Índia: Berço da Civilização, Ou, A Posição Excelsa da Índia para Estudo da Religião

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Hridayananda Dasa Gosvami

A civilidade da Índia aos olhos do embaixador grego Megástenes e do peregrino budista Fa Xian, e por que a Índia é o melhor lugar para estudar a religião em geral.

A Índia, em um sentido, é o melhor lugar para estudar a religião em geral, por várias razões. A Índia tem talvez o sistema de rios mais favorável do mundo, e terra boa, com todo tipo de recursos naturais e todo tipo de clima. A Índia sempre teve, relativamente através da história, uma população numerosa. A Índia não apenas sempre foi um lar para muitos seres humanos, senão que sempre existiram na Índia muitas pessoas de inteligência destacada, como sabemos estudando a história mais antiga.

E sempre existiu liberdade na Índia. Observamos no Mahabharata, por exemplo, que um cidadão podia sair na praça e criticar o rei e o governo. Isso é algo que acontece várias vezes no Mahabharata e não há nem mesmo a menor sugestão de represália. Liberdade de religião é uma situação completamente inconcebível na história do Ocidente ou do Oriente Médio. É inconcebível na história de outras partes do mundo uma religião criticar diretamente a religião dominante, à qual quase todos pertencem, começar a pegar para si muitos seguidores, e assim crescer e se tornar uma religião importante, e não haver nenhuma guerra entre a religião original e a nova. É claro que há exceção de um rei fanático com outro rei fanático, mas, em geral, a história da Índia é muito diferente da história da Europa, ou, para ser justo, a história da Europa depois da entrada e do prevalecimento do cristianismo.

É interessante que essa liberdade faz parte de uma cultura original hindu-europeia, então, estudando a história do Ocidente antes de ser cristianizado, havia liberdade de religião. Interessante que, nos dois polos da cultura hindu-europeia – tanto na Índia quanto na Europa –, havia liberdade de culto, de religião, a qual foi simplesmente terminada com o predomínio de uma religião fora da cultura hindu-europeia, que veio do Oriente Médio. Uma religião do mundo que tem tradição de sectarismo violentíssimo, um tipo de religião tribal deveras violenta de simplesmente matar as pessoas que têm outra religião.

Outro fator é que sempre podemos observar na Índia um interesse muito intenso na religião e na espiritualidade. Trata-se de uma cultura que milênios, ou muitos séculos, antes da formação ou do desenvolvimento formal da ciência humana da Psicologia no Ocidente tinha sujeitos inteligentes estudando a consciência através de meditação e yoga, um estudo milenar da consciência. Um reconhecimento muito anterior a Freud, por exemplo. Freud fez uma revolução no mundo ocidental mostrando que, apesar de normalmente pensarmos ter consciência de que pensamos “isso”, acreditamos “naquilo” e não aceitamos outra coisa, fatores subconscientes realmente estão influenciando e determinando nossas decisões, comportamento e consciência. Apenas para exemplificar, o papel dos samskaras, ou condicionamentos profundos, na ciência do yoga é que nosso comportamento, nossa consciência, nossos sentimentos são determinados por fatores inconscientes.

Outro ponto importante: Se você olha o mapa do mundo e tira a Austrália e o hemisfério ocidental, sobra uma enorme massa de terra com África, Europa e Ásia, e se você olha esse mapa, a Índia está mais ou menos no centro do mundo.

Então, juntando esses fatores, para não falar que a Índia estava milênios à frente da Europa na linguística, temos um país de uma população suficientemente numerosa para conter uma variedade completa de tipos humanos, de psicologia, de tendências intelectuais, físicas, religiosas. Como nas ciências, você tem que ter uma população suficiente para tirar conclusões universais, e a Índia sempre teve essa quantidade de pessoas, uma população de muita inteligência, de muito interesse na religião e liberdade de religião. Então, o número é suficiente, o interesse é suficiente, a inteligência é suficiente e a liberdade é suficiente para investigar, considerar e manifestar quase todo tipo possível de religiosidade humana. É por isso que a Índia é o lugar ideal para estudar a religião em geral.

Talvez a primeira vez que a Índia aparece no radar da historiografia no sentido moderno da palavra foi mais ou menos 2300 anos atrás, quando um senhor chamado Megástenes, embaixador grego, foi à Índia. O verbo grego grafos é escrever, em razão do que “historiografia” não é a história, mas “escrever a história”. No mundo, temos certos conceitos de diferença entre História e Mitologia, ou descrições simplesmente humanas e escrituras metafísicas. Essas categorias ou distinções têm muitos problemas lógicos e não são de modo algum categorias limpas e óbvias, mas, sem entrar nessa discussão, eu simplesmente gostaria de dizer que, no sentido moderno da palavra historiografia, a primeira vez que a Índia entra na historiografia que realmente não tem qualquer ligação com religião, com escrituras, mas em que simplesmente alguém escreveu um livro descrevendo o que acontecia na Índia, foi pela escrita de Megástenes.

