Ajamila e os Mensageiros da Morte

Ajamila-Mensageiros-Morte

A.C. Bhaktivedanta Swami Prabhupada

Como uma segunda chance mudou a história de um homem.

Existiu, certo tempo atrás, um jovem brahmana de nome Ajamila, que era o reservatório de todas as boas qualidades e boa conduta. Ele era manso e humilde, sempre veraz, bem versado nas escrituras védicas e muito puro.

Um dia, ao ser assim solicitado por seu pai, Ajamila foi para a floresta a fim de pegar frutas, flores e grama. Assim é um pai que tem a qualidade de brahmana: ele adora o Senhor e manda o filho organizar algumas flores e frutas para que sejam oferecidas no serviço ao Senhor. Qual é a vantagem de nascer em uma família de brahmanas? Os outros têm que estudar para conhecer essas coisas, mas quem nasce em semelhante família pode aprender vendo o comportamento dos pais, podem aprender automaticamente. Essa é a vantagem.

Assim, de acordo com as instruções de seu pai, o garoto foi buscar na floresta os artigos solicitados. E o que ele viu no caminho?

A Degradação de Ajamila

No caminho de volta para casa, se deparou com um homem de classe baixa e muito luxurioso que abraçava e beijava uma prostituta. Ambos estavam bêbados, e o homem ria, cantava e se divertia sem qualquer constrangimento. Os olhos da prostituta giravam devido a estar alcoolizada, e suas roupas estavam frouxas no corpo. Quando Ajamila a viu, os desejos luxuriosos em seu coração despertaram, e, em ilusão, caiu sob o controle deles.

Ajamila vê a prostituta e o homem degradado.

Lembrando-se das instruções das escrituras, Ajamila tentou não contemplar a mulher. Ele se esforçou por controlar seus desejos luxuriosos com a ajuda de seu conhecimento e de seu intelecto, mas fracassou. A menos que alguém seja muito forte em conhecimento, paciência e comportamento corpóreo, mental e intelectual adequados, refrear os desejos luxuriosos é extremamente difícil.

Assim, após ver um homem abraçando uma jovem mulher e fazendo praticamente tudo o que se exige da vida sexual, mesmo um brahmana plenamente qualificado não pôde controlar seus desejos luxuriosos. Não exatamente qualificado; se o fosse, não teria caído. Ele, em verdade, estava no estágio neófito. Se estou no estágio neófito, caso eu veja alguém se entregando a atividades luxuriosas ou sexuais, naturalmente meu desejo sexual também desperta, e eu naturalmente me inclino a isso. Ajamila era um praticante, ainda exercitando sama, dama, satyam, saucam… Essas são as qualificações de um brahmana. Sama significa ter a mente equilibrada, livre de perturbações e de qualquer ansiedade. Dama quer dizer controle dos próprios sentidos. Satyam significa que você não deve comprometer a verdade por algum interesse pessoal. Saucam, por sua vez, significa ser limpo, interna e externamente.

Ajamila estava tentando praticar essas qualidades, mas não conseguiu ter domínio sobre si mesmo. Ele era um jovem de cerca de vinte anos quando isso aconteceu. Devido à força da vida materialista, manter o autocontrole é extremamente difícil para quem não está sob a especial proteção da Suprema Personalidade de Deus através do serviço devocional.

Assim derrotado, Ajamila perdeu todo o bom senso que tinha e, nos dias que se seguiram, não fazia nada além de pensar na prostituta. Pouco tempo depois, então, aceitou-a como uma criada em sua casa e abandonou todos os princípios de um brahmana.

O dinheiro que havia herdado de seu pai, Ajamila passou a gastar comprando vários presentes com o intuito de agradar a prostituta. Ele até mesmo abandonou sua esposa bela e jovem, que vinha de uma família muito respeitável. Assim, Ajamila passou sua longa vida quebrando irresponsavelmente todas as regras e regulações das escrituras sagradas. Ele se tornou sujo e viciado em atividades proibidas. Vivendo de maneira extravagante, mantinha sua família molestando outros, através de fraudes, jogos de azar e furtos.

