Das Culturas Animistas ao Personalismo

23 (artigo - filosofia e psicologia) Das Culturas Animistas ao Personalismo (2600) (bg)1 Hridayananda Dasa Gosvami
(excerto da obra Razão e Divindade)

Animismo, politeísmo, monoteísmo: uma análise do fenômeno da religião no mundo em categorias simples.

Existem dois extremos em nossa cultura, um tendo produzido o outro. Um extremo é simplesmente o fanatismo religioso, que ocorre quando alguém se torna tão entusiasta ou zeloso com relação à sua tradição que não vê validade em outras tradições – o que pode infectar qualquer religião.

Então, um extremo é ser fanático e negar ou simplesmente não enxergar validade em outras tradições. O outro extremo reage contra isso. Houve uma época na história após o grande Isaac Newton quando professores universitários na Europa escreviam artigos de grande erudição explicando como identificar corretamente uma bruxa verdadeira, para que não se queimasse a mulher errada. Tais ensaios eram produzidos nas melhores universidades europeias. Não me estenderei em todos esses eventos bizarros, pois sabemos sobre as inquisições, cruzadas, queima de bruxas etc. – a história é um tanto atribulada. Em resposta a isso, existe outro extremismo, igual e oposto, que rejeita qualquer tentativa, até as mais racionais, de colocar diferentes pontos de vista espirituais em uma hierarquia; como se fosse física newtoniana cultural, onde toda ação produz uma reação igual e oposta. Por causa desse fanatismo religioso letal, existe outro extremismo, que eu chamo de ecletismo dogmático: selecionar, montar e fazer sua própria “colagenzinha” de ideias metafísicas, criar seu próprio dharma. Há muitas pessoas por aí que consideram maligno sugerir que pudesse existir uma verdade mais elevada, ou que ela não é igualmente encontrada em toda parte, e que pudesse de fato haver tal coisa como uma gradação de compreensões espirituais em diferentes lugares.

O interessante sobre esses dois extremos é que ambos são irracionais. Proclamar que uma religião seja a única verdadeira, que as demais sejam falsas e que as pessoas irão para um lugar muito ruim, o inferno, é obviamente irracional, pois, se estudarmos as diferentes religiões do mundo, veremos que existem muitas pessoas boas que adoram sinceramente a Deus e fazem o bem aos outros. Portanto, seria ridículo não reconhecer a presença de Deus em muitos lugares. Ao mesmo tempo, dizer que tudo é igual demonstra que, em primeiro lugar, quem fala assim obviamente não estudou a sério as religiões do mundo. Em outras palavras, a alegação de que tudo é igual não é uma conclusão racional baseada em um estudo objetivo minucioso, senão que é um prisma defendido dogmaticamente, um pressuposto a priori: “Não preciso me preocupar em estudar as religiões; é verdade que todas são iguais porque tem que ser assim”. Com efeito, isso é igualmente fanático, o que era de se esperar, já que é uma reação a outro fanatismo.

O que de fato verificamos, se estudarmos as culturas espirituais sérias do mundo que já existem há algum tempo, é que em cada uma delas há o reconhecimento e o ensinamento bastante franco de diferentes níveis de compreensão espiritual. Se estudarmos o cristianismo, o judaísmo, o sufismo, o vaishavismo, o budismo – não quero deixar ninguém de fora –, em praticamente todas as tradições sérias existe uma diferença entre se aproximar de Deus, ou de algo que alguém considere ser um poder divino, apenas para tentar obter benefícios materiais – “Ó Senhor, por favor, mandai para mim um par de tênis bastante caro” –, e se aproximar de Deus com verdadeira devoção altruísta, como um ato de amor. Se em qualquer relacionamento alguém nos abordar sendo muito gentil, querendo nos levar para almoçar porque quer que assinemos um contrato – “vamos fechar negócio?” –, tentando obter algo de nós, não acho que isso cause a mesma sensação decorrente de quando alguém que genuinamente nos ama, que tenha verdadeira afeição por nós, pergunta-nos: “Posso levar você para almoçar?”. São coisas bem distintas, e obviamente também devem ser do ponto de vista de Deus.

