A Reencarnação e a Cultura Ocidental

28 (artigo - karma e reencarnaç╞o) A Reencarnaç╞o e a Cultura Ocidental (1700) (bg)Satyaraja Dasa

Embora as ideias sobre a reencarnação em geral estejam associadas a grandes pensadores do Oriente, esse conceito tem também uma longa e honrosa história na cultura ocidental.

As ideias reencarnacionistas no Ocidente podem ser encontradas no século VI antes de Cristo, mais ou menos na época de Orfeu. Sócrates, que conhecemos através dos escritos de seu discípulo, Platão, (século III A C.), explicou o sentido da palavra “alma” fazendo referência aos poetas órficos, que viam o corpo como uma prisão para a alma que cumpria sua pena presa no mundo da matéria. O orfismo se desenvolveu numa religião oculta e ficou bem conhecido por causa de sua relação com o deus popular Dioniso, outro nome comumente associado ao pensamento reencarnacionista.

Pitágoras também se liga intimamente à antiga doutrina da reencarnação. As Metamorfoses de Ovídio contém um discurso em que Pitágoras dá pleno apoio à ideia da transmigração. Segundo Diógenes Laércio, do século I da era cristã, um dos mais importantes biógrafos de Pitágoras, esse foi o primeiro a dizer que “a alma, presa ora em uma criatura, ora em outra, assim percorre uma ronda ordenada pela necessidade”.

Uma das mais conhecidas referências à crença de Pitágoras na reencarnação encontra-se numa afirmação de Xenófanes registrada em Crátilo: “E uma vez, dizem, passando quando batiam num cachorrinho, teve piedade dele, e falou o seguinte: ‘Para! Para de bater, porque ele é a alma de um homem que foi meu amigo. Eu reconheci quando o ouvi chorar alto’”.

Diógenes também registra que Pitágoras alegava ser capaz de lembrar de suas vidas passadas. Jâmblico, biógrafo do século IV da era cristã, acrescenta que Pitágoras fazia grandes esforços para ajudar também outras pessoas a descobrirem detalhes de suas vidas anteriores.[1]

Dois outros filósofos gregos antigos, embora não tão populares, também são relacionados com a reencarnação: Píndaro e Empédocles. Píndaro é famoso como um dos maiores poetas líricos gregos, e, na primeira metade do século V a.C., seus poemas eram uma fonte popular de material sobre a reencarnação. Gordon Kirkwood escreve que Píndaro foi o primeiro dos poetas gregos a falar sobre recompensa depois da morte para a justiça e a excelência moral. [2]Empédocles, que viveu mais ou menos na mesma época, enfatizava outro aspecto da transmigração. Ele ensinava que as almas deste mundo tinham sido originalmente deuses em um reino superior porém caíram no mundo corporificado devido à realização de alguma ação inapropriada. Foram condenadas, pensava o filósofo, a um ciclo de trinta mil nascimentos em variadas espécies, inclusive plantas e peixes. No final, diz Empédocles, a pessoa é restaurada à sua condição natural no reino espiritual superior, para não renascer mais.[3]

Quando, um ou dois séculos mais tarde, passamos para época de Platão, encontramos a culminação desses pensamentos sobre a reencarnação. O preeminente filósofo grego e seu mestre, Sócrates, eram, pode-se afirmar, os mais importantes defensores da doutrina da reencarnação. “O verdadeiro peso e importância da metempsicose no Ocidente”, diz a Enciclopédia Britânica, “deve-se a ela ter sido adotada por Platão”. A primeira referência clara à reencarnação nas obras de Platão está no Mênon, em que Sócrates articula e aceita a ideia. Mais tarde, no Fédon, a ideia se desenvolve mais completamente, e Sócrates se esforça muito para explicá-la, dizendo que a alma é invisível, não composta, sempre a mesma e eterna; que a alma é imortal e não deixa de existir após a morte. Sócrates diz que a pessoa não aprende coisa nova de fato nesta vida, senão que recorda verdades de vidas anteriores.[4]

O argumento mais famoso no Fédon é o argumento dos opostos, que era bem conhecido na antiga cultura grega. Sócrates argumentava que os opostos estão em toda a parte. Nós os vemos em todos os lugares — maior e menor, melhor e pior, mais forte e mais fraco, justo e injusto e assim por diante. E os opostos surgem um do outro: um homem se torna mais forte tornando-se menos fraco, por exemplo. Esse princípio, argumenta Sócrates, deve aplicar-se à vida e à morte: os mortos vêm dos vivos e os vivos vêm dos mortos. Essa conclusão está conforme a observação cotidiana, ao menos em parte, pois todos já observaram alguma forma de morte, que é o resultado natural da vida. Sócrates conclui que “tornar-se vivo” é de fato “tornar-se o oposto de morto”. Portanto, a vida vem da morte. A doutrina da reencarnação, diz ele, facilita mais o percurso lógico da alma.