Não estou dizendo que a informação que temos em livros como o Srimad-Bhagavatam não seja válida – para mim, é válida –, porém estou dizendo em termos humanos apenas.

Megástenes foi embaixador grego da corte do império dos Máurias, que floresciam na Índia com um grande império baseado em Pataliputra, hoje Patna, capital de Bihar. Megástenes escreveu um livro sobra a Índia chamado Indika, que significa “Sobre a Índia”. Esse livro foi um “best-seller”, muito popular. O livro original não sobreviveu, mas o livro original foi muito citado, então temos grandes trechos do livro e podemos comparar muitas citações, devido ao que ninguém questiona que é possível sabermos muito sobre o que ele escreveu.

Li o que temos desse livro e gostaria de apresentar algumas citações do livro. Acho muito interessantes o quadro que ele pinta, a informação que ele dá sobre a Índia cerca de 2000 ou 3000 anos atrás. O que ele descreve eu acho que é sem dúvidas o país mais civilizado do mundo.

“Os habitantes têm meios abundantes de subsistência”, ele diz, “e têm muita abundância de alimento, em decorrência do que são mais altos do que a média”. Muito diferente de hoje, não? Ele continua: “Os indianos se distinguem por sua maneira nobre de se portar”. A descrição é que eles têm uma conduta nobre e são pessoas altas.

Ele comenta sobre a lei também. Ele está na capital do império, logo o que ele observa é válido em quase toda a Índia, haja vista que as leis da capital eram a lei do império. Ele diz que a lei prescreve que ninguém entre eles, sob nenhuma circunstância, será escravo. Este ponto é muito importante porque, algumas vezes, catedráticos ou ocidentais traduzem as palavras dasa ou dasi como “escravo” ou “escrava”, mas, na realidade, existiam certos contratos ou certas obrigações sociais, como podemos ler no Srimad-Bhagavatam quando se descreve que Vasudeva casou-se com Devaki, e o pai de Devaki enviou certo número de servos e certo número de servas, mas não eram escravos. É como hoje em dia, quando uma firma compra outra firma e os empregados da firma comprada ficam muito ansiosos por permanecer empregados na nova firma, a firma compradora. Inclusive vi nos Estados Unidos que, quando uma firma compra outra, a maior ansiedade é que os empregados perderão seu emprego. Essa transferência de posições de emprego, de obrigações sociais, é uma coisa comum até hoje e não deve ser interpretada como escravidão.

Megástenes descreve que a lei na Índia prescreve que ninguém deve ser escravizado, e os gregos adoravam escravos. Atenas, por exemplo, é sempre colocada como a cidade que é o modelo perfeito de democracia participativa, dado que Atenas não era uma república com representantes, senão que os cidadãos de Atenas subiam o morro do Partenon e participavam diretamente da democracia, votando diretamente, e não através de representantes. Há um detalhe: os cidadãos de Atenas tinham tempo o bastante para poderem subir o morro, votar e discutir porque tinham muitíssimos escravos em casa. Então, a escravidão era a base da democracia participativa. Escravidão é um tópico à parte, e há coisas interessantes sobre o status de escravo em Roma, onde houve um caso em que um escravo chegou a ser imperador de Roma. É um tópico complexo, mas queria apenas explicar que, segundo Megástenes, vindo de um contexto cultural grego, a situação na Índia era muito diferente, pelo fato de não haver escravidão.

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Os cidadãos de Atenas tinham tempo o bastante para poderem subir o morro do Partenon, votar e discutir porque tinham muitos escravos em casa.

Megástanes fala também da situação dos filósofos sábios, os rishis, ou munis. Hoje em dia, você tem que lutar para ter um doutorado, e não é fácil conseguir boa posição, senão que tem que concorrer, negligenciar família e outras coisas. A carreira acadêmica é hoje uma das vocações mais tensas, não é verdade? Nos Estados Unidos, por exemplo, se abre uma posição de catedrático boa, há duzentas ou trezentas pessoas lutando por essa posição, o que é algo sem dignidade, para dizer o mínimo. Na Índia, entretanto, comparando com a situação desesperada dos acadêmicos de hoje, é descrito que “os filósofos são isentos de todos os deveres públicos e não são nem os amos nem os servos dos outros”.