Primeiro, se analisarmos os ensinamentos das tradições orais, este seria um exemplo típico: “Eu caminhava pela estrada através da floresta e vi um papagaio que, na verdade, era o meu tio, que acabara de se transformar em um papagaio. Então, o papagaio voou e se transformou em um urso, que, na verdade, era a minha tia. Então, o urso pulou em um rio e se transformou em um peixe…”. Em termos de conhecimento, as culturas animistas têm uma visão mágica do mundo; sua ontologia é muita fluida, e não é sistematicamente coerente.

Depois, se analisarmos as culturas politeístas, têm a tendência a ser mais estáveis e desenvolvidas, porém se envolvem com excesso em antropomorfismo. Em outras palavras, tendem a não ser filosóficas nem teológicas, a não pensar muito seriamente sobre a natureza de Deus, e os próprios deuses e deusas comumente possuem profundas falhas de caráter. Um exemplo muito bom disso é a mitologia da Grécia antiga, que foi expressa da maneira mais importante nos escritos de Homero, a Ilíada e a Odisseia. E vemos uma rebelião intelectual contra isso entre os filósofos, sendo Platão o mais famoso; sua República tem muitas coisas desagradáveis a dizer sobre Homero, que era a peça central da educação grega. Contudo, Platão recomendou que a banissem: “Parem de ensinar sobre esse sujeito! Ele está arruinando a Grécia!”. E o motivo foi que os deuses não eram nem mesmo plenamente morais – sequer serviam de modelo para as pessoas comuns.

Após analisarmos as culturas animistas e politeístas, chegamos, então, às monoteístas: o entendimento de que existe uma só divindade suprema. A essa altura, se estudarmos a história do mundo, a crença no Deus único tende a emergir quando há filosofia séria, alguém realmente pensando sobre isso. Começamos a entrar em um estado mental filosófico quando reunimos toda a variedade do mundo e enxergamos que ela vem de uma única fonte. São essas as culturas que têm a tendência a ser um pouco filosóficas. Assim como, na atualidade, busca-se por uma equação na física que explique todas as equações, é no estágio onde as civilizações começam a se tornar cientes de um pensamento filosófico, lógico e abstrato que elas quase inevitavelmente tendem a se mover na direção do monoteísmo.

Por fim, se analisarmos as várias tentativas de monoteísmo, existe o impersonalismo – a noção de que há uma existência divina suprema, porém impessoal – e o personalismo. Se examinarmos as várias versões do monoteísmo, elas se encaixam em algumas categorias.

Algo que estou tentando esclarecer é que não é verdade que existam centenas e milhares de religiões distintas. O mundo não está simplesmente tomado por uma desordem irremediável de diferentes teorias e ideias sobre Deus. Se estudarmos de maneira inteligente todas as religiões do mundo – pequenas ou grandes, exóticas ou proeminentes – veremos que se encaixam muito organizadamente dentro de categorias simples.

É claro que existem subcategorias como “misticismo versus ascetismo”; em qualquer caminho que estejam, algumas pessoas tentam avançar através de meditação mística, enquanto outras o fazem através de austeridades, atos de caridade, autonegação e assim por diante. Porém, tudo é bem simples. E em termos dos vários pontos de vista sobre Deus para aqueles que alcançaram o estágio filosófico da vida e estão tentando solucionar a questão da variedade de fenômenos em uma única fonte, que é o monoteísmo, existem as perspectivas impersonalista e personalista.

Em última análise, o conceito de um Deus único, pessoal e transcendental realmente ganha a medalha de ouro. Como todos nós temos que retornar às nossas raízes; se dissermos que Deus – a verdade última, a fonte da nossa existência – é apenas uma entidade impessoal, isso significa que, em última instância, teríamos que nos despojar da vida pessoal e também nos tornar impessoais. Essa é a consequência lógica. A visão impersonalista invalida radicalmente a vida pessoal. Acho que esse não é o caminho a se seguir, porque, se alguém argumenta que a verdade última é impessoal, isso a arremessa inevitavelmente em completa irracionalidade. Nesse sentido, isso é um reflexo igual e oposto de uma religião fanática.