Mundo afora, existem muitos exemplos onde, mesmo uma pessoa pura, deixando-se atrair por uma prostituta, gasta todo o dinheiro que herdou. A caça por prostitutas é tão abominável que o desejo de contato sexual com esse tipo de mulher pode arruinar o caráter da pessoa, destruir sua posição elevada e corroer todo o seu dinheiro. Portanto, o sexo ilícito é estritamente proibido. Deve-se ficar satisfeito com a esposa obtida através do matrimônio legal, pois mesmo um leve desvio trará prejuízo. O grihastha [chefe de família] consciente de Krishna deve sempre lembrar-se disso. Ele sempre deve viver satisfeito com sua única esposa e ficar em paz simplesmente cantando o mantra Hare Krishna. Caso contrário, a qualquer momento, poderá cair de sua posição, como exemplifica o caso de Ajamila.

O Filho Mais Amado

Com a idade de oitenta e oito anos, Ajamila já tivera dez filhos com a prostituta. O filho mais novo de Ajamila, um bebê chamado Narayana, era naturalmente muito querido tanto ao pai quanto à mãe. As palavras balbuciadas da criança e movimentos desajeitados eram muito agradáveis aos olhos do idoso Ajamila, que sempre cuidava do menino e desfrutava das atividades dele.

Narayana é um nome de Deus, em consequência do que, mesmo sem a intenção, o idoso estava sempre falando o santo nome do Senhor. Embora ele estivesse se referindo a seu filho, e não ao Narayana original, Ajamila estava se purificando porque o santo nome de Narayana é muito poderoso. Caso, de alguma maneira, a mente de alguém se sinta atraída pelo santo nome de Krishna (tasmat kenapy upayena manah krishne niveshayet), ele estará no caminho da liberação.

A Suprema Personalidade de Deus é bondoso com a alma condicionada. Embora esse homem tivesse se esquecido por completo de Narayana, ele estava chamando seu filho, dizendo: “Narayana, por favor, venha comer esse alimento.” “Narayana, por favor, venha beber esse leite.” Portanto, de alguma forma, ele estava apegado ao nome Narayana. Isso se chama ajnata-sukriti, piedade obtida sem conhecimento. Embora estivesse chamando seu filho, inconscientemente estava pronunciando o nome de Narayana, e o santo nome da Suprema Personalidade de Deus tem tamanha potência transcendental que o cantar desse homem estava sendo computado e registrado.

Sempre cuidando de seu filho e chamando por seu nome, Ajamila não estava ciente de que sua vida agora estava esgotada.

Os Mensageiros da Morte

Na hora de sua morte, Ajamila viu três personalidades estranhas, com atributos corpóreos deformados, faces retorcidas e ferozes, e cabelos arrepiados. Eram eles os Yamadutas, servos de Yamaraja, o senhor da morte, e haviam vindo a fim de levar Ajamila para a morada de seu mestre. Executam-se atividades pecaminosas com o corpo, com a mente e com as palavras, daí terem sido em três os mensageiros de Yamaraja que vieram levar Ajamila.

Quando Ajamila os viu, ficou extremamente desorientado e, devido a seu apego por seu filho, que estava brincando um pouco perto dali, chamou alto e choroso pelo nome da criança: “Narayana!”

Imediatamente, os Vishnudutas, os servos do Senhor Supremo, conhecido como Vishnu, ou Narayana, chegaram ao local. Eles ouviram o santo nome de seu mestre partindo da boca do moribundo Ajamila. Com vozes retumbantes, os mensageiros do Senhor Vishnu ordenaram que os Yamadutas parassem e, deste modo, salvaram Ajamila da morte.

Os mensageiros do Senhor Vishnu vieram porque Ajamila cantara o santo nome de Narayana. Eles não analisaram o motivo pelo qual ele estava cantando. Enquanto cantava o nome de Narayana, Ajamila, em verdade, estava pensando em seu filho, mas bastou-lhes ouvir Ajamila cantar o nome do Senhor para que os mensageiros do Senhor Vishnu, os Vishnudutas, viessem protegê-lo. Esse cantar foi suficiente para limpar Ajamila de todas as atividades pecaminosas.

Os Vishnudutas chegam em socorro de Ajamila.

