Cultura do Desapego

Cultura do Desapego

Purushatraya Swami 

Há algum tempo, no Rio de Janeiro, participei de um congresso inter-religioso internacional. Nessa ocasião, tive a oportunidade de conhecer um muçulmano intelectual, Ph.D., de nacionalidade indiana, mas radicado nos Estados Unidos, professor da cadeira “Islamismo” do departamento de religião de uma prestigiosa universidade na Califórnia.

Em um momento de intervalo nas reuniões plenárias, ele se aproximou me dizendo: “Gostaria de saber qual é o pensamento védico sobre a seguinte proposição: todos nós temos desejos sempre e, certamente, vamos morrer com eles. No momento da morte, como esses nossos desejos poderão ser satisfeitos?”. Ele, então, explicou-me que, de acordo com a doutrina do islã, alguém que segue estritamente as leis de Deus obterá a salvação eterna no céu e, assim, terá a oportunidade de satisfazer todos os seus desejos. Por exemplo, caso tenha desejo de riqueza e seja merecedora da salvação, a pessoa será imensamente rica no céu; se deseja prazeres sensuais, terá prazeres ilimitados no céu, e assim por diante. “Em meu caso”, complementou, “meu desejo mais intenso é prover o bem-estar tanto para mim quanto para a minha família. Tenho certeza de que vou morrer com esse desejo, pois ele é muito forte dentro de mim. Durante a vida atual, tenho tentado satisfazer esse desejo da melhor forma possível, mas acredito que isso só será realizado plenamente no pós-morte, no paraíso”. Ele, então, disse: “Gostaria muito de saber qual é a versão védica sobre esse tema da satisfação dos desejos”.

Pelo modo com que ele se dirigiu a mim e por sua agilidade intelectual patente, calculei que me exigia uma resposta curta e objetiva. Ademais, já se aproximava o horário para recomeçarmos mais uma seção do congresso. Então, meditei internamente em Krishna, pedindo que iluminasse minha inteligência a fim de satisfazer o intelecto do professor.

De imediato, disse-lhe que o conhecimento védico tem um foco diferente quanto à dinâmica dos desejos, tal como ele colocou. Na verdade, não devemos carregar os desejos desta vida para a próxima, seja lá onde esta for. Expliquei-lhe que, de acordo com a cultura védica, o ciclo da vida divide-se em quatro fases distintas: A primeira é a fase de estudante (brahmacarya); a seguir, aquela da vida familiar (grihastha); seguindo-se, tem-se a fase de aposentadoria (vanaprastha) e, por fim, a vida renunciada (sannyasa).

Na primeira fase, o jovem é preparado para a vida. Ele deve aprender tanto conhecimento material, necessário para a vida prática, quanto os ensinamentos espirituais, fundamentais para dar um sentido filosófico à vida. Nessa fase de vida, todo jovem cria, naturalmente, muitas expectativas para sua vida, e, assim, muitos desejos naturalmente surgem em sua mente.

Na segunda fase, já envolvido com as complexidades da vida familiar, ele precisa utilizar sua capacidade profissional para ganhar dinheiro e manter a família. Paralelamente a isso, deve ser o esteio espiritual da família. Nessa etapa da vida, todos os desejos materiais nascidos na juventude, somados àqueles que surgem nessa fase apaixonada de vida, têm a oportunidade de serem satisfeitos. Em tal fase, naturalmente, sobrevêm desejos de boa moradia, propriedades, veículos, viagens, vida social, entretenimentos etc.; ademais, há a motivação para elevar o padrão de vida e expandir-se socialmente. Deseja-se dar boa educação para os filhos e bem-estar à família.

A partir da meia-idade, quando se inicia a terceira fase, espera-se que já se tenha estabelecido sua manutenção em bases sólidas e que seus filhos mais velhos já devam possuir condições de substituí-lo na linha de frente dos negócios. A fase em que naturalmente se tinha o ímpeto e a disposição para se buscar os desejos materiais já ficou para trás. Se todos os seus desejos materiais nascidos em sua mente não puderam ser satisfeitos, ou por estarem acima da capacidade individual ou por fatores externos condicionantes — “paciência”! A fase de satisfazer os desejos já está terminada. Nessa nova fase, é preciso concentrar-se mais nos assuntos espirituais. Faz-se necessário dedicar-se, diariamente, durante algumas horas, a práticas espirituais para que se alcance o aperfeiçoamento espiritual. A pessoa deve contentar-se com as oportunidades que naturalmente vieram até ela e tentar ser feliz com aquilo que conquistou. Afinal, a tendência da mente é sempre produzir novos desejos, e sempre, invariavelmente, haverá um ou outro desejo pendente. Krishna diz no Bhagavad-gita que os desejos materiais estão sempre associados à ansiedade e constituem um impedimento para se chegar à paz interior. É preciso, portanto, tentar dar um sentido totalmente espiritual para sua vida. A mente nunca cessará de produzir desejos, pois esse é seu mecanismo natural, mas a pessoa, usando sua capacidade de livre-arbítrio, deve transmutar a natureza de seus desejos — antes eles eram desejos para satisfação do ego, a partir de então, eles o serão para a satisfação da alma.

A cultura védica ainda prescreve uma quarta etapa na vida, a fase de renúncia completa, a qual também é chamada de “morte civil”. Encerram-se as atividades sociais, familiares, profissionais, políticas, em suma, todas as atividades de natureza secular, e pode retirar-se a um monastério, ashram, convento, mosteiro ou algo dessa natureza, para se dedicar exclusivamente à vida espiritual. Ela irá realmente se preparar para sair deste mundo. Sair deste mundo sem ambições, aspirações de fama e poder, desejos de desfrute e posse, desejos egocêntricos. A pessoa constata que todos esses desejos são centrados no ego, na personalidade externa que decora seu corpo, que, mais cedo ou mais tarde, será descartado. Pela prática espiritual, ela deve estar plenamente consciente de que, em última instância, ela não é o corpo, mas uma alma espiritual.

Para a alma, todas essas aspirações referentes ao corpo não fazem o menor sentido. A individualidade da alma é diferente da individualidade baseada no ego. Individualidade espiritual da alma significa relação pessoal com Deus, que, por sua natureza absoluta e perfeita, faz com que qualquer desejo material seja considerado um “caco de vidro em relação à gema preciosa da comunhão amorosa com Deus”.

A prática do desapego, principalmente ao final do ciclo de vida, é um dos ensinamentos mais importantes de Krishna no Bhagavad-gita. Portanto, com toda a precisão, podemos definir a cultura védica como “a cultura do desapego”.

Gostaria de ter discursado mais para o professor, mas, naquele momento, já estavam nos convocando para recomeçar os trabalhos do congresso e tivemos que nos despedir. Pela expressão de seu rosto e pelo modo introspectivo como ele se manifestava ao se despedir, tive a nítida impressão de que minha explicação tocou fundo em seu coração.

Este artigo é um capítulo da obra Sanidade Espiritual, de Purushatraya Swami. Adquira a obra:

09 SI (artigo) Cultura do Desapego (1090)2

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Uma resposta

  1. Dani

    Entendi , mas, e a pessoa que não vive esta sequencia? Por exemplo, uma jovem que não recebeu preparo filosofico e profissiomal, não se casou, e que precisa na meia idade ainda se concentrar em angariar recursos para sobrevivencia. Como ela pode se dedicar a assuntos espirituais?
    Outra questão , segundo o texto , assuntos espirituais é somente para depois da meia idade? Antes disso, é natural satisfazer os desejos materiais, então?

    14 de dezembro de 2015 às 6:47 PM

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