Cultura Divina

@07 (artigo - Pregação) Cultura Divina (2006) (bg)

Sua Divina Graça A.C. Bhaktivedanta Swami Prabhupada

As pessoas não devem pensar que estamos pregando uma reli­gião sectária. Não. Estamos simplesmente pregando como amar a Deus.

Existe uma concepção equivocada de que o movimento da consciência de Krishna representa a religião hindu. Na verdade, a consciência de Krishna não é alguma forma de fé ou religião que procura destruir outras fés ou religiões. Ao contrário, é um movimento cul­tural essencial para toda a sociedade humana, e não se tem em conta nenhuma fé sectária particular. Este movimento cultural destina-se especialmente a educar as pessoas no atinente a como elas devem amar a Deus.

Algumas vezes, os indianos, tanto fora quanto dentro da Índia, pensam que estamos pregando a religião hindu, mas, na verdade, não é esse o caso. Ninguém encontrará a palavra “hindu” no Bhagavad-gita. Na rea­lidade, essa palavra “hindu” não existe em nenhuma parte da lite­ratura védica. Tal palavra foi introduzida pelos muçulmanos provenientes das províncias perto da Índia, como o Afeganis­tão, o Baluchistão e a Pérsia. Existe um rio chamado Sindhu, o qual faz fronteira com as províncias situadas a noroeste da Índia, e, uma vez que os muçulmanos daquela região não conseguiam pronunciar corretamente a palavra “Sindhu”, eles chamavam o rio de “Hindu”, e os habitantes dessa região, de “hindus”. Na Índia, segundo o idioma védico, os europeus são chamados mlecchas, ou yavanas. De modo similar, “hindu” é um nome dado aos indianos pelos muçulmanos.

A verdadeira cultura da Índia é descrita no Bhagavad-gita, onde se afirma que, de acordo com as diferentes qualidades, ou modos da natureza, existem diferentes classes de homens, que geralmente são classificados dentro de quatro ordens sociais e quatro ordens espiri­tuais. Esse sistema de divisão social e espiritual é conhecido como varnasrama-dharma. Os quatro varnas, ou ordens sociais, são brahmana, kshatriya, vaishya e shudra. Os quatro asramas, ou ordens espirituais, são brahmacharya, grihastha, vanaprastha e sannyasa. O sistema varnasrama é descrito nas escrituras védicas conhecidas como Puranas. O objetivo desta instituição da cultura védica é educar todos os homens no avanço do conhecimento acerca de Krishna, ou Deus. Nisso consiste todo o programa védico.

Ao conversar com o grande devoto Ramananda Raya, o Senhor Chaitanya perguntou-lhe: “Qual é o princípio básico da vida huma­na?”. Ramananda Raya respondeu que a civilização humana começa com a aceitação do varnasrama-dharma. Antes de se chegar ao padrão de varnasrama-dharma, não se pode falar de civilização humana. Portanto, o movimento da consciência de Krishna está ten­tando estabelecer este sistema correto de civilização humana, que é conhecido como “consciência de Krishna”, ou daiva-varnasrama – cultura divina.

Na Índia atual, o sistema varnasrama é enten­dido de modo pervertido, de maneira que um homem nascido na família de um brahmana – a ordem social mais elevada – exige que deve ser aceito como um brahmana. Essa exigência, no entanto, não é aceita pelo shastra, a escritura. Nosso antepassado pode ter sido um brahmana se­gundo o gotra, ou a ordem hereditária da família, mas o verdadeiro varnasrama-dharma baseia-se na qualidade concreta que tenha­mos obtido, independentemente de nascimento ou hereditariedade. Portanto, não estamos pregando o atual sistema dos hindus, tampouco o sistema daqueles que estão sob a influência de Shankaracharya, pois Shankaracharya ensinou que a Verdade Absoluta é impessoal, em consequência do que ele nega indiretamente a existência de Deus.

A missão de Shankaracharya foi especial: ele apareceu para resta­belecer a influência védica após a influência do budismo. Porque o budismo foi patrocinado pelo imperador Ashoka 2.600 anos atrás, a religião budista tomou praticamente toda a Índia. Segundo a literatura védica, Buddha é uma encarnação especial de Krishna dotada de poder, a qual apareceu com um propósito especial. Seu sistema de pensamento, ou fé, foi largamente aceito, mas Buddha rejeitou a autoridade dos Vedas. Enquanto o budismo se espalhava, a cultura védica sofreu interrupção tanto na Índia quanto em outros lugares. Portanto, uma vez que o único objetivo de Shankaracharya era acabar com o sistema filosófico de Buddha, ele introduziu o sistema chamado mayavada.