Com relação a isso, Srila Vijayadhvaja Tirtha comenta que anena putra-sneham antarena prachinadrista-balad udbhutaya bhaktya bhagavan-nama-sankirtanam kritam iti jnayate: “Ajamila cantou o nome de Narayana devido ao seu apego excessivo ao seu filho. Entretanto, devido à sua boa fortuna de que, no passado, prestara serviço devocional a Narayana, ele aparentemente cantou o santo nome em pleno serviço devocional e sem ofensas.”

Visto que Ajamila era filho de um brahmana, teve o costume de adorar Narayana em sua juventude, visto que em toda casa de brahmana acontece a adoração a Narayana. Assim, embora o contaminado Ajamila estivesse chamando por seu filho, ele, ao concentrar sua mente no santo nome de Narayana, recordou-se do Narayana que adorara muito fielmente quando jovem.

Embora os servos de Yamaraja tenham dentro de sua jurisdição todos os seres vivos envolvidos com pecados, os mensageiros de Vishnu são capazes de punir até mesmo o próprio Yamaraja caso ele cometa alguma espécie de injustiça com um devoto de Vishnu, o Senhor Supremo.

Como Ajamila cantara o santo nome de Narayana, os Vishnudutas não apenas chegaram imediatamente ao local como também ordenaram de imediato que os Yamadutas não tocassem nele. Falando com voz de autoridade, os Vishnudutas ameaçaram punir os Yamadutas se estes se atrevessem a arrancar a alma de Ajamila de seu coração.

De acordo com as atividades pecaminosas de Ajamila, ele estava dentro da jurisdição de Yamaraja, o juiz supremo designado para avaliar os pecados das entidades vivas. Quando os Yamadutas foram assim proibidos de cumprir sua missão, ficaram muito surpresos, pois ninguém dentro dos três mundos jamais os havia impedido de executar o seu dever.

Os Yamadutas exclamaram: “Quem são vocês, prezados, que ousam desafiar a jurisdição de Yamaraja? De quem vocês são servos? De onde vieram e por que estão nos proibindo de tocar Ajamila? Vocês devem estar cientes de que este homem, Ajamila, não expiou os seus pecados. Em consequência de sua vida pecaminosa, temos que o levar até a corte de Yamaraja para ser castigado. De acordo com a extensão de seus atos pecaminosos, ele será punido e, deste modo, purificado.”

Os Yamadutas continuaram: “Seus olhos são exatamente como pétalas de flores de lótus. Vestidos em roupas de seda amarela, decorados com guirlandas de lótus, e usando elmos muito atrativos sobre a cabeça e brincos em suas orelhas, vocês parecem muito jovens e viçosos. Seus quatro longos braços estão decorados tanto com arcos e aljavas quanto com espadas, maças, búzios, discos e flores de lótus. Com extraordinária luminosidade, sua refulgência dissipou a escuridão deste lugar. Então, senhores, digam por que nos trazem essa proibição.”

Os Yamadutas Respondem os Enviados do Senhor Supremo

Os abençoados mensageiros do Senhor Vishnu, os Vishnudutas, disseram: “Se vocês são realmente servos de Yamaraja, devem nos explicar o significado dos princípios religiosos e as características da irreligião.”

Esta pergunta que os Vishnudutas fizeram aos Yamadutas é muito importante. Ao servo cabe conhecer as instruções de seu mestre. Os servos de Yamaraja alegaram estar cumprindo suas ordens, e, portanto, os Vishnudutas, com muita inteligência, lhes pediram que explicassem as características dos princípios religiosos e irreligiosos.

Os Yamadutas responderam: “Aquilo que os Vedas prescrevem constitui dharma, princípios religiosos, e o oposto disto é irreligião. Os Vedas são diretamente a Suprema Personalidade de Deus, Narayana, e são autogerados. Foi Yamaraja quem nos disse isso.”

Os servos de Yamaraja responderam de maneira bem adequada. Eles não inventaram princípios de religião ou irreligião. Ao contrário, explicaram o que lhes transmitiu uma autoridade

Na verdade, dharma não é inventado por Narayana. Como se afirma nos Vedas, asya mahato bhutasya nihsvasitam etad yad rig-vedah iti: os preceitos de dharma emanam da respiração de Narayana, a entidade viva suprema. Narayana existe eternamente e respira eternamente, e, portanto, dharma, os preceitos de Narayana, também existem eternamente.

