Estratégias Espirituais para a Era de Ferro

Ravindra Svarupa Dasa

Srila Prabhupada estava sozinho em outro país, sem dinheiro e sem um lugar próprio, mas cinquenta séculos de tradição o acompanhavam.

O vento gelado que sopra vindo do rio torna-se impiedoso quando se afunila por entre as paredes das ruas da cidade. O vento cortante cria uma paisagem de cinza e granizo; faz voar o lixo sobre as calçadas congeladas e o faz girar em espirais que sobem até se perderem de vista pelas torres impassíveis. Um monótono rugido infindável, como se os edifícios se lamentassem sob um sono entorpecido, preenche os abismos.

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“New York City”, do artista Michael Anderson.

Esta cidade mais densamente populosa dos Estados Unidos é também a mais desoladora, e nada parece mais inóspito para o homem que o mundo onde tudo é feito pelo homem. Assim é Nova Iorque, no rigor de um inverno de ferro, no meio da era de ferro.

Vemos agora uma figura caminhando pelo fundo de um dos abismos da era de ferro. Inclinado para frente, contra o vento, uma bengala na mão esquerda, segue adiante a passos rápidos. Olhe para ele atentamente: a veste açafrão de um religioso mendicante indiano é visível debaixo de seu sobretudo, e em sua testa se veem as duas linhas paralelas feitas de argila – a marca dos devotos de Krishna. Seu rosto tem uma expressão tanto indomada quanto serena, como se ele não estivesse realmente andando por essa amarga terra devastada e improdutiva, e, de fato, ele parece tão alheio ao local que uma magnólia em plena florada perfumada nessas ruas gélidas pareceria menos incompatível.

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Fotografia de Prabhupada em Nova Iorque pouco depois de sua chegada à cidade.

Este é Srila Prabhupada no inverno de 1966. Ele está só, sem dinheiro; e tem setenta anos. Sua baixa estatura parece ainda menor diante das torres congeladas, cuja seriedade e rosto insensível transformam qualquer esforço humano lá em baixo, nas ruas, em derrota. Mas o esforço de Srila Prabhupada não é meramente humano, e a semente que ele traz consigo de outro mundo realmente incrível e miraculosamente enraíza-se neste solo estéril e inóspito e floresce. Em breve, centenas de devotos com mantos açafroados florescerão por estas ruas, com seus rostos americanos marcados com as duas linhas de argila, e o som do mantra Hare Krishna ecoará e reverberará nas altas e sólidas paredes.

Devemos nos recordar que o que vemos não é tudo; nunca sabemos que presenças invisíveis pairam acima de um solitário e modesto esforço, nem que esforços invisíveis cooperam para trazer grandes resultados para inícios escassos. Acreditamos que na natureza nenhum efeito excede sua causa – por que seria diferente em outras áreas? Acaso ou sorte são simplesmente palavras para encobrir nossa ignorância.

Por trás da aparência de Srila Prabhupada nas estranhas ruas de Manhattan, estavam cinco milênios de planejamento e esforço. Esta história começa ao romper do dia, cinquenta séculos atrás, nos Himalaias, onde o sábio Krishna-Dvaipayana Vyasa está sentado em transe, às margens do rio Sarasvati.

Em sua meditação, Vyasa vê um futuro de horror desesperante se revelar diante dele. Ele vê Kali-yuga, a era de ferro, começar e trazer consigo a deterioração universal. A decadência é tão profundamente enraizada que a própria matéria diminui de potência, e todo o nosso alimento progressivamente diminui em qualidade e também em quantidade. Vyasa vê os efeitos da má nutrição crônica, geração após geração; ele vê como isso diminui gradualmente a expectativa de vida, assim como o poder cerebral; ninguém pode escapar da queda progressiva da inteligência e da memória.

