Além das Verdades Relativas

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Chandramukha Swami

“Como surgimos, como fomos criados?” – foi assim que um senhor idoso da plateia mostrou uma curiosidade tipicamente científica. Antes mesmo de eu dar início a minha resposta, ele falou sobre sua ideia da nossa ancestralidade dos macacos, das bactérias evolucionistas… Meu Deus! Onde foi que eu errei? Meu discurso, que era tão ingênuo, girava em torno das qualidades da alma: aquela que nunca nasce, nunca morre, é eterna e primordial…

Respondi-lhe inicialmente dizendo que só poderia falar de criação do corpo material, pois, segundo o Gita, a alma é sempre existente e nunca é criada. Mas ele insistiu: “Somos produtos do encadeamento de reações químicas e, pela influência de leis mecânicas cegas, nos desenvolvemos…”. É claro que demonstrei respeito pela sua ideia de ‘sopa cósmica primordial’, mas era imperativo que eu recuperasse a atenção da plateia que, calada, esperava alguma luz vinda de mim. Foi então que me atrevi: “Para mim, muito mais atraente do que a pergunta ‘como fomos criados’ é o questionamento filosófico ‘por que e para que existimos’, já que ele abre um leque altamente inspirador, pois pressupõe que por trás de tudo pode haver um legislador consciente que tem um plano primoroso e perfeito. Por outro lado, a questão ‘como surgi neste mundo’ pede respostas meramente químicas, do tipo ‘originalmente, éramos nada mais que um ovinho no ventre de nossa mãe, um tipo de feijãozinho etc.’. Será que podemos nos contentar com a explicação de que não passamos de um ser mecânico, físico, uma máquina?”. Ao sentir que a maioria das pessoas voltara a relaxar em suas poltronas, parafraseei o grandioso Einstein: “Não posso acreditar que Deus esteja praticando um simples jogo de azar com o Universo!”.

Ora, as verdades materiais são relativas: o que hoje é verdade, amanhã deixará de ser, o que se aplica para uns não se aplica para outros. Verdades relativas se fundamentam no corpo, que nem sempre existiu e inevitavelmente deixará de existir. Tomemos o exemplo da posição de uma pessoa que em relação ao seu filho é pai, mas em relação a seu pai é filho. Do mesmo modo, o conceito de amigo, inimigo, esposo, patrão, empregado, controlador, controlado etc. também são relativos. Por isso, o início do Vedanta-sutra é marcado pela seguinte orientação: “Vá além dessas verdades relativas e busque o brahman, o espírito – aquilo que para todos e em qualquer lugar sempre permanecerá verdade”. Segundo o Gita, esse brahman somos nós, o verdadeiro eu espiritual, a natureza absoluta que, independentemente da cobertura corpórea, da circunstância, do lugar ou do tempo, permanece inalterável. Ou seja, somos a alma não-nascida, primordial e sempre existente.

Atitude Submissa

Além de supervalorizar os trabalhos de pesquisa e a erudição, o mundo acadêmico ocidental dá votos de confiança exagerados aos poderes dos indivíduos. Mas, discordando dos métodos acadêmicos atuais, o sistema atemporal védico – que não confia em absoluto na especulação mental e no uso dos sentidos limitados e imperfeitos – recomenda enfaticamente que o estudante procure um mestre espiritual tattva-darshi (vidente da Verdade), e, numa atitude submissa, se renda a uma disciplina espiritual. É claro que, para os ouvidos ocidentais, a palavra “submissão” não soa muito bem, já que, do lado de cá, sempre fomos inspirados a privilegiar os métodos e abordagens apoiados na especulação mental. Assim sendo, o método “submisso”, no qual os estudantes obtêm conhecimento pelo processo que descende de mestre a discípulo, é frequentemente interpretado como restrição dogmática ou doutrinária – isso quando ele não recebe a acusação de repressor da inteligência natural.

