A Verdade numa Casca de Noz

nozesSatyaraja Dasa

Quatro versos especiais na Bhagavad-gita e no Srimad-Bhagavatam proporcionam um entendimento completo da posição de Krishna.

Minha mãe sempre garantia que tivesse em casa um pouco de nozes. Você quebra a casca e você encontra duas nozes em seu interior. Muita coisa boa em uma pequena embalagem: nutrientes benéficos, proteína vegetal, gorduras, fibra e muitas vitaminas, minerais e bioativos. Um dia, enquanto eu olhava para as cascas quebradas diante de mim, minha mente me levou para quatro versos especiais do Srimad-Bhagavatam e para quatro versos especiais da Bhagavad-gita, cada um referido simplesmente pela alcunha de que catuh-sloki: “Os Quatro Versos”. Srila Prabhupada foi o primeiro a se referir a eles como “versos em uma casca de noz”.

Essa expressão muito popular na língua inglesa diz respeito a algo expresso resumidamente, mas com grande riqueza. Em geral, os acadêmicos dizem que a expressão “em uma casca de noz” foi usada pela primeira vez em Hamlet, de Shakespeare, em 1602, embora alguns opinem que esse uso da palavra seja muito mais antigo, remontando a Plínio (23-79 d.C). Independente do caso, o ponto é este: qualquer coisa que possa caber em uma casca de noz tem que ser bem pequena, isto é, poucas palavras ou uma explicação muito sucinta.

Nas escrituras vaishnavas, particularmente no Bhagavatam e na Gita, encontramos versos “em uma casca de noz” que resumem a mensagem essencial. O famoso comentador das escrituras Sridhara Swami (aproximadamente século XIII) começa sua análise do verso 10.8 da Gita, o primeiro do catuh-sloki dessa obra, mencionando o esquema de quatro versos; Jiva Goswami (1513-1608) fornece uma elaborada análise do catuh-sloki do Bhagavatam em suas obras Krama-sandarbha e Bhagavata-sandarbha; Srinivasa Acharya (século XVI) escreveu um comentário especificamente sobre os quatro versos do Bhagavatam; Visvanatha Chakravarti (1708-1754) e outros, igualmente, elaboraram explicações com base nessa ideia de quatro versos centrais tanto no Bhagavatam quanto na Gita. Seguindo essa tradição, Srila Prabhupada frequentemente os agrupa como “quatro versos em uma casca de noz” em seus escritos. (Vide, especialmente, seus comentários aos versos 2.9.36 e 2.9.44 do Srimad-Bhagavatam.)

O que Tem Dentro?

Vamos dar uma olhada nos quatro versos do Srimad-Bhagavatam e da Bhagavad-gita. Primeiramente, os versos do Bhagavatam (2.9.33–36):

“[O Senhor Krishna diz:] Brahma, sou Eu, a Suprema Personalidade de Deus, que existia antes da criação, quando não existia nada além de Mim. Tampouco existia a natureza material, a causa desta criação. Isso que você vê agora também sou Eu, a Personalidade de Deus, e após a aniquilação, o que reste também serei Eu, a Personalidade de Deus.”

“Ó Brahma, qualquer coisa que pareça ter algum valor, caso sem relação coMigo, não tem realidade. Saiba que se trata de Minha energia ilusória, aquele reflexo que parece estar na escuridão.”

“Ó Brahma, por favor, saiba que os elementos universais entram no cosmos e, ao mesmo tempo, não entram no cosmos. Similarmente, Eu mesmo também existo dentro de tudo criado e, ao mesmo tempo, estou fora de tudo.”

“Aquele que está buscando pela Suprema Verdade Absoluta, a Personalidade de Deus, certamente buscará por isso até nesse ponto, em todas as circunstâncias, em todo espaço e tempo, e tanto direta quanto indiretamente.”

E, então, a Bhagavad-gita (10.8-11):

“[O Senhor Krishna diz:] Eu sou a fonte de todos os mundos materiais e espirituais. Tudo emana de Mim. Os sábios que conhecem isto perfeitamente ocupam-se no Meu serviço devocional e adoram-Me de todo o coração.”

“Os pensamentos de Meus devotos puros residem em Mim, suas vidas são plenamente devotadas a Meu serviço, e eles obtêm grande satisfação e bem-aventurança sempre se iluminando uns aos outros e conversando sobre Mim.”

“Àqueles que estão constantemente devotados a Me servir com amor, Eu dou a compreensão pela qual eles podem vir a Mim.”

