A Forma Universal: Suas Revelações e Implicações

A Forma Universal: Suas Revelações e Implicações 1

Satyaraja Dasa

Eu e Rajiv somos amigos há muitos anos, e nossas conversas frequentemente suscitam o comediante que há nele. Gozamos de uma certa descontração que parece sempre nos aproximar. Algumas vezes, seu senso de humor incorpora ideias espirituais. Por exemplo, ele recentemente me disse que sua vida era absolutamente perfeita. Em quase todas as áreas em que se empenhava, ele disse, o destino conspirava a seu favor. Eu perguntei qual ele achava ser a razão para isso.

“Bem, porque eu sou Deus, você não sabia?”.

Embora engraçado, seu comentário iniciou uma séria discussão, e apontamos que na Índia, onde Rajiv nasceu, há numerosos “homens-Deus” clamando serem alguma sorte de manifestação de divindade.

O problema pode ser mais sutil no Ocidente, mas temos isso aqui também. Muitos de nós conhecemos o egotismo. Levando isso ao extremo, o pensamento dos egotistas se revela como o que eu chamaria de um sério “complexo de Deus”, considerando-se o desfrutador último, o propósito central do universo. Se eles não dizem isso diretamente, é frequentemente uma atitude oculta ou subliminar. De alguma forma, a noção de ser o Supremo se insinua fortemente.

Por essa razão, os grandes instrutores da Índia julgaram necessário estabelecer fatores qualitativos que determinam quem é legitimamente uma manifestação de Deus – e quem não é. Mencionei uma abordagem em minha conversa com Rajiv: Encarnações de Deus são preditas nas escrituras, eu disse, frequentemente com detalhes bastante específicos. Sri Chaitanya Mahaprabhu, por exemplo, é profetizado no Vayu Purana, entre outros lugares, onde encontramos que Sua mãe, Saci, é mencionada pelo nome. Esse mesmo texto informa-nos o local onde apareceria, Navadvipa, e também Sua missão: inaugurar o movimento de sankirtana, ou o movimento centrado no canto do santo nome. E quando as escrituras não disponibilizam detalhes, descrevem características corpóreas e atributos pessoais pelos quais se pode reconhecer uma encarnação.

Introduzindo a Forma Universal

Mas o que mais interessou o meu amigo foi minha descrição da forma universal (virat-rupa) do Senhor Krishna. Rajiv lera o Bhagavad-gita, e sabia que o Capítulo Onze centrava-se na revelação de Krishna de Sua Divindade. Krishna mostra a Arjuna uma manifestação mística estarrecedora, que inclui a criação e a aniquilação, seres vivos multifários, o tempo que a tudo devora e os diversos elementos materiais – tudo junto em um só lugar. Rajiv nunca refletira sobre algo nisso: A forma universal é um bom teste para determinar quem é uma encarnação e quem não é.

Quando cheguei em casa, enviei para ele por e-mail uma passagem do comentário de Prabhupada sobre o Srimad-Bhagavatam (2.1.24): “A virat-rupa do Senhor foi manifesta especialmente, não para o benefício de Arjuna, mas para aquela classe ininteligente de homens que aceita todo e qualquer sujeito como uma encarnação do Senhor e assim desorientam a massa de pessoas em geral. Para eles, a indicação é que se deve solicitar à encarnação barata que exiba sua virat-rupa e, dessa maneira, se estabeleça como uma encarnação”.

Eu e Rajiv concordamos que isso desmascararia muitas pessoas. Indagadas em relação a se poderiam manifestar algo ao menos remotamente semelhante à forma universal como descrita no Gita, compreenderiam a tolice de sua alegação de divindade e aceitariam sua subserviência a Deus, ao menos em teoria, se não em prática.

Rajiv perguntou-se alto: “Arjuna poderia ter imaginado isso? É possível que Krishna tenha, de alguma maneira, enganado-o?”.

Isso não é o que a tradição ensina, e se alguém estudar o relacionamento entre Krishna e Arjuna como expresso no Mahabharata, torna-se claro que havia um amor profundo entre os dois. Krishna não buscava enganar Arjuna, mas edificá-lo, iluminá-lo.

Ademais, enganar alguém como Arjuna, eu disse a Rajiv, era algo improvável. Ele era um oficial do governo de cargo elevado e amplamente respeitado, não apenas por suas habilidades militares, mas também por seu julgamento sóbrio e liderança firme. Ele não podia ser facilmente enganado a ver uma forma que, ostensivelmente, incluía todos os aspectos da existência, incluindo coisas que não lhe era possível conhecer, como o começo da criação e a dissolução vindoura – e até mesmo particularidades da guerra prestes a ser travada diante de seus olhos.

Rajiv concordou.

As Cinco Revelações

Apontei ainda que Krishna mostrara a forma universal a outros, deixando claro que esse caso em particular não era uma aberração. Os passatempos manifestos de Krishna incluem cinco exemplos dessa revelação em particular.