Mas, além de agitar o falso orgulho, qual seria o verdadeiro problema em se aceitar a ajuda de preceptores que, além de terem se dedicado a um profundo aprendizado, se submeteram também a rigorosas disciplinas espirituais e foram devidamente treinados na formação de caráter?…

Para dizer a verdade, nem a educação universitária consegue fugir da regra da submissão, pois acaba dependendo também dela, já que todo aluno acaba se submetendo às diretrizes de um professor. Eu me lembro de uma palestra de Hridayananda Dasa Goswami, meu preceptor (que, certamente, é um autêntico tattva-darshi), em que ele dizia que um dos mais graves problemas da educação universitária é que eles inventaram um jogo com regras caprichosas e arbitrárias que chamam arrogantemente de método científico. O futebol, por exemplo, autoriza somente o goleiro a pegar a bola com as mãos, embora, no vôlei e no handebol, as regras sejam bem diferentes. Do mesmo modo que, com visão ampla, seria inaceitável afirmar que o futebol é o único esporte verdadeiro, seria igualmente pretensioso e inadmissível considerar o método acadêmico como o único científico – uma vez que este método não passa da criação de um simples jogo com suas próprias regras.

Em outras eras, onde a atmosfera era bem mais favorável, o “jogo” era “jogado” por filósofos e cientistas muitíssimo mais inteligentes, que partiam da premissa de que a busca por respostas e explicações não era diferente da busca por Deus, a origem suprema. Portanto, seu “jogo”, com regras muito mais avançadas e contando com a ajuda de fontes espirituais, era muito mais interessante. Por outro lado, por ater-se às experiências empíricas, o atual modelo acadêmico é um completo fracasso quando tenta perceber as verdades além do alcance do ser humano. De fato, é uma ingenuidade absurda acreditar que Deus e Suas verdades superiores poderão ser compreendidos através da manipulação e controle por parte do cientista. Definitivamente, somente um fanático petulante acreditaria na possibilidade de fazer de Deus sua própria cobaia! Assim, o método empírico só poderá ajudar – quando muito – a compreendermos coisas relativas ao universo material. Entretanto, além desse conhecimento material relativo, existe o conhecimento transcendental, que diz respeito às coisas situadas além do nosso limitado campo de visão. As escrituras védicas, portanto, revelam informações que são inconcebíveis para os nossos sentidos ou raciocínios materiais, mas que, através das práticas de yoga e meditação – uma metodologia científica espiritual – podem ser realizadas e percebidas diretamente.

Basta que o estudante receba orientação de um guru tattva-darshi, o que torna desnecessário o trabalho de pesquisa. Ao aceitar a iniciação de um guru, que não somente acredita no que está ensinando, mas o pratica fielmente, um novo campo de conhecimento se descortina diante do discípulo, pois é bem mais fácil compreender as escrituras por ouvir instruções de alguém que esteja pleno de realizações pessoais do que por estudar por conta própria a palavra escrita. Além disso, o guru é um representante vivo da sucessão discipular e traz consigo os ensinamentos dos mestres antecessores. Na verdade, o que qualifica o guru não é seu conhecimento acadêmico ou seu brilho intelectual, mas sua retidão de caráter e sua posição acima do desfrute egoísta e sua condição de liberdade da escravidão das demandas corpóreas. Convicto de que o conhecimento espiritual traz as verdadeiras soluções para os problemas (que são sempre de ordem material), ele pessoalmente leva uma vida bem-aventurada em união com o Supremo, e todas as suas instruções são compatíveis tanto com o seu comportamento quanto com os ensinamentos originais dos Vedas. É muito raro encontrar tal grande alma.

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Uma resposta

  1. Angela Moss de Sá

    Nara, esse texto me fez lembrar Espinoza, partes extensas e partes intensas, e que somos parte de uma mesma substância divina. Partes extensas e corpo material e partes intensas e espírito. Afinal, um corpo material sem o espírito não passa de um pedaço de carne.

    17 de junho de 2013 às 7:12 PM

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