Estritamente falando, a filosofia mayavada é ateísta, pois é um processo no qual “se imagina” que Deus existe. Semelhante sistema mayavada de filosofia existe desde tempos imemoriais. O atual sistema indiano de religião ou cultura baseia-se na filosofia mayavada de Shankaracharya, que se coaduna com a filosofia bu­dista. Segundo a filosofia mayavada, Deus, na verdade, não existe, ou, se Deus existe, ele é impessoal e onipenetrante e pode, por­tanto, ser imaginado sob qualquer forma. Essa conclusão não está de acordo com a literatura védica. Muitos semideuses, que são adorados para diferentes objetivos, são mencionados na literatura védica, mas, em todos os casos, o Senhor Supremo, a Personalidade de Deus, Vishnu, é aceito como o controlador supremo. Essa é a verdadeira cultura védica.

A filosofia da consciência de Krishna não nega a existência de Deus e dos semideuses, ao passo que a filosofia mayavada nega a existência de ambos. Para os mayavadis, tudo é, em última análise, nada. Eles dizem que se pode imaginar qualquer autoridade – seja Vishnu, seja Durga, seja Shiva, seja o deus do Sol – porque estes são os semideuses geralmente adorados na sociedade. Na verdade, entretanto, a filosofia mayavada não aceita a existência de nenhum deles. Os mayavadis dizem que, como não podemos concentrar a mente no Brahman impessoal, podemos imaginar qualquer uma dessas for­mas. Esse é um sistema novo, chamado panchopasana. Ele foi introduzido por Shankaracharya, mas o Bhagavad-gita não ensina doutrinas dessa espécie, as quais, portanto, não têm autoridade.

O Bhagavad-gita aceita a existência dos semideuses. Os semideuses são descritos nos Vedas, e não se pode negar sua existência. Contudo, não devemos compreendê-los nem adorá-los de acordo com o método de Shankaracharya. A adoração a semideuses é rejeitada no Bhagavad-gita. O Gita (7.20) afirma claramente:

kamais tais tair hrita jnanah

prapadyante ’nya-devatah

tam tam niyamam asthaya

prakritya niyatah svaya

“Aqueles cujas mentes são corrompidas por desejos materiais rendem-se aos semideuses e seguem as regras e regulações particu­lares de adoração conforme a própria natureza deles”. Ademais, no Bhagavad-gita (2.44), o Senhor Krishna afirma:

bhogaisvarya-prasaktanam

tayapahrita-cetasam

vyavasayatmika buddhih

samadhau na vidhiyate

“Nas mentes daqueles que estão muito apegados à gratificação dos sentidos e à opulência material, e que se deixam confundir por essas coisas, não ocorre a determinação resoluta de prestar serviço devocional ao Senhor Supremo”.

Aqueles que estão buscando os vários semideuses são descritos como hrita-jnanah, que significa “aqueles que perderam o discernimento”. Isso tam­bém é explicado mais detalhadamente no Bhagavad-gita (7.23):

antavat tu phalam tesham

tad bhavaty alpa-medhasam

devan deva-yajo yanti

mad-bhakta yanti mam api

“Homens de pouca inteligência adoram os semideuses, e seus frutos são limitados e temporários. Aqueles que adoram os semideuses vão para os planetas dos semideuses, mas Meus devotos alcançam Minha morada suprema”.

As recompensas dadas pelos semideuses são temporárias, porque qualquer vantagem material está neces­sariamente relacionada ao corpo temporário. Qualquer que seja a vantagem material obtida, seja mediante os modernos métodos científicos, seja mediante a obtenção de bênçãos por parte dos semideuses, acabará juntamente com o corpo. O avanço espiritual, no entanto, jamais terá fim.

As pessoas não devem pensar que estamos pregando uma reli­gião sectária. Não. Estamos simplesmente pregando como amar a Deus. Há muitas teorias sobre a existência de Deus. O ateísta, por exemplo, jamais acreditará em Deus. Ateístas como o profes­sor Jacques Monod, que ganhou o prêmio Nobel, declaram que tudo é acaso – teoria esta já advogada muito tempo atrás por filóso­fos ateístas da Índia, como Charvaka. Depois, outras filosofias, como a filosofia karma-mimamsa, aceitam que, se continuamos tra­balhando correta e honestamente, o resultado virá automatica­mente, sem que precisemos recorrer a Deus. Para dar provas disso, aqueles que propõem essa teoria citam o argumento de que, se alguém adoecer por causa de uma infecção e tomar remédio para neutralizá-la, a doença será neutralizada. Nosso argumento a esse respeito, todavia, é que mesmo que se dê o melhor remédio a uma pes­soa, ela ainda assim poderá morrer. Os resultados nem sempre po­dem ser prognosticados. Portanto, existe uma autoridade superior, daiva-netrena, um diretor supremo. Do contrário, como o filho de um homem rico e piedoso se torna um hippie de rua, ou um homem que trabalha arduamente e enriquece ouve seu médico dizer: “Agora o senhor não pode comer nada, somente sopa de cereais”?

