Analisando a Estrutura do Bhagavad-gita

06 R (artigo - bhagavad-gita) Analisando a Estrutura do Bhagavad-gita (1731) (Sankirtana)Isvara Krishna Dasa

O Bhagavad-gita é, sem dúvidas, o maior tratado espiritual e um dos maiores clássicos do mundo. Entender que um conceito hierárquico de realidade caracteriza o Gita pode-nos ajudar a ver a coerência da mensagem do Gita.

O Bhagavad-gita fala em dois níveis maiores de realidade e um terceiro intermediário. Podemos usar as palavras sânscritas dharma e moksha para tratar os dois níveis principais, e yoga para o terceiro. Dharma se refere a um conjunto de valores representados por dever, religião, moralidade, lei, ordem e justiça, que, juntos, mantêm a vida humana civilizada. Yoga se referiria ao esforço de se desapegar da vida mundana enquanto tenta se unir ao estado de libertação. Moksha se refere ao estado liberado de perfeição e existência eterna em serviço devocional ao Senhor Supremo, Sri Krishna. O nível de dharma representa o homem enquanto parte deste mundo, o nível de moksha representa o real ou a condição absoluta (liberta), e o nível de yoga é o intermediário. Podemos também definir esses três níveis como o finito, o intermediário e o infinito.

Podemos ainda distinguir cada nível em termos de valores e de ser. Para dharma, a regra geral em termos de valores é prosperar. Neste nível, a pessoa desejaria prazeres do mundo e prosperidade, vendo esses como bons. Em termos de ser, a pessoa veria a entidade viva como sendo o corpo, sendo um ser humano ou alguma outra espécie.

No segundo nível (yoga), a pessoa rejeitaria a prosperidade mundana, valorizando, ao contrário, desapego do mundo e indiferença tanto ao prazer quanto à aflição materiais. Neste nível, a pessoa se aproximaria de uma realidade mais elevada, a de moksha. Em yoga, a pessoa valorizaria a superioridade do ser de mente estável perante tanto felicidade quanto aflição, e buscaria se absorver no Brahman. Em termos de ser, a pessoa não perceberia mais a si e aos outros como o corpo, mas como eternas almas espirituais condicionadas às leis do samsara.

No terceiro nível (moksha), a pessoa substituiria a indiferença e desapego do segundo nível por profundo amor e apego à Pessoa Suprema. Como ser, a alma vigilante do segundo nível se tornaria agora um servo puro e amante da Pessoa Suprema.

Os três níveis representam estados mentais internos e atitudes. Assim, uma pessoa que vê o mundo do ponto de vista do nível primeiro é certa de ser um ser humano, e que sua meta é prosperidade. No segundo nível, a pessoa é certa de ser um eu espiritual condicionado e que deve ter como meta abandonar tal situação condicionada. No terceiro nível, a pessoa vê o Senhor Supremo em toda a parte e tenta amá-lO e servi-lO.

Podemos usar uma casa de três andares como metáfora. Cada andar tem ilimitados caminhos e oportunidades. Além disso, os residentes de cada andar têm sua própria língua, termos e assunções. De alguma forma, o Bhagavad-gita fala três línguas e constantemente se movimenta entre os três níveis. Uma vez que reconheçamos em qual nível está situado cada texto, aquele texto ou seção se torna inteligível e podemos ver como é conectado com o restante do tratado.

Um Exemplo de Transição Entre Níveis Metafísicos no Bhagavad-Gita

Quando Arjuna argumentou contra lutar na guerra, ele o fez no primeiro nível. Podemos analisar seus argumentos de acordo com os dois parâmetros previamente analisados: valores e ser. Quanto a valores, é facilmente perceptível que o foco do discurso de Arjuna é a aquisição de prosperidades mundanas. Um de seus principais pontos é que a guerra causaria o decline do dharma e a ascensão do adharma, o que acarretaria em sofrimento para o mundo. Como ele acredita que prosperidade é bom, ele levanta oposição à guerra. Em termos de ser, Arjuna pensa em si mesmo e nos outros como sendo seres humanos.

Krishna não responde Arjuna diretamente, senão que leva a conversa para o segundo nível. Em Sua resposta, os valores que Krishna propõe são absolutamente diferentes; Krishna não aceita a ideia de que prosperidade mundana é algo positivo, mas sugere indiferença (e tolerância) em relação a felicidade e aflição materiais. Ele diz serem estes efêmeros e produzidos apenas da percepção sensorial. No campo do ser, Krishna não Se refere aos soldados como sendo seres humanos, mas Se refere a eles como almas espirituais. Não respondendo diretamente à pergunta de Arjuna, Krishna faz uma espécie de “revolução coperniciana”, mudando a assunção da conversa. Arjuna argumenta que matar seus parentes é ruim, claramente algo do departamento do primeiro andar que assume que as pessoas estão sujeitas à morte mas que a morte deve ser evitada tanto quanto possível pela causa da vida próspera. Krishna não responde aos argumentos de Arjuna, mas muda completamente a conversa para outro nível e fala partindo de outra priori. Basicamente, Ele fala que a morte não existe de fato (assunção do segundo andar) e, portanto, não percebe lógica nos argumentos de Arjuna. Assim, também, Krishna desafia a ideia de Arjuna de que prosperidade e felicidade mundanas são boas e desejáveis. Ele propõe a ideia de que a indiferença a felicidades e aflições é algo bom e desejável. Em suma, Krishna fala pelo segundo andar da casa.

