A Grande Fuga de Sanatana

-16 (artigo - Caitanya e Associados) A Grande Fuga de Sanatana (2453) (ta)Mathuresha Dasa

Uma prisão injusta, ladrões dispostos a matar, a perseguição de soldados a serviço de um ditador muçulmano – esses e outros obstáculos não poderiam impedir Sanatana de ir ter com o seu destino.

Sanatana Gosvami afastou-se de seu posto de ministro no governo muçulmano na Bengala do século XVI, tendo decidido dedicar sua vida à missão de Sri Chaitanya Mahaprabhu. O Nababo, ou governador, aprisionou Sanatana, irado com sua resignação. Ouvimos, agora, como Sanatana conheceu o Senhor Chaitanya em Varanasi (Uttar Pradesh) e contou sua fuga da prisão e sua jornada pela Bengala.

Sanatana Gosvami entrou na cidade de Varanasi no princípio da primavera de 1514. Tendo viajado por trilhas na floresta e estradas abandonadas pela Bengala e por Bihar, ele vestia roupas velhas e rasgadas. Seu longo cabelo, barba e bigode estavam bagunçados e empoeirados, e ele carregava uma cuia de esmolas em sua mão. Feliz ao ouvir que o Senhor Chaitanya Mahaprabhu havia chegado de barco a Allahabad, Sanatana foi até a casa de Chandrashekhara, onde o Senhor estava hospedado, e sentou-se junto à porta de entrada.

Sri Chaitanya Mahaprabhu pôde entender que Sanatana estava do lado de fora.

“Chandrashekhara”, Ele disse, “há um vaishnava, um devoto Hare Krishna, à sua porta. Por favor, vá e convide-o a entrar”.

Chandrashekhara foi lá fora para ver e, não vendo nenhum vaishnava, voltou.

“Mas há alguma pessoa lá fora?”, o Senhor perguntou.

“Só um mendicante muçulmano”, Chandrashekhara respondeu.

“Por favor, traga-o aqui”.

Voltando imediatamente à porta, Chandrashekhara dirigiu-se a Sanatana.

“Caro mendicante muçulmano”, ele disse, “tenha a bondade de entrar. O Senhor está lhe chamando”.

Satisfeito com esse convite, Sanatana entrou na casa, e o Senhor Chaitanya levantou-Se prontamente para abraçá-lo, dar-lhe boas-vindas e oferecer-lhe um assento ao Seu lado. O Senhor Chaitanya é a Suprema Personalidade de Deus fazendo o papel de Seu próprio devoto. Em ambas as posições, como Senhor e como devoto, Ele estava ávido por dar boas-vindas a Seu visitante vaishnava. Apesar dos protestos de Sanatana, Ele glorificou a influência santa de Sanatana como superior até mesmo a lugares sagrados como Varanasi. O Senhor citou um verso do Srimad-Bhagavatam (1.13.10): “Santos como você são em si mesmos lugares de peregrinação. Por causa de sua pureza, eles são companhias constantes do Senhor e, portanto, podem purificar até mesmo os locais de peregrinação”.

Poucas semanas atrás, Sri Chaitanya Mahaprabhu havia Se encontrado com o irmão de Sanatana, Rupa Gosvami, em Allahabad. O Senhor havia instruído Rupa acerca da evolução da alma, primeiramente através de espécies materiais de vida neste universo e, então, sua evolução depois de estar de volta ao céu espiritual. Pelos próximos dois meses em Varanasi, o Senhor Chaitanya desenvolveria esses e outros temas em Seus ensinamentos a Sanatana Gosvami. Ele descreveria como o Senhor Supremo Se expande para presidir individualmente todos os inumeráveis planetas espirituais e para criar e governar os universos materiais. Ele informaria Sanatana sobre a localização e a dimensão dos planetas espirituais e sobre as atividades e a identidade de seus habitantes com a mesma precisão que se podem descrever os continentes e as nações desta Terra. E Ele delinearia a rota direta do cosmos material temporário e escuro até aqueles destinos espirituais autorrefulgentes e livres de nascimentos e mortes com a mesma clareza e detalhes dos mais modernos mapas de estradas e guias de viagem.

Apesar da elevada e revolucionária natureza desses tópicos transcendentais, o Senhor Sri Chaitanya Mahaprabhu estava curioso por ouvir sobre as recentes viagens e aventuras de Sanatana.