Continuaram os mensageiros de Yamaraja: “Em proporção à quantidade de ações religiosas ou irreligiosas que alguém pratica nesta vida, na vida seguinte ele terá de desfrutar ou sofrer a mesma equivalência das reações do seu karma.”

Como se declara na Bhagavad-gita (14.18):

urdhvatit gacchanti sattva-stha
madhye ti
shthanti rajasah
jaghanya-guna-v
ritti-stha
adho gacchanti tamasah

“Aqueles que agem no modo da bondade são promovidos aos sistemas planetários superiores para tornarem-se semideuses, aqueles que agem de modo comum e não cometem excessivos atos pecaminosos permanecem dentro deste sistema planetário intermediário, e aqueles que executam ações pecaminosas abomináveis têm que despencar rumo à vida infernal.”

Os mensageiros de Yamaraja disseram ainda: “Podemos ver três diferentes variedades de vida, que são consequentes à contaminação dos três modos da natureza. Portanto, conhecem-se as entidades vivas como pacíficas, inquietas ou tolas; felizes, infelizes ou com um pouco dessas duas características; religiosas, irreligiosas ou semirreligiosas. Podemos deduzir que, na próxima vida, essas três espécies de naturezas materiais continuarão exercendo suas ações.”

As ações e reações dos três modos da natureza material são visíveis nesta vida. Por exemplo, algumas pessoas são muito felizes, outras são muito aflitas e algumas sentem uma mistura de felicidade e tristeza. Isso decorre do fato de que, no passado, elas se associaram com os modos da natureza material: bondade, paixão e ignorância. Como essas variedades são visíveis nesta vida, podemos presumir que, de acordo com sua associação com os diferentes modos da natureza material, as entidades vivas, também em suas próximas vidas, serão felizes, infelizes ou terão um pouco dessas duas características. Portanto, a melhor conduta que alguém pode tomar é desvincular-se dos três modos da natureza material e permanecer sempre transcendental à contaminação deles. Isso é possível somente quando ele se ocupa completamente em serviço devocional ao Senhor. Como Krishna confirma na Bhagavad-gita (14.26):

mam cha yo ‘vyabhicharena
bhakti-yogena sevate
sa gunan samatityaitan
brahma-bhuyaya kalpate

“Aquele que se ocupa em pleno serviço devocional, que não cai em nenhuma circunstância, transcende de imediato os modos da natureza material e, então, chega à plataforma espiritual.” A menos que alguém esteja completamente absorto em servir o Senhor, sujeita-se à contaminação dos três modos da natureza material e, portanto, tem que passar por infelicidade ou uma mistura de felicidade e infelicidade.

Os servos de Yamaraja disseram, então: “Assim como a pessoa adormecida age de acordo com o corpo manifesto em seus sonhos e aceita-o como sendo ela própria, do mesmo modo, alguém se identifica com o seu corpo atual, o qual adquiriu devido às suas ações religiosas ou irreligiosas, que praticou no passado, e é incapaz de conhecer suas vidas passadas ou futuras.”

Um homem se ocupa em atividades pecaminosas porque não sabe o que, na sua vida passada, fez para obter este corpo atual que é materialmente condicionado e que está sujeito às três misérias. Como Rishabhadeva afirma no Srimad-Bhagavatam (5.5.4), nunam pramattah kurute vikarma: o ser humano que está enlouquecido pelo gozo dos sentidos não hesita em agir pecaminosamente. Yad indriya-pritaya aprinoti: em troca de simples gozo dos sentidos, ele executa ações pecaminosas. Na sadhu manye: isto não é bom. Yata atmano ’yam asann api kleshada asa devah: devido a essas ações pecaminosas, receberá outro corpo no qual deverá sofrer assim como, em seu corpo atual, sofre devido a suas atividades pecaminosas passadas. Convém que se saiba que alguém que não tem conhecimento védico sempre age em ignorância do que fez no passado, do que está fazendo no presente e do que sofrerá no futuro. Ele jaz em completa escuridão. Portanto, o preceito védico diz que tamasi ma: “Não permaneça na escuridão.” Jyotir gama: “Tente chegar-se à luz.” A luz, ou ilu­minação, é o conhecimento védico, do qual alguém pode achegar-se quando se eleva ao modo da bondade ou quando transcende o modo da bondade ocupando-se em serviço devocional ao mestre espiritual e ao Senhor Supremo. Descreve isso o Svetasvatara Upanishad (6.23):

yasya deve para bhaktir
yatha deve tatha gurau
tasyaite kathita hy arthah
prakashante mahatmanah