O efeito danoso dos tempos difíceis sobre uma população cada vez mais tola acelera o declínio moral e espiritual dela. Os indivíduos começam a abater animais para comer, tornam-se cada vez mais escravos das drogas, perdem o comedimento sexual. Tais hábitos ocasionam suas deteriorações física e mental. Vyasa os vê afundarem cada vez mais fundo na sensualidade e ignorância. Famílias se rompem e mulheres e crianças são abandonadas. Gerações cada vez mais degradadas, concebidas acidentalmente na luxúria e crescendo na selvageria, enxameiam sobre a Terra. A liderança cai nas mãos de criminosos sem princípios que usam seu poder para saquear as pessoas. O mundo está cheio de ideólogos, instrutores de ocultismo, fanáticos e farsantes espirituais que conquistam muitos seguidores entre o povo confuso pela anarquia social e moral. Depravações e atrocidades indescritíveis florescem sob a retórica de ideais elevados.

Vyasa vê horrores que se amontoam sobre horror; vê o fim de tudo o que é verdadeiramente humano; vê a escuridão se intensificar para engolir o mundo.

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Retratação de Kali-yuga, a era de ferro.

Esta foi a visão profética de Vyasa às vésperas de Kali-yuga, cinco mil anos atrás. Isto o apressou a entrar em ação. Para Vyasa, a visão às vésperas deste declínio temporal não foi por acaso. Vyasa é um avatara, uma poderosa encarnação de Deus, enviado por Krishna especificamente para preparar o conhecimento da civilização védica para ser transmitido através dos milênios vindouros de escuridão.

Sem tal empreendimento, a erosão da inteligência humana pela força do tempo faria com que as gerações futuras se desligassem completamente de suas heranças culturais e das incomparáveis realizações espirituais de seus antepassados. Tão logo começasse a era de ferro, elas nem mesmo perceberiam que um dia o mundo todo tinha sido governado por uma única e supremamente iluminada civilização: a cultura védica.

Nessa cultura védica, tudo foi organizado de modo a favorecer a autorrealização. Autorrealização assinala o desenvolvimento definitivo do potencial humano, no qual uma pessoa conhece a si mesma diretamente como um ser espiritual eterno, voltado para o supremo ser espiritual e sem relação intrínseca com um corpo material temporariamente habitado. Pelo cultivo da autorrealização, a civilização védica revelou esta realização inigualável: é possível eliminar completamente os males do nascimento, da velhice, da doença e da morte, assegurando para seus membros uma existência eterna de conhecimento e felicidade crescente. A cultura védica percebeu que nem todas as almas que receberam um nascimento humano após transmigrarem pelas formas animais seriam capazes de progredir diretamente até o objetivo supremo. Possuidoras de históricos diferentes, as pessoas nascem com diferentes qualidades e habilidades. Entretanto, a cultura védica capacitava todos a avançarem um pouco, e houve muitos arranjos para a elevação gradual das pessoas materialistas. Em cada caso, a cultura védica organizou a vida para que cada um pudesse satisfazer suas necessidades básicas do modo mais simples e sensato possível, deixando a maior parte da energia humana livre para a tarefa mais elevada.

Vyasa viu que tudo isso desapareceria em Kali-yuga, já que o foco da civilização mudaria da autorrealização para a gratificação dos sentidos. Mesmo assim, Kali-yuga não poderia ser detida, senão que ele teria que ser capaz de minimizar seus efeitos e manter vivas a tradição e a cultura espirituais de modo que emissários de uma civilização mais elevada pudessem preservar suas heranças entre os bárbaros, assim como uma aldeia bem abastecida pode sobreviver a um inverno rigoroso.

Vyasa tinha pleno conhecimento da cultura e da sociedade védica nos âmbitos científico, econômico, político, ético, estético e espiritual. Seu conhecimento foi sintetizado num abrangente cânone chamado o Veda, uma palavra que significa simplesmente “conhecimento”. Até a época de Vyasa, o Veda por escrito não era necessário. Longe de ser um sinal de avanço intelectual, o surgimento da escrita é um testemunho de declínio: uma ferramenta usada para compensar a deterioração mental, que inclui a perda da capacidade de lembrar.