“Como você escapou da prisão?”, o Senhor ansiosamente perguntou, e Sanatana, com muita satisfação, contou sua história do começo ao fim.

Afortunado Carcereiro

Sanatana contou como, amarrado com correntes de ferro na prisão de Chika Mosjud, perto de Ramakeli, Bengala, ele recebera um bilhete de Rupa, seu irmão mais novo.

“Meu querido Sanatana”, Rupa Gosvami escrevera, “deixei uma quantia de dez mil moedas de ouro com um mercador local. Use aquele dinheiro para sair da prisão e venha encontrar o Senhor Sri Chaitanya Mahaprabhu em Mathura e em Vrindavana”.

Para encorajar Sanatana ainda mais, Rupa incluiu em seu bilhete um belo e misterioso verso em sânscrito:

yadu-pateh kva gata mathura-puri
raghu-pateh kva gatottara-koshala
iti vicintya kurusva manah sthiram
na sad idam jagad ity avadharaya

“Para onde foi a cidade de Mathura conhecida como Yadupati? Para onde foi a província de Koshala do norte, Raghupati? Refletindo, a mente se torna estável, pensando: ‘Este universo não é eterno’”.

Yadupati é um nome do Senhor Krishna, e Raghupati é um nome do Senhor Ramachandra. Muito tempo atrás, Eles apareceram neste planeta e atuaram como seres humanos, exibindo Seus eternos passatempos na cidade de Mathura e na província de Koshala respectivamente. Agora, Eles haviam aparecido novamente como o Senhor Chaitanya Mahaprabhu para libertarem os prisioneiros desta vida material neste universo temporário, e o Senhor Chaitanya já estava em Seu caminho para Mathura, acompanhado por Rupa Gosvami.

Extasiado com o bilhete, Sanatana se dirigiu ao carcereiro muçulmano, um conhecido seu do tempo do governo – um homem simples com pouca educação ou instrução espiritual. Invocando as habilidades diplomáticas desenvolvidas durante seus anos como primeiro ministro do nababo, Sanatana começou a satisfazer o humilde guarda com bendizeres.

“Caro senhor”, Sanatana começou, “você é uma pessoa muito afortunada, um santo em vida e um erudito versado no conhecimento do Corão e livros similares. Então, você deve saber que, se você libera um prisioneiro, de acordo com os princípios de sua religião, você é abençoado pelo Senhor Supremo”.

Tocado pelas palavras agradáveis de seu colega de governo, o carcereiro não pôde negar que ele era, de fato, um erudito e santo. Ele ouvia com grande atenção enquanto Sanatana continuava, frisando a longa amizade entre eles e pedindo que ele o libertasse como um favor pessoal.

“Anteriormente, eu fiz muito por você”, Sanatana disse. “Agora, estou em dificuldade. Por favor, libertando-me, devolva a felicidade de minha vida”.

Sanatana adoçou a amizade entre eles com uma oferta de cinco mil moedas de ouro. Aceitando o ouro e liberando um prisioneiro inocente, Sanatana explicou a seu amigo carcereiro que ele acumularia tanto atividades piedosas quanto riquezas materiais. Ele teria o melhor dos dois mundos.

“Por favor, escute-me, caro senhor”, o carcereiro disse ansioso. “Eu quero muito deixá-lo ir, porque você fez muito por mim quando trabalhávamos juntos para o governo. Contudo, eu temo o que nababo fará quando souber que você está livre. Eu terei de explicar. O que eu direi?”.

Sanatana tinha uma história.

“Não há perigo”, ele assegurou a seu amigo. “O nababo partiu para o sul para conquistar Orissa. Se ele voltar, diga a ele que eu fui fazer minhas necessidades próximo da margem do rio Ganges e que, quando vi o Ganges, pulei imediatamente dentro de suas águas. Diga a ele: ‘Eu procurei por um longo tempo, mas não pude encontrar nenhum sinal dele. Ele pulou com suas algemas e afogou-se, levado pela correnteza’”.

“E não se preocupe”, Sanatana adicionou. “Ninguém me encontrará. Eu me tornarei um mendicante e irei para a cidade sagrada de Meca”.