O Aspecto Reformador do Bhagavad-gita

Como uma escritura prática, o Bhagavad-gita oferece os meios para se cruzar o caminho entre o primeiro nível (dharma) e o terceiro (moksha). Mera adesão a dharma e rejeição a adharma não é suficiente para se alcançar o estágio de moksha. A pessoa precisa de outro tipo de empenho ou caminho. Esse processo ou empreendimento é algumas vezes chamado de autorrealização e envolve um caminho reformatório pelo qual a pessoa progride, passo a passo, avançando do nível inferior em direção ao nível superior. Quais meios práticos ou sistemas o Bhagavad-gita oferece?

Uma questão significativa levantada no Bhagavad-gita é se a pessoa deve escolher o caminho da ação ou o caminho contemplativo. Arjuna levanta tal pergunta duas vezes, no começo do terceiro capítulo e no começo do quinto. O Bhagavad-gita claramente recomenda o caminho da ação como meio para o executor se elevar do nível de dharma para o estado de moksha. A pessoa executa essas ações purificatórias de acordo com seu dharma e continua a trabalhar dentro de sua gama de deveres dármicos. Assim, Krishna, por meio de Seu discurso, encoraja Arjuna a seguir seu dharma e lutar. Todavia, com o progredir do diálogo, os motivos para Arjuna lutar começam a se refinar. Krishna mostra a Arjuna como ele pode lutar em um estado de consciência cada vez mais elevado. Dessa forma, embora externamente continuemos com a execução de nossos deveres prescritos, nós, internamente, por sublimação ou purificação, sofremos uma reforma em nossas motivações para agir. Assim, uma espécie de escadaria é formada, pela qual a pessoa sobe mais e mais de dharma a moksha no caminho da autorrealização.

Referências Textuais da Escada das Motivações

No estágio mais baixo, as atividades pessoais são motivadas pelo utilitarismo, ou o desejo de conseguir algo para si mesmo. Krishna, primeiramente, lança mão de um argumento utilitarista para tentar convencer Arjuna a empunhar suas armas. Krishna toma como verdade que Arjuna aspira a lucros, tais como fama e felicidade, e argumenta que se ele abandonar o campo de batalha ele perderá sua fama.

O próximo argumento de Krishna também é utilitarista, mas é, de alguma forma, superior no sentido de que aceita a autoridade das escrituras ao afirmar que os guerreiros mortos no campo de batalha alcançam os planetas celestiais. Podemos, portanto, chamar o estágio em que esse argumento é levantado de “utilitarismo religioso” ou “utilitarismo dármico”.

Em outras palavras, Krishna aconselha Arjuna a seguir o dharma para que consiga certos fins nesta vida ou na próxima. Mas é superior seguir o dharma por si só, ou executar o dever por uma questão de dever. Esse estágio representa um modo puro de agir, livre de desejo aos frutos, e é um dos ensinamentos centrais do Bhagavad-gita. Ainda estamos no primeiro andar, todavia, uma vez que essa instrução não inclui a consciência do benefício maior, que é, de acordo com o Bhagavad-gita, a liberação do samsara. De qualquer forma, aqueles que seguem dharma por uma questão de dever alcançam a perfeição do primeiro nível e podem continuar progredindo no nível seguinte.

O estágio seguinte rejeita o valor dos Vedas – considerando-os relacionados à prosperidade mundana – em prol de um ideal superior: alcançar o Brahman. Podemos chamar esse estágio de “ação motivada por alcançar o benefício maior (Brahman)”. Aquele que assim age está situado no segundo nível, caracterizado por vários processos de yoga. Ele talvez passe a praticar karma-yoga – desinteressado dos frutos de suas ações, ele os oferece ao Supremo. Ele talvez passe a praticar jnana-yoga, ashtanga-yoga ou bhakti-yoga. Todas essas práticas de yoga têm como objetivo comum fazer com que o praticante se desapegue dos apegos e da existência materiais e se fixe no Supremo. Iluminação e renúncia caracterizam o estágio de yoga. Tendo atingido a perfeição desse estágio, nós, finalmente, elevamo-nos ao terceiro, o andar de moksha, e continuamos a executar nossos deveres em um humor profundo, puro e espontâneo de amor devocional por Krishna.  

Sumário

Nós adicionamos alguns passos à nossa simples escada de três degraus. Agora podemos sumarizar os estágios em utilitarismo simples, utilitarismo dármico, dever pelo próprio dever, agir objetivando o benefício maior ou o Brahman, o estágio de yoga, e o estágio de moksha ou devoção pura. Nessa escada das motivações, os motivos mais elevados de cada um para agir estão situados na estrutura metafísica do Bhagavad-gita. Nesse sentido, o Bhagavad-gita inclui todo o reino da existência enquanto encoraja a todos a ascenderem ao longo das diversas motivações, distanciando, assim, a pessoa do samsara e aproximando-a do Brahman. Seguindo essa estrutura, o estudante pode entender o Bhagavad-gita como um tratado teológico-filosófico coerente, firmemente conectado como um texto único e unificado. O Bhagavad-gita oferece o modelo de uma casa de três andares na qual o mundo inteiro pode morar.

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