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Manuscrito do Taittiriya Upanishad, parte dos Vedas.

É interessante, a propósito, que a data védica assinalada como o advento de Kali-yuga (cerca de 3000 a.C.) se aproxima bastante da data considerada pelos historiadores modernos como o surgimento da vida civilizada, um evento marcado pelo aparecimento da escrita e a emergência de sociedades urbanas complexas. Tudo o que os historiadores reconhecem como registros da história humana é, de fato, a história da humanidade em Kali-yuga.

A ignorância dos historiadores acadêmicos sobre a mais elevada e incalculavelmente anterior civilização védica é o que podemos esperar de pessoas que sofrem de retardo mental imposto pelo tempo. Vemos sintomas dessa degradação intelectual dos pensadores modernos na admissão de que a percepção sensorial é a única fonte de conhecimento e a falta de consciência de que o conhecimento deve ser construído tendo por base a bondade. Valores inversos distorcem suas ideias, tais como a convicção de que o progresso humano reside na proliferação de sociedades urbanas complexas e na crescente tecnologia sofisticada. Eles não se apercebem de que viver de modo simples é a melhor base para o pensamento elevado e que uma civilização realmente adiantada minimiza a exploração da natureza e a complexidade social. Eles não sabem que o padrão real de progresso é a qualidade das pessoas que a sociedade produz. Se buscarmos avanço material em detrimento da autorrealização, medindo nossos padrões de vida apenas pela gratificação de nossos sentidos, apenas nos tornaremos pessoas debilitadas espiritual e moralmente, no controle de uma tecnologia complicada e poderosa – uma terrível combinação que eleva o horror a um nível que apenas começamos a vivenciar.

Para que pudéssemos ter alternativa, Vyasa dividiu o Veda em quatro e o escreveu. Mesmo assim, ele sabia que ainda seríamos incapazes de entender os Vedas, em virtude do que compôs um grande número de trabalhos complementares, nos quais detalhou explicitamente as intenções do pensamento védico.

Nisso, Vyasa recebeu ajuda do próprio Sri Krishna, a Suprema Personalidade de Deus. Trabalhando lado a lado no esforço de Vyasa, Krishna desceu pessoalmente a este planeta e, como membro da ordem real, desempenhou um papel significativo nos eventos políticos recentes. Vyasa aproveitou as atividades de Krishna para relatar aquele tempo em uma vasta narrativa épica chamada Mahabharata. Nessa vasta, fatual e dinástica história de amor, ambição, intriga e guerra, de fidelidade e traição, heroísmo e covardia, transcendência e infâmia, Vyasa transmitiu o pensamento védico de um modo que mesmo pessoas nada filosóficas pudessem ser cativadas. A presença de Krishna preencheu a história com significado transcendental. Mais do que isso, no meio da extensa narrativa, como se fosse uma joia cravada num cenário exuberante, Vyasa colocou o Bhagavad-gita, o discurso de Krishna para Arjuna, antes do ponto culminante da batalha de Kurukshetra.

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Krishna fala o Bhagavad-gita a Seu amigo e discípulo Arjuna.

Em setecentos versos lacônicos, Krishna transmite a Arjuna o que Ele chama de “o conhecimento mais confidencial” dos Vedas. Assim como Vyasa, o próprio Krishna está preparando o conhecimento védico para Kali-yuga. Isto significa tornar o mais alto conhecimento dos Vedas – tão sublime e puro que, como Krishna diz, mesmo grandes almas raramente conseguem obtê-lo – e transmiti-lo de modo explícito e abertamente acessível a qualquer um. Para que fosse inquestionável a validade dessa audaciosa exposição, Krishna, a mais elevada autoridade possível, o transmite pessoalmente.