Até grandes filósofos cristãos – como Kierkegaard e Pascal – tiveram que admitir que muitas de suas alegações básicas são irracionais. Não há um bom motivo para alegar, por exemplo, que o Deus todo-misericordioso torturaria Seus próprios filhos para sempre caso estes se comportassem mal; ou que só um caminho é verdadeiro e que todas as demais tradições por todo o mundo são falsas, apesar do fato de também gerarem os mesmos atos de piedade, martírio e devoção, e de nelas encontrarmos pessoas boas, até santas, fazendo o bem e realmente amando a Deus. Esses filósofos reconheceram que, a fim de acatar tais alegações, tem-se que simplesmente abandonar a razão, rejeitar a filosofia e dizer: “A verdade última está além do raciocínio. Temos apenas que acreditar apoiados na fé”.

Curiosamente, no lado oposto do pensamento humano, existe outra tradição que se orgulha de ser extremamente intelectual e filosófica, mas que, em última análise, acaba na mesma posição fanática de dizer que toda a lógica e toda a razão não significam nada, e que devemos crer apenas. Esse grupo igual e oposto de pessoas do qual falo é aquele adepto de uma crença impersonalista em relação a Deus. Se, em última análise, Deus é impessoal, então Ele não poderia desejar criar o mundo, pois, se algo tem desejos, começa a se parecer com uma pessoa. É como se diz: “Se caminha como um pato e grasna como um pato, é um pato!”. Da mesma forma: “Se caminha como uma pessoa e fala como uma pessoa, é uma pessoa!”. Possuir desejos é ser pessoal. Em primeiro lugar, por que um Deus impessoal criaria o mundo?

De acordo com a visão impersonalista, já que a verdade última não é uma pessoa, a nossa personalidade é uma ilusão. Todos nós somos almas, seres espirituais, porque, se não o fôssemos, nenhum dos filósofos impersonalistas se daria ao trabalho de abrir escolas para ensinar filosofia espiritual para não-espíritos. Porém, eles dizem que somos partes dessa coisa impessoal suprema, que nossa vida pessoal individual é falsa e que, portanto, também somos Deus. Às vezes, ouve-se esta frase de efeito: “Eu sou Deus, você é Deus, nós somos Deus”.

Se todos nós somos Deus, como entramos nesta confusão ridícula na qual estamos? Possuímos corpos materiais, temos que ir ao banheiro, às vezes pessoas nos insultam, o teto pode cair e nos esmagar: estamos em uma situação muito pouco impressionante neste momento para sermos Deus. Se isso é ser Deus, então Ele não é nada impressionante. Se considerarmos o quão frágeis, fracos, limitados, ínfimos nós somos, e se pudermos colocar nossa vaidade de lado por um momento, somos infinitesimais. Não há uma boa resposta quando pedimos que expliquem: “Se não existe uma realidade pessoal e, em última instância, somos todos o Deus divino, como chegamos a esta situação?”.

Similarmente, se rejeitarmos a reencarnação e dissermos que Deus é bom, justo e todo-misericordioso, também não há uma boa resposta para este questionamento: “Por que algo ruim aconteceu a um bebê?”. Filósofos religiosos muito brilhantes, pessoas bastante inteligentes, têm tentado explicar isso há séculos, e ainda estão trabalhando no assunto. E é por isso que, em ambos os lados desse espectro extremo – seja do lado das religiões fanáticas ou da perspectiva igualmente fanática de que Deus é impessoal – chegamos, em última análise, ao ponto de negar o poder e a utilidade da razão em si, das palavras e da lógica. Essa postura é muito assustadora. Por exemplo, em algumas partes do mundo, existem pessoas que creem firmemente que Deus fala com elas. Somos muito afortunados por ter tais pessoas em posições elevadas. Todavia, em outras partes do mundo, existem pessoas que supostamente ouvem Deus lhes mandar explodir uma festa de casamento com homens, mulheres e crianças inocentes, ou explodir um avião, e pensam que não há falha moral da parte delas, pois Deus lhes ordenou que o fizessem. É bastante perigoso alguém dizer: “Eu creio, e isso está além de toda a razão. Ninguém pode argumentar comigo. Eu sei disso porque sei”.