“Àquelas grandes almas que têm fé inabalável no Senhor e no mestre espiritual, todo o conteúdo do conhecimento védico lhes é automa­ticamente revelado.” Os Vedas prescrevem que tad-vijnanartham sa gurum evabhigacchet: a fim de tornar-se devoto do Senhor, a pessoa deve aproximar-se de um mestre espiritual que conheça todos os Vedas e deve fielmente receber orientação dele. Então, o conheci­mento dos Vedas lhe será revelado. Quando o conhecimento védico lhe for revelado, sairá da escuridão da natureza material.

De acordo com sua associação com os modos da natureza mate­rial – bondade, paixão e ignorância –, a entidade viva obtém uma determinada classe de corpo. Exemplo de pessoa associada com o modo da bondade é o brahmana qualificado. Tal brahmana conhece o presente, o passado e o futuro porque consulta a literatura védica. Ele pode entender qual foi sua vida passada, por que está no corpo atual e como pode li­bertar-se das garras de maya e evitar de aceitar outro corpo material. Tudo isto torna-se possível àquele que se situa no modo da bonda­de. Geralmente, entretanto, as entidades vivas estão absortas nos modos da paixão e da ignorância.

Aquele que está em completa escuridão não consegue entender sua vida passada nem sua vida futura; ele está simplesmente interessa­do em seu corpo atual. Muito embora tenha um corpo humano, a pessoa no modo da ignorância e interessada unicamente em seu pre­sente corpo é como um animal, pois um animal, estando coberto pela ignorância, pensa que a meta última da vida e a felicidade con­sistem em comer o máximo possível. O ser humano deve receber edu­cação no sentido de entender sua vida passada e de como pode esforçar-se por uma melhor vida futura. Existe até mesmo um livro, chamado Bhrigu-samhita, que, de acordo com cálculos astrológicos, revela informações sobre as vidas passadas, presente e futuras. De alguma forma, a pessoa deve esclarecer-se acerca de seu passado, presente e futuro. Interessar-se somente por seu corpo atual e tentar satisfazer os sentidos ao máximo é próprio de uma pessoa absorta no modo da ignorância. Seu futuro é muitíssimo tenebroso. Na ver­dade, o futuro é sempre muito tenebroso para alguém que está mer­gulhado grosseiramente na ignorância. Especialmente nesta era, a sociedade humana está imersa no modo da ignorância, e, portanto, sem levar em consideração o passado ou o futuro, todos pensam que seu corpo atual é tudo.

Os Yamadutas disseram em seguida: “A tola entidade viva corporificada, incapaz de controlar seus sentidos e sua mente, toma atitudes que vão na direção contrária dos seus desejos, pois é forçada a agir de acordo com a influência dos modos da natureza material. Ela é como um bicho-da-seda que usa a sua própria saliva para criar um casulo no qual depois fica preso sem possibilidade de escapar.”

Por fim, concluíram: “Esse brahmana irresponsável levou toda a sua longa vida transgredindo todas as regras e regulações da escritura sagrada, vivendo extravagantemente e comendo alimentos preparados por uma prostituta. Portanto, ficou repleto de pecados, impuro e viciado em atividades proibidas. Ajamila não se submeteu à expiação. Portanto, devido à sua vida pecaminosa, temos que levá-lo à presença de Yamaraja para ser punido. Lá, de acordo com a quantidade dos seus atos pecaminosos, ele será castigado e, assim, se purificará.

Os Vishnudutas proibiram os Yamadutas de levar Ajamila a Yamaraja, e por isso os Yamadutas explicaram que levar tal homem até Yamaraja era a atitude correta. Como não se submetera à expiação de seus atos pecaminosos, Ajamila devia ser levado até Yamaraja para ser purificado. A punição imposta por Yamaraja é um processo para purificar os pecadores mais abomináveis. Portanto, os Yamadutas pediram aos Vishnudutas que não os impedissem de levar Ajamila a Yamaraja.