Pode-se perguntar – por que o mais elevado conhecimento dos Vedas é “confidencial”? Se é tão importante que o conheçamos, por que deveria estar escondido? A resposta é que o conhecimento está disponível apenas àqueles qualificados a aprendê-lo. A educação é progressiva, e o mais elevado conhecimento pode ser abordado apenas por aqueles já graduados no nível mais baixo. Especificamente, a qualificação necessária para compreender os mistérios referentes à fonte absoluta de tudo é a pureza. Apenas aqueles cujos sentidos estão completamente controlados e que estão livres de todo desejo material têm a pureza necessária para entender e perceber diretamente a Verdade Absoluta. Porque as pessoas caracterizam-se por uma variedade de desejos materiais, os Vedas oferecem muitos caminhos religiosos, chamados dharmas. Eles são graduais, a fim de que as pessoas de diferentes níveis de contaminação material possam ascender, passo a passo, aos níveis mais altos de pureza e alcançar vislumbres mais elevados do divino.

No Bhagavad-gita, Krishna sistematicamente expõe os principais dharmas védicos e mostra como cada um deles direciona a pessoa para a conclusão derradeira, “o conhecimento mais confidencial de todos”. Krishna analisa a prática de sacrifícios e a adoração aos semideuses, e discute os yogas do trabalho, da meditação e do conhecimento. Em cada caso, Krishna mostra como isso conduz ao “mais secreto de todos os segredos”, o puro amor devocional a serviço de Deus. “Sempre pensa em Mim e torna-te Meu devoto. Adora-Me e oferece homenagens a Mim”. Isto, Krishna diz, é “a parte mais confidencial do conhecimento”. Já que todos os dharmas védicos conduzem a este “supremo segredo”, Krishna pode oferecer-nos a instrução final: “Simplesmente abandona todos os tipos de dharmas e rende-te a Mim”. Em outras palavras, não precisamos nos preocupar com nenhum dos diferentes tipos de caminho; podemos seguir imediatamente para o objetivo comum de todos eles, a saber, a rendição a Krishna.

Mas se esse final supremo é tão difícil de ser alcançado, exigindo a mais absoluta pureza, como Krishna é capaz de oferecê-lo diretamente a qualquer um? A resposta é simples: Krishna diz que, se alguém começar o serviço devocional, Ele pessoalmente purificará o devoto. “Àqueles que são constantemente devotados e adoram-Me com amor”, Krishna diz, “Eu dou o entendimento através do qual eles podem vir a Mim”. Podemos desviar-nos de todos os dharmas védicos e irmos diretamente para Krishna, que bondosamente nos ajudará. Este é um ponto importantíssimo. Conforme Kali-yuga se desenvolve, todos os dharmas se tornam difíceis de serem adotados. Nossa inteligência, nossa memória e nosso vigor estão todos enfraquecidos, mas Krishna quer contrabalancear todas as nossas debilidades com Seu esforço pessoal. Na essência, ao revelar a bondade divina através do serviço devocional direto, o Bhagavad-gita torna todos os outros dharmas védicos obsoletos.

Depois que Vyasa completou seu imenso trabalho, ficou surpreso ao ver-se insatisfeito. Ao revisar seus esforços para descobrir que deficiência poderia estar na raiz do descontentamento, seu guru, Narada Muni, chegou ao seu ashrama. Vyasa expôs o problema a Narada.

Narada elogiou o trabalho brilhante de Vyasa, mas disse que ainda estava incompleto. No Mahabharata e nos Puranas, disse Narada, Vyasa não havia descrito suficientemente as glórias da Suprema Personalidade de Deus, Krishna. Ao descrever fielmente os ensinamentos védicos, Vyasa tinha cumprido a tarefa de expor todos os dharmas de motivação materialista, aqueles ensinamentos que permitem a gratificação dos sentidos às pessoas que não podem ir diretamente ao nível mais alto de realização. Em Kali-yuga, tais dharmas se tornarão especialmente perigosos, Narada alertou, porque as pessoas se permitirão serem autoindulgentes. “Elas aceitarão tais atividades em nome da religião”, disse Narada, “e dificilmente se preocuparão com proibições”.