Deus deu amor em nosso coração e razão em nosso cérebro: devemos usar ambos. Portanto, acho que deveríamos suspeitar se qualquer filosofia ou ensinamento – seja uma religião fanática ou uma visão impersonalista sobre Deus – a certa altura nos disser: “Desligue seu cérebro e pare de pensar, razão não funciona mais, filosofia é inútil, todas as palavras são uma ilusão”. Na verdade, a boa notícia é que a realidade em si é racionalizável. Acho que devemos ficar felizes com isso. Não temos que abdicar do nosso coração nem da nossa mente. No caminho impersonalista, que é deveras bizarro, é-nos dito que renunciemos ambos. Temos que abdicar do nosso coração por não sermos uma pessoa e por não existir outra pessoa para amarmos; temos que abdicar da nossa mente dado que palavras, razão e filosofia são todas uma ilusão, e temos que crer, apoiados na fé, em algo diferente disso tudo. Acho fascinante encontrarmos em extremidades opostas do espectro intelectual apelos para abandonarmos a razão, o discurso racional e para simplesmente acreditarmos em algo.

O próprio Deus é supremamente inteligente. Se estudarmos nosso próprio corpo e analisarmos sua fisiologia, sua biologia e sua microbiologia, veremos que ele é infinitamente sofisticado. Quem quer que tenha projetado nosso corpo tem uma pontuação deveras elevada em um teste de inteligência. Por que um ser que nada tenha a ver com razão e lógica criaria um mundo que é infinitamente lógico?

É um princípio forte de lógica e razão que estudamos uma causa por estudarmos seus efeitos. Por exemplo, digamos que houvesse um acidente entre dois carros, que colidiram na rua. Os avaliadores da seguradora chegam ao local, estudam os efeitos – marcas da derrapagem, o veículo capotado – e raciocinam até a causa do acidente. Ou, a fim de curar uma doença, alguém fazendo uma pesquisa em biologia começa com o efeito, que é a doença, e raciocina até a sua causa. Ou ainda, considerando o estudo da história, se quisermos saber como uma guerra aconteceu, começamos com o efeito, que é a guerra, e raciocinamos até a sua causa. Virtualmente quase todo raciocínio humano inverte a seta do tempo e raciocina a partir do efeito até a causa. Mais um exemplo: todos nós acreditamos que o Sol é muito quente. Por quê? Porque experimentamos seus raios, que são quentes, e assumimos que o efeito, que são os raios, fala-nos confiavelmente sobre a causa, que é o Sol. Da mesma forma, o universo é um grande efeito cósmico, e, se o analisarmos e raciocinarmos até a sua causa, de fato encontraremos um Deus pessoal inteligente.E Ele é infinitamente belo.

A.C. Bhaktivedanta Swami Prabhupada levanta a questão filosófica perene sobre “verdade e beleza” em uma das suas primeiras publicações na revista Volta ao Supremo: “A verdade é bela e a beleza é verdadeira?”. Em outras palavras, se percebermos beleza ao vermos alguém que nos pareça muito belo, ou um bonito cenário natural, existe beleza real? Ela é simplesmente algo que imaginamos, ou estamos percebendo uma beleza objetiva? É real essa beleza? E quando encontrarmos a verdade mais elevada, Ela é bela? Ou, como Descartes hipotetizou – e ele rejeitou esta hipótese –, “existe um gênio maligno que nos criou e nos programou para acreditarmos que há uma existência mais elevada que, na verdade, não é nada senão uma grande brincadeira?”. Nós dizemos: Sim, a Verdade é bela! E se existir a Verdade Infinita, precisa ser infinitamente bela, a fonte de toda a beleza. A Verdade precisa ser a fonte de toda a bondade e, portanto, tem que possuir bondade infinita. A compreensão correta é que Deus é infinitamente belo e a fonte de todo o prazer. Deus criou este mundo, e é por isso que somos pessoas, pois temos uma raiz pessoal em Deus. Se raciocinarmos dessa maneira, baseados naquilo que sabemos sobre o mundo, chegaremos ao Deus supremo pessoal.

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