Assim, o carcereiro tinha uma desculpa para o nababo, uma desculpa religiosa para sua própria consciência e uma promessa de cinco mil moedas de ouro. Ele ainda estava ansioso e indeciso, quando Sanatana subiu sua oferta para sete mil moedas de ouro e lentamente as derramou do saco perante o guarda. Vendo a pilha de ouro reluzente crescer diante de seus olhos, o carcereiro finalmente aceitou. Naquela noite, ele quebrou as correntes que prendiam Sanatana e o deixou escapar pelo Ganges.

Jornada Perigosa

Embora ele tivesse ficado ainda com três mil moedas de ouro, e tivesse centenas de quilômetros para viajar da Bengala para Mathura e Vrindavana, Sanatana deixou para trás todo o ouro e partiu a pé, observando o papel de um pedinte. O dinheiro comprara sua liberdade para servir o Senhor Chaitanya, mas ele não tinha nenhum interesse em gastar o dinheiro para comprar uma viagem confortável ou algo do tipo. Como fugitivo, bem como um homem famoso, Sanatana tinha de evitar ser notado. Usando estradas abandonadas e trilhas, ele se manteve afastado da rodovia oficial conhecida como “o caminho das muralhas”, que o nababo havia fortificado contra invasões.

Um servo chamado Ishana acompanhou Sanatana e, apesar das evidentes precauções de seu mestre, Ishana secretamente carregava oito moedas de ouro. Cruzando o que é hoje conhecido como a província de Bihar, Sanatana e Ishana chegaram a uma área montanhosa conhecida como Patada e pararam em um pequeno hotel, onde o ouro demonstrou-se quase fatal. O dono do hotel ficou sabendo das oito moedas através de um vidente perito e planejou roubar e matar seus dois hóspedes. Ele, então, demonstrou aparente respeito e preocupações com suas necessidades, fornecendo comida para que eles cozinhassem e prometendo guiá-los pelas montanhas.

Sanatana foi até o rio para se banhar e, uma vez que ele não se alimentava há dois dias, cozinhou e comeu sua refeição. Ele, todavia, estava desconfiado. Como ministro do nababo, ele conhecera muitos diplomatas e manipuladores. Ali estava um dono de hotel, um completo estranho, dando a ele tratamento real embora ele e Ishana parecessem indigentes.

“Ishana”, Sanatana perguntou, “eu acho que você deve ter alguma coisa valiosa com você”.

“Sim, eu tenho sete moedas de ouro”, Ishana admitiu, mostrando parcialmente sua riqueza.

Sanatana ficou irritado e começou a censurar seu servo.

“Por que você carrega consigo esses comensais da morte?”.

Pegando as sete moedas, Sanatana foi até o dono do hotel com as moedas na mão.

“Por favor, fique com essas sete moedas”, Sanatana pediu, “e nos ajude a cruzar as montanhas. Eu sou um preso político em fuga e não posso viajar pelo caminho das muralhas. Seria muito piedoso da sua parte aceitar esse dinheiro e me conduzir por entre as montanhas”.

A combinação de ouro e sentimentos religiosos mais uma vez revelou-se efetiva. O hoteleiro confessou saber que Ishana tinha oito moedas em seu bolso e que planejara matar a ambos.

Agora, recusando-se a aceitar as moedas por vergonha e embaraço, ele, como pedido de desculpe, ofereceu conduzir Sanatana pelas montanhas gratuitamente.

“Não”, Sanatana respondeu. “Se você não aceitar essas moedas, outra pessoa me matará por elas. É melhor você me salvar desse perigo”.

O acordo tendo sido firmado, o hoteleiro contratou quatro seguranças, que escoltaram por toda a noite Sanatana e Ishana pelas montanhas através de uma trilha na floresta. Sanatana então mandou Ishana voltar para casa com a moeda de ouro que Ishana tentara esconder, e viajou sozinho, vestindo roupas maltrapilhas, carregando uma cuia de esmolas e deixando para trás as preocupações que o acompanhavam a cada passo.

O Encontro com Srikanta

Após muito caminhar, Sanatana chegou uma noite a uma pequena cidade chamada Hajipura e sentou-se em uma praça florida. Por coincidência, um cavalheiro chamado Srikanta, o esposo da irmã de Sanatana, estava em Hajipura a serviço do governo. O nababo havia dado a Srikanta 300.000 moedas de ouro para comprar cavalos. Sentado em um assento elevado, fazendo seus negócios, Srikanta viu de relance Sanatana e, mais tarde naquela noite, foi vê-lo. Os dois velhos amigos conversaram ao longo da noite, e Srikanta ouviu tudo sobre a prisão e a fuga de Sanatana. Vendo Sanatana, o antigo primeiro ministro, naquela situação de pobreza, Srikanta ficou aflito e pegou-se pensando em como ajudá-lo. Dono de uma grande fortuna em ouro, certamente ele poderia ajudar o irmão de sua esposa a começar uma nova vida.