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Narada instrui Vyasa nos Himalaias.

Narada alertou Vyasa a descrever de modo mais completo as qualidades transcendentais e atividades de Krishna porque, disse ele, ao ouvirem-nas, as pessoas seriam capazes de captar o extraordinário sabor espiritual delas – a atração natural das pessoas pelo Senhor seria revitalizada e, ao longo do tempo, perderiam o gosto pelos prazeres mundanos. Narada instruiu Vyasa em relação ao potencial espiritual das palavras que glorificam Krishna: quando faladas com devoção pura, tais palavras penetram o coração dos ouvintes e destroem quase completamente as impurezas da paixão e da ignorância.

Com as bênçãos de Narada, Vyasa então completou sua obra-prima, o “fruto maduro da árvore do conhecimento védico”, o Srimad-Bhagavatam. O Srimad-Bhagavatam começa onde parou o Bhagavad-gita, porque Vyasa afirma explicitamente que é dirigido aos que já abandonaram os dharmas de motivação materialista. Ali, Vyasa descortina os mistérios invioláveis da vida pessoal do Supremo Senhor Krishna, Seu eterno envolvimento amoroso com Seus mais confidencias e íntimos devotos. Ali, temos a vida espiritual revelada do modo mais intenso e pessoal, no absoluto auge do amor a Deus. Vemos no esforço cooperativo de Krishna e Vyasa no início de Kali-yuga que houve uma atitude objetivando tornar o conhecimento esotérico dos Vedas – a mais elevada verdade referente à natureza de Deus e nossas relações com Ele – aberto e potencialmente acessível a qualquer um.

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Vyasadeva ilumina a população de Kali-yuga com o Srimad-Bhagavatam,
que descreve Krishna e os relacionamentos puros e desinteressados com o mesmo.

Esta abertura sem precedentes teve seus perigos, e nem Krishna nem Vyasa puderam evitar a exigência de que tais verdades confidenciais só podem ser entendidas por aqueles de coração realmente puro. Eles não poderiam abandonar a necessidade da pureza, mas o que puderam fazer foi tornar disponível um processo de purificação correspondentemente mais poderoso. No Bhagavad-gita, Krishna pessoalmente Se prontifica a ajudar aqueles que sinceramente se ocuparem no serviço devocional, e, no Srimad-Bhagavatam, Vyasa oferece o mais poderoso de todos os processos de purificação: a recitação e a audição das glórias do próprio Krishna.

Vyasa e Krishna completaram a tarefa, e, com o desaparecimento de Krishna da Terra, Kali-yuga se consolidou. A subsequente degeneração foi tão forte, porém, que, em pouco tempo, ela ameaçou destruir todos os esforços de Vyasa para a preservação da cultura védica. As palavras de Narada “eles dificilmente se preocuparão com proibições” provaram-se terrivelmente exatas. Um tipo particular de perversão cresceu de modo tão perigoso que Krishna teve que tomar medidas emergenciais. Isto foi o que aconteceu:

Alguns milhares de anos após o início de Kali-yuga, os seguidores dos Vedas, já geograficamente restritos à Índia, cada vez mais abatiam animais para comer. Comer carne polui de tal forma a consciência humana que a indulgência nisto tornou virtualmente impossível qualquer tipo de experiência espiritual. Devido a isso, os Vedas sempre instruíram contra o consumo de carne. Contudo, verificou-se que, apesar da proibição, algumas pessoas consumiam carne. Na opinião deles, os Vedas mandam que, se alguém quiser comer carne, deve sacrificar uma cabra (nenhum outro animal) na noite da Lua escura (nenhuma outra ocasião) em oferenda à deidade Kali. O sacrificador, em seguida, deve sussurrar ao ouvido da cabra o mantra que diz: “Estou matando você agora, mas, na minha próxima vida, você vai ter a chance de me matar”. Ao permitir a ingestão de carne deste modo, a cultura védica pelo menos manteve isso sob controle: apenas uma cabra, apenas uma vez por mês e apenas nessas condições desagradáveis dessa dívida cármica – todas as condições desencorajam bastante.