As Glórias do Nome de Deus

Os Vishnudutas disseram: “Oh! Quão doloroso é que a irreligião esteja se infiltrando numa assembleia onde se deveria manter a religião. Na verdade, aqueles que estão encarregados de primar pelos princípios religiosos estão desnecessariamente punindo uma pessoa que, não tendo pecados, não merece punição alguma.”

Os Vishnudutas acusaram os Yamadutas de violarem os princípios religiosos ao tentarem arrastar Ajamila até Yamaraja para que ele fosse punido. Yamaraja é o ministro apontado pela Suprema Personalidade de Deus para julgar os princípios religiosos e irreligiosos e punir as pessoas irreligiosas. Contudo, se pessoas que não têm pe­cados são punidas, toda a assembleia de Yamaraja contamina-se. Os Vishnudutas lamentaram-se devido a esses fatos muito deploráveis. Embora Ajamila não estivesse sujeito à punição, os Yamadutas insistiam em levá-lo a Yamaraja para ser castigado.

Os Vishnudutas disseram: “Ajamila já expiou todas as suas ações pecaminosas. Na verdade, ele expiou não apenas os pecados executados em uma vida, mas aqueles praticados em milhões de vidas, pois, em condição desamparada, ele cantou o santo nome de Narayana. Muito embora ele não tivesse cantado com pureza, cantou sem cometer ofensas e, portanto, agora tornou-se puro e apto à liberação.”

Os Yamadutas consideraram apenas a situação externa de Ajamila. Como ele fora extremamente pecaminoso durante toda a sua vida, julgavam que Ajamila deveria ser levado a Yamaraja e não sabiam que ele havia se livrado das reações de todos os seus pecados. Portanto, os Vishnudutas ensinaram que, pelo fato de ele ter cantado na hora da morte as quatro sílabas do nome de Narayana, livrou-se de todas as reações pecaminosas.

Os Vishnudutas continuaram: “Assim como o fogo reduz a cinzas a grama seca, do mesmo modo, o santo nome do Senhor, cantado quer consciente quer inconscientemente, fatalmente reduz a cinzas todas as reações das atividades pecaminosas de alguém. Se um indivíduo, ignorando a potência de certo remédio, toma esse remédio ou é forçado a tomá-lo, o remédio agirá de qualquer modo, porque sua potência independe do grau de compreensão do paciente. Da mesma forma, muito embora alguém desconheça o valor de cantar o santo nome do Senhor, quer ele cante consciente, quer cante inconscientemente, o canto será muito eficaz.”

Uma Segunda Chance

Os Vishnudutas libertaram o brahmana Ajamila das garras dos Yamadutas e, desta maneira, o pouparam da morte. Ajamila, agora livre do medo, caiu em si e de imediato ofereceu respeitos aos Vishnudutas, curvando sua cabeça até seus pés. Ele estava extremamente contente com a presença deles, visto que o haviam salvado dos Yamadutas. Quando os Vishnudutas viram que Ajamila estava tentando dizer algo, eles despareceram subitamente.

À medida que as pessoas se degradam, a duração de suas vidas diminui (prayenal­payushah). Porque agora Ajamila estava livre de todas as reações pecaminosas, prolongou-se a duração de sua vida, muito embora ele estivesse destinado a morrer imediatamente. Ao perceberem Ajamila tentando dizer-lhes algo, os Vishnudutas desapareceram para dar-lhe a oportunidade de glorificar o Senhor Supremo. Como todas as suas reações pecaminosas foram eliminadas, agora ele estava preparado para glorificar o Senhor. Na verdade, só pode glorificar o Senhor quem estiver completamente livre de todas as atividades pecamino­sas. Na Bhagavad-gita (7.28), o próprio Krishna confirma isto:

yesham tv anta-gatam papam
jananam punya-karmanam
te dvanda-moha-nirmukta
bhajante mam dri
ha-vratah

“Pessoas que agiram piedosamente em vidas anteriores e nesta vida, cujas ações pecaminosas estão completamente erradicadas e que estão livres da dualidade da ilusão, ocupam-se em servir-Me com determinação.” Os Vishnudutas deixaram Ajamila bem informado acerca do serviço devocional para que ele imediatamente pudesse capacitar-se a voltar ao lar, a voltar ao Supremo. Para aumentar seu anseio de glorificar o Senhor, eles desapareceram, de modo que, na ausência deles, ele sentisse saudade. Com espírito de saudade, a glorificação ao Senhor é muito intensa.