Krishna primeiramente revelou essa forma duas vezes à Sua mãe, Yashoda. Lemos no Décimo Canto do Srimad-Bhagavatam (10.7.35-37) que, quando o infante Krishna certa vez bocejou alegremente, Sua mãe viu em Sua boca o céu e a Terra, as estrelas, os oceanos, os continentes e tudo o que é móvel e inerte. Um incidente similar ocorreu pouco depois, quando aconteceu de seu divino filho comer terra (10.8.37-39):

Quando Krishna abriu amplamente Sua boca pela ordem de mãe Yashoda, ela viu dentro de Sua boca todas as entidades móveis e imóveis, o espaço exterior e todas as direções, bem como as montanhas, ilhas, oceanos, a superfície terrestre, o vento a soprar, o fogo, a Lua e as estrelas. Viu os sistemas planetários, a água, a luz, o ar, o céu e a criação pela transformação do ahankara. Ela também viu os sentidos, a mente, a percepção sensorial e as três qualidades conhecidas como bondade, paixão e ignorância. Viu o tempo designado às entidades vivas, viu o instinto natural e as reações do karma, e viu os desejos e as variedades de corpos, móveis e inertes. Vendo todos esses aspectos da manifestação cósmica, bem como ela mesma e Vrindavana-dhama, ficou confusa e temerosa em relação à natureza de seu filho.

A Forma Universal: Suas Revelações e Implicações 2

Foto: Yashoda olha dentro da boca de Krishna.

Sendo uma dócil devota que desfruta de uma relação íntima com o Supremo, Yashoda, assim como Arjuna, preferia vê-lO em Sua adorável (e original) forma de dois braços como Krishna, seu amado filho. A forma universal estabelece a Divindade do Senhor Krishna para aqueles em um nível rudimentar de espiritualidade. A base filosófica dessa verdade se encontra esporadicamente nos primeiros cinco cantos do Srimad-Bhagavatam, onde se revela que a forma universal é uma manifestação temporária do Senhor, que engloba todas as coisas criadas. Isso é especialmente apontado em Srimad-Bhagavatam 1.3.30: “A concepção da forma universal virat do Senhor, como aparece no mundo material, é imaginária. Tem por finalidade permitir que os homens menos inteligentes e neófitos adaptem-se à ideia de que o Senhor tem uma forma. Na verdade, entretanto, o Senhor não tem forma material”.

Por que o Senhor mostrou essa forma a devotos superiores, como Yashoda e Arjuna? A resposta é simples, como Prabhupada explica: Através deles, Krishna revelou o fato de Sua divindade para as futuras gerações de descrentes e céticos (pessoas como eu), esperando conferir-lhes fé.

Após mostrar a forma à mãe Yashoda nessas duas ocasiões, muitos anos se passaram antes que o Senhor Krishna a revelasse mais uma vez. A terceira ocasião se deu no salão de assembleia dos Kurus, como descrito no quinto livro do Mahabharata. Ali, no Udyoga-parva, lemos que Krishna chegou à corte Kaurava em uma missão de paz e tentou impedir que acontecesse a devastadora guerra de Kurukshetra. Duryodhana não apenas não deu atenção às Suas palavras de reconciliação, mas ordenou que Krishan fosse preso e amarrado por cordas. Em resposta, o Senhor riu vigorosamente e exibiu uma porção da forma embasbacante que posteriormente mostraria a Arjuna.

Nesse evento, descreve-se que Krishna manifestou inumeráveis braços, cada um com armas que brilhavam cegantemente. Na verdade, toda a Sua forma parecia um vulcão em erupção, e de Seu corpo, similar a um raio, um vasto número de semideuses surgiu, incluindo Brahma, surgindo de Sua fronte, e Shiva, surgindo de Seu peito. Com efeito, Sua forma exibiu a essência de todas as entidades, tanto grandes quanto pequenas. Fogo emanava de Sua boca e dos poros de Sua pele, em virtude do que parecia o Sol com seus raios.

Duryodhana, especialmente, não era capaz de olhar para aquela forma devastadoramente fulgurante, e os demais reis Kauravas também fecharam seus olhos devido ao temor. Somente Bhisma, Drona, Karna, Vidura, Sanjaya e os sábios presentes puderam contemplar aquela manifestação divina. Os cidadãos do paraíso derramavam flores, e o som de timbales e búzios se faziam ouvir em todas as direções.

O rei cego, Dhrtarastra, pai de Duryodhana, ouviu a comoção e orou a Krishna pedindo que permitisse que ele também visse o que testemunhavam os Kauravas. Krishna outorgou-lhe visão momentânea, dando-lhe a habilidade divina de ver o invisível.

Depois de desorientar os Kauravas, o Senhor Krishna recolheu Sua forma universal e, acompanhado por Satyaki e Kritavarma, deixou o palácio, ciente de que a guerra era inevitável.