Muitos dos argumentos lógicos a favor da reencarnação encontrados no Fédon ecoam as palavras da antiga escritura indiana, o Bhagavad-gita. De fato, as doutrinas estão tão intimamente relacionadas que é provável que Platão tivesse conhecimento do texto indiano. Vê-se isso de forma ainda mais clara na mais famosa obra de Platão, A República, quando ele conta a história de Er, que foi morto em combate, mas que “retornou” enquanto seu corpo estava deitado numa pira funerária. Er descreve a permanência da alma com detalhes gráficos, deixando claro que Platão aceitava totalmente a doutrina da reencarnação apresentada antes por seu célebre mestre. Essas ideias têm desenvolvimento mais completo em Fedro e Timeu, onde Sócrates articula uma forte crença na transmigração.

O principal discípulo de Platão, Aristóteles, porém, não partilhava do entusiasmo de seu mestre pela ideia da reencarnação, nem as escolas posteriores do estoicismo e do epicurismo, que diminuíram a importância dessa doutrina. A era da ciência e do materialismo trouxe consigo uma sensibilidade tão distintamente “deste mundo” que quase acabou com a antiga ideia da reencarnação. Embora houvesse uma premissa espiritual subjacente tanto ao estoicismo quanto ao epicurismo, e mesmo a muitas das ideias promulgadas por Aristóteles, (cujas primeiras obras, tais como Ética a Eudemo, aceitavam a ideia de preexistência e reencarnação), essas ideologias prepararam o campo para as filosofias mais empíricas que vieram a seguir. A ciência e a tecnologia, com sua ênfase imediatista no aqui e agora, devem muito ao caminho preparado por Aristóteles.

Seria necessário assinalar que Aristóteles, embora fosse um pensador brilhante, tem sido severamente criticado por filósofos através dos séculos por sua teoria da “separação de ideias”, ou “lógica das categorias”, que propõe que tudo se encaixa em harmonia em seu compartimento: religião é religião, ciência é ciência, história é história etc. O problema é que a realidade não funciona dessa maneira, senão que as categorias se sobrepõem: a religião interage com a história, a ciência interage com a religião e assim por diante. A perspectiva de Aristóteles, a esse respeito, foi a precursora da atual desacreditada visão ocidental do mundo, no qual o funcionamento harmônico de várias categorias de existência simplesmente não acontece. Segundo Aristóteles, por exemplo, a ciência era capaz de se desenvolver sem o contrapeso da religião, e a religião sem a ciência, tornando ambas as categorias de existência menos eficientes e menos representativas da realidade como ela existe de fato no mundo real.

Ainda se deve mencionar que, junto com a introdução da ciência e do pensamento aristotélico, veio uma tendência dos religiosos de comprometer suas convicções mais esotéricas a fim de reter algum grau de poder num mundo que se modificava com rapidez. O cristianismo como é praticado pela maioria dos que vão à igreja hoje, por exemplo, não menciona a reencarnação, embora a noção de transmigração tenha desempenhado um papel central na primitiva teologia cristã. As formas de cristianismo amplamente aceitas hoje foram moldadas em grande parte por Tomás de Aquino, que baseou toda a sua visão de mundo na lógica aristotélica e rejeitou os aspectos mais místicos de sua própria tradição, inclusive a ideia de reencarnação. Os cristãos que têm predileção por essa forma de sua religião podem ter interesse em saber que a visão aristotélico-tomista é contrabalançada pelas tradições platônico-franciscanas que são igualmente cristãs, as mais simpáticas a uma filosofia que inclua a reencarnação. Ambos os pontos de vista cresceram lado a lado, com defensores e opositores ao longo de todo o caminho.

O Império Romano em seus primórdios, pouco depois da época de Jesus, viu um ressurgimento do pensamento reencarnacionista. Plutarco (46-120 d.C.) escreveu com autoridade sobre o conceito de transmigração, como o fez Porfírio, no século III. Porfírio citou muitas vezes os mitraístas como sua fonte de informação a respeito da reencarnação, o que também levou os eruditos a acreditarem que a ideia era dominante entre as primitivas seitas cristãs.

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[1] Diógenes Laércio, Lives of Eminent Philosophers, trad. R. D. Hicks, Loeb Classical Library, dois volumes (Londres: William Heinemann, 1925). Ver 2:333; 8.14.

[2] Diógenes Laércio, 8.36

[3] Iamblichus, Life of Pythagoras, trad. Thomas Taylor (Londres: John M. Watkins, 1818), p. 30-31.

[4] Gordon Kirkwood, Selections from Pindar, American Philological Association Textbook Series, no. 7 (Chico, Califórnia: Scholars Press, 1982), p. 71.

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3 Respostas

  1. Ótima leitura. E as experiências de hipnose regressiva? Alguém indica ou acha que tem resultados satisfatórios?

    28 de abril de 2014 às 9:46 PM

  2. Bom.

    28 de abril de 2014 às 9:46 PM

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