“Para lhes mostrar misericórdia especial, Eu, residindo em seus corações, destruo com a luz brilhante do conhecimento a escuridão nascida da ignorância.”

devoto Arjuna.O catuh-sloki da Bhagavad-gita é falado por Krishna a Seu amigo e devoto Arjuna.

Deve estar claro que o que esses dois conjuntos de versos têm em comum, mais destacadamente, é que revelam a identidade do próprio Deus: Ele é o Senhor Krishna, a Suprema Personalidade de Deus. A partir dos versos do Bhagavatam, aprendemos ainda que, no começo e no fim, apenas Krishna existe. Todos os comentadores, especialmente Jiva Goswami e Srila Prabhupada, oferecem numerosos versos para apoiarem esse ponto de debate, tal como este verso do Maha Upanishad, eko vai narayana asin na brahma na isano: “O Senhor Narayana [Krishna] existia antes do mundo material ter sido criado, quando não havia nem Brahma nem Shiva.” Jiva Goswami cita tal verso em seu Bhagavata-sandarbha (96.11).

Todos os demais fenômenos – quer viventes, quer não viventes; quer espirituais, quer materiais – emanam do Senhor Supremo e findam nEle. Ele é a fonte e a origem de tudo, e é o repouso de tudo. Isso não quer dizer que Suas emanações não são reais: são reais, mas é Ele que lhes dá sua realidade, sendo Ele o âmago de sua existência. Aquele que conhece essas verdades, o Bhagavatam nos diz, buscará por Krishna com completa avidez, sem qualquer outro interesse.

O primeiro dos quatro versos da Gita reitera este ponto: Os devotos se dedicam a serviço do Senhor, desejando alcançá-lO e nada mais. Contudo, recebemos mais informações sobre essas grandes almas. Elas pensam em Krishna constantemente e sempre se ocupam em O glorificar. Através dessas ações imotivadas e ininterruptas, são abençoadas com o conhecimento acerca de Deus, presenteado pelo próprio Krishna.

Os comentários de Prabhupada a esses versos esclarecem todo o seu conteúdo, e ele elabora a discussão do catuh-sloki do Bhagavatam em seu comentário aos versos Adi-lila 1.53-56 do Chaitanya-charitamrita. Aliás, o autor do Chaitanya-charitamrita, Kaviraja Goswami, nos diz que “tudo”, um termo bem amplo, certamente é explicado nesses quatro versos resumidores: “A essência do Srimad-Bhagavatam, nossa relação com o Senhor Supremo, nossas atividades em conexão a isso e a meta da vida se manifestam nesses quatro versos do Srimad-Bhagavatam, conhecidos como catuh-sloki. Tudo é explicado nesses versos.” (Madhya 25.102)

A noção de como, exatamente, esses versos explicam “tudo” talvez possa ser compreendida ao considerarmos que Kaviraja Goswami identifica esses versos com o Om, a representação sonora de Krishna: “O significado da vibração sonora Omkara está presente no mantra Gayatri. O mesmo é elaboradamente explicado nos quatro slokas do Srimad-Bhagavatam conhecidos como catuh-sloki.”(Madhya 25.94)

Como Srila Prabhupada escreve: “A vibração sonora Omkara é a raiz do conhecimento védico. O Omkara é conhecido como maha-vakya, ‘o som supremo’. Qualquer significado presente no som supremo Omkara é melhor compreendido no mantra Gayatri. Mais uma vez, esse mesmo significado é explicado no Srimad-Bhagavatam nos quatro versos conhecidos como catuh-sloki, que começam com as palavras aham evasam evagre. O Senhor diz: ‘Apenas Eu existia antes da criação.’ A partir dessa declaração, quatro versos foram compostos, e eles são conhecidos como catuh-sloki. Deste modo, a Suprema Personalidade de Deus informou ao Senhor Brahma sobre o significado do catuh-sloki. Em seguida, o Senhor Brahma explicou-o a Narada Muni, e Narada Muni o explicou a Srila Vyasadeva. Esse é o sistema parampara, a sucessão discipular. O significado do conhecimento védico, a palavra original pranava, é explicado no Srimad-Bhagavatam.” (Madhya 25.97)

Sucintamente, Jiva Goswami, recorrendo ao Gopala-tapani Upanishad, nos informa como o Om se iguala a tudo: “Om é a combinação das letras AUM. A letra ‘A’ se refere a Krishna. A letra ‘U’ se refere a Radha. A letra ‘M’, por sua vez, se refere à jiva, a alma.” Assim, o Omkara de fato se refere a tudo.