“Por que não fica aqui comigo por alguns dias?”, Srikanta incitou Sanatana. “Você pode se livrar dessas roupas sujas e se vestir como um cavalheiro novamente”.

Em sua viagem para se encontrar com o Senhor Chaitanya, Sanatana já havia superado um ambicioso carcerário e um hoteleiro assassino, além de evitar, a todo tempo, os soldados e os agentes do nababo. Agora, ali, um obstáculo ainda mais formidável se apresentava: um amigo querido e parente próximo oferecendo dinheiro. Sanatana agradeceu a Srikanta, mas recusou sua oferta.

“Eu não posso continuar aqui”, Sanatana disse. “Por favor, ajude-me a cruzar o Ganges para que eu possa partir daqui”.

Insistindo que Sanatana levasse ao menos um valioso cobertor de lã, Srikanta o ajudou a atravessar o Ganges e, com afeição sincera, contemplou-o indo embora.

Limpo como um Vaishnava

Sanatana deixara Srikanta em Hajipura poucos dias atrás. Agora, sentado ao lado do Senhor Sri Chaitanya Mahaprabhu na casa de Chandrashekhara, em Varanasi, ele sentia felicidade ilimitada. Após ouvir sobre as aventuras de Sanatana, o Senhor Chaitanya, por Sua vez, narrou Seu recente encontro com o irmão de Sanatana em Allahabad. Então, Ele pediu a Sanatana para se banhar e fazer a barba antes de comerem prasada e pediu a Chandrashekhara que providenciasse roupas novas a Sanatana.

A aparência desmazelada de Sanatana era compreensível considerando as circunstâncias de sua viagem, mas o Senhor Chaitanya queria que Seus seguidores se vestissem como cavalheiros. Sua Divina Graça A.C. Bhaktivedanta Swami Prabhupada, escrevendo no começo dos anos 70, explica: “Por causa de seu cabelo longo, bigode e barba, Sanatana Gosvami parecia um hippie. Como Sri Chaitanya Mahaprabhu não gostou das características hippies que Sanatana Gosvami trazia, Ele pediu a Chandrashekhara para barbeá-lo e deixá-lo com boa aparência. Se qualquer pessoa com cabelo grande e barba quiser entrar para o Movimento da Consciência de Krishna e viver conosco, deve se limpar de forma similar”.

Embora Chandrashekhara tenha lhe oferecido trajes novos, Sanatana pediu um dhoti usado no lugar, então rasgou o dhoti ao meio para fazer dois dhotis a partir daquele. Um brahmana maharastriyan, que mais tarde organizaria o encontro do Senhor Chaitanya com os sannyasis de Varanasi, convidou Sanatana a fazer todas as suas refeições com ele. Novamente, Sanatana recusou educadamente, preferindo evitar refeições completas e humildemente mendigar um pouco de comida de porta em porta. A renúncia de Sanatana foi algo extraordinário e não pode ser imitada como uma regra. Ele estava determinado a abandonar toda opulência material. Mesmo o novíssimo cobertor de lã de Srikanta tinha que ir embora. Sanatana foi até a beira do Ganges e persuadiu um surpreso mendigo Bengali a ficar com o cobertor de lã em troca de sua remendada colcha de mendigo.

Observando todas essas mudanças e vendo, por fim, que até mesmo o valioso cobertor havia sido rejeitado, o Senhor Chaitanya alegrou-Se ilimitadamente e disse a Sanatana Gosvami: “O Senhor Krishna muito misericordiosamente anulou todo o seu apego a coisas materiais. Por que, então, Ele permitiria que você mantivesse consigo aquele valioso cobertor, seu último fragmento de apego material? Após eliminar uma doença, o bom médico não deixa nenhum remanente dela”.

Nos dias que se seguiram, o Senhor Sri Chaitanya Mahaprabhu, satisfeito com Sanatana Gosvami, começou a falar com ele sobre a verdadeira identidade, qualidades transcendentais e atividades eternas do Senhor Sri Krishna. Sanatana, livre de seu último vestígio de apego material, estava plenamente preparado para ouvir.

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