Foi pouco depois desse evento, momentos antes da Batalha de Kurukshetra, que Krishna revelou a forma universal em toda sua plenitude para Arjuna. Essa foi a quarta vez em que a revelou. Como eu disse, a revelação no salão de assembleia Kaurava fora uma manifestação parcial. Agora eu digo “em toda sua plenitude” porque Prabhupada indica que a versão particularmente exibida perante o divino arqueiro foi única:

Ninguém antes de Arjuna vira essa forma universal do Senhor, mas porque a forma foi mostrada a Arjuna, outros devotos nos planetas celestiais e em outros planetas no espaço exterior puderam vê-la também. Eles não a viram antes, mas por causa de Arjuna puderam vê-la. Em outras palavras, todos os devotos discipulares do Senhor puderam ver a forma universal mostrada a Arjuna pela misericórdia de Krishna. Alguém comentou que essa forma foi mostrada também a Duryodhana quando Krishna foi até Duryodhana a fim de negociar a paz. Infelizmente, Duryodhana não aceitou a oferta de paz, mas, naquele momento, Krishna manifestou algo de Sua forma universal. Mas aquelas formas são diferentes desta mostrada a Arjuna. É dito claramente que ninguém antes vira essa forma. (O Bhagavad-gita Como Ele É 11.47, significado)

Na verdade, muitos viram a forma universal na hora da batalha; não apenas Arjuna. O afamado comentador Baladeva Vidyabhushana diz em sua glosa ao Bhagavad-gita 11.20:

Entende-se que agora, para verem a guerra, devas, asuras, gandharvas, kinnaras e outros que eram amigáveis ou neutros haviam se reunido. Não apenas Arjuna recebeu olhos celestiais. O Senhor também lhes deu olhos celestiais para ver essa forma. Se apenas Arjuna pudesse ver essa forma, teria sido como uma pessoa que, dormindo, vê quadrigas e outros objetos em um sonho enquanto outros não podem vê-los. O Senhor fez essa exibição de modo que muitos outros pudessem testemunhar Seus poderes.

A Quinta e Última Revelação

O Senhor manifestou Sua forma universal a Uttanka no décimo quarto livro do Mahabharata (Asvamedha-parva 52-54). Ali, lemos que, logo após a Batalha de Kuruksetra, Krishna viajou para Dwarka e, no caminho, encontrou-Se com um velho amigo, o sábio Uttanka. Eles pararam para conversar e Krishna inteirou-o dos detalhes da guerra. Uttanka julgou desconcertante que Krishna não houvesse impedido os acontecimentos, uma vez que Ele certamente tinha poder para fazê-lo. Conforme a conversa se acalorava, Uttanka ameaçou amaldiçoar o Senhor com seus poderes místicos. Krishna, contudo, disse-lhe que tal maldição seria sem efeito, dado que, como Deus, era Ele a fonte de todos os poderes místicos.

Uttanka duvidou que Krishna fosse poderoso o bastante para evitar a imprecação, motivo pelo qual O desafiou:

“É verdade que és não outro senão o Senhor universal? Se esse é o caso, por favor, prova-me isso”.

Krishna, nesse momento, manifestou Sua virat-rupa. Uttanka foi particularmente abençoado, pois o Mahabharata (14.54.4) nos informa que lhe foi permitida a mesma visão que Krishna mostrara anteriormente a Arjuna.

Maravilhado, Uttanka glorificou os muitos atributos superlativos de Krishna e, como nos casos de Yashoda e Arjuna, rogou-Lhe que recolhesse Sua opressiva manifestação. Krishna o fez, após o que outorgou uma bênção a Uttanka: Garantiu-lhe que teria água quando quer que precisasse, jamais sentindo sede.

A curiosa bênção fez sentido quando, alguns anos mais tarde, Uttanka deu consigo no deserto. Quase morrendo de sede, encontrou alívio quando nuvens de chuva surgiram misteriosamente, fornecendo água em seu momento de necessidade. Hoje, na Índia, quando nuvens aparecem no deserto ou durante secas, elas são referidas como “Nuvens de Uttanka”, ou uttanka-megha.

Rajiv lembrou-me que Vamanadeva, outra encarnação de Krishna, certa vez exibira a forma universal diante de um grande rei (vide o comentário de Prabhupada ao Srimad-Bhagavatam 8.21.5).

Isso me lembrou ainda de outra revelação: Sri Chaitanya Mahaprabhu mostrou a forma universal a Seus devotos íntimos. O Caitanya-caritamrta (Adi 17.10) menciona brevemente que Advaita Acarya teve uma visão da virat-rupa. O Caitanya-bhagavata (Madhya 14) desenvolve, descrevendo que foram Sri Advaita e Nityananda Prabhu os receptáculos dessa confidencial manifestação do Supremo e que, ao verem-na, dançaram como jubilantes pavões. Eles sentiram que, por causa dessa forma, o mundo agora se conscientizaria da divindade de Sri Chaitanya.

Ao fim de nossa discussão, eu disse a Rajiv: “Nos Estados Unidos, capítulo onze se refere a falência. E no Gita, capítulo onze indica um tipo de falência – a falência espiritual daqueles que alegam ser Deus”.

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Uma resposta

  1. Eu possuo profunda reverência a essa manifestação. Quando ao ler o Bhagavad-Gita e chego a esse momento da batalha me sinto transportado, ou melhor anulado… Como se não existisse nada além que a forma manifesta representada.

    23 de junho de 2015 às 12:37 AM

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