A teoria karma-mimamsa advoga que o mundo continua exis­tindo sem a direção suprema de Deus. Semelhante filosofia diz que tudo acontece por luxúria (kama-haitukam). Através da luxúria, um homem sente-se atraído por uma mulher, e, por acaso, os dois fazem sexo e a mulher engravida. Na verdade, não são feitos planos para engravidar a mulher, mas, dentro de uma sequência natural, quando um homem e uma mulher unem-se, produz-se esse resultado. A teoria ateísta, que é descrita no décimo sexto capí­tulo do Bhagavad-gita como assúrica, ou demoníaca, é que, na verdade, tudo está acontecendo dessa maneira por causa do acaso, que resulta da atração natural. Essa teoria demoníaca apoia a ideia de que, se qui­sermos evitar filhos, podemos utilizar um método anticoncepcional.

Entretanto, a verdade é que há um plano superior para tudo – o plano védico. A literatura védica apresenta instruções sobre como homens e mulheres devem unir-se, como devem gerar filhos e qual é o objetivo da vida sexual. Krishna diz no Bhagavad-gita que a vida sexual sancionada pela ordem védica, ou a vida sexual sob a orien­tação das regras e regulações védicas, é autêntica e aceitável para Ele. A vida sexual indiscriminada, em contrapartida, não é aceitável. Se, por acaso, uma pessoa se sente atraída sexualmente e gera filhos, esses filhos são chamados varna-sankara, ou seja, “população não desejada”. É assim que fazem os animais inferiores, mas isso não é aceitável para os seres humanos. Para os seres humanos, há um plano. Não podemos aceitar a teoria de que não há plano algum para a vida humana, ou de que tudo surge do acaso e da necessidade material.

A teoria de Shankaracharya de que Deus não existe e de que podemos continuar com nosso trabalho imaginando Deus sob qualquer forma apenas para manter a paz e a tranquilidade na sociedade também se baseia mais ou menos nessa ideia de acaso e necessidade. Nosso método, todavia, que é completamente diferente, baseia-se na autoridade. É este varnasrama-dharma divino que Krishna recomenda, não o sistema de castas como é entendido atualmente. O moderno sistema de castas é atualmente condenado na Índia também, e deve sê-lo, pois a classificação de diferentes categorias de homens de acordo com o nascimento não é o sistema de castas védico, ou divino.

Há muitas classes de homens na sociedade – alguns são engenhei­ros, outros são médicos, químicos, comerciantes, homens de negó­cios e assim por diante. Tais variedades de classes não podem, entretanto, ser determinadas pelo nascimento, mas, sim, pela quali­dade. Esse sistema de castas por nascimento não é sancionado pela literatura védica, nem nós o aceitamos. Nada temos a ver com o sistema de castas, que atualmente também está sendo rejeitado pelo público na Índia. Ao contrário, damos a todos a oportunidade de se tornarem brahmanas e assim atingirem a posição mais elevada da vida.

Como atualmente há grande escassez de brahmanas, guias espiri­tuais, e de kshatriyas, administradores, e como o mundo inteiro está sendo governado por shudras, ou homens da classe dos trabalhado­res braçais, há muitas discrepâncias na sociedade. É para mitigar todas essas discrepâncias que adotamos este movimento da consciência de Krishna. Se a classe dos brahmanas for realmente es­tabelecida, as outras ordens de bem-estar social seguirão automaticamente, da mesma forma que, se o cérebro está perfeitamente em ordem, as outras partes do corpo, tais como os braços, o estômago e as pernas, funcionam muito bem.

O objetivo último deste movimento é educar as pessoas no amor a Deus. O Senhor Chaitanya Mahaprabhu aprova a conclusão de que a perfeição máxima da vida humana é aprender a amar a Deus. O movimento da consciência de Krishna nada tem a ver com a religião hindu ou qualquer outro sistema de religião. Nenhum ca­valheiro cristão estará interessado em mudar sua fé cristã para a fé hindu. Da mesma forma, nenhum cavalheiro hindu que seja culto estará disposto a transferir-se para a fé cristã. Mudanças desse tipo são para homens que não têm posição social firmada. Contudo, todos estarão interessados em compreender a filosofia e a ciência de Deus e levá-las a sério. Deve-se compreender claramente que o movimento da consciência de Krishna não está pregando a suposta religião hindu. Estamos apresentando uma cultura espiritual que pode resolver todos os problemas da vida, em virtude do que ela está sendo aceita em todo o mundo.

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