Entretanto, uma vez que em Kali-yuga os brahmanas, os sacerdotes védicos, se degradaram, começaram a praticar sacrifícios animais para agradar à demanda popular sem fornecer a explicação ou ignorando as restrições. Os templos se transformaram em abatedouros, e a matança organizada floresceu como um negócio. Se alguém fosse contrário àquele mal sem precedentes, os sacerdotes respondiam que era, antes de mais nada, permitido nos Vedas.

Deste modo, a fim de parar com a matança animal, Krishna desceu como o Senhor Buddha (cerca de 500 a.C.). Porque os Vedas estavam sendo perversamente usados para justificar o abate, Krishna, como o Senhor Buddha, negou a autoridade dos Vedas: os mesmos Vedas que Ele tinha cuidadosamente elaborado e explicado para salvar as pessoas de Kali-yuga. Mas isso foi uma emergência, e não havia alternativa. O Senhor Buddha rejeitou os Vedas e pregou a ética de ahimsa, ou não-violência, em relação a todos os seres vivos.

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Krishna ao centro rodeado de diferentes encarnações Suas, entre elas Buddha, à direita inferior.

O Buddha também ensinou que nossa existência material é sofrimento, que nosso desejo material é a causa de nosso sofrimento e que, ao extirparmos tais desejos, podemos alcançar o nirvana, a libertação da existência material. O Senhor Buddha recusou-Se a lidar com qualquer pergunta referente a Deus, a alma, vida após a salvação e assim por diante. Quando foi perguntado sobre tais coisas, respondeu, “o Tathagata (o Buddha) é livre de quaisquer teorias”. Mais tarde, alguns de seus seguidores espalharam doutrinas sobre shunya, o vazio, e anatma, inexistência da alma, mas estas foram interpretações mundanas do silêncio do Buddha sobre tópicos transcendentais. O simples fato é que o Buddha negou os Vedas e, ainda assim, permaneceu fiel a eles ao recusar-se a “teorizar”, ou seja, discutir Deus ou a alma independentemente dos ensinamentos védicos – portanto, Ele nada disse.

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Buddha.

Com a consciência poluída pela ingestão de carne, as pessoas tornaram-se ateístas. Porém, o Senhor Buddha, que nunca disse nada sobre Deus, ganhou a devoção delas. Portanto, Krishna enganou os ateístas ao fazê-los adorarem-nO em Sua encarnação como Buddha. A missão do Senhor Buddha teve sucesso. Por fim, a Índia toda aceitou Seu ensinamento, e o abate de animais cessou. O Senhor Buddha exemplifica a inteligência transcendental de Krishna. Ainda assim, embora o sucesso do Senhor Buddha tenha afastado o perigo imediato, também deixou a Índia sem respeito pelos Vedas e à mercê de uma filosofia que negava Deus e a alma.

