luxúria”. Se você retirar seu amor dos sentidos e depositá-lo em Krishna, você se livrará de todas as misérias – imediatamente.

Portanto, esse empenho para ser o mestre – “Sou o monarca de tudo o que contemplo” – deve ser abandonado. Todos nós somos servos por constituição. Agora, estamos servindo os nossos sentidos, mas devemos direcionar esse serviço a Krishna. E quando você serve Krishna, Ele gradualmente Se revela a você, à proporção que cresce sua sinceridade. Assim, a reciprocação entre Krishna e você será excelente. Você pode amá-lO como um amigo ou como um mestre ou como um amante – há muitíssimas maneiras de amar Krishna.

Então, vocês devem tentar amar Krishna, em consequência do que vocês verão o quanto ficarão satisfeitos. Não existe outro caminho para a satisfação plena. Obter grandes somas de dinheiro jamais lhes dará satisfação. Certa vez, conheci um cavalheiro em Calcutá que ganhava seis mil dólares por mês. Ele cometeu suicídio. Por quê? Aquele dinheiro não lhe pôde dar satisfação. Ele estava tentando ter outra coisa.

Então, meu humilde pedido a todos vocês é que tentem compreender esta sublime bênção da vida, a consciência de Krishna. Simplesmente por cantarem Hare Krishna, vocês desenvolverão gradualmente uma atitude amorosa transcendental para com Krishna, e, tão logo comecem a amar Krishna, todos os seus problemas serão erradicados e experimentarão completa satisfação.

Muito obrigado. Alguma pergunta?

Pergunta: Quando ocupamos a energia material a serviço de Krishna, o que acontece com ela? É espiritualizada?

Srila Prabhupada: Quando um fio de cobre está em contato com a eletricidade, não é mais cobre; é eletricidade. Similarmente, quando você aplica sua energia a serviço de Krishna, não é mais energia material, mas, sim, energia espiritual. Então, no mesmo instante em que você se ocupe a serviço de Krishna, você se livra dos ditames da energia material. Krishna declara isto na Bhagavad-gita (14.26):

mam ca yo ‘vyabhicarena
bhakti-yogena sevate
sa gun
an samatityaitan
brahma-bh
uyaya kalpate

“Qualquer um que se ocupe seriamente a Meu serviço imediatamente se torna transcendental às qualidades materiais e chega à plataforma Brahman, ou espírito”.

Então, quando você aplica sua energia a serviço de Krishna, não pense que ela permanece material. Tudo utilizado no serviço a Krishna é espiritual. Por exemplo, todos os dias distribuímos fruta prasada [fruta que foi oferecida a Krishna]. Agora, alguém talvez pergunte: “Por que essa fruta é diferente de uma fruta comum? Foi comprada no mercado como qualquer outra fruta. Também comemos frutas em casa. Qual é a diferença?” Não. Porque oferecemos a fruta para Krishna, ela imediatamente se torna espiritual. O resultado? Simplesmente siga comendo krishna-prasada e você verá como estará avançando em consciência de Krishna.

Aqui está outro exemplo. Se você beber uma grande quantidade de leite, pode haver alguma desordem em seus intestinos. Se você for a um médico – ao menos é o que acontece se você vai a um médico aiurvédico –, ele oferecerá uma preparação médica feita com iogurte. E esse iogurte, com um pouco de medicamento, curará você. Agora, iogurte não é nada senão leite transformado. Então, sua doença foi causada por leite e também é curada por leite. Como pode ser assim? Porque você está se medicando sob a direção de um médico qualificado. Similarmente, se você ocupa a energia material a serviço de Krishna sob a direção de um mestre espiritual fidedigno, essa mesma energia material que foi a causa de seu condicionamento levará você ao estágio transcendental, além de toda miséria.

Pergunta: Como o senhor é capaz de tornar tudo tão simples de ser entendido?

Srila Prabhupada: Porque toda a filosofia é muito simples. Deus é grande. Você não é grande. Não alegue ser Deus. Não alegue que Deus não existe. Deus é infinito, e você é infinitesimal. Então, qual é a sua posição? Você tem que servir Deus, Krishna. Trata-se de uma verdade simples. A atitude de rebeldia contra Deus é maya, ilusão. Qualquer um que esteja declarando ser Deus ou que você é Deus ou que Deus não existe ou que Deus está morto – eis alguém sob o encanto de maya.

Quando um homem é assombrado por um fantasma, ele fala todo tipo de bobagem. Similarmente, quando alguém é assombrado por maya, ele diz: “Deus está morto. Eu sou Deus. Por que você está procurando por Deus? Há muitíssimos Deuses vagando pela rua”. Pessoas que falam dessa maneira são todas assombradas, perturbadas.

É preciso curá-las mediante a vibração do som transcendental do mantra Hare Krishna. Essa é a cura. Simplesmente deixemos que ouçam. Então, pouco a pouco, serão curadas. Quando um indivíduo está dormindo muito profundamente, você pode gritar do lado dele para que acorde. O mantra Hare Krishna, de igual modo, pode despertar a sociedade humana adormecida. Os Vedas dizem, uttishthata jagrata prapya varan nibodhata: “Ó ser humano, por favor, desperta! Não continues a dormir. Tens a oportunidade de um corpo humano. Utiliza-o. Retira-te das garras de maya”. Essa é a declaração dos Vedas.

 

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