Embora as afirmações dos Yamadutas encontrassem completo apoio nos princípios védicos, as afirmações dos Vishnudutas prevaleceram. Tendo ouvido a conversa entre os Yamadutas e os Vishnudutas, Ajamila agora era capaz de entender os princípios religiosos transcendentais referentes à relação entre o ser vivo e a Suprema Personalidade de Deus. Além disso, como Ajamila havia escutado a glorificação que fizeram a Deus, ele agora era um devoto perfeitamente puro e pôde, assim, recordar-se de todas as atividades pecaminosas que fizera no passado. Ele se arrependeu fortemente de tudo que fizera e começou a lamentar-se de suas atividades materialistas.

Um Novo Homem

“Oh! Que toda a condenação recaia sobre mim!”, disse Ajamila. “Agi tão pecaminosamente que degradei minha tradição familiar. Na verdade, abandonei minha casta, bela e jovem esposa para fazer sexo com uma prostituta degenerada, acostumada a beber vinho. Que toda a condenação recaia sobre mim!”

Esta é a mentalidade de alguém que está se tornando devoto puro. Quando, pela graça do Senhor e do mestre espiritual, ele se eleva à plataforma de serviço devocional, primeiramente lamenta-se de suas atividades pecaminosas passadas. Isso o ajuda a avançar na vida espiritual. Os Vishnudutas deram a Ajamila a oportunidade de tornar-se devoto puro, e cabe ao devoto puro deplorar suas atividades pecaminosas passadas, através das quais entregava-se ao sexo ilícito, à intoxicação, ao consumo de carne e aos jogos de azar. Ele não apenas deve abandonar seus maus hábitos passados, mas deve sempre lamentar-se de seus atos pecaminosos passados. Esse é o padrão de devoção pura.

“Meu pai e minha mãe estavam velhos e não tinham nenhum outro filho ou amigo que tomasse conta deles. Porque não cuidei deles, ambos viveram muitas dificuldades. Oh! Como um abominável homem de classe inferior, ou ingratamente os larguei nessa condição.”

Devido a seu envolvimento com uma prostituta, Ajamila abandonou todos os seus deveres. Lamentando isso, Ajamila agora considerava-se bastante caído.

Falou, então: “Agora está claro que, como consequência dessas atividades, um pecaminoso como eu tem que ser atirado em condições infernais, reservadas àqueles que quebraram os princípios religiosos e onde deverão sofrer misérias extremas… Certamente, sou muito abominável e desafortunado por ter imergido em um oceano de atividades pecaminosas. Contudo, devido às minhas atividades espirituais anteriores, pude ver aquelas quatro personalidades elevadas que vieram ao meu resgate. Agora, em decorrência da visita deles, sinto-me muitíssimo feliz.”

Ajamila prosseguiu: “Sou uma pessoa muito pecaminosa, mas, como obtive esta oportunidade, devo exercer pleno controle sobre a minha mente, vida e sentidos e devo sempre ocupar-me no serviço devocional para que não volte a cair na profunda escuridão e ignorância da vida material. Sendo uma alma muito degradada, caí vítima da energia ilusória e tornei-me como um cão dançarino, conduzido pela mão de uma mulher. Agora, abandonarei todos os desejos luxuriosos e me livrarei desta ilusão. Eu me tornarei um misericordioso amigo e benquerente de todas as entidades vivas e sempre estarei absorto em consciência de Krishna.”

Este deve ser o padrão de determinação para todas as pessoas conscientes de Krishna. Quem é consciente de Krishna deve livrar-se das garras de maya, e também deve ter compaixão de todas as outras pessoas que sofrem nessas garras. As atividades do movimento da consciência de Krishna destinam-se não apenas a nós mesmos, mas também aos demais. Esta é a perfeição da consciência de Krishna. A pessoa interessada em sua própria salvação não é tão avançada em consciência de Krishna como aquela que sente compaixão dos outros.