O paliativo do Buddha foi incompleto; foi apenas um passo inicial rumo à restauração védica completa. O próximo passo de Krishna foi o envio de uma encarnação do Senhor Shiva para executar a etapa seguinte. Foi Sripada Shankaracharya quem apareceu em 788 d.C. Numa vida que durou apenas trinta e dois anos, Shankara retirou os budistas da Índia e restabeleceu a autoridade dos Vedas. Um membro da ordem renunciada, um sannyasi, Shankara era um pensador de imenso poder e dedicou sua formidável habilidade para persuadir os seguidores do budismo a aceitarem os Vedas. Para que isso acontecesse efetivamente, Shankara teve que pensar em uma transição que fosse fácil, então ele concebeu uma filosofia chamada advaita-vedanta, ou não-dualismo absoluto, um tipo de criptobudismo que ele engenhosamente expôs em linguagem védica e apoiado em textos védicos. Shankara negou a doutrina budista de que a verdade definitiva é vazia; a verdade, Shankara argumentou, como os Vedas declaram, é Brahman, espírito. Shankara, da mesma forma, refutou a doutrina budista da inexistência da alma ou eu e restabeleceu a verdade védica de atma, a alma individual. Entretanto, Shankara afirmou a identidade do atma e do Brahman como uma realidade espiritual indiferenciada, sem quaisquer qualidades, variedades ou relações. Obviamente, não há diferença cognitiva entre “vazio” e “Brahman sem qualidades ou distinções”. O Brahman de Shankara é um clone intelectual do “vazio” budista. Assim, Shankara facilitou o caminho para a aceitação dos Vedas.

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Shankaracharya.

A filosofia de Shankara da unicidade tem algum embasamento nos Vedas. Para os neófitos espiritualistas, cuja contaminação residual material impede-os de entender a natureza transcendental de Krishna, os Vedas deram instruções para a salvação por meio da fusão no Brahman impessoal, o esplendor espiritual de Krishna. Associados a essas instruções estão textos que enfatizam a unicidade qualitativa do atma e do Brahman. Os Vedas contêm outros textos igualmente importantes que dizem que os atmas são numericamente distintos e quantitativamente diferentes do supremo atma de Krishna, mas Shankara enfatizou a unicidade. Ele apresentou a realidade transcendente de uma forma abstrata e, desta maneira, fez dos Vedas algo palatável aos budistas.

Shankara restaurou a cultura védica, fundou monastérios, organizou a comunidade bramânica e restabeleceu a adoração às deidades védicas. Os Vedas foram novamente reconhecidos, embora de modo necessariamente distorcido.

O budismo é um avanço em relação ao materialismo grosseiro, e o monismo impessoal é um avanço em relação ao budismo, mas o teísmo pessoal dos Vedas, como foi estabelecido por Vyasa e Krishna, ainda tinha que ser restaurado. Após Shankara, esse trabalho começou. À medida que as pessoas retomavam com sinceridade o estudo védico, muitas começaram a identificar as deficiências da interpretação monística de Shankara. Diversos mestres poderosos surgiram, destacando-se Ramanuja (1017-1137) e Madhva (1239-1319), cujos comentários convincentes sobre o Vedanta-sutra e o Bhagavad-gita desafiaram seriamente a hegemonia shankarite e conquistaram para o teísmo muitos seguidores. Contudo, os impersonalistas mantiveram o controle civil. Então, cerca de quinhentos anos atrás, Krishna mais uma vez adveio, desta vez para completar a restauração da cultura védica. Sri Chaitanya Mahaprabhu (1486-1534) foi o nome desse advento. Sri Chaitanya é Krishna disfarçado de devoto dEle mesmo, ensinando através de Seu exemplo a suprema forma de adoração. A missão de Chaitanya teve dois pontos. No primeiro, Ele descortinou ainda mais a natureza do mais alto amor entre Krishna e Seus devotos mais íntimos, e Chaitanya viveu continuamente imerso no êxtase desse amor. No segundo, Chaitanya apresentou como acompanhamento a tal revelação um meio respectivamente mais poderoso de experimentação de Deus através da recitação do maha-mantra Hare Krishna. Este mantra é parte original dos Vedas, mas, porque foi recitado por Sri Chaitanya, seu poder aumentou em todos os sentidos, e Chaitanya ensinou a Seus seguidores as práticas pelas quais o poder do mantra poderia agir desimpedido.