Ênfase na Pessoa de Krishna

Existem outros pontos importantes a serem identificados no catuh-sloki. Os comentadores, quer se foquem no Bhagavatam, quer na Gita, parecem, antes de tudo, enfatizar que é Krishna, “a pessoa”, que existia antes da criação, e não uma força impessoal, como alguns comentadores mayavadis prefeririam. Jiva Goswami é inflexível em relação a isso. Em seu Bhagavata-sandarbha (96.10), ele escreve: “Aqui [referindo-se ao primeiro verso do catuh-sloki do Bhagavatam], a palavra aham, ‘Eu’, refere-se à forma do Senhor, e não ao Brahman sem atributos.” Outros grandes acharyas, de Visvanatha Chakravarti a Srila Prabhupada, desenvolvem esse tema como um dos ensinamentos mais importantes do catuh-sloki. Deus, em Sua forma original, é uma pessoa, e é Ele quem existe antes da criação.

Além disso, os acharyas logo adicionam o ponto correlato: Quando tudo é findado, é Krishna, a pessoa, quem permanece. Mais uma vez, Jiva Goswami é claro no Bhagavata-sandarbha (96.18): “Neste ponto, alguém talvez objete: ‘Ó Senhor Supremo, não é o caso que, quando o universo material não está mais manifesto, Você também deixa existir?’ O Senhor responde: ‘Após a aniquilação, o que permanecerá também serei Eu, a Personalidade de Deus.’”

Assim, está claramente expresso que tanto antes quanto depois da criação, e o que dizer de durante a mesma, Krishna é o centro de tudo que existe. Ele é a verdadeira existência, da qual todas as demais existências dependem.

Krishna Está Sozinho?

Depois de ter pesquisado sobre essa temática por algum tempo e com alguma profundidade, uma questão, para mim, continuava não respondida: Se apenas Krishna existe tanto antes quanto depois da criação, Ele está sozinho? A tradição ensina que Krishna jamais está sozinho. Ele está sempre gozando da companhia de Seus associados eternos, com os quais Ele desfruta de um amor recíproco. Todo o processo de bhakti-yoga foca em retornarmos a Ele em nossa morada original, onde podemos retomar nosso serviço com avidez. Contudo, os versos catuh-sloki pareciam sugerir que Ele existe sozinho. Eu precisava entender o significado disso.

Sem dúvidas, encontrei a resposta em Jiva Goswami, que aborda a questão em seu Bhagavata-sandarbha (96.12): “Assim como na frase ‘o rei vai’, a palavra ‘rei’ também pode significar ‘o mensageiro do rei’ ou ‘os soldados do rei’, a palavra aham, ‘Eu’, aqui, não significa apenas o Senhor, mas também a morada Vaikuntha do Senhor, os associados do Senhor e tudo mais em relação direta com Ele. Deste modo deve-se entender o sentido do verso.” Isso é consistente com os ensinamentos amplos da tradição, que declaram que Krishna está sempre na companhia de Seus associados divinos.

menciona o reiQuando se menciona o rei, sua comitiva está implícita na menção.

A perspectiva de Sri Jiva aqui é interessante. Ele diz que, nesse caso, o singular, isto é, “Krishna sozinho existe antes e depois da criação”, implica a existência de outros. Ele escreve que aham eva asam, “Eu certamente existia”, é similar a raja asau prayati, “o rei saiu”. No segundo caso, pode-se presumir que, se o rei está saindo, seu séquito está saindo com ele. Similarmente, se Krishna existia antes da criação, Seu séquito certamente existia com Ele. O uso de Jiva da analogia do rei é brilhante. Para deixar mais claro: Quando alguém diz: “O rei está passando” (como em uma procissão), a implicação lógica é que ele está passando com seu séquito. Jiva diz ainda que, quando alguém diz que “o rei não está trabalhando”, isso significa que ele não está ocupado em seus deveres reais, e não que ele está inativo. Durante seu tempo “inativo”, ele provavelmente está com seus membros familiares, desfrutando nas acomodações privadas do palácio. Da mesma forma, Jiva afirma, antes da criação e após a dissolução, o Senhor está ocupado em passatempos espirituais divertidos (lila) com Seus associados eternos. Sri Jiva justifica isso escrevendo que Vaikuntha, os companheiros do Senhor e assim por diante são sub-membros (upanga) de Krishna. Eles são partes dEle, em virtude do que estão naturalmente inclusos na palavra aham, “Eu”. Assim, existem antes e depois da criação também, junto com Ele.

Esses são pontos sutis, e os ensinamentos vaishnavas gradualmente os revelam a quem segue o caminho de bhakti-yoga. Estudar minuciosamente versos como o catuh-sloki pode nos ajudar no caminho.

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