“Simplesmente porque cantei o santo nome do Senhor na companhia dos devotos, meu coração agora está se purificando. Portanto, não voltarei a cair vítima dos falsos encantos do gozo dos sentidos materiais. A partir de agora que me fixei na Verdade Absoluta, não me identificarei com o corpo. Abandonarei as falsas concepções de ‘eu’ e ‘meu’ e fixarei minha mente aos pés de lótus de Krishna.”

Aqui temos uma explicação lúcida de como a entidade viva torna-se vítima da condição material. Tudo começa com a falsa identificação do corpo com o eu. Portanto, a Bhagavad-gita tem início com a instrução espiritual de que a pessoa não é o corpo e de que ela está dentro do corpo. Essa consciência torna-se possível somente àquele que canta o santo nome de Krishna e sempre se mantém na companhia dos devotos. Esse é o segredo do sucesso. Portanto, enfatizamos que a pessoa deve cantar o santo nome do Senhor e manter-se livre das contaminações deste mundo material, especialmente das contaminações dos desejos luxuriosos de sexo ilícito, consumo de carne, intoxicação e jogos de azar. Com determinação, deve-se fazer o voto de seguir esses princípios e, então, salvar-se da condição miserável da existência material. O primeiro requisito é livrar-se do conceito de vida corpórea.

Por causa de um momento na companhia dos devotos do Senhor Supremo, Ajamila foi capaz de se desapegar, com determinação, da concepção material de vida. Livre de toda atração material, ele imediatamente partiu para a cidade de Haridwar, às margens do rio Ganges. Em Haridwar, Ajamila ficou em um templo de Vishnu, onde praticou bhakti-yoga, o processo do serviço devocional.

Ajamila Atinge a Perfeição da Vida

Ele controlou seus sentidos e aplicou completamente sua mente no serviço ao Senhor. Quando sua inteligência e sua mente se fixaram na forma do Senhor, Ajamila viu mais uma vez diante dele os quatro mensageiros celestiais de Vishnu. Reconhecendo-os como os mesmos que ele havia visto anteriormente, demonstrou-lhes respeito curvando-se perante eles.

Os Vishnudutas haviam se afastado por algum tempo para permitirem que Ajamila se tornasse fixo na meditação ao Senhor. Agora que a devoção dele havia amadurecido, retornaram para levá-lo para o mundo espiritual. Ao ver os Vishnudutas, Ajamila deixou para trás seu corpo material e recobrou seu corpo espiritual original, que era perfeitamente apropriado para um associado do Senhor. Este é o resultado da perfeição em consciência de Krishna: após deixar o corpo material, a pessoa é imediatamente transferida para o mundo espiritual em seu corpo espiritual original, para tornar-se um companheiro da Suprema Personalidade de Deus.

Em seu corpo espiritual, Ajamila vai de volta ao lar, de volta ao Supremo.

Acompanhado pelos Vishnudutas, Ajamila, então, embarcou em um aeroplano dourado, que o levou pelos céus diretamente para a morada do Supremo Senhor Vishnu, o esposo da deusa da fortuna. Embora estivesse destinado a ser levado para o inferno pelos Yamadutas, Ajamila foi salvo pelos Vishnudutas e pôde ir de volta ao lar, de volta ao Supremo, por ter cantado o santo nome do Senhor na hora de sua morte.

Na hora da morte, a pessoa certamente fica confusa em virtude de suas funções corpóreas estarem em desordem. Nessa hora, mesmo alguém que, ao longo de sua vida, tenha praticado cantar os santos nomes do Senhor pode ser que não consiga cantar o mantra Hare Krishna muito claramente. No entanto, tal pessoa recebe todos os benefícios de se entoar o santo nome. Enquanto o corpo esteja saudável, portanto, devemos cantar o santo nome do Senhor alto e com nitidez. Se alguém faz isso, é bastante possível que, mesmo na hora da morte, será capaz de cantar apropriadamente o santo nome do Senhor com amor e fé e retornar ao lar, retornar ao Supremo, sem qualquer dúvida.

Revisão de Prema-vardhana Devi Dasi.

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