Em seguida, Megástenes descreve: “Os fazendeiros são isentos de lutar”. Ou seja, na Índia, os kshatriyas, os membros da classe militar, eram quem lutava. Se você estuda, por exemplo, a história da Europa, ou mesmo dos Estados Unidos, saberá que, quando uma guerra vinha à tona, todos os fazendeiros tinham que participar, mas na Índia era algo especializado e profissional, isto é, se você não era kshatriya, você não tinha que participar das guerras. A descrição continua: “Os fazendeiros são isentos de lutar e de outros deveres públicos, podendo dedicar todo o seu tempo à agricultura. E um inimigo encontrando um fazendeiro trabalhando na sua terra nunca lhe faria mal porque os fazendeiros são respeitados como benfeitores públicos”.

Comparem isso, por exemplo, àquela famosíssima série de guerras que determinou o poder mundial no mediterrâneo, as guerras entre Roma e Cartago, conhecidas como Guerras Púnicas. Depois de quase um século de guerras, Roma derrota Cartago e joga sal na terra de Cartago. Algo parecido acontece em uma das guerras mais famosas entre os gregos, a guerra do Peloponeso, entre Esparta e Atenas. Os atenienses tinham a força marinha suprema, e Esparta, o exército mais forte, então Esparta chegou aos arredores de Atenas e cortaram todas as árvores de oliva, que demoram muitíssimos anos para crescer e eram a base da agricultura e da economia de Atenas. Na Índia, em contraste, ninguém, nem mesmo o inimigo, perturba o fazendeiro, quer dizer, os indianos não tinham o conceito de guerra total, como um ministro de Hitler que perguntou ao povo alemão: Wollt ihr den totalen krieg? “Vocês desejam guerra total?”. E o povo respondeu que sim, e “dançaram”. Guerra total significa que você não apenas tem que matar o outro guerreiro que é inimigo, mas você tem que destruir os meios de produção, a agricultura, tudo – simplesmente imobilizar, incapacitar, acabar com tudo o que seja a sociedade do inimigo. Esse conceito não existia na Índia, mas existia proeminentemente na Europa e em outras partes do mundo. Outra superioridade moral.

“Os artesãos”, Megástenes prossegue, “são isentos de taxas, e artistas recebem patrocínio do governo. Entre os indianos, oficiais são designados para verificar que nenhum estrangeiro seja maltratado”. A palavra grega “estrangeiro” também significa “bárbaro”, ou seja, “bárbaro”, em grego, significa “estrangeiro” e “bárbaro”. Na Índia, entretanto, há oficiais do governo cuja função é simplesmente proteger estrangeiros, porque, se você chega a outro país, sem conhecer a língua ou outras questões, você pode ser enganado ou roubado. Diante dessa situação, o governo tinha um departamento para proteger estrangeiros. “Se um estrangeiro perde a saúde, o governo envia médicos para atendê-lo e cuidar dele, e, se um estrangeiro morre, o governo entrega toda a sua propriedade a seus parentes. O governo também possui juízes especiais que decidem com uma maior atenção e cuidado casos em que estrangeiros estejam envolvidos. E esses juízes castigam com muita severidade aqueles que tiram proveito de estrangeiros”. Que hospitalidade nacional!

Houve um peregrino chinês chamado Fa Xian, um entre um grupo de peregrinos chineses budistas que haviam ido em peregrinação à Índia para conhecer os lugares sagrados associados à vida de Buddha. Esse peregrino chinês falou nos termos mais elevados sobre quão pacífica e tranquila era a Índia, notando a raridade de qualquer crime sério e a postura branda da administração. Era possível, ele disse, viajar de um ponto do país a outro sem passaporte e sem nenhum medo de ser maltratado ou molestado – e estamos falando de um subcontinente. Quer dizer, você podia viajar por milhares de quilômetros sem nenhum medo de crime ou qualquer outra coisa.

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Grupo de peregrinos budistas, liderados por Fa Xian, visitam as ruínas do palácio de Ashoka.

Amanhã, vamos falar sobre o descobrimento da cultura védica por parte dos europeus cerca de 400 anos atrás. Os primeiros a chegarem da Europa foram os portugueses. Quero explicar porque o descobrimento da cultura védica por parte dos europeus foi uma “bomba atômica” na Europa, ou um dos fatores que transformou completamente a cultura ocidental. Vamos falar o que foi que os europeus descobriram na Índia e por que isso foi tão chocante para eles e realmente mudou a cultura ocidental.

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Este é um excerto da parte final do primeiro dia do seminário Religiões da Índia, disponível em vídeo em quatro partes nos seguintes links: dia 1, dia 2, dia 3, dia 4.

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