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Sri Chaitanya.

Com Chaitanya, a tendência de descortinar progressivamente os segredos védicos juntamente com os respectivos meios de conhecê-los e experimentá-los chegou ao auge. Um meio mais potente de libertação naturalmente implica na emancipação de um maior número de pessoas. Krishna já tinha declarado no Bhagavad-gita que as pessoas tradicionalmente excluídas da realização espiritual – as mulheres, os mercadores e os trabalhadores braçais – poderiam, ao pedir abrigo a Ele, se aproximarem do destino supremo. E, no Srimad-Bhagavatam, Vyasa havia afirmado que mesmo os membros carnívoros de comunidades aborígenes completamente distantes do aspecto de uma cultura espiritual poderiam ser purificados pela associação com um devoto puro de Krishna. Sri Chaitanya demonstrou na prática que assim é. Como o mais misericordioso de todos os avataras, Chaitanya iniciou uma democracia espiritual e, pelo poder de Seu cantar, transformou pessoas de hábitos vis em devotos puros. Os brahmanas reivindicavam direito exclusivo ao conhecimento espiritual, mas Chaitanya mostrou que o potencial para o serviço devocional pode elevar mesmo a pessoa mais vil ao nível bramânico. Chaitanya identificou cada um como um candidato ao serviço devocional e quis que Seu movimento do canto congregacional se espalhasse pelo mundo todo. “Um dia”, Ele disse, “Meus nomes serão cantados em cada vila e cidade do mundo”.

Chaitanya também transmitiu o entendimento mais abrangente do teísmo védico. Ele confrontou pessoalmente os dois maiores impersonalistas de Seu tempo: Prakashananda Sarasvati e Sarvabhauma Bhattacharya e expôs a eles uma versão tão poderosamente teísta do Vedanta-sutra que ambos admitiram que a devoção a Krishna é o objetivo dos Vedas e dançaram e cantaram com Chaitanya.

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Sri Chaitanya ouve de Sarvabhauma Bhattacharya por sete dias o comentário de Shankara ao Vedanta-sutra, o qual refuta em seguida.

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Prakashananda Sarasvati, líder dos shankarites no século XV, rende-se a Sri Chaitanya junto de seus seguidores.

Todo o trabalho de Krishna, Vyasa, Buddha e Shankara para estabelecer a cultura védica em Kali-yuga alcançou seu êxito com o advento de Sri Chaitanya Mahaprabhu. Nos Vedas originais, o Kali-santarana Upanishad havia revelado: “Não se pode encontrar um método de religião mais sublime para Kali-yuga do que a recitação de Hare Krishna”. E, ansiando pela vinda de Chaitanya, Vyasa registrou no Bhagavatam: “Na era de Kali, pessoas inteligentes praticarão o canto congregacional para adorar a encarnação que canta constantemente os nomes de Krishna. Embora Sua tez não seja enegrecida, Ele é o próprio Krishna. Estará com Seus associados, servos, armas [como o mantra de Krishna] e companhias confidenciais”. Sri Chaitanya Mahaprabhu, então, é o grande aguardado revelador dos meios para o êxito espiritual nesta era.

Dez mestres espirituais em sucessão transmitiram os ensinamentos de Sri Chaitanya até Srila Prabhupada, e é bastante conveniente que nós o encontremos, no inverno de 1966, longe de sua Índia natal nas ruas de vento cortante de Nova Iorque, centro da civilização de tecnologia global, terra central de Kali-yuga. É o melhor lugar para ele levar a semente da cultura védica. É ali que o trabalho de Krishna, Vyasa, Buddha, Shankara e Chaitanya, aos cuidados de seu servo habilitado, Prabhupada, floresce e gera frutos.

Tradução de Adi Purusha Prema.

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Uma resposta

  1. Anônimo

    Hare Krishna! Reverências!

    28 de outubro de 2014 às 1:24 PM

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